Almadaim

Almadaim (em árabe: المدائن; romaniz.: al-Madāʾin) foi uma metrópole antiga situada às margens do Tigre, no que hoje é o Iraque. Localizava-se entre os antigos centros reais de Ctesifonte e Selêucia, e foi fundada pelo Império Sassânida. O nome da cidade foi usado pelos árabes como sinônimo da capital sassânida de Ctesifonte, numa tradição que continuou após a conquista árabe do Irã.[1]

História

Fundação e constituição

Segundo a mitologia, Almadaim foi construída pelos lendários reis iranianos Tamuras ou Huxangue, que lhe deram o nome de Cardebandade. A cidade teria sido posteriormente reconstruída pelo lendário rei iraniano Zabe, pelo rei macedônio Alexandre, o Grande (r. 356–323 a.C.) e pelo xainxá sassânida Sapor II (r. 309–379). De acordo com outra tradição folclórica, os nomes de cinco (ou sete) cidades que compunham Almadaim eram Aspambur, Ve-Ardaxir, Hambu Xapur, Darzanidã, Ve Jondiu-Cosrove, Navinabade e Cardacade.[2]

Período Sassânida

Zona metropolitana de Almadaim

Segundo fontes perso-arábicas, Ctesifonte, a capital do Império Sassânida, foi grandemente ampliada e floresceu durante o domínio sassânida, transformando-se assim numa metrópole, conhecida em árabe como Almadaim e, em aramaico, como Maoza.[2] Os assentamentos mais antigos de Almadaim situavam-se em seu lado oriental, denominado nas fontes árabes de “a Cidade Velha”, onde se localizava a residência dos sassânidas, conhecida como o Palácio Branco. O lado meridional de Almadaim era conhecido como Aspambar, célebre por seus grandes salões, riquezas, jogos, estábulos e banhos.[2]

O lado ocidental era conhecido como Ve-Ardaxir (que significa “a boa cidade de Ardaxir” em persa médio), sendo chamado Maoza pelos judeus, Coque pelos cristãos e Berassir pelos árabes. Ve-Ardaxir era habitada por muitos judeus ricos e era a sede do patriarca da Igreja do Oriente. Ao sul de Ve-Ardaxir ficava Vologésias.[2] Em 495, durante o turbulento reinado do xainxá Cavades I, Maoza foi foco de uma revolta judaica liderada pelo exilarca Mar Zutra II. Depois que o rei negou aos judeus o direito de organizar sua própria milícia, Mar Zutra aproveitou-se da confusão causada pela pregação masdaquista de Mazaces e liderou uma revolta militar bem-sucedida, que alcançou a independência política dos judeus de Maoza. O Estado judaico durou sete anos, até 502, quando Cavades finalmente derrotou Mar Zutra e o puniu com a crucificação na ponte da cidade.[3]

Em 590, um membro da Casa de Mirranes, Barã Chobim, expulsou do Iraque o recém-entronizado xainxá Cosroes II (r. 590–628) e conquistou a região. Um ano depois, Cosroes II, com o auxílio do Império Bizantino, reconquistou seus domínios. Durante o seu reinado, parte da grande fama de Almadaim diminuiu, em razão da popularidade da nova residência de inverno de Cosroes, Dastaguirde. Em 628, uma peste devastadora atingiu Almadaim e o restante da parte ocidental do Império Sassânida, matando inclusive o filho e sucessor de Cosroes, Cavades II.[4]

