Viagens de Platão à Sicília

Herma de Platão, Museus Capitolinos, Roma

As viagens de Platão à Sicília teriam ocorrido durante o século IV a.C., abrangendo um período compreendido entre aproximadamente 388 a.C. e 360 a.C., com uma interrupção de cerca de vinte anos entre a primeira e a segunda viagem. Não existe certeza absoluta quanto à autenticidade dessas viagens do filósofo ateniense (nascido em 428 ou 427 a.C. e falecido em 348 ou 347 a.C.), e até mesmo as motivações são controversas: a maioria dos estudiosos considera as viagens reais, mas elas permanecem a parte mais obscura e debatida da biografia de Platão. Fundamental para essa questão é o papel de uma fonte, a Carta VII, possivelmente a única realmente escrita por Platão dentre o epistolário que a tradição lhe atribui.

Todos os biógrafos antigos afirmam que Platão chegou pela primeira vez à Sicília, talvez por volta de 388 a.C., movido pelo desejo de visitar o vulcão Etna. Em Siracusa [it], após conhecer o tirano Dionísio I, Platão, então com quarenta anos, entrou em contato com o jovem nobre Dião, do círculo de Dionísio, que se tornou seu discípulo. Segundo a tradição, quando Platão criticou com suas palavras a tirania, provocando a ira do soberano, foi o próprio Dião quem tentou salvar o mestre, enviando-o às pressas em um navio para Atenas, embora essa viagem tenha terminado com o filósofo sendo escravizado.

As colônias da Magna Grécia e da Sicília

Em 367 a.C., teria ocorrido uma segunda viagem de Platão à Sicília, desta vez convidado por Dião para educar seu sobrinho Dionísio II, filho e sucessor de Dionísio I, com o objetivo de transformá-lo num rei-filósofo. No entanto, a situação política deteriorou-se rapidamente e Dião foi deposto.

Platão teria ido também uma terceira e última vez a Siracusa em 361 a.C., com o intuito de facilitar uma mediação pacífica entre Dionísio II e Dião, mas sem sucesso. Banido da acrópole, pôde regressar a Atenas graças à intervenção dos pitagóricos de Tarento (antiga Taras), que intercederam junto do tirano em seu favor. Durante esse período, ocorreu a expedição militar de Dião, em 357 a.C., contra a tirania siracusana, à qual se seguiu uma fase extremamente turbulenta, com a sucessão de diversos tiranos em Siracusa, até o regresso de Dionísio II em 347/346 a.C. e o subsequente envio, pela metrópole de Corinto, do pacificador Timoleonte, que entre 344 e 337 a.C. restabeleceu a paz na Sicília.

Embora nos diálogos platônicos não haja qualquer referência direta e explícita às viagens à Sicília, parte da crítica moderna acredita ser possível encontrar reminiscências delas na produção literária do filósofo: A República, o Político e as Leis são consideradas permeadas pela experiência da tirania siracusana; o Banquete contém recordações do tempo passado em Siracusa com Dião; por trás do mito da Atlântida, narrado no Timeu e no Crítias, há uma alusão à própria Siracusa.

Fontes

Busto de Plutarco (séculos I–II d.C.). Ele narrou as três viagens de Platão no retrato de Dião, presente nas Vidas Paralelas, com uma conotação fortemente negativa dos dois Dionísios.
Frontispício de uma edição do século XVI em grego e latim das Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres (século III d.C.) de Diógenes Laércio: o terceiro livro é dedicado inteiramente a Platão.

Não existe um retrato inequívoco da vida de Platão (428/427–348/347 a.C.). No que diz respeito às suas viagens, as informações fornecidas pelas fontes antigas são contraditórias e alguns silêncios são notáveis.

As principais fontes sobre as viagens de Platão à Sicília são:[1]

  • a Βιβλιοθήκη ἱστορική (Bibliotheca historica, XV, 7, 1) de Diodoro Sículo (século I a.C.), que menciona apenas a primeira viagem;[2]
  • o retrato de Dião no Liber de excellentibus ducibus exterarum gentium, parte do De viris illustribus de Cornélio Nepos (século I a.C.), que relata apenas a primeira e a segunda viagens;[3]
  • os fragmentos de papiro (ver Papiros de Herculano) da Historia Academicorum, parte da Syntaxis philosophorum (Σύνταξις τῶν φιλοσόφων) de Filodemo de Gádara (século I a.C.), que contêm a biografia mais antiga de Platão preservada, ainda que parcialmente, e que já atestam as viagens sicilianas;[4]
  • o retrato de Dião nas Vidas Paralelas (Βίοι Παράλληλοι) de Plutarco (séculos I–II d.C.);
  • os quatro primeiros capítulos do De Platone et eius dogmate de Apuleio, que constituem a biografia mais antiga de Platão que chegou até nós na íntegra (meados do século II d.C.);[5]
  • o livro III das Vidas dos filósofos (Βίοι καὶ γνῶμαι τῶν ἐν φιλοσοφίᾳ εὐδοκιμησάντων) de Diógenes Laércio (meados do século III d.C.), inteiramente dedicado a Platão;
  • uma biografia escrita pelo alexandrino Olimpiodoro, o Jovem (século VI d.C.), apresentada no início do seu comentário ao Primeiro Alcibíades (Σχόλια εἰς τὸν Πλάτωνος Ἀλκιβιάδην), que fala das três viagens;[6][7][8]
  • uma biografia que inicia os Prolegomena in Platonis philosophiam, tradicionalmente atribuídos a Olimpiodoro, o Jovem, mas escritos no século VI d.C. por um alexandrino,[8][9] na qual apenas a primeira viagem é narrada, motivada pela curiosidade pelo Etna;
  • o verbete da Suda (século X) sobre Platão.[10]

As biografias preservadas tendem a compactar as informações sobre as três viagens (supostamente realizadas ao longo de um período de vinte e oito anos) em passagens únicas no texto, sem respeitar, portanto, a cronologia da vida do filósofo. Às vezes, além disso, dependendo do biógrafo, o mesmo evento é situado na primeira, segunda ou terceira viagem. Por exemplo, Diógenes Laércio (III, 21) fala da intervenção do pitagórico Arquitas em auxílio de Platão no final da segunda viagem, um evento que a Carta VII (350a-b) atribui à terceira viagem. Olimpiodoro ( Em Alcibíade, 2, 118-127) associa à segunda viagem eventos que outras fontes atribuem à primeira.[11]

Nem os diálogos platônicos nem Aristóteles fazem menção às viagens de Platão à Sicília. Nos diálogos, Dião e os dois Dionísios nem sequer são citados, enquanto apenas no pseudo-platônico Eríxias se traça um retrato (muito negativo) dos siracusanos.[12]

Entre os dezoito epigramas tradicionalmente atribuídos a Platão (mas de autenticidade duvidosa), há um dedicado a Dião.[13]

A Carta VII

O início da Carta VII num manuscrito medieval (século IX), o mais antigo que foi conservado (Paris, Bibliothèque Nationale, Codex Parisinus graecus 1807)

A fonte mais importante sobre as viagens de Platão à Sicília é a Carta VII,[14][15] pois tem um caráter substancialmente autobiográfico[16] e o seu núcleo narrativo é precisamente constituído pelas três viagens.[17] A carta pertence a um corpus de treze epístolas, que a tradição por muito tempo atribuiu a Platão.[18] Todas as cartas (exceto a V, a VI, a XI e a XIII) referem-se diretamente aos acontecimentos na Sicília.[19]

Do epistolário, hoje são consideradas autênticas (ainda que não por unanimidade) apenas a VII e, com menor consenso, a VIII.[20]

Segundo Diógenes Laércio (III, 61–62), algumas cartas platônicas (em número não especificado) estavam inseridas no cânone das obras platônicas de Aristófanes de Bizâncio (final do século III a.C.): trata-se da primeira atestação conhecida da existência do corpus. As cartas faziam parte também da nona tetralogia da edição dos escritos de Platão realizada por Trasilo de Mendes (século I d.C.). Sobre o cânone de Trasilo, Diôgenes oferece mais informações, indicando número e destinatários, que são os mesmos do corpus conhecido atualmente.[18][21]

A VII (assim como a VIII) foi endereçada “aos familiares e amigos de Dião” (τοῖς Δίωνος οἰκείοις τε καὶ ἑταίροις) e menciona a morte de Dião (334e), ocorrida pelas mãos de Cálipo em junho de 354 a.C. Deve ter sido escrita antes de julho de 353 a.C., enquanto a VIII é ligeiramente posterior.[22]

Foi Cícero, em meados do século I a.C., o primeiro autor a demonstrar que considerava a Carta VII autêntica, relatando uma passagem fielmente traduzida (326b-c) e definindo-a como "praeclara epistula Platonis ad Dionis propinquos" (Tusculanae disputationes, V, 35, 100),[23][24] mas todo o epistolário deve ter sido considerado autêntico em toda a antiguidade (com a notável exceção de Proclo[25][26]) e obteve imenso sucesso.[27] Plutarco (séculos I-II d.C.) quase certamente se refere à Carta VII para escrever seu retrato de Dião em Vidas Paralelas.[1][12][24][N 1] Há inúmeras referências à coleção de cartas entre os retóricos, gramáticos e historiadores gregos da Antiguidade Tardia.[29]

No século XIX, as cartas eram geralmente consideradas falsas, embora George Grote as tenha reconhecido como verdadeiras,[30] enquanto Eduard Zeller representava o líder dos céticos. Somente a partir da primeira metade do século XX o debate se reacendeu, com diversas nuances e distinções.[14][31][32][33][34]

Aqueles que contestam a autenticidade da Carta VII levantam a hipótese de que o falsificador se inspirou nos diálogos de Platão, inserindo no texto motivos polêmicos típicos do ambiente acadêmico. Aqueles que defendem a autenticidade da carta, contudo, enfatizam a fidelidade do texto ao restante da obra de Platão, argumentando que, se não foi o próprio Platão, pelo menos o autor deve ter sido alguém muito próximo a ele,[35] como seu sobrinho Espeusipo. Se esta segunda hipótese for válida, a carta adquire grande valor documental.[17]

Em 2008, foi descoberto um fragmento de papiro da primeira metade do século III a.C., que contém uma passagem da Carta VIII de Platão.[36]

Historiadores da época

Quanto aos historiadores que viveram na época dos dois Dionísios e escreveram sobre assuntos siciliotas, restam apenas fragmentos de suas obras, citados por autores posteriores.[37] São eles: Filisto de Siracusa, Atanis de Siracusa, Timônides de Lêucade, Timócrates, Polícrito de Mende, Álcimo, Éforo de Cime, Teopompo, Timeu de Tauromênio.[38][39]

De Filisto sabe-se que teve importantíssimos cargos militares na corte de ambos os Dionísios (talvez tenha sido navarco sob o reinado do Jovem), que escreveu uma obra de história (Σικελικά) em treze livros (dos quais os últimos seis são dedicados à época em que viveu) e que em Siracusa foi uma espécie de historiador da corte. Foi exilado por Dionísio I e depois chamado de volta por ocasião da segunda viagem de Platão a Siracusa, quando fez o possível para afastar Dionísio II da influência do filósofo.[39][40]

De Atanis sabe-se que participou da expedição de Dião contra Dionísio II. Escreveu uma história desses eventos em treze livros (que Ateneu de Náucratis intitula História da Sicília, Σικελικά), que parece continuar onde Filisto havia interrompido a sua narração. Os fragmentos sobreviventes da obra de Atânis referem-se todos às vicissitudes de Timoleonte.[41]

Timônides foi um dos acadêmicos que se juntaram à expedição de Dião. Plutarco ( Dion, 35) relata que ele escreveu um relato do que viu a Espeusipo e escreve sobre ele: "ele esteve com Dião desde o início desses eventos". Diógenes Laércio (IV, 5) também cita seu relato. De acordo com Plutarco ( Dion, 30), Dio confiou-lhe o comando pelo menos em uma ocasião.[39]

De Timócrates sabe-se, por Diógenes Laércio (VII, 1, 2), apenas que escreveu uma obra intitulada Vida de Dion ("ὡς Τιμοκράτης ἐν τῷ Δίωνι", “como Timócrates no Dion”).[42]

Parece, ao contrário, que Polícrito tenha vivido na corte de Dionísio II e tenha escrito uma obra intitulada Sobre Dionísio (da qual fala Diógenes Laércio, II, 7, 63: "Φησὶ δὲ Πολύκριτος ὁ Μενδαῖος ἐν τῷ πρώτῳ τῶν Περὶ Διονύσιον ἄχρι τῆς ἐκπτώσεως συμβιῶναι αὐτὸν τῷ τυράννῳ καὶ ἕως τῆς Δίωνος εἰς Συρακούσας καθόδου", "Polícrito de Mende diz em seu primeiro livro Sobre Dionísio que ele viveu com o tirano até sua partida de Siracusa e que ele sobreviveu até o retorno de Dião").[43]

Quanto ao siciliota Álcimo, viveu talvez na corte de Dionísio II e foi autor de uma obra intitulada História da Sicília (FGrHist, 560). Em sua obra A Amintas (do qual restam fragmentos) acusava Platão de ter plagiado o pensamento do siracusano Epicarmo e portanto pode ter sido um adversário do filósofo no ambiente cortesão. A referência a Epicarmo é relevante também porque, segundo a Suda, Dionísio tinha composto uma obra intitulada Sobre os poemas de Epicarmo.[44]

De Éforo sabe-se muito pouco. Foi talvez discípulo de Isócrates e escreveu Histórias em vinte e nove livros. Os últimos dois livros tratavam da Sicília, de 387 (Paz de Antálcidas) até 356 a.C. (conquista de Siracusa por Dião).[39]

Teopompo foi outro discípulo de Isócrates. Escreveu um livro intitulado Φιλιππικά (Philippica) e, numa das muitas digressões do texto, faz um resumo da Sicília dos dois Dionísios.[39]

