Holoártico

Holoártico ou Holártico (do grego: holos, "todo", e arktikos, "do urso", "do norte") é a designação usada em biogeografia para referir conjuntamente os habitats e a biota encontrados nos continentes boreais da Terra.[1] Esta vasta região biogeográfica abrange a maior parte das zonas temperadas e árticas do Hemisfério Norte, incluindo a América do Norte, Europa, norte da África e grande parte da Ásia.[2]
O conceito de Holoártico aplica-se à distribuição de toda a fauna e flora da região, incluindo mamíferos, aves, insetos, plantas e outros organismos. A região holoártica é caracterizada por compartilhar muitas famílias de plantas e animais, resultado de conexões terrestres históricas entre os continentes durante períodos glaciais, especialmente através da ponte de terra de Bering.[3]
Subdivisões
A região holoártica é tradicionalmente dividida em duas principais ecozonas:[1]
- Paleártico: Inclui a Europa, o norte da África (até o Deserto do Saara) e a Ásia, com exceção do Sudeste Asiático e do subcontinente indiano. Esta ecozona caracteriza-se por climas temperados a frios, com extensas florestas temperadas, estepes e tundras.[4]
- Neártico (ou Neoártico): Compreende toda a América do Norte, incluindo o Canadá, os Estados Unidos e o norte do México até aproximadamente o Trópico de Câncer. Esta ecozona apresenta grande diversidade de ecossistemas, desde tundras árticas até florestas temperadas e pradarias.[4]
Do ponto de vista exclusivamente botânico, em geobotânica ou fitogeografia, a mesma região geográfica é estudada como o Reino Florístico Holoártico (também chamado de Reino Boreal), que se concentra especificamente na distribuição das plantas e suas relações evolutivas.[5]
Fauna característica
A fauna holoártica compartilha numerosas espécies ou grupos de espécies intimamente relacionados entre a Eurásia e a América do Norte, refletindo a história de conexões terrestres entre os continentes.[3] Entre os mamíferos mais característicos encontram-se:
- Urso-pardo (Ursus arctos) - distribuído pela América do Norte, Europa e Ásia[6]
- Lobo-cinzento (Canis lupus) - presente em toda a região holoártica
- Raposa-vermelha (Vulpes vulpes) - o carnívoro com maior distribuição natural do mundo
- Carcaju (Gulo gulo) - habitante das regiões boreais
- Alce (Alces alces) - o maior cervídeo do mundo
- Rena ou Caribu (Rangifer tarandus) - adaptada às regiões árticas e subárticas
Entre as aves destacam-se a coruja-das-neves (Bubo scandiacus), a águia-real (Aquila chrysaetos) e o corvo-comum (Corvus corax), todas com ampla distribuição holoártica.[7]
Flora característica
A vegetação holoártica é dominada por formações adaptadas a climas frios e temperados:[5]
- Taiga ou floresta boreal - a maior formação florestal do planeta, dominada por coníferas como píceas, abetos e lariços
- Tundra - vegetação rasteira adaptada ao clima ártico, com musgos, liquens e plantas herbáceas
- Floresta temperada - florestas de folhosas nas regiões temperadas, com predominância de carvalhos, faias e bétulas
- Estepes e pradarias - formações herbáceas nas zonas continentais
Famílias de plantas particularmente importantes na região holoártica incluem Pinaceae (pinheiros e coníferas afins), Betulaceae (bétulas), Fagaceae (carvalhos e faias) e Salicaceae (salgueiros).[5]
História geológica
A similaridade da fauna e flora entre a Eurásia e a América do Norte deve-se em grande parte às conexões terrestres que existiram durante o Pleistoceno, especialmente através da ponte de terra de Bering, que conectou a Sibéria ao Alasca durante períodos de baixo nível do mar nos períodos glaciais.[8]
Durante as glaciações, muitas espécies sobreviveram em refúgios glaciais localizados em regiões meridionais da zona holoártica, de onde se dispersaram novamente durante os períodos interglaciais.[9] Este processo de expansão e retração resultou na atual distribuição de espécies características da região holoártica.
A taxa de dispersão de espécies florestais durante o período pós-glacial foi significativa, com algumas árvores expandindo sua distribuição a taxas de até 1-2 quilômetros por ano.[10]
Ver também
- Ecozona
- Paleártico
- Neártico
- Reino Florístico Holártico - equivalente botânico do Holoártico
- Reino florístico
- Beríngia
Referências
- 1 2 «Holarctic region». Encyclopædia Britannica (em inglês). Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Holarctic». Merriam-Webster Dictionary (em inglês). Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 Cox, C. Barry; Moore, Peter D. (2016). Biogeography: An Ecological and Evolutionary Approach (em inglês) 9 ed. [S.l.]: Wiley-Blackwell. ISBN 978-1118968581
- 1 2 Schultz, Jürgen (2005). The Ecozones of the World (em inglês) 2 ed. [S.l.]: Springer. ISBN 978-3540200147
- 1 2 3 Takhtajan, Armen (1986). Floristic Regions of the World (em inglês). [S.l.]: University of California Press. ISBN 978-0520040274
- ↑ Sommer, R. S.; Benecke, N. (2005). «The recolonization of Europe by brown bears Ursus arctos Linnaeus, 1758 after the Last Glacial Maximum». Mammal Review (em inglês). 35 (2): 156-164. doi:10.1111/j.1365-2907.2005.00063.x
- ↑ Paquet, P. C. (1996). «Conservation Biology and Carnivore Conservation in the Rocky Mountains». Conservation Biology (em inglês). 10 (4): 949-963. doi:10.1046/j.1523-1739.1996.10040949.x
- ↑ Coope, G. R.; Wilkins, A. S. (1994). «The Response of Insect Faunas to Glacial-Interglacial Climatic Fluctuations». Philosophical Transactions: Biological Sciences (em inglês). 344 (1307): 19-26. JSTOR 56162
- ↑ Stewart, J. R.; Lister, A. M. (2001). «Cryptic northern refugia and the origins of the modern biota». Trends in Ecology and Evolution (em inglês). 16 (11): 608-613. doi:10.1016/S0169-5347(01)02338-2
- ↑ Bennett, K. D. (1986). «The Rate of Spread and Population Increase of Forest Trees During the Postglacial». Philosophical Transactions of the Royal Society of London. Series B, Biological Sciences (em inglês). 314 (1167): 523-531. JSTOR 2396496
Ligações externas
- Holarctic region - Encyclopædia Britannica (em inglês)