Xecado de Quitangonha

O xecado de Quitangonha foi um antigo estado independente suaíli e o seu território faz hoje parte de Moçambique.

História

Juntamente com os xecados de Sangage e Sancul, o xecado de Quitangonha viveu um período de expansão económica tendo por base a exportação de escravos para Madagáscar, Zanzibar, Comoros, Arábia e Reunião.[1] Os xeques foram sempre aliados fiéis de Portugal até 1775.[2] O xeque Tuacali Hija atacou as Terras Firmes, territórios portugueses no continente africano, em 1775, 1776, 1786, 1795 e 1796, e em 1799 foi combatido por tropas portuguesas aliadas a um régulo macua, conhecido como o maurusa de Itoculo, um importante reino macua a 40 quilómetros para noroeste.[3]

O sucessor de Tuacali Hija foi Janfar Salim, que reinou de 1804 a 1817.[3] Este ajudou os portugueses contra o régulo Morimuno, de Erati.[3] Novos combates deram-se em 1800 e 1801.[3] Em 1809, porém, aliou-se ao maurusa e atacou território português, restabelecendo depois a sua aliança a Portugal e virando-se contra o maurusa e os macuas, chegando a defender Mossuril de um ataque macua em 1811. Foi preso em 1817 e deportado para Inhambane.[3]

A Janfar Salim sucedeu-lhe Solimane Bona Aji, que participava activamente no comércio de escravos exportados para Madagáscar e as Comores mas mantinha uma boa relação com as autoridades portuguesas.[3] Este estado de coisas rompeu-se com a chegada em 1829 do governador-geral Paulo José Miguel de Brito, que deu caça ao tráfico de escravos em 1830 ocupou a baía de Fernão Veloso, fronteira norte do xecado de Quitangonha, fundando ali uma povoação.[3] Solimane atacou naquele ano a vila mas os portugueses repeliram-no e aliaram-se aos macuas de Erati e de Itoculo.[3] Solimane, por sua vez, aliou-se a Zanzibar, Quíloa e à poderosa negociante D. Rosaura Maria Monteiro de Sousa Guedes, portanto conseguiu um acordo de paz com as autoridades, mantendo-se oficialmente como vassalo da Coroa Portuguesa e obrigado a arvorar a bandeira portuguesa nos seus navios e fornecer madeira à fortaleza portuguesa, embora de resto actuasse de forma practicamente independente.[3] Solimane foi sucedido por Ali Amissi Heri em 1850.[3]

Os homens de Ali Amissi Heri espoliaram em Julho de 1857 os moradores de Mossuril e o governador-geral declarou a guerra a Quintangonha mas após algumas escaramuças foi restabelecida a paz a 12 ou 13 de Setembro de 1857.[3] Ali Amissi Heri foi por sua vez derrubado em 1873 por uma coligação entre o seu primeiro-ministro Abder Rahman, dois régulos macuas e as autoridades portuguesas.[3]

Estima-se que em 1900 a Quitangonha tivesse uma população de 6000 almas, que incluíam 600 guerreiros.

A Quitangonha manteve-se independente até à guerra de 1904-1911. Mamude Buana Amadi entrou novamente em guerra contra as autoridades portuguesas a 20 de Janeiro de 1904 e o governador Serpa Pimentel enviou contra Quitangonha o capitão António Camisão, que com uma força de 13 oficiais, 11 sargentos e 266 soldados africanos expulsou o xeque Mamude Buana Amadi e no seu lugar colocou Saíde ibne Amissi, antigo capitão-mor do xeque.[4] Mahmud tinha, porém, aliados entre os régulos macuas e refugiou-se nas suas terras para continuar a guerrilha até à morte em 1908.[4] Todo o território de Quitangonha foi definitivamente pacificado e integrado em Moçambique em 1911, passando a pagar impostos a Portugal.[4]

Xeques de Quintangonha

  • Tuacali Hija ? - 1804
  • Janfar Salim 1804 - 1817
  • Solimane Bona Aji 1817 - 1850
  • Ali Amissi Heri 1850 - 1873
  • Mamude Buana Amadi 1884-1904/8
  • Saíde ibne Amissi 1904 - ?

Ver também

Referências

  1. Araújo, Sandra (23 de janeiro de 2025). Spying on Muslims in Colonial Mozambique, 1964-74 (em inglês). [S.l.]: Bloomsbury Publishing. p. 47. Consultado em 15 de julho de 2025 
  2. A. Rita-Ferreira: "FIXAÇÃO PORTUGUESA E HISTÓRIA PRÉ-COLONIAL DE MOÇAMBIQUE", in Estudos, Ensaios e Documentos, N.º 142, Instituto de Investigação Científica Tropical/Junta de Investigações Científicas do Ultramar, Lisboa, 1982, p. 157
  3. a b c d e f g h i j k l René Pélissier: História de Moçambique: Formação e Oposição, 1854-1918, I, Editorial Estampa, 1994, pp. 59-63.
  4. a b c Pélissier, 1994, I, pp. 285-187.