Timeu escreveu uma história dos gregos na Sicília e na Itália em trinta e oito livros, desde as origens até 264 a.C. Exilado por Agátocles, viveu em Atenas por cinquenta anos e foi talvez nesse período que escreveu a sua obra.[39]

Filisto, Atânis e Timônides foram testemunhas oculares dos fatos. Nem Filisto nem Timónides podem ter lido a Carta VII nem a VIII, pois são posteriores aos seus textos. Atânis talvez as tenha lido, mas era partidário de Heráclides contra Dião. O fato de a sua obra ser uma continuação da de Filisto induz a pensar que o seu ponto de vista fosse antiplatônico.[39] Éforo, Teopompo e Timeu escreveram mais tarde e podem ter lido as cartas.[45] Em particular, Timeu, que viveu grande parte da vida em Atenas, era filho de Andrômaco. Este era tirano de Tauromênio, mas sobretudo aliado de Timoleonte, que foi enviado de Corinto para pôr fim à guerra civil em Siracusa e expulsar os tiranos da ilha. O sentimento antitirânico de Timeu pode ter comprometido a imparcialidade do seu texto, mas é também o que pode tê-lo levado a utilizar o epistolário platônico, caso o tenha podido ler.[46]

As fontes de Diodoro, Nepos, Plutarco

Entre os fragmentos dos historiadores do século IV a.C. mencionados, apenas poucos fazem referência direta à época dionisiana e à revolução de Dião, e não há qualquer conexão aparente entre eles e as cartas VII e VIII. Grande parte do conteúdo da Carta VII pode ter despertado o interesse dos biógrafos de Platão ou dos historiadores do platonismo, mas muito menos o dos historiadores dos eventos siciliotas. A interpretação geral que a Carta VII oferece desses eventos permanece a de que ela se refere à importância da presença de Platão na Sicília, que seria a causa final da queda da tirania de Dionísio, o Jovem (ver 326e-327a).[47]

Se compararmos os textos de Diodoro Sículo e de Cornélio Nepos relativos ao desentendimento entre Dionísio, o Jovem, e Dião, compreende-se com bastante clareza que os dois historiadores se baseiam em duas tradições diferentes. O relato de Diodoro é conciso e bastante convencional. Menciona a presença de Platão apenas na primeira viagem (XV, 7, 1) e não leva em consideração a influência do filósofo ateniense sobre Dion. A fonte de Diodoro deve ter sido Éforo de Cime. Uma pista nesse sentido é o fato de o relato de Diodoro terminar no meio do conflito entre Dion e Dionísio II, em 356 a.C., o mesmo ano em que termina a narrativa das Histórias de Éforo.[48] O relato de Nepos, por sua vez, é mais detalhado e também menos estereotipado (por exemplo, em relação à atitude do tirano), e parece ser o mais credível.[49] A ele corresponde em grande parte o relato de Plutarco, que parece inspirar-se nas mesmas fontes de Nepos. Na tradição de Diodoro parece não haver qualquer traço dos eventos narrados no epistolário platônico, enquanto acontece o contrário para a fonte de Nepos e Plutarco. Plutarco é, em geral, mais detalhado que Nepos, mas a interpretação básica é a mesma: a queda da tirania dionisiana deve-se ao interesse de Dion pela filosofia e à influência de Platão sobre ele. A ordem dos eventos também é muito semelhante nos dois. Pode-se mesmo supor que a fonte de Plutarco seja o próprio Nepos, mas isso é muito pouco provável, tanto porque Plutarco apresenta muito mais detalhes quanto porque nunca faz referência direta a Nepos. Que a fonte comum a Nepos e Plutarco seja compatível com a narração da Carta VII vê-se também pela facilidade com que Plutarco utiliza a Carta VII para completar o próprio relato. Que essa não seja a mesma Carta VII fica evidente pelo fato de que essa fonte adicional oferece detalhes que não estão presentes na carta. Os estudiosos acreditam que esta fonte, comum a Nepos e Plutarco, é Timeu de Tauromênio.[50]

De um trecho de Plutarco (Dion, 14, 4: ταύτην ἀναγνοὺς Διονύσιος Φιλίστῳ καὶ μετ᾽ ἐκείνου βουλευσάμενος, ὥς φησι Τίμαιος, ὑπῆλθε τὸν Δίωνα πεπλασμέναις διαλύσεσι) pode-se deduzir que a fonte de Timeu seja Filisto. Todo o relato de Nepos (assim como o de Plutarco) tem o aspecto de uma reconstrução a partir do interior, oferecida por testemunhas oculares e pelos próprios protagonistas da história (como foi o caso de Filisto). Considerando a meticulosidade de Timeu, já reconhecida pelos antigos, é fácil imaginar que ele tenha usado a obra de Filisto,[46] e um trecho de Plutarco (Dion, 36, 1) parece atestá-lo diretamente.[51] Outras possíveis fontes para Timeu são Timônides e Atânis, bem como a própria Carta VII.[52]

Contexto histórico

A Morte de Sócrates (Jacques-Louis David, Museu Metropolitano de Arte)

Platão cresceu nos anos da Guerra do Peloponeso (431–404 a.C.): quando nasceu ela já durava quatro anos e ele tinha vinte e vinte e três quando terminou.[53] Poucos anos antes da sua efebia, em 413 a.C., a expedição ateniense à Sicília representou uma séria derrota para os atenienses e o doloroso aprisionamento de muitos soldados nas pedreiras de Siracusa.[N 2] O acontecimento teve muitas consequências políticas para o Mediterrâneo: a derrota de Atenas deu, sobretudo, destaque ao novo papel e poder de Siracusa.[N 3] A isto seguiu-se em 412 a.C. a expedição siciliana no mar Egeu, comandada pelo general siracusano Hermócrates (figura que Platão mais tarde elogiaria por suas qualidades como estadista[N 4]), ao lado de Esparta, na continuação da mesma guerra.[56] Segundo Diógenes Laércio (III, 6), que não indica a sua fonte sobre este ponto,[N 5] foi por volta dos vinte anos que Platão conheceu Sócrates e, como outros jovens atenienses da época, tornou-se seu discípulo.[57]

Desde então, aos vinte anos de idade, dizem que começou a ser discípulo de Sócrates.


Τοὐντεῦθεν δὴ γεγονώς, φασίν, εἴκοσιν ἔτη διήκουσε Σωκράτους.

— Diôgenes Laércio, III, 6[58] (em grego clássico)

Atenas foi finalmente derrotada pelas forças espartanas na batalha de Egospótamo (405 a.C.): a derrota da política democrática e talassocrática de Atenas favoreceu a ascensão (404 a.C.) do governo oligárquico dos Trinta Tiranos, cujo líder foi Crítias, tio de Platão.[N 6] O regime dos “trinta” (οἱ τριάκοντα, hòi triàkonta: assim eram chamados pelas fontes antigas) durou apenas oito meses: foi derrubado em setembro de 403 a.C. pelos exilados democráticos que retornaram, liderados por Trasíbulo.

Platão, desiludido com os males da época (ἀπὸ τῶν τότε κακῶν), profundamente afetado pela condenação à morte de Sócrates em 399 a.C.,[60] decidiu, segundo relata Diôgenes Laércio (III, 6), deixar Atenas aos vinte e oito anos de idade. Filodemo ( Historia Academicorum, col. X, 7) afirma, por sua vez, que Platão partiu de Atenas aos vinte e sete anos.[61][62]

Entretanto, em 405 a.C. (ou talvez alguns anos antes), o militar Dionísio, mais tarde chamado de “o Grande” ou “o Velho”, conseguiu impor a tirania em Siracusa, derrubando a democracia estabelecida na polis em 465 a.C., ano da morte de Trasíbulo, o último tirano da dinastia dos Dinomênidas.[63] O próprio Dionísio se proclamou στρατηγὸς αὐτοκράτωρ (strategós autokrátor, ou seja ‘general com poderes ilimitados’[64])[N 7] num momento de forte tensão política na Sicília grega, seriamente ameaçada pela invasão dos Cartagineses.[65][N 8] Naquele tempo, Siracusa era a cidade mais importante da Magna Grécia e provavelmente a mais rica e a maior de todo o mundo grego, com um domínio que se estendia por quase toda a Sicília e boa parte do sul da Itália. Dionísio governará até 367 a.C., ano da sua morte.[64]

As viagens

Mégara, Cirene, Magna Grécia, Egito

Retrato de um pitagórico, talvez o próprio Pitágoras, mas tradicionalmente reconhecido como Arquitas de Tarento (cópia romana da Vila dos Papiros em Ercolano). Arquitas, filósofo e estratego da cidade de Taras, foi destinatário das cartas IX e XII. Segundo a Carta VII, o pitagórico tarantino estava em contato com Platão e com Dionísio II de Siracusa. Intercedeu junto deste último em favor de Platão, por ocasião da terceira e última viagem. Junto com Filolau, Arquitas é uma figura importante para compreender a relação entre o platonismo e o pitagorismo.[67]

Se fosse dado crédito a diversas fontes antigas, de caráter biográfico e anedótico, as viagens de Platão após a morte de Sócrates não se teriam limitado à Magna Grécia e à Sicília. Ter-se-ia, de fato, deslocado também a Mégara na Ática, a Cirene na Líbia e a Heliópolis no Egito.[68]

A viagem de Platão ao Egito é mencionada por Cícero (De re publica, I, 16; De finibus bonorum et malorum, V, 29, 87), Quintiliano (Institutio oratoria, I, 12, 15) e Valério Máximo (Factorum et dictorum memorabilium, VIII, 7, ext. 3). Segundo Apuleio (De Platone et eius dogmate, I, 3, 186), Platão teria tido intenção de ir até à Índia e aos Magos, mas desistiu devido às guerras asiáticas em curso (atque ad Indos et Magos intendisset animum, nisi tunc eum bella vetuissent Asiatica).[N 9] Cícero também (Tusculanae disputationes, IV, 19, 44) escreve que Platão visitou ultimas terras.[N 10]

É bastante provável que grande parte destas viagens sejam fruto de invenções modeladas segundo o topos do filósofo viajante:[68] Orfeu, Licurgo, Homero, Tales, Sólon, Pitágoras, Enopides, Demócrito, mas também Eudoxo de Cnido, ter-se-iam todos deslocado ao Egito ou entre os Caldeus para aprender diversas disciplinas (entre as quais matemática, geometria, astrologia e os princípios da transmigração das almas).[N 11]

Diógenes Laércio (III, 6) refere-se a Hermódoro para descrever as viagens de Platão. Depois de relatar sua estadia em Mégara, onde Platão teria sido hospedado por Euclides, e depois em Cirene com Teodoro, Diógenes prossegue afirmando que o filósofo se dirigiu à Magna Grécia, junto dos pitagóricos Filolau e Eurito, e conclui contando sobre a viagem de Platão ao Egito, que ele teria feito na companhia de Eurípides.[70][71]

Aos vinte e oito anos, segundo Hermódoro, refugiou-se em Mégara com Euclides e outros discípulos de Sócrates. Depois, partiu para Cirene, onde estudou com o matemático Teodoro. Dali, seguiu para a Itália, onde se juntou aos pitagóricos Filolau e Eurito. Daí, foi para o Egito, junto dos profetas. Dizem que Eurípides também o acompanhou.


Εἶτα γενόμενος ὀκτὼ καὶ εἴκοσιν ἔτη, καθά φησιν Ἑρμόδωρος, εἰς Μέγαρα πρὸς Εὐκλείδην σὺν καὶ ἄλλοις τισὶ Σωκρατικοῖς ὑπεχώρησεν. Ἔπειτα εἰς Κυρήνην ἀπῆλθε πρὸς Θεόδωρον τὸν μαθηματικόν· κἀκεῖθεν εἰς Ἰταλίαν πρὸς τοὺς Πυθαγορικοὺς Φιλόλαον καὶ Εὔρυτον. Ἔνθεν τε εἰς Αἴγυπτον παρὰ τοὺς προφήτας· οὗ φασι καὶ Εὐριπίδην αὐτῷ συνακολουθῆσαι

— Diógenes Laércio, III, 6[58] (em grego clássico)

Não está claro, entretanto, se a autoridade de Hermódoro é invocada por Diógenes apenas em relação à viagem para Mégara ou também às viagens à Líbia, à Itália e ao Egito. Segundo William Calder,[72] Eudoxo de Cnido teria acompanhado Platão ao Egito,[73] o que devolveria certa credibilidade a todo o trecho. Um encontro com Filolau se encaixa bem no contato que, segundo Diógenes Laércio (VIII, 7 e em outros lugares), Platão teria tido com os círculos pitagóricos de Crotona em sua primeira viagem à Sicília.[74]

Filodemo, que se cala sobre as outras viagens,[71] faz referência à viagem de Platão à Itália e à Sicília:

Platão, que fora discípulo de Sócrates e o perdera ainda bastante jovem, aos vinte e sete anos, dirigiu-se à Sicília e à Itália meridional, onde se uniu aos pitagóricos. Depois de ter estado com eles por algum tempo, entrou em contato com Dionísio, chamado de o Velho.

— Historia Academicorum, col. X, 7[4]

A viagem à Itália é atestada também pela Carta VII (326b), que a liga à viagem à Sicília. O mesmo se verifica com Cornélio Nepos (Dione, 2, 2) e Plutarco (Dion, 4, 2).

Segundo Cícero (De re publica, I, 16), Platão foi a Tarento para aprender com Arquitas as doutrinas de Pitágoras:[75][N 12]

Creio que você sabe, Tuberão, que Platão, após a morte de Sócrates, foi ao Egito para estudar e, depois, à Itália e à Sicília para aprender as novas doutrinas de Pitágoras. Ele se deteve por muito tempo com Arquitas de Tarento e Timeu de Lócris e, porventura, encontrou os escritos de Filolau. Como, naquela época, o nome de Pitágoras era famoso naqueles lugares, ele se entregou aos pitagóricos e àqueles estudos.


sed audisse te credo, Tubero, Platonem, Socrate mortuo, primum in Aegyptum discendi causa, post in Italiam et in Siciliam contendisse, ut Pythagorae inventa perdisceret, eumque et cum Archyta Tarentino et cum Timaeo Locro multum fuisse et Philolai commentarios esse nanctum; cumque eo tempore in his locis Pythagorae nomen vigeret, illum se et hominibus Pythagoreis et studiis illis dedisse.

