Vilina

A vilina é uma proteína que se une à actina de 92,5 kDa específica de tecido associada ao feixe central de actina da bordadura em escova de certas células epiteliais.[1] A vilina contém muitos domínios de tipo gelsolina rodeados no extremo C-terminal por uma pequena região com forma de "auricular" (de 8,5 kDa), consistente num feixe de três hélices de enrolamento rápido e independente, que é estabilizado por interações hidrofóbicas.[2] Este domínio auricular (headpiece na literatura inglesa) é uma proteína frequentemente estudada em dinâmica molecular devido ao seu pequeno tamanho, cinética de enrolamento rápida e à sua curta sequência primária.[3][4]

Estrutura

A vilina consta de sete domínios: seis domínios homólogos que constituem o núcleo do extremo N-terminal e o domínio restante que constitui a carapuça C-terminal.[5] A vilina contém três sítios de união fosfatidilinositol 4,5-bifosfato (PIP2), um dos quais está localizado no auricular e os outros dois na parte central.[6] O domínio central (core) compreende aproximadamente 150 resíduos de aminoácidos agrupados em seis repetições. Nesta zona central está o auricular C-terminal hidrofóbico de 87 resíduos.[7]

O auricular ou headpiece (HP67) é formado por uma compacta cadeia proteica enrolada de 70 aminoácidos no C-terminal. Este auricular contém um domínio de união à actina F. Os resíduos K38, E39, K65, 70-73:KKEK, G74, L75 e F76 rodeiam uma parte central hidrofóbica e crê-se que estão implicados na união da actina F à vilina. Os resíduos E39 e K70 formam uma ponte salina enterrada dentro do auricular, que serve para conectar os extremos N e C-terminais. Esta ponte salina pode também orientar e fixar os resíduos C-terminais implicados na união à actina F, já que, na ausência desta ponte salina, não ocorre esta união. As cadeias laterais do resíduo W64 formam uma “carapuça” hidrofóbica, que está completamente conservada em toda a família da vilina. Sob esta carapuça, existe uma coroa de posições alternadamente carregadas positiva e negativamente.[8]

A vilina pode sofrer modificações pós-traducionais como a fosforilação da tirosina.[9] A vilina tem a capacidade de dimerizar-se e o sítio de dimerização está localizado no extremo amino da proteína.[10]

Expressão

A vilina é uma proteína que se une à actina que se expressa principalmente na bordadura em escova de células epiteliais em vertebrados, mas por vezes expressa-se em todas as partes em plantas e em protistas.[11] A vilina está localizada nas microvilosidades da bordadura em escova do epitélio que reveste o interior do trato digestivo e túbulos renais em vertebrados.[12]

Função

Crê-se que a vilina funciona no agrupamento em feixes, nucleação, cobertura das extremidades (capping) e corte dos filamentos de actina.[13] Em vertebrados, as proteínas vilina colaboram no suporte dos microfilamentos das microvilosidades das bordaduras em escova. No entanto, os ratos knockout parecem mostrar microvilosidades ultraestruturalmente normais, o que indica que a função da vilina não é totalmente compreendida; pode desempenhar um papel na plasticidade celular ao cortar filamentos de actina F.[14]

O núcleo de vilina de seis repetições é o responsável pelo corte da actina em presença de Ca2+, enquanto o auricular se encarrega das uniões cruzadas e formação de feixes (que é independente do Ca). Postula-se que a vilina é uma proteína controladora do corte da actina induzido por Ca2+ nas bordaduras em escova. O Ca2+ inibe a clivagem proteolítica dos dominios do núcleo N-terminal de 6 repetições, a qual inibe o corte da actina.[15] Em ratos normais, o aumento dos níveis de Ca2+ induz o corte da actina pela vilina, enquanto em ratos knockout para a vilina esta atividade não ocorre em resposta à elevação dos níveis de Ca2+.[16] Em presença de baixas concentrações de Ca2+, o auricular da vilina funciona agrupando em feixes os filamentos de actina, enquanto em presença de altas concentrações de Ca2+ a N-terminal cobre e corta estes filamentos.[17]

A associação de PIP2 com a vilina inibe o recobrimento das extremidades da actina e a ação de corte, e aumenta a união da actina na região do auricular, possivelmente por meio de mudanças estruturais na proteína. O PIP2 aumenta a união em feixes da actina não só por diminuir a ação de corte da vilina, mas também ao dissociar as proteínas da carapuça, libertando monómeros de actina das proteínas sequestradoras e estimulando a nucleación da actina e o estabelecimento nela de ligações cruzadas.[18]

Subdomínio de vilina

O subdomínio C-terminal do auricular da vilina VHP67, denominado VHP35, está em parte estabilizado por um grupo enterrado na molécula de três resíduos de fenilalanina. O seu pequeno tamanho e alto conteúdo helicoidal crê-se que promove uma maior rapidez de enrolamento e isto foi confirmado experimentalmente.

Tem uma topologia simples consistente em três hélices α que formam uma zona central hidrofóbica bem compactada.

Referências

  1. Friederich 1999, p. 26751.
  2. Ghoshdastider 2013, p. 775.
  3. Bazari 1988, p. 4986.
  4. Klahre 2000, p. 35.
  5. Bazari 1988, p. 4987.
  6. Meng 2005, p. 11963.
  7. Friederich 1999, p. 26753.
  8. Meng 2005, p. 11965.
  9. Panebra 2001, p. C1046.
  10. George 2007, p. 26528.
  11. Klahre 2000, p. 37.
  12. Meng 2005, p. 11967.
  13. Friederich 1999, p. 26755.
  14. Meng 2005, p. 11970.
  15. Bazari 1988, p. 4989.
  16. Revenu 2007, p. 827.
  17. Friederich 1999, p. 26758.
  18. Bazari 1988, p. 4990.

Bibliografia

  • Bazari, W. L.; et al. (1988). «Villin sequence and peptide map identify six homologous domains». Proceedings of the National Academy of Sciences. 85 (14). pp. 4986–90. doi:10.1073/pnas.85.14.4986 
  • Friederich, E.; et al. (1999). «Villin function in the organization of the actin cytoskeleton». The Journal of Biological Chemistry. 274 (38). pp. 26751–60. doi:10.1074/jbc.274.38.26751 
  • George, S. P.; et al. (2007). «Dimerization and actin-bundling properties of villin». The Journal of Biological Chemistry. 282 (36). pp. 26528–41. doi:10.1074/jbc.M703617200 
  • Ghoshdastider, U.; et al. (2013). «The expanding superfamily of gelsolin homology domain proteins». Cytoskeleton. 70 (11). pp. 775–95. doi:10.1002/cm.21149 
  • Klahre, U.; et al. (2000). «Villin-like actin-binding proteins are expressed ubiquitously in Arabidopsis». Plant Physiology. 122 (1). pp. 35–48. doi:10.1104/pp.122.1.35 
  • Meng, J.; et al. (2005). «High-resolution crystal structures of villin headpiece and mutants». Biochemistry. 44 (36). pp. 11963–73. doi:10.1021/bi050850x 
  • Panebra, A.; et al. (2001). «Regulation of phospholipase C-gamma(1) by the actin-regulatory protein villin». American Journal of Physiology. Cell Physiology. 281 (3). pp. C1046–58. doi:10.1152/ajpcell.2001.281.3.C1046 
  • Revenu, C.; et al. (2007). «Villin severing activity enhances actin-based motility in vivo». Molecular Biology of the Cell. 18 (3). pp. 827–38. doi:10.1091/mbc.E06-05-0423