Período Ortodoxo e Omíada

Em 636, os árabes muçulmanos, que desde 633 haviam invadido os territórios do Império Sassânida, derrotaram-nos numa grande batalha conhecida como a Batalha de Cadésia. Os árabes então atacaram Ctesifonte e tomaram algumas partes de Almadaim. O oficial militar muçulmano Calide ibne Urfuta rapidamente tomou Valogésias e firmou um tratado de paz com os habitantes de Rumia e Berassir. Os termos do tratado previam que os habitantes de Rumia poderiam partir, se assim o desejassem; caso contrário, seriam obrigados a reconhecer a autoridade muçulmana e a pagar tributo (jizia). Quando o oficial militar muçulmano (e um dos companheiros do profeta islâmico Maomé) Sade ibne Abi Uacas chegou a Almadaim, esta encontrava-se completamente desolada, em razão da fuga da família real sassânida, dos nobres e das tropas. No entanto, os muçulmanos haviam conseguido capturar parte das tropas, e muitas riquezas foram apreendidas do tesouro sassânida e distribuídas entre as tropas muçulmanas. Em 637, Sade tornou Alcaca ibne Anre Atamimi responsável pela defesa de Almadaim e nomeou Xurabil ibne Assimete Alquindi como governador de Almadaim.[2]

Em 661, Almadaim estava sob o controle do Califado Omíada, que havia posto fim ao Califado Ortodoxo. Um certo Simaque ibne Ubaide Alábeci exerceu o cargo de governador da metrópole em 663, e outra pessoa chamada Isaque ibne Maçude serviu como seu governador em 685. Os azaricaítas, uma facção dos carijitas, atacaram Almadaim em 687/8 e massacraram seus habitantes. A cidade foi então governada por Cardame ibne Martade ibne Najaba e, algum tempo depois, por Iázide ibne Alharite Axaibani. Em 696, o líder carijita Xabibe ibne Iázide Axaibani ocupou brevemente Almadaim. Em 697, Mutarrife ibne Almuguira foi nomeado governador de Almadaim e, mais tarde, em 701, Hanzala ibne Aluarrade e Ibne Atabe ibne Uarca foram designados governadores conjuntos da metrópole. Algum tempo depois, o governo de Almadaim foi abolido.[2]

Período Abássida

Mapa do Iraque e das regiões circunvizinhas no início do século IX

Em 750, o Califado Abássida capturou Almadaim e o restante do Iraque. Em 754, o califa Almançor manteve brevemente sua corte em Rumia. Ele também mandou executar o seu proeminente oficial militar Abu Muslim no mesmo local. Em 755, o Palácio Branco de Almadaim foi destruído por ordem de Almançor, que pretendia criar uma nova cidade, a qual seria concluída em 762 e passaria a ser conhecida como Baguedade, tornando-se a nova capital do Califado Abássida (embora ele tenha ordenado a restauração do Palácio Branco, este permaneceu em ruínas). Após a fundação de Baguedade, o declínio de Almadaim acelerou-se, e muitos dos seus habitantes reassentaram-se em Baguedade, enquanto o patriarca da Igreja do Oriente e o exilarca dos judeus foram obrigados a mudar-se para lá. Ainda assim, o patriarca Timóteo I fundou um hospital em Almadaim em 790.[2]

Durante a Quarta Guerra Civil Muçulmana (809–813) entre o califa Alamim (r. 809–813) e seu irmão Almamune (r. 813–833), Almadaim foi capturada em 812 pelo general de Almamune, Tair ibne Huceine, que então marchou para Baguedade.[5] Em 817, o povo de Baguedade rebelou-se e proclamou o príncipe abássida Ibraim ibne Almadi como seu líder. Os rebeldes também conseguiram capturar as regiões circunvizinhas de Baguedade, que incluíam Almadaim. Um ano depois, Almadaim foi recapturada pelo oficial persa de Almamune, Haçane ibne Sal e, no ano seguinte, o Iraque voltou a ficar sob o controle de Almamune.[6] Durante a Guerra Civil Abássida de 865–866, Abu Açaje Deudade, um parente do príncipe iraniano Caidar ibne Cavus Alafexim, foi encarregado da defesa de Almadaim em 865.[7] Os califas Almutadide (r. 892–902) e Almoctafi (r. 902–908) arruinaram ainda mais Almadaim ao escavá-la em busca de materiais de construção para erguer o Palácio Taje em Baguedade.[2] Em agosto de 942, ocorreu a Batalha de Almadaim entre um exército combinado hamadânida-turco e os bariditas, que disputavam o poder de facto sobre o Iraque. A batalha terminou com a derrota dos bariditas.[8]