— Cícero, De re publica, I, 16[76] (em latim)

O próprio Cícero (De finibus bonorum et malorum, V, 29, 87)[N 13] e Valério Máximo (Fatos e ditos memoráveis, VIII, 7, ext. 3)[N 14] afirmam que a viagem à Magna Grécia ocorreu após a viagem ao Egito, e mencionam os nomes dos pitagóricos encontrados em Tarento (Arquitas)[77] e em Lócris (Equécrates, Timeu, Acrion).[78] Em Diógenes Laércio, porém, as viagens à Itália e à Sicília não são apresentadas em conjunto, mas a viagem à Itália é seguida pela viagem ao Egito.[79]

Olimpiodoro (In Gorgiam, 41, 6–7), assim como Diógenes Laércio, faz referência a uma longa peregrinação de Platão por diferentes partes do mundo então conhecido, em busca dos maiores sábios da época. Na Sicília, ele encontrou os pitagóricos, que lhe transmitiram os mais altos níveis de conhecimento matemático, geométrico e astronômico. Em Cirene, na Líbia, estudou geometria com Teodoro. De lá, partiu para o Egito, onde voltou a estudar astronomia. Nesse ponto, continua Olimpiodoro, ele retornou à Sicília para estudar as crateras do Etna e encontrar os pitagóricos.[80]

Há mais documentação disponível sobre as três viagens do filósofo à Sicília.[N 15] Ele chegou lá pela primeira vez entre 388 a.C. e 387 a.C.

Primeira viagem à Sicília (388–387 a.C.)

Quase todas as fontes antigas atestam que Platão se teria dirigido à ilha movido pela curiosidade de ver o vulcão Etna. Diógenes Laércio também aponta essa razão, mas relaciona o relato ao episódio de altercação entre Dionísio, o Velho, e Platão, que resultou no afastamento do filósofo da corte e em sua escravização (esta linha é parcialmente compartilhada por Plutarco).[81]

O foco central da Carta VII é, em vez disso, o encontro com o jovem príncipe siracusano Dion: a carta não explica os motivos da viagem – muito menos o de estudar o Etna – e não menciona o encontro com o tirano ou a escravidão.[81] O relato é, no geral, sucinto (326b–327b).[82] Platão declara (324a) ter cerca de quarenta anos e com base nesta informação data-se a viagem:

Quando cheguei a Siracusa pela primeira vez, aos quarenta anos, Dion tinha a idade que Hiparino tem hoje.


ὅτε γὰρ κατ᾽ ἀρχὰς εἰς Συρακούσας ἐγὼ ἀφικόμην, σχεδὸν ἔτη τετταράκοντα γεγονώς, Δίων εἶχε τὴν ἡλικίαν ἣν τὰ νῦν Ἱππαρῖνος γέγονεν [...].

— Carta VII, 324a[83][N 16] (em grego clássico)

O Etna

O vulcão Etna em erupção (ilustração de Alessandro D'Anna, final do século XVIII). Segundo a tradição, Platão teria visitado as crateras do Etna.

O testemunho mais antigo a respeito do interesse pelo Etna como motivo da viagem seria o do historiador grego Egesandro (século II a.C.), citado textualmente por Ateneu de Náucratis (Deipnosofistas, XI, 507a-b). O interesse pelo Etna é retomado por Apuleio (De Platone et eius dogmate, I, 4, 189), por Diógenes Laércio (III, 18), por Olimpiodoro (In Alcibiadem, 2, 94–96 e In Gorgiam, 41, 7) e pelos anônimos Prolegomena (4, 11–13).[84]

Egesandro nos seus Ὑπομνήματα em Ateneu (XI, 507b) escreve que Platão quis subir às crateras do Etna τῶν ῥυάκων χάριν, para ver "as torrentes de lava" que fluíam da montanha.[85]

Apuleio escreve:

Quanto às três viagens à Sicília, certamente os maliciosos o criticam, sustentando opiniões discordantes. A primeira viagem foi por razões científicas, ou seja, para conhecer a natureza do Etna e suas erupções; a segunda, a pedido de Dionísio, para ajudar os siracusanos e estudar as leis municipais da região; e a terceira, para trazer de volta à pátria o exilado Dion, após obter a autorização de Dionísio.


Ceterum tres ad Siciliam adventus mali quidem carpunt diversis opinionibus disserentes. Sed ille primo historiae gratia, ut naturam Aetnae et incendia concavi montis intellegeret, secundo petitu Dionysi, ut Syracusanis adsisteret, est profectus, et ut municipales leges eius provinciae disceret; tertius eius adventus fugientem Dionem impetrata a Dionysio venia patriae suae reddidit.

— Apuleio, De Platone et eius dogmate, I, 4, 188–189[86] (em latim)

O trecho de Diógenes Laércio é o seguinte:

Ele viajou para a Sicília por mar três vezes. Da primeira vez, foi para conhecer a ilha e suas crateras. Foi quando Dionísio, filho de Hermócrates, o tirano, o obrigou a visitá-lo.


Τρὶς δὲ πέπλευκεν εἰς Σικελίαν· πρῶτον μὲν κατὰ θέαν τῆς νήσου καὶ τῶν κρατήρων, ὅτε καὶ Διονύσιος ὁ Ἑρμοκράτους τύραννος ὢν ἠνάγκασεν ὥστε συμμῖξαι αὐτῷ.

— Diôgenes Laércio, III, 18[87] (em grego clássico)

No Fedão (111d-e) Sócrates menciona a Sicília e os rios de lava e lama que lá se encontram:

E sob a terra há também quantidades imensas de rios perenes, de águas quentes e frias, de fogo, de grandes rios de fogo e de muitos rios de lama líquida, ora um pouco mais clara, ora um pouco mais lodosa, como os rios de lama que fluem antes da lava e depois a própria lava, como na Sicília.


καὶ ἀενάων ποταμῶν ἀμήχανα μεγέθη ὑπὸ τὴν γῆν καὶ θερμῶν ὑδάτων καὶ ψυχρῶν, πολὺ δὲ πῦρ καὶ πυρὸς μεγάλους ποταμούς, πολλοὺς δὲ ὑγροῦ πηλοῦ καὶ καθαρωτέρου καὶ βορβορωδεστέρου, ὥσπερ ἐν Σικελίᾳ οἱ πρὸ τοῦ ῥύακος πηλοῦ ῥέοντες ποταμοὶ καὶ αὐτὸς ὁ ῥύαξ.

— Platão, Fedão, 111d-e[88] (em grego clássico)

Isso pode sugerir que Platão tenha presenciado pessoalmente uma das erupções do Etna[89][N 17] ou, ao contrário, que os biógrafos de Platão, com base na passagem do Fedão, supuseram que ele visitou o Etna.[91][N 18]

Platão em Siracusa

Suposto busto de Platão encontrado em Delfos

Segundo o relato de Cornélio Nepos (Dione, 2, 2), o convite para Platão à corte de Siracusa chegou pela insistência de Dião, depois que se soube da presença do filósofo em Tarento.[95]

Quando a notícia da chegada de Platão a Tarento se difundiu na Sicília e Dion ardia do desejo de conhecê-lo, Dionísio não pôde negar ao jovem a permissão de convidá-lo. Com a autorização obtida, o filósofo foi acompanhado a Siracusa com grande séquito, e Dion o acolheu com reverente afeto, dedicando-se inteiramente a ele. Platão correspondeu-lhe com igual simpatia.


Qui quidem, cum Platonem Tarentum venisse fama in Siciliam esset perlata, adulescenti negare non potuit, quin eum arcesseret, cum Dion eius audiendi cupiditate flagraret. Dedit ergo huic veniam magnaque eum ambitione Syracusas perduxit. Quem Dion adeo admiratus est atque adamavit, ut se totum ei traderet: neque vero minus Plato delectatus est Dione

— Cornélio Nepos, De viris illustribus, X, Dion, 2, 2–3, tradução de Leopoldo Agnes (em latim)

A Carta VII conecta a viagem à Itália à viagem à Sicília, mas não esclarece como ou por que Platão chegou à ilha (em 326d-e há uma referência a "poderes superiores" não especificados: τῶν κρειττόνων ἀρχὴν βαλέσθαι[96]) e, sobretudo, não fala de nenhum encontro com Dionísio o Velho (o tirano é lembrado em 331e-332a, onde é comparado, para sua desonra, a Dario I da Pérsia[N 19]).[91][97]

Diodoro Sículo (XV, 7, 1) escreve que Platão foi convocado pelo tirano, interessado pela sua parrésia (Μεταπεμψάμενος γὰρ τὸν ἄνδρα τοῦτον τὸ μὲν πρῶτον ἀποδοχῆς ἠξίου τῆς μεγίστης, ὁρῶν αὐτὸν παρρησίαν ἔχοντα ἀξίαν τῆς φιλοσοφίας, "Após tê-lo convidado, inicialmente o manteve na mais alta consideração, ouvindo-o falar com a liberdade digna de um filósofo"[98]). Plutarco (Dion, 4, 1) atribui à fortuna a vinda de Platão (θείᾳ τινὶ τύχῃ Πλάτωνος εἰς Σικελίαν παραβαλόντος, κατ' οὐδένα λογισμὸν ἀνθρώπινον, "quando por alguma fortuna divina Platão chegou à Sicília, sem qualquer intenção humana"). Segundo Diógenes Laércio (III, 18), o filósofo foi forçado pelo tirano a ir à sua corte. Olimpiodoro, por sua vez, escreve (e é a única fonte antiga a fazê-lo) que Platão foi a Siracusa com a clara intenção de transformar a tirania em aristocracia.[99][N 20]

O contexto histórico que serve de pano de fundo ao suposto encontro entre o tirano e o filósofo é o de 388 a.C.: um ano particularmente cheio de eventos políticos na vida de Dionísio I. Segundo Justino (Epitoma Historiarum Philippicarum Pompei Trogi, XX, 5, 4–6), foi o ano em que os sênones, que poucos meses antes tinham incendiado Roma (390 a.C. Varr. igual a 388/386 a.C.),[100] vieram pedir-lhe amizade e aliança, obtendo-as.[101] É também o ano em que Lísias acusou publicamente o governo de Dionísio de representar uma ἀσεβεστάτη τυραννίς, "uma tirania mais do que ímpia" (Diodoro Sículo, XIV, 109, 3).[102] Na Grécia continental chegou-se a temer uma invasão por parte das forças militares de que o tirano dispunha em grande quantidade e temia-se um acordo secreto entre Dionísio e a Pérsia, na pessoa de Artaxerxes II, para dividir as futuras terras conquistadas.[103][104]

Parte da historiografia moderna enxerga, nos interesses silenciados pelos historiadores antigos, de Dionísio I em levar Platão à corte, a intenção do tirano de restabelecer relações pacíficas com Atenas, sobretudo porque Esparta mostrava-se ora fria, ora contrária aos seus movimentos políticos.[105] Além disso, Dionísio I tinha o costume de se cercar de homens de letras, segundo alguns, para estabelecer uma organização de consenso, explorando sua eloquência para propagar sua própria política,[106] ou para afirmar, nas palavras de Sanders, seu próprio "papel filosófico".[107]

Apesar do que Diógenes Laércio relatou, pode-se presumir que, se Platão não veio com a intenção de influenciar e implementar uma mudança na política siciliana, ele aceitou de bom grado o convite para a corte, já que estava interessado em conhecer pessoalmente o principal arquiteto de uma tirania que já era muito conhecida militar, política e culturalmente.[108]

O encontro com Dion

O episódio central da primeira viagem de Platão à Sicília é o encontro com o príncipe siracusano Dião. A Carta VII (327b-c) relata o encontro e como Dião tornou-se amigo e discípulo predileto de Platão.[109][110] Na parte inicial da carta, sua figura é brevemente retratada: Platão destaca sua inteligência e amor pela virtude.[N 21]

Por isso, até a morte de Dionísio, foi odiado por aqueles que estavam habituados a viver segundo os costumes da tirania.


