Wieland Kuijken
| Wieland Kuijken | |
|---|---|
| Nascimento | 1938 |
| Nacionalidade | belga |
| Gênero(s) | Música antiga · Música barroca |
| Ocupação | Violoncelista, gambista, professor |
| Instrumento(s) | Violoncelo, viola da gamba |
Wieland Kuijken (Dilbeek, Brabante Flamengo, 1938) é um violoncelista e gambista belga, internacionalmente reconhecido como um dos pioneiros da interpretação historicamente orientada da música renascentista e barroca em instrumentos de época. É irmão do violinista Sigiswald Kuijken e do flautista Barthold Kuijken, com os quais desenvolveu intensa atividade camerística e discográfica.
Biografia
Wieland Kuijken nasceu em 1938 em Dilbeek, perto de Bruxelas, numa família que mais tarde se radicaria em Bruges, então um importante centro de vida artística na Bélgica.[1] Na adolescência, deixou a escola para se dedicar aos estudos musicais, concentrando-se em violoncelo e piano. Concluiu a formação no Conservatório de Bruxelas, onde obteve o exame de concertista em 1962, ao mesmo tempo em que desenvolvia crescente interesse pela música antiga e seu repertório.[1]
Ainda jovem, começou a estudar de forma autodidata a viola da gamba, instrumento então pouco praticado, chegando inclusive a construir ele próprio alguns dos primeiros exemplares com que tocou.[2] Esse interesse inseriu-se no movimento mais amplo de redescoberta da música renascentista e barroca, marcado pela pesquisa de fontes históricas, trato com instrumentos de época e questionamento das leituras romantizadas então predominantes.[2]
Carreira
Primeiros anos e Alarius-Ensemble
No fim da década de 1950, Kuijken começou a atuar profissionalmente como violoncelista e gambista, integrando grupos belgas dedicados à música antiga, como Pro Musica Antiqua, Ensemble J.S. Bach, Ensemble Polyphonie e Musica Polyphonica.[2] Em 1959 passou a fazer parte do Alarius-Ensemble, fundado em Bruxelas pelo flautista escocês Charles McGuire e especializado inicialmente na execução de música francesa dos séculos XVII e XVIII em instrumentos históricos.[2]
Após a morte de McGuire, Sigiswald Kuijken assumiu, em meados da década de 1960, o papel de força motriz do Alarius-Ensemble, ampliando o repertório e aprofundando o trabalho de pesquisa estilística. Wieland Kuijken participou intensamente dessa fase, com concertos em importantes festivais europeus, turnês para a América do Norte, África do Norte e Canadá, além de gravações para selos como Telefunken, Harmonia Mundi, BAM e Alpha, em obras de Bach, Couperin, Marais e violinistas italianos do século XVII.[2]
Paralelamente, o núcleo do Alarius-Ensemble formou o grupo Musiques Nouvelles, dirigido por Pierre Bartholomée, dedicado à música de vanguarda. Nesse contexto, Kuijken participou de programas que alternavam repertório barroco com estreias de obras contemporâneas de Bartholomée, Henri Pousseur e outros compositores, evidenciando o diálogo entre pesquisa histórica e experimentação moderna.[2]
O Alarius-Ensemble foi dissolvido em 1972, em parte porque seus integrantes passaram a conciliar uma agenda de concertos internacionalmente intensa com funções docentes em conservatórios europeus, o que levou cada um a desenvolver novos projetos artísticos.[2]
La Petite Bande e grupos de música antiga
Logo após o fim do Alarius-Ensemble, Sigiswald Kuijken foi convidado pelo selo Harmonia Mundi a reunir um conjunto internacional de especialistas em música barroca para a gravação da comédie-ballet Le Bourgeois Gentilhomme, de Lully e Molière, sob a direção de Gustav Leonhardt. Desse projeto nasceu a orquestra La Petite Bande, cujo nome remete ao grupo de câmara que Lully organizou na corte de Luís XIV.[2]
Wieland Kuijken integrou a formação original de La Petite Bande, que passou a trabalhar segundo um sistema de projetos: para cada programa, seleciona-se uma formação específica a partir de um núcleo fixo de instrumentistas belgas e holandeses, acrescidos de convidados de outros países. O conjunto ganhou notoriedade por sua sonoridade própria, baseada no uso de instrumentos antigos (como violinos com arco curto e cavalete baixo) e em uma abordagem estilística que privilegia articulação, ornamentação e frasêgio informados por tratados dos séculos XVII e XVIII.[2]
Além de La Petite Bande, Kuijken colaborou com diversos grupos de referência na interpretação da música antiga, incluindo o Collegium Aureum, Concerto Vocale, Hespèrion XX, Ricercare-Ensemble für Alte Musik e outros projetos camerísticos e orquestrais dedicados ao repertório pré-clássico.[1]
Atividade docente
Desde o início da década de 1970, Wieland Kuijken desenvolve importante atividade pedagógica. A partir de 1970 passou a lecionar nos conservatórios de Bruxelas e Haia, em cátedras relacionadas ao violoncelo, à viola da gamba e à interpretação historicamente orientada.[1] Paralelamente, participou regularmente como professor convidado em cursos de verão e masterclasses em centros europeus de música antiga, como Innsbruck e outras cidades especializadas nesse repertório.[1][2]
Sua atuação docente contribuiu para a institucionalização do ensino da música antiga nos conservatórios, transformando aquilo que anteriormente era visto como prática marginal, baseada sobretudo em estudo autodidata, em disciplina reconhecida e estruturada dentro da formação superior em música.[2]
Música de câmara e gravações
Ao lado da atividade orquestral, Wieland Kuijken destacou-se pela intensa prática de música de câmara, atuando frequentemente com os irmãos Sigiswald (violino barroco) e Barthold (traverso), bem como com parceiros como Gustav Leonhardt, Robert Kohnen, René Jacobs, Lucy van Dael e Anner Bylsma.[2] Em formações diversas, o músico participou de turnês por países como Austrália, Estados Unidos, Nova Zelândia, Brasil e nações do Oriente Médio.[2]
Sua discografia, extensa e variada, inclui gravações para selos como SEON, Harmonia Mundi e Accent, abrangendo desde sonatas para violino e baixo contínuo de Corelli e sonatas para violino e pianoforte de Mozart até música de câmara de Haydn, Telemann e repertório francês para flauta e viola da gamba.[2] Essas gravações são frequentemente citadas pela crítica especializada como marcos da interpretação de música antiga em instrumentos de época.[1]
Ver também
- Sigiswald Kuijken
- Barthold Kuijken
- La Petite Bande