Villa Romana de Manta Rota
| Villa Romana de Manta Rota | |
|---|---|
| Informações gerais | |
| Tipo | Villa |
| Construção | Época romana |
| Geografia | |
| País | |
| Localização | Manta Rota, Vila Real de Santo António |
| Coordenadas | 🌍 |
| Localização em mapa dinâmico | |
A Villa Romana de Manta Rota é um sítio arqueológico nas imediações na localidade de Manta Rota, no Município de Vila Real de Santo António, na região do Algarve, em Portugal.

Descrição e história
O sítio arqueológico situa-se nas imediações da urbanização da Quinta da Manta Rota, num local perto da faixa costeira.[1] Neste local poderá ter existido uma villa romana, que terá sido um vicus portuário.[1] Com efeito, a costa seria mais recuada, e a Ria Formosa, que no presente chega apenas até Cacela Velha, devia prolongar-se até à área de Manta Rota.[2] Ao mesmo tempo, a região da costa oriental era muito fértil, devido às condições climáticas e dos solos, e à possibilidade de irrigação, estimulando desta forma o desenvolvimento agrícola.[3] Isto permitia que a povoação tivesse uma economia dupla, baseada tanto na agricultura como na exploração dos recursos marítimos, principalmente a produção de subprodutos de peixe, conhecidos como garum, que seriam exportados.[2]
No local foram encontrados vários indícios do período romano, como ânforas, tesselas, escórias, fragmentos de estuque com elementos decorativos, tégulas, tijolos, e peças em vidro, terra sigillata[1] e opus signinum,[2] vestígios ósseos,[3] e fragmentos de mármore.[4] Perto da nora, no interior da quinta, foi descoberto um vaso com moedas dos séculos III e IV.[4] Segundo o arqueólogo Estácio da Veiga, na área foram igualmente recolhidos materiais pré-históricos.[4]
Nas imediações da villa romana, no alto de uma duna, foram encontradas as ruínas de um edifício, que devido à sua localização e bom domínio visual da região em redor, poderia ter sido uma torre de vigia, igualmente do período romano. Neste ponto foi encontrado um variado conjunto de materiais, incluindo fragmentos de tégulas, telhas, tijolos, grandes recipientes, como dólios, e peças em opus signinum, calcário e chumbo.[5] Perto da capela também foram descobertos os indícios de um forno romano, que poderia ter sido utilizado para fabricar as ânforas onde era transportado o garum.[2] Segundo o professor de arqueologia João Pedro Bernardes, no local foram encontrados fragmentos de ânforas dos séculos I a IV, o que indica que este poderá ser o «local de produção de ânforas mais antigo» já descoberto em território nacional.[2]
Desde o século XIX que se conhece a presença de vestígios antigos na Quinta da Manta Rota, tendo sido investigada pelo arqueólogo Estácio da Veiga.[2] Este refere na obra Antiguidades monumentaes do Algarve: tempos prehistoricos que «São muitas as antiguidades daquelle terreno todo cortado por alicerces de grandes edificios ha muitos seculos arrazados. Houve alli grande povoação romana, uma villa agraria, mui provavelmente». Menciona também a presença de celeiros, e da descoberta de um machado de pedra e de um brunidor: «Lá descobri também um dos taes celleiros, mas sem um bago de trigo nem signal d'elle; e, cousa notavel, um dia antes de ir inspeccionar a Manta Rota (manta de terra, que o arado rompeu, talvez seja esta a etymologia), tinha comprado em Cacella um machado de pedra e um brunidor de schisto negro, que um trabalhador havia achado mui perto do tal celleiro, como depois averiguei; de modo que parecia haver uma tal ou qual relação de congruência entre aquella antiga habitação humana (!) e aquelles instrumentos, só próprios de gente que em tão obscuras covas vivia. O machado é precioso e o brunidor, se uma dama romana, daquellas que timbravam em ter as mãos macias, o tivesse apanhado a geito, era capaz de com elle brunir o próprio rosto.» Descreveu o machado como sendo «de fina diorite, de côr tirante a verdoengo escuro, todo polido, e com duas largas facetas convergindo n'um córte arqueado, perfeitamente conservado. Mede 0m,113, largura no gume 0m,042 e espessura 0m,040», enquanto que o brunidor era de «schisto negro fino, de forma elliptica, com duas faces convexas ajustando-se lateralmente em angulos agudos. Está lascado nas duas extremidades e tem manifestos signaes de trabalho. Comprimento 0m,123, largura 0m,050 e espessura 0m,032» Estudou igualmente os vestígios islâmicos, referindo que «tinham lá uma torre; talvez uma das vigias da sua famosa Hisn-Castalla (Cacella)», e indicou a forte presença do espólio daquele período: «De louça vidrada, d'aquella que elles ensinaram a fabricar na Península, não faltavam fragmentos no terreno e até d'aquelles preciosos jarrões ornamentados de relevo, que eram cingidos de inscripções cúficas.»