ὅθεν ἐπαχθέστερον τοῖς περὶ τὰ τυραννικὰ νόμιμα ζῶσιν ἐβίω μέχρι τοῦ θανάτου τοῦ περὶ Διονύσιον γενομένου

— Carta VII, 327b (em grego clássico)

Dion era filho de Hipparino, um aristocrata que, juntamente com Filisto, havia apoiado a ascensão de Dionísio I. Segundo a Carta VIII (353a-b), Hipparino havia sido proclamado τύραννος αὐτοκράτωρ (týrannos autokrátor) juntamente com Dionísio (ἐπὶ σωτηρίᾳ τῆς Σικελίας αὐτοκράτορας, ὥς φασιν, τυράννους ἐπονομάζοντες). O pai de Dion, entretanto, não aparece no relato de Diodoro (XIII, 94). Aristóteles (Política, 1306a) sublinha a importância do apoio de Hipparino à ascensão de Dionísio, enquanto Plutarco (Dion, 3, 2) relata que Hipparino governava juntamente com Dionísio (Διονυσίῳ συνάρξαντος) quando este se tornou strategós autokrátor (πρωτεύσαντος ἀνδρὸς Συρακουσίων καὶ Διονυσίῳ συνάρξαντος ὅτε πρῶτον αὐτοκράτωρ ἐπὶ τὸν πόλεμον ᾑρέθη στρατηγός).[111][112] De acordo com Morrow, o fato de a Carta VIII especificar (353b) que Hipparino serviu como conselheiro sênior de Dionísio (σύμβουλον δὲ καὶ πρεσβύτερον Ἱππαρῖνον) acrescenta verossimilhança à imagem oferecida pela carta.[113]

Se a descrição de seu pai Hiparino for precisa, podemos inferir que Dion era um aristocrata com sentimentos antidemocráticos,[114] mas sua disposição e caráter o colocavam em conflito com o clima licencioso da corte dionisíaca. Ele era, portanto, a figura mais adequada para concretizar as esperanças de reforma que encontramos expressas na Carta VII.[115] De um lado, era uma figura proeminente na corte e um aliado precioso aos olhos do tirano (parece ter sido um diplomata habilidoso e talvez tenha sido enviado a Cartago nessa função[116]) e com Dionísio tinha, aliás, estreito vínculo de parentesco (Dion havia se casado com Arete, filha de Dionísio, enquanto sua irmã Aristômaca era uma das duas esposas do tirano). Por outro lado, tinha a índole filosófica que Platão procurava na classe dominante. De fato, o contraste traçado entre o caráter de Dion e o da cidade é forte: Siracusa é devotada à perdição, à boa comida (a proverbial Συρακοσία τράπεζα, a "mesa siracusana", que também é mencionada na República, 404d) e aos prazeres da carne.[117] O absolutismo de Dionísio I "com o seu descarado desprezo pela lei e pela constituição, era a contrapartida política da frouxidão moral prevalecente", como escreve Morrow.[115]

Por outro lado, como escreve Finley, “a alegada conversão de Dion ao caminho platônico em 387 não produziu quaisquer efeitos externos óbvios nos vinte anos em que continuou a servir o tirano, acumulando assim riqueza e poder”.[118] De fato, não há informações de qualquer tentativa de Dion de pressionar Dionísio I a realizar qualquer reforma e as fontes, pelo contrário, retratam-no como sendo bastante conformista com a política do tirano. No entanto, assumiu papéis importantes talvez apenas na última parte da tirania de Dionísio I.[119] Plutarco (Dion, 5, 8–10) atesta, contudo, a parrésia com que Dion podia dirigir-se ao tirano.[120]

O encontro com o príncipe siracusano marcou profundamente a vida de Platão.[110] Dion, de vinte anos, foi chamado de "o Eros filosófico de Platão".[121] As fontes antigas e a crítica moderna falam de um amor entre os dois.[N 22] Muitos também argumentam que o Banquete de Platão é uma reminiscência do tempo passado com Dion na Sicília.[123]

Acima de tudo, o peso histórico do encontro é imensurável se, como atesta a Carta VII (326e-327a), ele representa a razão final para a queda da tirania trinta anos depois.[47]

Com esses pensamentos, que se somavam aos anteriores, vim a Siracusa, e talvez por acaso ou por desígnio divino, exatamente então começaram os acontecimentos envolvendo Dion e os siracusanos. Temo que aconteça algo pior se não derem ouvidos aos conselhos que agora lhes dou pela segunda vez. Por que digo que tudo começou quando cheguei à Sicília? Porque, em meus encontros com Dion, que era jovem na época, eu expunha minha opinião sobre o que considero o maior bem para os homens e o aconselhava a colocá-la em prática. Assim, temo ter contribuído, sem perceber, de algum modo, para a queda da tirania.


Ταῦτα δὴ πρὸς τοῖς πρόσθε διανοούμενος, εἰς Συρακούσας διεπορεύθην, ἴσως μὲν κατὰ τύχην, ἔοικεν μὴν τότε μηχανωμένῳ τινὶ τῶν κρειττόνων ἀρχὴν βαλέσθαι τῶν νῦν γεγονότων πραγμάτων περὶ Δίωνα καὶ τῶν περὶ Συρακούσας: δέος δὲ μὴ καὶ πλειόνων ἔτι, ἐὰν μὴ νῦν ὑμεῖς ἐμοὶ πείθησθε τὸ δεύτερον συμβουλεύοντι. πῶς οὖν δὴ λέγω πάντωνἀρχὴν γεγονέναι τὴν τότε εἰς Σικελίαν ἐμὴν ἄφιξιν; ἐγὼ συγγενόμενος Δίωνι τότε νέῳ κινδυνεύω, τὰ δοκοῦντα ἐμοὶ βέλτιστα ἀνθρώποις εἶναι μηνύων διὰ λόγων καὶ πράττειν αὐτὰ συμβουλεύων, ἀγνοεῖν ὅτι τυραννίδος τινὰ τρόπον κατάλυσιν ἐσομένην μηχανώμενος ἐλάνθανον ἐμαυτόν.

— Carta VII, 326e-327a[124] (em grego clássico)

A Carta VII não menciona Dionísio I em relação ao encontro com Dion. Este silêncio, assim como o tom do relato de Plutarco (Dion, 4, 3), levaram Brian Caven a sugerir a possibilidade de que Platão não tenha sido convidado à corte, mas tenha ido à Sicília "como um turista curioso".[125] Debra Nails observa, no entanto, que tal hipótese torna difícil entender como Platão e Dion poderiam ter se encontrado, visto que a família do tirano residia na fortaleza de Ortígia, separada da população.[126]

O encontro com Dionísio, o Velho

Creso recebe Sólon num quadro de Gerard van Honthorst de 1624 (Solon en Croesus). A tradição do encontro entre Platão e Dionísio I retoma alguns motivos ilustrados por Heródoto (I, 29–33) em relação ao encontro entre o rei da Lídia e o sábio ateniense.

O encontro entre o tirano Dionísio e o filósofo Platão pertence a uma anedota que remonta pelo menos a Filodemo (Historia Academicorum, col. X, 10–16). Aparece também em Plutarco (Dion, 5, 1–5), em Diógenes Laércio (III, 18), em Olimpiodoro (In Alcibiadem, 2, 97–110; In Gorgiam, 41, 7), mas não em Apuleio.[11] Nos anônimos Prolegomena, apenas há uma alusão rápida. (4, 15): Εἶτ' ἐκεῖθεν ἐπὶ Σικελίαν ἀφίκετο, τοὺς ἐν Αἴτνῃ κρατῆρας ἱστορῆσαι βουλόμενος, ὅτε καὶ τὴν πρὸς Διονύσιον ἔντευξιν ἐποιήσατο, "Então, de lá [da Pérsia] ele veio para a Sicília, para observar a cratera no Etna: nesta ocasião, ele entrou em contato com Dionísio."[127][128] A Carta VII omite completamente o relato do evento[129] e é possível que ele nunca tenha acontecido, visto que o tirano estava envolvido no cerco de Régio.[130]

Os motivos do encontro são apresentados de diversas maneiras pelas fontes: segundo Plutarco (Dion, 4, 6-7), Dion organizou o encontro entre Dionísio e Platão, na esperança de despertar o interesse do tirano pela filosofia. Olimpiodoro (In Alcibiadem) afirma que Platão foi a Siracusa com o objetivo específico de convencer Dionísio a reformar a tirania rumo a um regime aristocrático, enquanto In Gorgiam afirma que Dion pediu a Platão para que este convencesse o tirano a moderar seu governo. Por fim, Diógenes Laércio escreve que foi o tirano quem forçou Platão a se encontrar com ele.[131]

O motivo do filósofo que tenta em vão influenciar os poderosos é antigo. Encontra-se, por exemplo, em Heródoto, o qual, nas suas Histórias (I, 29–33), conta o encontro entre Sólon e Creso. O riquíssimo rei da Lídia perguntou ao legislador ateniense quem era o homem mais sortudo (I, 30, 2: νῦν ὦν ἐπειρέσθαι με ἵμερος ἐπῆλθέ σε εἴ τινα ἤδη πάντων εἶδες ὀλβιώτατον) e, ao saber que se tratava de um certo Telo de Atenas, que tivera bons filhos, que vivera o suficiente para ver o nascimento dos netos e que morrera em batalha com valor, a ponto de ganhar um funeral às custas da cidade, ficou decepcionado. A parrésia (παρρησία, 'franqueza') de Sólon, de que fala também Diodoro Sículo (IX, 2, 2), é totalmente análoga à que Platão oferece a Dionísio. Os fragmentos de Filodemo (Historia Academicorum, col. X, 13) e Diodoro Sículo (XV, 7, 1) já relatam a parrésia de Platão. De Filodemo não é possível deduzir a resposta dada por Platão ("Dionísio ficou ofendido com a franqueza de Platão, pois, quando indagou sobre quem o filósofo considerava particularmente afortunado, ele não o mencionou..."[4]).[132]

Plutarco oferece um relato diferente do formato de perguntas e respostas, apresentando uma síntese do encontro, que termina com uma expressão de irritação por parte do tirano. Inicialmente, eles discutem sobre coragem (ἀνδρεία), e Platão observa que os tiranos são os homens menos corajosos.[N 23] Depois discutem sobre justiça (δικαιοσύνη) e Platão observa que a vida do homem justo é feliz, enquanto a do homem injusto é abjeta (ὡς μακάριος μὲν ὁ τῶν δικαίων, ἄθλιος δὲ ὁ τῶν ἀδίκων βίος).[N 24] Dionísio sente-se numa posição de fraqueza, também porque o público fica do lado do filósofo, admirando-o, e por isso pergunta ao filósofo por que foi para a Sicília. A isso, Platão responde que está ali para procurar um homem virtuoso (ἀγαθὸν ἄνδρα ζητεῖν). Dionísio encerra a discussão observando que evidentemente ainda não o encontrou (ἀλλὰ νὴ τοὺς θεοὺς,' εἶπε, 'καὶ φαίνῃ μήπω τοιοῦτον εὑρηκώς).[134][135][136]

A estrutura da versão de Diógenes Laércio assemelha-se à de Plutarco. O filósofo e o tirano discutem sobre virtude e tirania. Quando Platão observa que o interesse do tirano não coincide com o bom governo, se o tirano não for virtuoso (φάσκων ὡς οὐκ ἔστι τὸ τοῦ κρείττονος συμφέρον αὐτὸ μόνον, εἰ μὴ καὶ ἀρετῇ διαφέροι), Dionísio, ofendido, diz ao filósofo que suas palavras cheiram a "demência senil", ao que o ateniense responde: "E as suas cheiram a tirania" (Σοῦ δέ γε τυραννιῶσιν).[137][138]

Olimpiodoro relata o diálogo tanto no comentário In Alcibiadem[139] quanto no In Gorgiam e o estrutura em uma série de perguntas e respostas, mas as perguntas que apresenta são parcialmente diferentes nos dois comentários. A primeira pergunta em ambos os comentários é igual à relatada por Filodemo, quem é o homem mais afortunado (εὐδαίμων), e a resposta é Sócrates.[140]

No comentário In Alcibiadem, a segunda pergunta é sobre a tarefa do homem político (ἔργον ἀνδρὸς ... πολιτικού) e a resposta é 'tornar os cidadãos melhores' (πολίτας βελτίους ποιεῖν). A isso, Dionísio levanta uma terceira questão: se administrar a justiça corretamente (ὀρθῶς δικάζειν, "julgar com imparcialidade") tem pouca importância para Platão (porque o tirano era considerado um bom juiz). Platão responde que o papel do juiz é de pouca importância, comparável ao do alfaiate, que remenda roupas rasgadas. Dionísio prossegue com uma quarta pergunta, se o tirano não é corajoso (τὸ τύραννον εἶναι οὐκ ἀνδρεῖον), e a isso Platão responde que o tirano é um covarde, que teme até mesmo a tesoura de seu barbeiro. Dionísio, neste ponto, perde a paciência e ordena ao filósofo que deixe Siracusa antes do pôr do sol, e Platão parte sem ter recebido honras da corte.[140][141]

No comentário In Gorgiam, a segunda pergunta é a mesma que In Alcibiadem, mas o relato é mais detalhado: administrar a justiça é coisa de pouco valor, segundo o filósofo, porque, como as costureiras não produzem roupas novas, mas limitam-se a remendar roupas rasgadas, assim o juiz não produz homens justos, mas limita-se a remendar erros. Uma terceira pergunta é se Hércules era feliz, ao que Platão responde que, se os relatos míticos forem confiáveis, ele não foi feliz, mas se viveu uma vida virtuosa, então foi verdadeiramente feliz. Dionísio fica furioso, e Dion, temendo que o tirano pudesse aprisionar o filósofo, organiza sua fuga, com a ajuda do general espartano Pólis.[140][142]

Platão escravizado

Arqueiro do templo de Afaia em Egina, cidade inimiga de Atenas para onde Platão foi enviado após a acalorada discussão com Dionísio.

As principais fontes sobre a conclusão da primeira viagem são Diodoro Sículo (XV, 7, 1), Plutarco (Dion, 4–5, cuja fonte pode ser Timeu) e Diógenes Laércio (III, 18–21). Todas as três fontes concordam em atribuir um epílogo tempestuoso, motivado pela franqueza (parrésia) do filósofo.[143] A reconstrução de Plutarco é a seguinte:

Dion, temendo que a ira do tirano ainda não se tivesse apaziguado, fez com que Platão fosse levado rapidamente para a Grécia em uma trirreme que transportava o espartano Pólis. Dionísio pediu em segredo a Pólis que, se possível, matasse Platão durante a viagem, e, se não fosse possível, que pelo menos o vendesse como escravo, pois, segundo ele, Platão não sofreria nenhum dano e continuaria feliz, já que era justo, mesmo se fosse escravizado. Por isso, diz-se que Pólis levou Platão a Egina e o vendeu como escravo. De fato, os eginetas estavam em guerra com os atenienses e haviam decretado que todos os atenienses encontrados na ilha fossem vendidos.