Período Buída

Em 945, o príncipe iraniano buída Amade ibne Buia tomou Almadaim, bem como o restante do Iraque, e fez do califa seu vassalo. Em 974, o rebelde turco Sabuqueteguim Almuizi conquistou Almadaim e grande parte do Iraque, subtraindo-os ao filho e sucessor de Muize Adaulá, Ize Adaulá; contudo, em 975 os rebeldes foram derrotados.[9] Após a morte de Adude Adaulá em 983, este foi sucedido por seu filho Sansame Adaulá, que, entretanto, enfrentou a resistência de seu irmão Xarafe Adaulá, o qual conquistou Fars e Carmânia. Em 987, Xarafe Adaulá capturou Almadaim e, em seguida, conquistou o restante do Iraque. Entre 999 e 1002, os assaditas e os ucaílidas realizaram várias incursões no Iraque e chegaram a capturar a cidade. Em 1002, defenderam-na de um contra-ataque conduzido pelo irmão e sucessor de Xarafe Adaulá, Baa Adaulá (r. 988–1012).[10]

Período Seljúcida

Em 1055, o governante do Império Seljúcida, o sultão Tugril I (r. 1037–1063), invadiu o Iraque e fez do governante buída da região, Almaleque Arraime, seu vassalo. Em 1199, os judeus de Almadaim queixaram-se da construção de uma mesquita próxima à sua sinagoga. Em seguida, revoltaram-se abertamente e atacaram o responsável pela mesquita e seus apoiadores, o que resultou numa derrota muçulmana. Os muçulmanos então apresentaram queixa ao secretário de Anácer e solicitaram auxílio. Anácer concordou em intervir e ordenou a destruição da sinagoga.[9]

Referências

  1. Kröger 1993, pp. 446–448.
  2. a b c d e f g h Morony 2009.
  3. Herman 2012, p. 295.
  4. Shahbazi 2005.
  5. Rekaya 1991, p. 333.
  6. Rekaya 1991, pp. 335–336.
  7. Madelung 1988, p. 718.
  8. Amedroz & Margoliouth 1921, pp. 31–32.
  9. a b Kennedy 2004, p. 224.
  10. Kennedy 2004, p. 293.

Bibliografia

  • Amedroz, Henry F.; Margoliouth, David S. (1921). The Eclipse of the ‘Abbasid Caliphate. Original Chronicles of the Fourth Islamic Century, Vol. V: The concluding portion of The Experiences of Nations by Miskawaihi, Vol. II: Reigns of Muttaqi, Mustakfi, Muzi and Ta'i. Oxford: Basil Blackwell 
  • Herman, Geoffrey (2012). A Prince Without a Kingdom: The Exilarch in the Sasanian Era. Tubinga, Alemanha: Mohr Siebeck 
  • Kröger, Jens (1993). «Ctesiphon». In: Yarshater, Ehsan. Enciclopédia Irânica Vol. IV, Fasc. 4. Irvine: Universidade da Califórnia 
  • Kennedy, Hugh N. (2004). The Prophet and the Age of the Caliphates: The Islamic Near East from the 6th to the 11th Century (Second ed. Harlow, RU: Pearson Education Ltd. ISBN 0-582-40525-4 
  • Madelung, Wilferd (1988). «Banū Sāj». In: Yarshater, Ehsan. Enciclopédia Irânica Vol. III, Fasc. 7. Irvine: Universidade da Califórnia 
  • Marony, Michael G. (2009). «Madāʾen». In: Yarshater, Ehsan. Enciclopédia Irânica. Irvine: Universidade da Califórnia 
  • Rekaya, M. (1991). «al-Maʾmūn». The Encyclopedia of Islam, New Edition, Volume VI: Mahk–Mid. Leida e Nova Iorque: BRILL. pp. 331–339. ISBN 90-04-08112-7 
  • Shahbazi, A. Shapur (2005). «Sasanian dynasty». In: Yarshater, Ehsan. Enciclopédia Irânica. Irvine: Universidade da Califórnia