Xiloglicano

Um xiloglicano é uma hemicelulose que se encontra na parede celular primária de todas as plantas vasculares; contudo, todos os enzimas responsáveis pelo metabolismo do xiloglicano também se encontram em algas Charophyceae.[1][2] Em muitas plantas dicotiledóneas, é a hemicelulose mais abundante na parede celular primária.[3] Os xiloglicanos ligam-se à superfície das microfibrilas de celulose e podem uni-las.

São o substrato da xiloglicano endotransglicosilase, que corta e liga os xiloglicanos como meio de integrar novos xiloglicanos na parede celular. Pensa-se também que são o substrato da alfa-expansina, que promove o alargamento da parede celular.

Química

O xiloglicano tem um esqueleto molecular de resíduos de glucose unidos por ligações glicosídicas β1→4, a maioria das quais é substituída por cadeias laterais de xilose com ligação 1-6. A cadeia de resíduos de xilose é rematada na sua extremidade com um resíduo de galactose terminal, por vezes seguido de um resíduo de fucose.

A estrutura específica dos xiloglicanos é distinta em diferentes famílias de plantas.

Biossíntese

O xiloglicano é sintetizado nas cisternas trans do complexo de Golgi e na rede trans-Golgi (TGN) e transportado para a membrana plasmática por vesículas, onde é expelido e depois absorvido nas microfibrilas celulósicas nascentes.[4]

Metabolismo no trato digestivo humano

O genoma humano não contém genes que codifiquem enzimas para a degradação de xiloglicanos, apesar de estes compostos serem componentes importantes na maioria das dietas humanas. Estudos recentes mostraram que um locus genético discreto confere a capacidade de metabolizar xiloglicano em determinadas bactérias Bacteoridota do intestino humano. Este descobrimento revela que o metabolismo de componentes ainda mais abundantes da fibra dietética poderá depender de espécies de nicho.

O metabolismo dos xiloglicanos é o resultado da ação concertada de vários enzimas e transportadores de membrana. Contudo, dada a grande diversidade da composição dos xiloglicanos de diferentes fontes vegetais, existe um enzima chave, uma endoxiloglicanase chamada BoGH5A, que tem a capacidade de cortar diversos xiloglicanos para gerar fragmentos curtos prontos para captação.

Uma análise detalhada da estrutura e função do enzima revelou a presença de um domínio chamado domínio BACON, cuja função primária na BoGH5A poderá ser distanciar o módulo catalítico da superfície celular e proporcionar mobilidade adicional ao domínio catalítico para atacar o polissacárido. Uma larga fenda no sítio ativo gera plasticidade de ligação e é uma característica chave que permite que a BoGH5A acomode uma ampla variedade de xiloglicanos naturais.

A prevalência dos xiloglicanos na dieta humana sugere que o mecanismo pelo qual as bactérias degradam estes polissacáridos complexos é muito importante para a aquisição de energia pelos seres humanos. Além disso, a raridade do metabolismo dos xiloglicanos salienta a importância de microrganismos como Bacteroides ovatus e outros proficientes Bacteroidota degradadores de xiloglicanos como membros fundamentais da flora intestinal humana.[5]

Notas

  1. LEV Del Bem and M Vincentz (2010) Evolution of xyloglucan-related genes. BMC Evolutionary Biology, 10:340, 1-17
  2. Del-Bem LE (2018). «Xyloglucan evolution and the terrestrialization of green plants». New Phytologist. 219 (4): 1150–1153. PMID 29851097. doi:10.1111/nph.15191. hdl:1843/36860 
  3. Fry, Stephen C. (1989). «The Structure and Functions of Xyloglucan». Journal of Experimental Botany. 40 (1): 1–11. doi:10.1093/jxb/40.1.1 
  4. Moore PJ; Staehelin LA (1988). «Immunogold localisation of the cell wall matrix polysaccharides rhamnogalacturonan-I and xyloglucan during cell expansion and cytokinesis in Trifolium pratense L. - Implications for sectretory pathways». Planta. 174 (4): 433–445. PMID 24221558. doi:10.1007/BF00634471 
  5. Larsbrink, Johan; Rogers, Theresa E.; Hemsworth, Glyn R.; McKee, Lauren S.; Tauzin, Alexandra S.; Spadiut, Oliver; Klinter, Stefan; Pudlo, Nicholas A.; Urs, Karthik; Koropatkin, Nicole M.; Creagh, A. Louise; Haynes, Charles A.; Kelly, Amelia G.; Cederholm, Stefan Nilsson; Davies, Gideon J.; Martens, Eric C.; Brumer, Harry (2014). «A discrete genetic locus confers xyloglucan metabolism in select human gut Bacteroidetes». Nature. 506 (7489): 498–502. Bibcode:2014Natur.506..498L. PMC 4282169Acessível livremente. PMID 24463512. doi:10.1038/nature12907