οἱ μὲν οὖν περὶ τὸν Δίωνα τοῦτο τέλος ᾤοντο τῆς ὀργῆς γεγονέναι, καὶ τὸν Πλάτωνα σπεύδοντα συνεξέπεμπον ἐπὶ τριήρους, ἣ Πόλλιν ἐκόμιζεν εἰς τὴν Ἑλλάδα τὸν Σπαρτιάτην. ὁ δὲ Διονύσιος κρύφα τοῦ Πόλλιδος ἐποιήσατο δέησιν μάλιστα μὲν ἀποκτεῖναιτὸν ἄνδρα κατὰ πλοῦν, εἰ δὲ μή, πάντως ἀποδόσθαι: βλαβήσεσθαι γὰρ οὐδέν, ἀλλ᾽εὐδαιμονήσειν ὁμοίως, δίκαιον ὄντα, κἂν δοῦλος γένηται. διὸ καὶ λέγεται Πόλλις εἰςΑἴγιναν φέρων ἀποδόσθαι Πλάτωνα, πολέμου πρὸς Ἀθηναίους ὄντος αὐτοῖς καὶψηφίσματος ὅπως ὁ ληφθεὶς Ἀθηναίων ἐν Αἰγίνῃ πιπράσκηται.

— Plutarco, Dion, 5, 5–7, tradução de Domenica Paola Orsi[144] (em grego clássico)

Segundo Plutarco, portanto, Platão foi entregue ao navarco lacedemônio Pólis: este estava presente na cidade em nome de Esparta no ano 388 a.C.[N 25] Dionísio pede a Pólis que mate Platão ou, pelo menos, que o leve para Egina.

Diógenes (III, 19) coincide com Plutarco até aqui, exceto por alguns detalhes: Dion e um certo Aristómenes intercederam para apaziguar a fúria do tirano;[N 26] além disso, Dionísio não pede a Pólis que mate Platão, mas apenas que o leve para Egina. O relato de Plutarco termina em Egina, enquanto Diógenes se detém no resgate de Platão.[143]

Segundo Diógenes, em Egina, Platão foi levado a um tribunal, que, ao vê-lo indiferente diante de qualquer sorte que lhe coubesse, decidiu não considerá-lo digno de morte e vendê-lo como prisioneiro de guerra (III, 19). Sobre o resgate de Platão, Diógenes oferece dois relatos diferentes (III, 20): no primeiro, quem o resgata da escravidão é o filósofo Aniceres (por 20 ou 30 minas), que depois o envia a Atenas. Os amigos de Platão devolvem as minas a Aniceres, mas ele recusa o dinheiro. No segundo relato, é Dion quem devolve o dinheiro a Aniceres, e ele o usa para comprar o jardim onde Platão fundaria a Academia.[145] Nos versos de Tzetzes (Chiliades, X, 995–996), porém, é Arquitas quem resgata Platão de Pólis.[N 27]

A reconstrução de Diodoro difere da de Plutarco e Diógenes: ele relata, na verdade, que Platão foi vendido no mercado de Siracusa por 20 minas.[143] De acordo com Cornélio Nepos, Platão também foi vendido como escravo por Dionísio ( Dion, 2, 3).

O relato da escravização de Platão está ausente de Apuleio e dos Prolegomena anônimos.[146]

Tem havido muita discussão sobre a escravidão temporária de Platão e é altamente problemático estabelecer sua historicidade ou a responsabilidade de Dionísio I.[147] A historiadora Marta Sordi acredita na efetiva responsabilidade do tirano e atribui esta sua hostilidade à intenção de se vingar de Atenas, culpada, através do Olímpico de Lísias, de tê-lo ofendido publicamente.[148] Outros, no entanto, embora considerem a aventura de Platão em Egina verdadeira, não acreditam na suposta responsabilidade de Dionísio no caso.[147][149] A tradição anedótica teria surgido inspirada por eventos históricos, como o conflito que ocorreu entre Egina e Atenas na época da Guerra de Corinto.[150] Os atenienses tinham dificuldades reais para se mover livremente naquelas águas, então Platão poderia ter se encontrado acidentalmente prisioneiro do inimigo durante a viagem de volta para casa, mas sem a responsabilidade de Dionísio e do embaixador lacedemônio.[147] Convém, contudo, notar que nenhuma fonte do século IV (e muito menos a Carta VII ou autores platônicos) menciona a escravização de Platão. Talvez as fontes acadêmicas tenham habilmente construído a tradição da responsabilidade do tirano, mesmo que, por outro lado, se possa supor que os círculos platônicos tivessem mais interesse em obscurecer um episódio tão lamentável como aquele que viu o filósofo reduzido à escravidão.[151]

A relação com Filolau

Pitagóricos celebrando o amanhecer (Гимн пифагорейцев восходящему солнцу), pintura de Fyodor Bronnikov (1827–1902). O pensamento de Pitágoras, desenvolvido na Magna Grécia, influenciou fortemente Platão.[N 28]

Frequentemente se faz referência à influência da escola pitagórica sobre Platão, especialmente em relação a Arquitas de Tarento.[67] Existe, porém, nas fontes antigas, uma insistente referência a uma relação entre Platão e Filolau.[153] Diz-se que este filósofo e astrônomo contribuiu para levar o pensamento pitagórico à Grécia (no final do século V a.C.). Platão o menciona no Fédon (61d-e), que foi escrito nos anos seguintes ao seu retorno da Sicília. Aristóxenes, citado em Diógenes Laércio (VIII, 46), afirma ter conhecido pessoalmente os últimos pitagóricos e que eles foram alunos de Filolau e Eurito.[154] Segundo Diógenes Laércio (VIII, 85), que a este respeito se refere a Hermipo de Esmirna (século III a.C.), Filolau teria escrito um livro que Platão conseguiu comprar por 40 minas alexandrinas de prata (mas o nascimento de Alexandre, o Grande, deve ser datado por volta da época da morte de Platão) e do qual extraiu seu Timeu. Diógenes (também em VIII, 85) relata ainda uma tradição diferente, segundo a qual Platão recebeu o livro de Filolau como presente, depois de ter convencido Dionísio a libertar um jovem discípulo de Filolau que havia sido preso. Não está claro se Filolau ainda estava vivo na época da primeira viagem de Platão à Sicília. Em outro lugar (III, 9 e VIII, 84), Diógenes especifica que, segundo algumas fontes (incluindo o Sátiro de Calátis), Platão escreveu a Dion, pedindo-lhe que comprasse o volume de Filolau, pelo custo de 100 minas.[74][155]

No geral, o episódio da compra dos livros de Filolau parece controverso, especialmente se levarmos em conta que se encaixa bem naquela tendência depreciativa que acusou Platão de plágio da filosofia pitagórica.[156]

A fundação da Academia

Como narra Diógenes Laércio (III, 7), em seu retorno a Atenas, em 387 a.C., Platão fundou a Academia (assim chamada porque foi construída em um bosque sagrado em homenagem ao herói Academo).

Ao retornar a Atenas de suas viagens, Platão lecionava na Academia. Trata-se de um ginásio localizado fora das muralhas da cidade, repleto de árvores, que recebeu esse nome em homenagem a um herói chamado Academo.


ἐπανελθὼν δὲ εἰς Ἀθήνας διέτριβεν ἐν Ἀκαδημείᾳ. τὸ δ᾽ ἐστὶ γυμνάσιον προάστειον ἀλσῶδες ἀπό τινος ἥρωος ὀνομασθὲν Ἑκαδήμου [...].

— Diógenes Laércio, Vida dos filósofos, III, 7, tradução de Marcello Gigante, Laterza, 1976 (em grego clássico)

Platão tornou-se escolarca de muitos discípulos e a sua fama cresceu cada vez mais.

Morte de Dionísio, o Velho, e ascensão ao poder de Dionísio, o Jovem

Pouco antes de morrer, Dionísio I lançou uma guerra final contra os cartagineses. Anos antes (talvez em 378 a.C.) ele havia sido derrotado na batalha de Cronium. Em 367 conseguiu reconquistar Selinunte e Érice. Após um armistício para esperar o fim do inverno, morreu antes que a batalha pudesse recomeçar. Dionísio II, que o sucedeu, conseguiu assinar a paz com os cartagineses (em 358/357, segundo Diodoro Sículo, mas talvez antes[157]).[158] A morte do tirano pôs em evidência a fraqueza da dynasteia: várias pessoas colocadas por Dionísio I em posições de responsabilidade haviam caído em desgraça: o irmão Léptines fora transferido para Terme e Filisto fora exilado,[N 29] talvez também em razão do seu vínculo de parentesco com Léptines (de quem era genro). Em qualquer caso, Dionísio II conseguiu chegar ao poder sem complicações.[159]

A personalidade do jovem Dionísio era muito diferente da de seu pai, pelo menos segundo a tradição: ele era dócil, dado aos prazeres, frequentemente bêbado, talvez inclinado à poesia e à filosofia em vez da política, da qual seu pai o havia mantido afastado. Inicialmente, ele talvez preferisse viver em Lócris, cidade natal de sua mãe, deixando a condução dos assuntos políticos para outros. Naquela época, Dion era o chefe do ramo siracusano da família de Dionísio, o Velho, que havia sido excluído do poder em favor do ramo lócrio.[157][159][160]

A política de Dionísio II começou a seguir os passos de seu pai: ele continuou a expansão no Adriático e, para esse fim, chamou Filisto de volta do exílio; ele tomou medidas contra os lucanos, que com suas incursões danificaram várias cidades gregas, especialmente Tarento, governada por Arquitas; ele continuou a apoiar Esparta contra Tebas; na Itália, ele apoiou as cidades latinas contra Roma, cujo poder futuro ele foi o primeiro a prever.[157]

Pouco se sabe sobre o primeiro ano da tirania de Dionísio, o Jovem. Para 366 a.C., há mais informações: em particular, Isócrates escreve em seu Arquidamo (talvez desse mesmo ano) que os espartanos contavam com o apoio de vários príncipes e tiranos estrangeiros, incluindo Dionísio II. Este estaria pronto para recebê-los, em caso de evacuação. Xenofonte (Helênica, 7, 4, 12) relata que Dionísio enviou doze trirremes aos espartanos, sob o comando de Timócrates, que os ajudou a conquistar Selásia (este episódio pode ser datado de 365 a.C.).[161]

Segunda viagem (367–366 a.C.)

A segunda viagem nas fontes antigas

Apolo Barberini, escultura romana do século I-II d.C., provavelmente uma cópia de um original grego, talvez de Escopas (Gliptoteca de Munique). Dionísio II declarou-se filho de Apolo, como Alexandre Magno faria mais tarde. Haveria uma conexão entre o culto do tirano e o culto platônico ao mesmo deus.[N 30]

A partir da Carta VII (327d) aprendemos que Dionísio o Jovem, sob a insistência de Dionísio, convenceu-se a convidar Platão para uma segunda viagem a Siracusa, vinte anos depois da primeira. Pressionado por Dion, que considerava essencial intervir imediatamente na educação filosófica do jovem tirano, também para evitar a intervenção de sofistas ou outros filósofos, Platão aceitou o convite, chegando a Siracusa já no outono de 367[163] ou, mais provavelmente, no verão de 366.[N 31] Dion tinha muita confiança em sua capacidade de realizar esse propósito, que ele mesmo começara a pôr em prática.[N 32] Na Carta VII, são encontradas as palavras de Dion:

A nossa esperança de que filósofos e governantes de grandes cidades sejam as mesmas pessoas poderá se realizar, certamente, em algum momento no futuro.


ὥστε εἴπερ ποτὲ καὶ νῦν ἐλπὶς πᾶσα ἀποτελεσθήσεται τοῦ τοὺς αὐτοὺς φιλοσόφους τε καὶ πόλεων ἄρχοντας μεγάλων συμβῆναι γενομένους.

— Dione em Carta VII, 328a[165] (em grego clássico)

Platão, já maduro nas suas ideias, partiu, portanto, com a firme intenção de implementar aquela tão esperada mudança política que ele julgava essencial para que se pudesse pôr fim aos males da humanidade.[166] Ele então deixou a direção da Academia para Eudoxo de Cnido no ano em que o jovem Aristóteles ingressou.[167] De acordo com algumas fontes, o diretor da Academia era, na verdade, um certo Sócrates, chamado o Jovem.[168] Mas a decisão de partir, ainda segundo a Carta VII, não foi indolor: acima de tudo, o filósofo foi tomado pelo medo de que as intenções do jovem tirano não fossem sérias e que seu temperamento volúvel o fizesse mudar de ideia (328b). O que o fez decidir partir foi a dívida de amizade para com Dion e o medo de se mostrar incapaz de traduzir seus próprios princípios em ações (328c).

Além das relatadas pela Carta VII, diversas são as motivações e o contexto oferecidos pelas fontes antigas. Apuleio relata que Platão partiu a convite de Dionísio, com a intenção de estudar a legislação municipal siracusana. Cornélio Nepos afirma que Platão voltou à Sicília em seguida aos insistentes pedidos de Dion (Dione, 3, 1). Diógenes Laércio não menciona, porém, Dion entre os promotores da segunda viagem. Além disso, ele escreve que o tirano se comprometeu a conceder a Platão a terra para fundar seu Estado ideal, mas que depois não manteve a promessa e, de fato, acabou por suspeitar do filósofo de conspirar com Dion contra o regime.[169]

Uma segunda vez, Platão veio à Sicília junto do jovem Dionísio para pedir-lhe um pouco de terra e alguns homens que vivessem segundo sua constituição. No entanto, Dionísio não cumpriu sua promessa.


Δεύτερον πρὸς τὸν νεώτερον ἧκε Διονύσιον αἰτῶν γῆν καὶ ἀνθρώπους τοὺς κατὰ τὴν πολιτείαν αὐτοῦ ζησομένους· ὁ δὲ καίπερ ὑποσχόμενος οὐκ ἐποίησεν.

— Diógenes Laércio, III, 21[170] (em grego clássico)

Este pedido não consta na Carta VII.[N 33]

Olimpiodoro confirma que Platão foi convidado por Dion e que o propósito da missão era constituir um governo aristocrático. Olimpiodoro afirma que a escravização de Platão ocorreu durante esta segunda viagem, quando ele foi denunciado aos guardas do palácio, vendido a Egina por Pólis e depois resgatado por Aniceres.[169]

A recepção inicial e a acusação de conspiração

Segundo Plutarco (Dion, 13, 1-4), o tirano, a princípio, garantiu uma recepção favorável a Platão e às suas doutrinas, parecendo moderar a sua tirania e despertando esperanças de reforma na população.[N 34] Em todo caso, Platão logo percebeu a gravidade da situação, que não demorou a ficar ainda pior.

