Polimerização por abertura de anel
Em química de polímeros, polimerização por abertura de anel (PAA) é uma forma de polimerização por crescimento de cadeia, em que a extremidade terminal de um polímero funciona como um centro reativo, em que os monómeros cíclicos adicionais juntam-se para formar uma cadeia maior de polímero por meio de propagação iônica ou radicalar. O tratamento de alguns compostos cíclicos com catalisadores provoca a clivagem do anel, seguido por polimerização para produzir polímeros de alto peso molecular.[1]
A abertura de aneis de monômeros cíclicos é frequentemente levada pelo alívio da tensão causada pelos ângulos de ligação. Portanto, como é o caso para os outros tipos de polimerização, a mudança de entalpia na abertura do anel é negativa. [2]
Monômeros
Vários monômeros cíclicos são sujeitos a PAA.[3]. Isto inclui epóxidos [4][5], trisiloxanos cíclicos, algumas lactonas [4][6] e lactidas [6], anidridos cíclicos [5], carbonatos cíclicos/ésteres de carbonato [7] e aminoácidos N-carboxianidrido. [8][9]. Vários cicloalcenos tensionados, como o norborneno, são monômeros apropriados para a Polimerização por metátese de abertura de anel. Até mesmo aneis de cicloalcanos altamente tensionados, como derivados de ciclopropano[10] e ciclobutano[11] podem sofrer PAA.
História
Polimerização por abertura de anel tem sido praticada desde o início do século XI para produzir polímeros. A síntese de polipeptídeos, que apresenta o histórico mais velho de PAA, foi apresentada no trabalho de Leuchs em 1906.[12] Subsequentemente, a PAA de açúcares anidros deram origem a polissacarídeos como o dextrano, a goma xantana, goma Welan, goma gellan, goma diutan e pululano. Os mecanismos e termodinâmica da polimerização por abertura de anel foram estabelecidos por volta de 1950. [13][14] Os primeiros polímeros de alta massa molecular (Mn de até 105) com uma única unidade repetitiva foram preparados por PAA tão cedo quanto em 1976. [15][16]
Novas pesquisas mostram que a PAA pode ser realizada em ésteres cíclicos com pouco ou sequer o uso de solventes através da utilização de mistura por ressonância acústica.[17]
Uma aplicação industrial é a produção de nylon 6 a partir de caprolactama.
Mecanismos
A PAA pode ser dada através de polimerização radical, aniônica ou catiônica como descrito abaixo.[18] Adicionalmente, a PAA radicalar é útil na produção de polímeros com grupos funcionais incorporados na estrutura principal que não poderiam ser sintetizados através da polimerização em massa de monômeros vinílicos. Como exemplo, a PAA pode produzir polímeros com éteres, ésteres, amidas e carbonatos como grupos funcionais ao longo da cadeia principal.[18][19]
Polimerização aniônica por abertura de anel

A polimerização aniônica por abertura de anel requer reagentes nucleofílicos como iniciadores. Monômeros com anel de três membros como epóxidos sofrem polimerização aniônica por abertura de anel.[19]
Um exemplo típico de polimerização aniônica por abertura de anel é a polimerização da ε-caprolactona, iniciada por um alcóxido.[19]
Polimerização catiônica por abertura de anel
Iniciadores e intermediários catiônicos caracterizam a polimerização catiônica por abertura de anel. Exemplos de monômeros cíclicos que polimerizam por este mecanismo incluem lactonas, lactamas, aminas e éteres.[20] A polimerização catiônica por abertura de anel pode prosseguir através de uma propagação e crescimento de cadeia do tipo SN1 ou SN2.[18] O mecanismo é afetado pela estabilidade da espécie catiônica formada. Por exemplo, se o átomo com a carga positiva é estabilizado por um grupo doador de elétrons, a polimerização irá prosseguir pelo mecanismo SN1.[19] A espécie catiônica é um heteroátomo e a cadeia cresce pela adição de monômeros cíclicos e, consequentemente, abrindo o sistema de anéis.