[6] Noutros capítulos volta a mencionar a presença de estruturas subterrâneas para guardar cereais, avançando a teoria que fossem pré-históricas: «Era pois uma habitação terrestre subterranea, como outras de que ha noticia em Castro Marim, como as que observei em Odeseixe, Aljezur, no sitio do Amado, na Villa do Bispo, nas ruas e campos de Bensafrim, no sitio da Torre, perto de Odiáxere, na Mexilhoeira, no Casarão das Freiras, em Alcalá, no sitio da Rocha junto de Alvor, nas ruas e castello de Silves, nos serros altos de Albufeira, nas ruas e campos de Paderne, em Tavira, no valle de Caranguejo, no sitio da Nora, em Cacella, nas terras da Manta Rota, nos campos da Torre dos Frades, e como igualmente existem em todo este reino, em quasi toda a Europa e até nos Pampas da America, em muitas regiões, emfim, onde nunca viveram mouros, nem romanos, e onde não haver característicos, associados a esses subterrâneos, que não sejam prehistoricos.»[7]
Leite de Vasconcelos menciona que neste local foram encontrados muitos fragmentos de ânforas e candeias.[4] Em 1992 foram feitas escavações arqueológicas de emergência naquela área, dirigidos por Cristina Garcia, durante as quais foi identificado um forno para a produção de ânforas.[4] Foi investigada novamente em 2001, no âmbito do programa Sociedade e Território em Cacela na Idade Média, integrado no Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos,[4] e em 2002, pela extensão de Silves do Instituto Português de Arqueologia.[8]
Em 2009 foram feitas prospecções geofísicas no local, como parte do Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos.[3] Porém, devido à presença de uma grande quantidade de lixo e de desperdícios metálicos, tendo sido encontradas principalmente anomalias indefinidas, sem serem visíveis quaisquer estruturas.[3] Em Setembro de 2025, foram feitas sondagens geofísicas na Quinta da Manta Rota, tendo sido empregue um aparelho de geomagnetismo, que faz um processo análogo a uma radiografia subterrânaea, permitindo descobrir estruturas enterradas.[2] Estes trabalhos arqueológicos foram realizados no âmbito de um acordo de cooperação entre as Universidades do Algarve e Marburgo, com a colaboração da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e dos proprietários do terreno, e tinham como finalidade aprofundar os conhecimentos sobre os antigos edifícios romanos, permitindo avaliar a sua importância.[2] Os resultados preliminares permitiram a descoberta de várias construções romanas, muito atingidas pelos trabalhos agrícolas, tendo sido identificado um edifício de grandes dimensões, e uma outra estrutura que poderá ter sido um grande forno.[2]
Ver também
- Lista de património edificado em Vila Real de Santo António
- Forno romano de Olhos de São Bartolomeu
- Ruínas romanas de Milreu
- Villa Romana do Montinho das Laranjeiras
- Villa romana da Quinta de Marim
Referências
- ↑ a b c «Manta Rota». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 31 de Dezembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i RODRIGUES, Elisabete (5 de Setembro de 2025). «Investigadores do Algarve e da Alemanha confirmam a importância da villa romana da Manta Rota». Sul Informação. Consultado em 1 de Janeiro de 2026
- ↑ a b c d «Prospeção Geofísica (2009)». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 3 de Janeiro de 2026
- ↑ a b c d e f «Prospeção (2001)». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 2 de Janeiro de 2026
- ↑ «Manta Rota 3». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 31 de Dezembro de 2025
- ↑ VEIGA, 1887:401-402
- ↑ VEIGA, 1887:413
- ↑ «Relocalização/Identificação (2002)». Portal do Arqueólogo. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 2 de Janeiro de 2026
Bibliografia
- VEIGA, Estácio da (1887). Paleoethnologia. Antiguidades monumentaes do Algarve: Tempos prehistoricos. Volume II. Lisboa: Imprensa Nacional. Consultado em 19 de Janeiro de 2026 – via Internet Archive
Ligações externas
- Manta Rota na base de dados Portal do Arqueólogo da Direção-Geral do Património Cultural