Encontrei grandes discórdias na corte de Dionísio, e Dion estava sendo caluniado pelo tirano. Defendi Dion com todo o meu poder, mas pouco pude fazer. Cerca de três meses depois, Dionísio o acusou de querer derrubar a tirania, o embarcou em uma pequena nau e o expulsou com desonra.


ἐλθὼν δέ — οὐ γὰρ δεῖ μηκύνειν — ηὗρον στάσεως τὰ περὶ Διονύσιον μεστὰ σύμπαντα καὶ διαβολῶν πρὸς τὴν τυραννίδα Δίωνος πέρι: ἤμυνον μὲν οὖν καθ᾽ὅσον ἠδυνάμην, σμικρὰ δ᾽οἷός τ᾽ἦ, μηνὶ δὲ σχεδὸν ἴσως τετάρτῳ Δίωνα Διονύσιος αἰτιώμενος ἐπιβουλεύειν τῇ τυραννίδι, σμικρὸν εἰς πλοῖον ἐμβιβάσας, ἐξέβαλεν ἀτίμως.

— Carta VII, 329b-c[174] (em grego clássico)

Alarmados com a súbita mudança que Dionísio II mostrava ao contato com Platão e temendo que a tirania estivesse prestes a cair, os detratores de Dion conseguiram que Dionísio II chamasse de volta a Siracusa Filisto, exilado em 386 a.C. por Dionísio I.[175][176] Filisto era o principal antagonista da facção liderada por Dion e receava que Platão pretendesse convencer o tirano a entregar o governo do Estado a Dion.[177] Começaram a circular rumores perturbadores sobre Platão e Dion. Plutarco escreve:

Alguns fingiam indignação porque os atenienses, derrotados e exterminados pouco antes sem conseguirem tomar Siracusa, embora tivessem enviado enormes forças navais e terrestres, agora procuravam derrubar a tirania de Dionísio valendo-se de um único filósofo. Eles o convenceram a dispensar dez mil guarda-costas, desfazer-se de quatrocentas trirremes, dez mil cavaleiros e um número muito maior de hoplitas. Feito isso, buscavam na Academia um bem inatingível e, por meio da geometria, a felicidade, deixando a Dion e aos sobrinhos dele a outra felicidade, que só se alcança com poder e riquezas.


ἔνιοι δὲ προσεποιοῦντο δυσχεραίνειν, εἰ πρότερον μὲν Ἀθηναῖοι ναυτικαῖς καὶ πεζικαῖς δυνάμεσι μεγάλαις δεῦρο πλεύσαντες ἀπώλοντο καὶ διεφθάρησαν πρότερον ἢ λαβεῖν Συρακούσας, νυνὶ δὲ δι᾽ἑνὸς σοφιστοῦ καταλύουσι τὴν Διονυσίου τυραννίδα, συμπείσαντες αὐτὸν ἐκ τῶν μυρίων δορυφόρων ἀποδράντα, καὶ καταλιπόντα τὰς τετρακοσίας τριήρεις καὶ τοὺς μυρίους ἱππεῖς καὶ τοὺς πολλάκις τοσούτους ὁπλίτας, ἐν Ἀκαδημείᾳ τὸ σιωπώμενον ἀγαθὸν ζητεῖν καὶ διὰ γεωμετρίας εὐδαίμονα γενέσθαι, τὴν ἐν ἀρχῇ καὶ χρήμασι καὶ τρυφαῖς εὐδαιμονίαν Δίωνι καὶ τοῖς Δίωνος ἀδελφιδοῖς προέμενον.

— Plutarco, Dion, 14, 2[174] (em grego clássico)

A desmilitarização era vista pelos partidários da tirania como uma nova tentativa de Atenas de conquistar Siracusa: tendo falhado com a expedição de 415 a.C., agora tentava novamente com a eloquência do seu maior expoente.[178] Surgiram muitas dúvidas sobre a veracidade das notícias de Plutarco, pois a posição de Platão não era totalmente pacifista: ele abominava a guerra civil, mas considerava necessário defender-se dos inimigos externos. Era portanto improvável que insistisse para que o tirano se desfizesse totalmente das suas forças militares.[179] Segundo Lorenzo Braccesi, esse trecho de Plutarco não passa de uma engenhosa campanha difamatória orquestrada por Filisto.[177] Na Carta III (315e[180]), fala-se de uma dura campanha difamatória de Filisto contra Platão diante do povo siracusano e dos mercenários. Filístides o acusou de permanecer na acrópole ao lado de Dionísio para influenciá-lo.[N 35]

Filisto chegou a acusar Dion (não sem razão, segundo Braccesi[182]) de ter tentado negociar uma paz separada com os cartagineses,[183] como revelado por uma suposta carta de Dion ao inimigo (Plutarco, Dion, 14, 5). O ciúme também pode ter desempenhado um papel na queda em desgraça de Dion, visto que o tirano desejava tomar o lugar de Dion no favor de Platão ( Carta VII, 330a). Havia, porém, algo mais, voluntariamente silenciado pela Carta VII.[184] Seja como for, cerca de três meses após a chegada de Platão a Siracusa, Dion foi exilado (Carta VII, 329c). Provavelmente não se tratou ainda de um verdadeiro exílio (φυγή), como o que lhe seria imposto em 360, mas de uma μετάστασις (metástasis, ‘afastamento’: 338b). Os bens de Dion não foram confiscados, mas em parte carregados em dois navios para acompanhá-lo à Grécia. Foi-lhe garantida ainda a renda proveniente de suas posses na Sicília.[182] Segundo Diodoro (XVI, 6, 4-5), Dionísio II teria desejado matar Dion, e este teria conseguido escapar para Corinto, juntamente com seu irmão Megacles e seu amigo Heráclides, membro da facção democrática siracusana. Dion teria, contudo, perdido sua esposa, filho e boa parte de seu patrimônio.[183]

Platão permanece na corte

Quanto a Platão, a Carta VII conta que inicialmente permaneceu na corte, temendo que recaísse sobre ele a acusação de cumplicidade na conspiração de Dion. Mas Dionísio, receoso de que Platão, por desespero, recorresse a uma medida extrema, tratava-o com aparente benevolência, suplicando-lhe que ficasse, pois a sua partida prejudicaria a imagem do tirano, enquanto a permanência o favoreceria. Platão foi transferido para a “Acrópole” (ou seja, a cidadela de Siracusa), onde qualquer embarque necessitava da permissão de Dionísio (Carta VII, 329c-e). Durante a sua permanência, o filósofo pareceu exercer influência favorável sobre o tirano, mas na realidade este parecia mais movido pelo ciúme em relação a Dion e pelo desejo de que Platão o preferisse ao adversário (Carta VII, 330a-b). Relato semelhante oferece Plutarco, segundo o qual entre os dois nasceu uma relação tão profunda que Dionísio se tornou loucamente ciumento do ateniense, desejando que este o admirasse apenas a ele.[185][N 36] A Carta VII (330b) relata, porém, que Dionísio se esquivava dos ensinamentos e da convivência com o filósofo, temendo perder a própria autonomia de ação e instigado pelas calúnias.[N 37]

Só a eclosão de uma guerra que envolvia diretamente Dionísio deu a Platão a oportunidade de deixar a Sicília. Tratava-se de um conflito com os lucanos ou (menos provavelmente) de uma retomada das hostilidades com Cartago.[189] Na mesma época, Dionísio havia firmado algum tipo de aliança com os tarentinos.[N 38] Segundo a Carta VII (338a-b), o tirano prometeu-lhe que em tempo de paz chamaria de volta tanto a ele quanto a Dion e assegurou-lhe que Dion não devia ser considerado exilado, apenas afastado.[182]

A metástase de Dion

Banido de Siracusa, mas ainda dispondo de todo ou parte do seu patrimônio, Dion foi acolhido em Atenas na Academia de Platão. Tornou-se amigo íntimo de Espeusipo[193][N 39] e de Cálipo, o acadêmico que Platão mais tarde renegaria.[N 40] Gozando de ótima reputação nas cidades gregas, Dion foi bem recebido não só por Atenas, mas também por Corinto e sobretudo por Esparta, que lhe concedeu a cidadania (Plutarco, Dion, 17, 8).[183][195]

A escolha dos espartanos parece particularmente controversa, considerando-se a relação de amizade que mantinham com Dionísio II e a ajuda que este lhes prestara na tomada de Selásia (talvez em 365). Num momento delicado da luta contra Tebas (a derrota em Leuctra ocorreu em 371), Esparta arriscava perder um aliado importante sem obter vantagem aparente ao conceder cidadania a Dion. Igualmente controversa é a atitude de Corinto. Cornélio Nepos relata (Timoleonte, 2, 2) que a cidade fora ajudada em várias ocasiões pelos dois Dionísios.[196] É possível que na Grécia a discórdia entre Dion e Dionísio II não tenha sido devidamente percebida.[197]

Seja como for, é provável que a empreitada de Dion na Grécia entre 366 e 360 tenha despertado preocupação em Dionísio II. Plutarco (Dion, 18, 1) relata que ele parou de enviar a Dion suas rendas muito em breve (enquanto a Carta VII, 345c-d, sugere uma datação tardia para esse evento). Em todo caso, a situação estava prestes a se precipitar e o próprio Platão, durante sua terceira e última viagem à Sicília, testemunhará impotente o rompimento definitivo do equilíbrio, mesmo que o próprio fato de Dionísio II ainda convidar Platão para Siracusa sugira que ainda havia espaço para uma reconciliação.[198]

Terceira viagem (361-360 a.C.)

Dionísio II tenta persuadir Platão a retornar

Espeusipo (c. 393–339 a.C.), sobrinho de Platão e futuro diretor da Academia. Um controverso trecho da Carta II (314c) parece indicar que ele estava com Platão em Siracusa em 366. Platão teria confiado nessa época a direção da Academia a Eudoxo de Cnido, um indício que remeteria à ausência de Espeusipo de Atenas.[199] Embora as fontes antigas não mencionem a presença de acadêmicos durante a segunda viagem de Platão à Sicília, algumas delas indicam que, na terceira viagem, Platão não foi sozinho, mas acompanhado por Espeusipo e outros discípulos (incluindo, provavelmente, Xenócrates).[200] Aparentemente, Espeusipo e os outros acadêmicos sondaram o sentimento popular em Siracusa com o objetivo de derrubar a tirania (fatos sobre os quais a Carta VII não menciona), comprometendo as tentativas de mediação de Platão. Uma tradição duvidosa relata um forte contraste entre Espeusipo e Dionísio II, uma controvérsia que também teria passado por uma troca de cartas.[201]

Pelas cartas de Platão, sabemos que, nos anos entre a segunda e a terceira viagens, Dionísio II conseguiu manter contato constante com o filósofo.[202] Segundo o relato da Carta VII, o tirano, ao conseguir garantir a paz para Siracusa, chamou Platão de volta à sua corte, como havia sido combinado ao final da segunda viagem. Pediu, porém, que Dion esperasse mais um ano antes de retornar, e sob essas condições o filósofo recusou. Dion, por sua vez, tentou convencer Platão a ir para Siracusa de qualquer maneira, já que rumores vindos da Sicília diziam que o tirano estava demonstrando novamente interesse pela filosofia (338b). Platão, contudo, citou sua idade avançada e os resultados insatisfatórios que havia obtido até então como razões para não partir, tornando-se assim impopular tanto com Dionísio quanto com Dion. Dionísio, para convencê-lo a retornar, teria então recorrido a Arquitas de Tarento (338c), com cuja pólis havia estabelecido recentemente excelentes relações. Além disso, discípulos de Dion em Siracusa falaram com o tirano, estimulando nele o desejo de aprofundar as questões filosóficas superficialmente aprendidas com Platão (338d-e). O relato contido na Carta III (317a-b) e em Plutarco ( Dion, 18) é semelhante.[203]

Dionísio chegou a enviar uma trirreme até Atenas para facilitar a viagem do filósofo e um certo Arquidemo do círculo de Arquitas (339a). Além disso, segundo a Carta VII (339b-c), ele teria enviado uma carta a Platão dizendo:

Se você me der ouvidos e vier à Sicília, a situação de Dion será resolvida conforme os seus desejos, que certamente serão razoáveis e aos quais não me oporei. Caso contrário, nada será feito em relação a ele ou à sua situação.


ἂν εἰς Σικελίαν πεισθεὶς ὑφ’ ἡμῶν ἔλθῃς τὰ νῦν, πρῶτον μέν σοι τὰ περὶ Δίωνα ὑπάρξει ταύτῃ γιγνόμενα ὅπῃπερ ἂν αὐτὸς ἐθέλῃς — θελήσεις δὲ οἶδ’ ὅτι τὰ μέτρια, καὶ ἐγὼ συγχωρήσομαι — εἰ δὲ μή, οὐδέν σοι τῶν περὶ Δίωνα ἕξει πραγμάτων οὔτε περὶ τἆλλα οὔτε περὶ αὐτὸν κατὰ νοῦν γιγνόμενα.