Os monômeros podem ser ativados por ácidos de Brønsted, ions carbênium, íons ônio e cátions metálicos.[18]
A polimerização catiônica por abertura de anel pode ser uma Polimerização Viva e pode ser terminada por reagentes nucleofílicos como ânions fenóxi, fosfinas ou poliânions.[18] Quando a quantidade de monômero se esgota, a terminação pode ocorrer intra ou intermolecularmente. O terminal propagante pode se ligar ao próprio "rabo" da cadeia, formando um macrociclo. Transferências de cadeia alquila também são possíveis, em que o terminal propagante é extinguido pela transferência da cadeia alquílica para outro polímero.
Polimerização por metátese de abertura de anel
A polimerização por métatese de abertura de anel produz polímeros insaturados a partir de cicloalcenos ou bicicloalcenos. A mesma requer catálise organometálica.[18]
O mecanismo para essa via segue caminhos similares às metáteses de olefinas. O processo de iniciação envolve a coordenação do cicloalceno ao complexo metal-alquilideno, seguido de uma cicloadição de tipo [2+2] para formar o intermediário metalociclobutano que ciclicamente reverte para formar uma nova espécie alquilideno.[22][23]

Polímeros insaturados comercialmente relevantes sintetizados através desta técnica incluem polinorborneno, policicloocteno e policiclopentadieno.[24]
Termodinâmica de reação e propagação
O critério termodinâmico formal do potencial de polimerização de um monômero é relacionado ao sinal da entalpia livre (Energia livre de Gibbs) da polimerização: onde:
- x e y indicam os estados do monômero e polímero, respectivamente (x e/ou y = l (líquido), g (gasoso), c (sólido amorfo), c' (sólido cristalino), s (solução));
- ΔHp(xy) é a entalpia de polimerização (Unidade do SI: joule por kelvin);
- ΔSp(xy) é a entropia de polimerização (Unidade do SI: joule);
- T é a temperatura absoluta (Unidade do SI: kelvin).
A entalpia livre de polimerização (ΔGp) pode ser expressada através da soma de entalpia padrão de polimerização (ΔGp°) e um termo relacionado a concentrações instantâneas de moléculas de monômero e macromoléculas em crescimento: em que:
- R é a constante universal dos gases perfeitos;
- M é o monômero;
- (m)i é o monômero em um estado inicial;
- m* é o monômero ativo/espécie propagante.
Seguindo a teoria de solução de Flory-Huggins que consta que a reatividade de um centro ativo localizado em uma macromolécula de uma cadeia macromolecular suficientemente longa não depende do seu grau de polimerização (DPi). Levando em conta que ΔGp° = ΔHp° − TΔSp° (onde ΔHp° e ΔSp° indicam a entropia e entalpia padrões de polimerização, respectivamente), nós obtemos que:
No equilíbrio (ΔGp = 0), quando a polimerização é completa, a concentração de monômero ([M]eq) assume um valor determinado por parâmetros de polimerização padrão (ΔHp° e ΔSp°) e temperatura de polimerização: Por exemplo, tetraidrofurano (THF) não é capaz de polimerizar acima de Tc = 84 °C, assim como o alótropo de enxofre S8 abaixo de Tf = 159 °C.[25][26][27][28] No entanto, para vários monômeros, as temperaturas de polimerização em massa Tc e Tf estão muito acima ou abaixo das temperaturas operáveis de polimerização, respectivamente. A polimerização de uma grande maioria de monômeros é acompanhada por uma redução na entropia devido majoritariamente à perda de graus de liberdade translacionais. Nesta situação, polimerização é termodinamicamente permitida apenas quando a contribuição entálpica em ΔGp prevalece (como consequência, quando ΔHp° < 0 e ΔSp° < 0, a desigualdade |ΔHp| > −TΔSp é um requisito). Portanto, quanto maior a tensão do anel, menor será a concentração resultante de monômero no equilíbrio.
Referências
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