— Carta VII, 339c[204] (em grego clássico)

Platão decide partir

Platão acabou cedendo. A Suda relata que a direção da Academia foi deixada a Heráclides do Ponto[205] e o filósofo, em 361/360, voltou pela terceira vez ao mar da Sicília, enfrentando a "Caríbdis mortal".[206] Platão levou consigo um numeroso grupo de discípulos, entre os quais Espeusipo (e talvez Xenócrates).[N 41] Como na segunda viagem, quando a direção da Academia fora confiada a Eudoxo, também neste caso a escolha de Heráclides seria bem explicada levando-se em conta que Espeusipo não estava em Atenas, mas em Siracusa com Platão.[205]

Do ponto de vista político, esta terceira viagem parece ter menos importância do que a segunda: o seu significado, e tal como as fontes antigas a caracterizam, parece ser sobretudo o de ajudar Dion e favorecer uma mediação entre o discípulo e Dionísio II.[208]

A paideia do tirano e as conspirações dos acadêmicos

Tal como em 366, a recepção de Dionísio II foi muito cordial e o filósofo foi autorizado a aproximar-se dele sem ser revistado.[209] Enquanto o interesse de Platão continuava centrado na paideia do tirano, entendida como pré-requisito de uma reforma da convivência civil em Siracusa, nas ruas da cidade, como informa Plutarco (Dion, 22, 1-4[210]), Espeusipo e os demais acadêmicos sondavam o terreno para uma iminente expedição militar de Dion contra o tirano. O plano dos discípulos de Platão previa o uso da força e da violência, o que ia contra os princípios morais do mestre; é possível pensar que Platão desconhecia os planos do seu sobrinho, o principal defensor de uma intervenção militar contra o tirano. Seria difícil compreender, caso contrário, por que razão continuou a trabalhar por uma mediação pacífica entre Dion e Dionísio II.[211]

Dada a desconfiança com que Platão, mesmo antes de partir, julgou o renovado entusiasmo do tirano pela filosofia, decidiu colocá-lo à prova imediatamente ( Carta VII, 340b-e), mas a atitude inacessível do tirano fez com que houvesse apenas um encontro entre os dois focado na filosofia ( Carta VII, 345a): foi desanimador para o filósofo entender que o tirano não tinha intenção de aprofundar seus ensinamentos, já que não estava "inflamado pelo ardor filosófico como por um fogo" ( Carta VII, 341c-d: οἷον ἀπὸ πυρὸς πηδήσαντος ἐξαφθὲν φῶς), mas apenas queria se considerar superior aos outros, apropriando-se de palavras que não eram suas. A Carta VII (341b) chega mesmo a dizer que Dionísio II publicaria mais tarde um livro intitulado Sobre a natureza (περὶ φύσεως), usando palavras ouvidas do filósofo ateniense durante um dos seus encontros. Massimo Cacciari escreve:[212] “A acusação contra Dionísio (e outros, ao que parece: 341 c 1) é a de ter comunicado por escrito um máthema, ouvido por Platão, sobre o qual "não há e nunca haverá um sýngramma meu" (341 c 1)”. É nesta parte da Carta VII que se inicia a célebre “digressão filosófica” (341a-345c), na qual o filósofo fala da relação entre filosofia e escrita.

Além de tentar instruir o tirano, Platão continuou a defender a causa da reconciliação com Dion, mas em vão. A Carta VII trata do trabalho dos caluniadores, que teriam afastado ainda mais a simpatia do tirano (333d), bem como das tentativas deste de atrair Platão para o seu lado.

Eu, ateniense, amigo de Dion e seu aliado, fui à corte do tirano para tentar restabelecer a amizade entre eles após a inimizade, mas fui vencido pelas calúnias dos difamadores. Então, Dionísio, oferecendo-me honras e riquezas, procurou me convencer a passar para o seu lado e tornar-me seu amigo, dando assim testemunho de que o exílio de Dion era merecido, mas não conseguiu.


ἦλθον Ἀθηναῖος ἀνὴρ ἐγώ, ἑταῖρος Δίωνος, σύμμαχος αὐτῷ, πρὸς τὸν τύραννον, ὅπως ἀντὶ πολέμου φιλίαν ποιήσαιμι· διαμαχόμενος δὲ τοῖς διαβάλλουσιν ἡττήθην. Πείθοντος δὲ Διονυσίου τιμαῖς καὶ χρήμασιν γενέσθαι μετ’ αὐτοῦ ἐμὲ μάρτυρά τε καὶ φίλον πρὸς τὴν εὐπρέπειαν τῆς ἐκβολῆς τῆς Δίωνος αὐτῷ γίγνεσθαι, τούτων δὴ τὸ πᾶν διήμαρτεν.

— Carta VII, 333d[204] (em grego clássico)

Segundo Plutarco (19, 3-4), Dionísio II e Platão estavam cada vez mais em conflito, embora o primeiro procurasse dissimular e evitar que os cortesãos percebessem. Todos, porém, se davam conta de que a discórdia entre os dois estava prestes a prevalecer.[213]

Os bens de Dion

Aristóteles (busto no Coliseu, Roma). O discípulo de Platão é uma testemunha indireta dos eventos em suas obras. Na Política, ele afirma que Dion atacou Dionísio II movido pelo ódio.[N 42]

Os eventos que envolveram a renda de Dion são narrados na Carta VII (345c-347e). A discussão entre Platão e Dionísio II sobre a renda de Dion foi continuamente adiada. O tirano apresentou novas propostas, mas apenas com o objetivo de atrasar a partida do filósofo: Dion deveria prometer não conspirar novamente contra seu sobrinho, e sua renda só chegaria a ele por meio da mediação de Platão e dos Acadêmicos; Platão deveria permanecer em Siracusa por um ano, até a primavera de 360, quando poderia retornar a Atenas com os bens de seu discípulo. Platão concordou, mas pediu para informar Dion com antecedência. Quando a temporada de viagens terminou e Platão não pôde mais embarcar, Dionísio II o informou que metade da renda era devida a Hiparino, filho de Dion (Hiparino, como filho de Arete, irmã do tirano, também era sobrinho de Dionísio II e, portanto, estava sob sua tutela). O tirano disse ao filósofo que venderia os bens e daria metade do lucro a Platão, que o repassaria a Dion. Platão insistiu que Dion soubesse de tudo. Nesse ponto, o tirano vendeu toda a propriedade e se recusou a discutir o assunto com Platão, que acabou desistindo completamente do confronto.[215] Aos olhos dos siciliotas, prossegue a Carta VII (348a), a relação entre Platão e Dionísio II ainda era amigável.

O autor da Carta VII destaca a deslealdade do tirano, mas não pode deixar de admitir que o risco de uma conspiração por parte de Dion existia. Além disso, a carta não menciona as ações de Espeusipo e dos demais acadêmicos em Siracusa.[213] É possível ver na decisão do tirano uma constatação razoável da impossibilidade de mediação com o tio: o tirano teria rompido com Platão só quando percebeu que nem mesmo o mestre conseguia controlar os seus discípulos. Privar Dion de seu patrimônio significava impedi-lo de conspirar contra ele. Para Dion, foi um verdadeiro exílio (φυγή).[216] A própria esposa, Arete, foi entregue a um terceiro marido, Timócrates, comandante da cidadela de Ortígia.[217] Segundo Plutarco (Dion, 21, 2-3 e 22, 1), foi justamente essa a razão que levou Dion a uma agressão militar. No relato de Nepos, porém, foram as intenções belicosas de Dion que levaram Dionísio II a atacar os afetos de seu tio.[218]

Platão e a revolta dos mercenários

A Carta VII dá testemunho de uma revolta de mercenários contra Dionísio II (348a-b).

Então, Dionísio, agindo de modo contrário aos costumes de seu pai, decidiu reduzir o soldo dos mercenários mais antigos. Enraivecidos, eles se reuniram e declararam que não aceitariam isso. Ele tentou usar a força, fechando as portas da Acrópole, mas os mercenários avançaram para as muralhas entoando um canto bárbaro de guerra. Muito assustado, Dionísio acabou cedendo e concedeu aos mercenários tudo o que pediam e ainda mais.


τῶν δὴ μισθοφόρων τοὺς πρεσβυτέρους Διονύσιος ἐπεχείρησεν ὀλιγομισθοτέρους ποιεῖν παρὰ τὰ τοῦ πατρὸς ἔθη, θυμωθέντες δὲ οἱ στρατιῶται συνελέγησαν ἁθρόοι καὶ οὐκ ἔφασαν ἐπιτρέψειν. ὁ δ’ ἐπεχείρει βιάζεσθαι κλείσας τὰς τῆς ἀκροπόλεως πύλας, οἱ δ’ ἐφέροντο εὐθὺς πρὸς τὰ τείχη, παιῶνά τινα ἀναβοήσαντες βάρβαρον καὶ πολεμικόν· οὗ δὴ περιδεὴς Διονύσιος γενόμενος ἅπαντα συνεχώρησεν καὶ ἔτι πλείω τοῖς τότε συλλεχθεῖσι τῶν πελταστῶν.

— Carta VII, 348a-b[204] (em grego clássico)
Dionísio I (obra da George S. Stuart Historical Figures). Foi ele quem introduziu grandes massas de mercenários na pólis e, para mantê-los, mudou a cunhagem de prata para estanho.[N 43]
 
Moeda de Siracusa da época dionisiana. A estrela no centro dos golfinhos aproxima Dionísio de uma deusa-mãe como Astarte, pedindo poder e sorte para o seu reino.[N 44]

Assim que a ira dos soldados se acalmou, os instigadores foram procurados, e Heráclides foi acusado (348b). Aconteceu que Platão, enquanto caminhava no jardim de Dionísio, ouviu uma conversa entre o tirano e Teódotas, tio de Heráclides, e se viu envolvido nas preces deste último para que o siracusano poupasse a vida de seu sobrinho e lhe permitisse mudar-se para o Peloponeso. Dionísio aparentemente concordou (348c-e). Na noite seguinte, porém, Teódotas foi procurar Platão, dizendo-lhe que Dionísio não havia respeitado o pacto e que seus peltastas estavam caçando Heráclides, que rondava a região (348e). Então, juntos, foram até Dionísio. Apresentado a ele juntamente com Teódotas, Platão tomou a palavra, defendendo o acordo feito no jardim. Teódotas atirou-se em lágrimas aos pés de Dionísio quando o filósofo falou novamente, provocando a indignação do tirano:

"Coragem, Teódotas", disse eu. "Dionísio certamente não ousará agir de forma contrária aos acordos de ontem." Mas Dionísio, olhando para mim com ar tirânico, disse: “Com você, não fiz nenhum acordo”. “Pelos deuses”, repliquei, “você fez, sim, exatamente sobre aquilo que agora ele lhe pede para não fazer!” Dito isso, virei-me e saí. Depois disso, ele continuou a caçar Heráclides, mas Teódotas o avisou para fugir.


“θάρρει, Θεοδότα,” ἔφην· “οὐ γὰρ τολμήσει Διονύσιος παρὰ τὰ χθὲς ὡμολογημένα ἄλλα ποτὲ δρᾶν.” καὶ ὃς ἐμβλέψας μοι καὶ μάλα τυραννικῶς, “σοί,” ἔφη, “ἐγὼ οὔτε τι σμικρὸν οὔτε μέγα ὡμολόγησα.” “νὴ τοὺς θεούς,” ἦν δ’ ἐγώ, “σύ γε, ταῦτα ἃ σοῦ νῦν οὗτος δεῖται μὴ ποιεῖν·” καὶ εἰπὼν ταῦτα ἀποστρεφόμενος ᾠχόμην ἔξω. τὸ μετὰ ταῦτα ὁ μὲν ἐκυνήγει τὸν Ἡρακλείδην, Θεοδότης δὲ ἀγγέλους πέμπων Ἡρακλείδῃ φεύγειν διεκελεύετο.

— Carta VII, 349b-c[204] (em grego clássico)

Essa foi, segundo o relato da Carta VII, a ruptura definitiva entre Dionísio II e Platão. Sob o pretexto de um sacrifício que seria celebrado durante dez dias nos jardins onde Platão se hospedava, Dionísio transferiu o filósofo para fora da cidadela, na casa de Arquidemo. Ali, Platão teve outro encontro com Teódotas (349d). Dionísio soube disso e ficou furioso (Teódotas havia sido companheiro de Dion[221]). Mandou dizer ao filósofo que fizera mal em preferir a companhia de Dion e dos amigos dele à sua. Depois disso, deixou de recebê-lo no palácio (349d-e).

Heráclides conseguiu refugiar-se εἰς τὴν Καρχηδονίων ἐπικράτειαν (349c), ou seja, na epicracia cartaginesa. Com base nesse fato, é possível inferir que as suspeitas de Dionísio II sobre Heráclides não eram totalmente infundadas.[222]

Conclusão da terceira viagem

Segundo a Carta VII (349c-350a), na casa de Arquidemo, Platão vivia agora correndo risco de vida: os peltastas o ameaçavam de morte (segundo alguns servos atenienses lhe contaram), porque, na opinião deles, ele era culpado de querer induzir Dionísio II a demiti-los (segundo Plutarco, Dion, 19, 5). O filósofo escreveu uma carta a Arquitas e seus amigos em Tarento, informando-os sobre as perigosas condições em que se encontrava. Eles enviaram Lamisco em seu auxílio, que implorou a Dionísio que libertasse Platão. O tirano concordou e Platão ficou livre para retornar a Atenas (350a-b). O filósofo deixou a Sicília definitivamente em 360 a.C.: sua terceira viagem também terminou em fracasso.[223]

Em seu caminho de volta para casa, Platão parou em Olímpia, onde encontrou Dion e o informou de tudo o que havia acontecido. Dion estava agora determinado a tomar medidas militares contra seu sobrinho e o instou a se juntar a ele. Platão recusou categoricamente, dizendo-lhe que Dionísio II de alguma forma o respeitara ao protegê-lo de qualquer mal quando foi caluniado. Além disso, Platão disse que ele não tinha mais idade suficiente para lutar.

Estou com você se quiser fazer o bem e estabelecer uma amizade recíproca; se quiser fazer o mal, chame outros para ajudá-lo.


κοινός τε ὑμῖν εἰμι, ἄν ποτέ τι πρὸς ἀλλήλους δεηθέντες φιλίας ἀγαθόν τι ποιεῖν βουληθῆτε· κακὰ δὲ ἕως ἂν ἐπιθυμῆτε, ἄλλους παρακαλεῖτε.

— Carta VII, 350d[204] (em grego clássico)

Guerra civil em Siracusa

E não esqueçamos que a história não termina com Platão escravo, termina com Dionísio exilado e definitivamente privado do trono.

— Alfieri 2008, p. 70

A expedição de Dion

Quando Dion foi banido, decidiu organizar uma expedição militar para derrubar Dionísio II. Com ele estavam o irmão Megacles e Heráclides. Não foram muitos os exilados siracusanos que se juntaram a Dion (trinta segundo Diodoro, vinte e cinco segundo Plutarco[183]), mas vários acadêmicos participaram da expedição, entre os quais Timônides de Lêucade e Cálipo. Dion pôs-se à frente de um exército de modestas dimensões, composto sobretudo por mercenários. Contratar esses homens, organizar a milícia e coordenar os exilados levou tempo, razão pela qual Dion só partiu da ilha de Zacinto rumo à Sicília em agosto de 357.[224] Heráclides permaneceu na Grécia para reunir mais tropas e trirremes.[183][225]

Dion não escolheu a rota habitual: em vez de passar pelo Estreito de Otranto e costear a Iapígia e a Calábria, optou pelo mar aberto, evitando zonas controladas por Dionísio II e por Filisto, que naquele momento estavam na Itália e não conseguiram interceptar a frota do adversário (Dionísio, em particular, estava em Caulônia, julgando que Siracusa estava fora do alcance do ataque, enquanto Filisto controlava o baixo mar Adriático).[226] Dion dirigiu-se, pois, para Minoa, na foz do rio Alico, que na época era dependência dos cartagineses. Com o apoio de Minoa e a interessada indiferença cartaginesa, na qual, escreve Finley,[227] ele sabia que podia contar, Dion pôs-se a marchar para Siracusa, angariando apoio de vários centros, não só gregos, mas também sículos e sicanos,[228] esperançosos de se libertar do jugo siracusano (segundo Plutarco, Dion, 26, 2, juntaram-se a Dion duzentos cavaleiros de Agrigento e tropas de Gela). O exército de Dion entrou em Siracusa sem resistência e instalou-se no distrito de Acradina. Dion foi acolhido como libertador[183] e, juntamente com Megacles, foi eleito strategós autokrátor. Os revoltosos controlavam, nesse ponto, toda a cidade exceto a cidadela de Ortígia, onde aliás estava presa Arete, junto com o filho.[229] Dionísio II, nesse meio tempo, conseguiu regressar a Ortígia (segundo Plutarco, Dion, 29, 4, no sétimo dia após a entrada de Dion na cidade): à espera da chegada de Filisto, começou a negociar com o tio (Plutarco, Dion, 30, 1-3), mas sem sucesso.[230] Filisto regressou com a frota da Itália e, após alguns sucessos, foi repelido. Heráclides chegou então da Grécia com reforços e derrotou Filisto no mar.[225]

Quanto ao fim de Filisto, Plutarco (Dion, 35, 3-5) menciona vários relatos: o de Éforo, segundo o qual Filisto se suicidou, e o de Timônides, segundo o qual ele foi capturado vivo, escarnecido, decapitado, e seu corpo, arrastado por Acradina e abandonado sem sepultamento. Timeu também concorda com este último relato, continua Plutarco.

Conflito entre Dion e Heráclides

As negociações entre Dionísio II e Dion intensificaram-se, a ponto de suscitar no segundo a suspeita de aspirar à tirania.[231] Seja como for, é muito provável que Dion, considerando o vínculo de parentesco, pretendesse buscar uma saída digna para o sobrinho, mantendo-se firme na necessidade de derrubar a tirania: a hipótese é ainda mais confiável por ser relatada por uma fonte pró-Dioniana como Plutarco (Dion, 30, 2).[232] Nesse meio tempo, a relação entre Dion e Heráclides, nomeado navarco pela pólis, deteriorou-se e, quando o tirano conseguiu fugir por mar em direção a Locri, deixando o filho Apolócrates a guardar Ortígia, Dion acusou Heráclides. Plutarco (Dion, 37, 5-6) relata que Heráclides induziu um tal Ípon,[N 45] demagogo, a promover uma redistribuição da terra (ἐπὶ γῆς ἀναδασμὸν), a dissolução do exército mercenário de Dion e a eleição de novos estrategos. No verão de 356,[233] vinte e cinco novos estrategos foram eleitos (um grande grupo, em nítida antítese aos plenos poderes concedidos a Dion) e entre eles Heráclides. O plano de redistribuição, que seria proposto novamente anos depois por Timoleão,[234] previa a concessão da cidadania aos mercenários em troca do fim do contrato e da falta de pagamento. Heráclides procurou desviar a fidelidade dos mercenários de Dion, mas o plano falhou. Dion e os seus mercenários tiveram que se refugiar em Leontinos, após um confronto com as milícias siracusanas. Os fatos são relatados de forma diferente por Diodoro (XVI, 17, 4-5) e por Plutarco (Dion, 38, 4 e 39, 1-3): para o segundo, a responsabilidade do confronto cabia aos siracusanos, sensíveis à bajulação dos demagogos, e a gravidade do confronto é minimizada; para o primeiro, os siracusanos pretendiam reapropriar-se do μισθός (o soldo dos mercenários) que julgavam ilegítimo e no confronto, brilhantemente vencido por Dion, as perdas siracusanas foram enormes.[235][236] A chegada de um exército mercenário reunido por Dionísio II, comandado pelo campânio Nípsio, convenceu porém os siracusanos a chamar de volta Dion, que expulsou Nípsio, recebendo por isso as honras reservadas aos heróis. Dion foi eleito strategós autokrátor por terra e mar, desta vez sem partilha ambígua de poder, por proposta do próprio Heráclides, que renunciava ao comando da frota. Dion, porém, para tranquilizar a classe popular, que via Heráclides como uma pessoa de confiança, decidiu mantê-lo no cargo de navarco, mas voltou a opor-se ao projeto de redistribuição da terra. Heráclides, tendo chegado a Messina, começou mais uma vez a reunir tropas contra Dion.[237][238]

A oposição de Dion ao plano de redistribuição defendido por Heráclides e Ípon correspondia à sua formação filosófica e política. Ao contrapor-se a qualquer tendência populista, Dion permanecia fiel ao ensinamento platônico, também avesso aos reequilíbrios democráticos. As intervenções dos acadêmicos do século IV na vida das poleis da época foram do mesmo teor.[239]

No auge da guerra civil, Esparta decidiu intervir, enviando Fárace e depois Gesila (ou Gesilo) para mediar entre as partes (de fato, não se sabe se eles atuavam por conta própria ou como representantes oficiais[240]). A mediação, no entanto, foi rejeitada por Dion, que havia retomado seu papel de único estrategista. Ele, em uma ação singular, ordenou o desmantelamento da frota, efetivamente dando livre curso ao auxílio que os sitiados em Ortígia tanto necessitavam. Nesse exato momento (355/354 a.C.), os sitiados se renderam. A sequência de eventos sugere que um acordo secreto havia surgido entre Dion e Apolócrates: o primeiro recuperou Arete,[114] enquanto o segundo ficou livre para se retirar para a Itália. A fuga de Apolócrates representou o fim da hegemonia de Dionísio II sobre Siracusa.[241][242]

Morte de Dion

Dion era nesse ponto (354 a.C.) dono da cena. Embora tivesse decidido abrir-se a um conselho que o auxiliasse, na verdade, ele estava cada vez mais orientado para uma forma despótica de governo. Segundo Plutarco (Dion, 53, 1), Heráclides continuou a acusá-lo nesse sentido, em particular devido à falha em demolir as fortificações da cidadela. E entre as primeiras iniciativas de Dion, agora tirano em Siracusa, estava o assassinato de Heráclides[114] (a Carta VII também omite isso[243]). De fato, não está claro se Dion ordenou o assassinato de Heráclides, se o auxiliou ou se apenas o permitiu.[244] Em todo caso, ele também havia feito inimigos do povo de outras maneiras: recusando-se a profanar os restos mortais de Dionísio, o Velho, e acolhendo conselheiros de Corinto.[241] Plutarco escreve:

Dione convocou homens de Corinto, pois esperava que, com eles ao seu lado, seria mais fácil instaurar a forma de governo que tinha em mente. Ele planejava, de fato, pôr fim à democracia pura, que não considerava uma verdadeira forma de governo civil, mas um "bazar de governos",[245] segundo a máxima de Platão. Em seu lugar, queria instaurar um regime ordenado, no qual a democracia e a monarquia seriam combinadas, como nos reinos de Esparta e Creta. A aristocracia deveria, portanto, supervisionar e arbitrar as questões públicas mais importantes.


τῷ δ᾽ ὄντι μετεπέμπετο τοὺς Κορινθίους ὁ Δίων, ἣν ἐπενόει πολιτείαν ῥᾷον ἐλπίζων καταστήσειν ἐκείνων παραγενομένων, ἐπενόει δὲ τὴν μὲν ἄκρατον δημοκρατίαν, ὡς οὐ πολιτείαν, ἀλλὰ παντοπώλιον οὖσαν πολιτειῶν, κατὰ τὸν Πλάτωνα, κωλύειν, Λακωνικὸν δέ τι καὶ Κρητικὸν σχῆμα μιξάμενος ἐκ δήμου καὶ βασιλείας, ἀριστοκρατίαν ἔχον τὴν ἐπιστατοῦσαν καὶ βραβεύουσαν τὰ μέγιστα, καθιστάναι καὶ κοσμεῖν, ὁρῶν καὶ τοὺς Κορινθίους ὀλιγαρχικώτερόν τε πολιτευομένους καὶ μὴ πολλὰ τῶν κοινῶν ἐν τῷ δήμῳ πράττοντας.

— Plutarco, Dion, 53, 2[246] (em grego clássico)
Arete, prisioneira do ateniense Cálipo, dá à luz o seu último filho. O autor da Carta VIII auspicia um acordo entre as partes em guerra, sugerindo a formação de uma monarquia compartilhada por Dionísio, o Jovem, Hiparino (outro filho de Dionísio, o Velho) e Hiparino Areteu (filho de Arete e de Dion).[247][248][249]

Dion, portanto, queria retomar de Platão a ideia de uma constituição mista, mas não teve tempo, tanto porque o projeto era utópico, quanto porque o seu companheiro Cálipo o assassinou.[241]

A notícia da morte de Dion chegou a Platão, que de Atenas acompanhava o desenrolar dos eventos. Nessa ocasião, teria escrito, segundo Diógenes Laércio, um epigrama para o seu discípulo:

Lágrimas por Hécuba e pelas mulheres troianas
teceram já as Moiras, quando elas nasceram;
a ti, porém, Dion, que por belas obras
celebravas a vitória, derramaram as deusas amplas esperanças.
Na tua grande pátria, honrado pelos concidadãos, jazes, ó Dion,
tu que com loucura de amor transtornaste a minha alma.


Δάκρυα μὲν Ἑκάβῃ τε καὶ Ἰλιάδεσσι γυναιξὶ
Μοῖραι ἐπέκλωσαν δὴ τότε γεινομέναις,
σοὶ δέ, Δίων, ῥέξαντι καλῶν ἐπινίκιον ἔργων
δαίμονες εὐρείας ἐλπίδας ἐξέχεαν.
Κεῖσαι δ' εὐρυχόρῳ ἐν πατρίδι τίμιος ἀστοῖς,
ὦ ἐμὸν ἐκμήνας θυμὸν ἔρωτι Δίων.

— Platão em Diógenes Laércio, III, 30[250] (em grego clássico)

A morte de Platão e a chegada de Timoleão

Cálipo manteve o poder em Siracusa por treze meses: mandou prender Aristômaca e Arete (mãe e filha foram depois libertadas e enviadas à Grécia, mas morreram afogadas durante a viagem). A instabilidade sociopolítica perdurou por longo tempo em Siracusa. É nesse período que as Cartas VII e VIII seriam escritas. Se aceitarmos a autenticidade da Carta VIII (escrita certamente depois de julho de 353 a.C., ou seja, após a tomada do poder por Cálipo), pode-se supor que os diônios, reunidos em torno da figura de Hiparino (filho de Dionísio, o Velho, e de Aristômaca), escreveram a Platão, pedindo conselhos sobre como proceder. Na resposta (Carta VIII, 355e-356b), a constituição dada por Licurgo a Esparta é indicada como modelo e com base nela sugere-se eleger três reis, representados pelas figuras de Hiparino (filho de Aristômaca), Hiparino Areteu (filho de Dion e Arete) e o próprio Dionísio II, que naquele momento ainda se encontrava na Itália.[249] As propostas contidas na Carta VIII são diversas e mais detalhadas do que as descritas na Carta VII e refletem de certa forma o modelo desenvolvido nas Leis.[251]

Cálipo foi depois expulso de Siracusa por Hiparino e refugiou-se em Catânia (ele próprio seria mais tarde vítima de uma conspiração). Em Leontinos, um diônio, Hicetas, impôs-se. Hiparino permaneceu no poder por cerca de dois anos. Depois foi a vez de Niseu, que permaneceu no poder até 347/346 a.C.[114]

Platão morreu em 347 a.C.: portanto, não viu a paz retornar a Siracusa. No mesmo ano ou pouco depois, Dionísio II chegou armado de Locri, voltando a apoderar-se da pólis. Os aristocratas siracusanos recorreram a Hicetas para livrar-se de Dionísio II. Foi nesse ponto que Siracusa decidiu pedir ajuda à metrópole, Corinto, para que enviasse um pacificador (também em vista de uma possível invasão cartaginesa[252]). Corinto enviou um general de uma família nobre, Timoleão.[114][253]

Ao escrever sobre a controvérsia acerca da veracidade das viagens de Platão à Sicília, Moses Finley observa:

Quanto à verdadeira história da Sicília, pouco importa de que lado nos posicionemos na controvérsia entre os historiadores modernos. Isso poderá incidir no juízo sobre o senso prático de Platão e sobre o ensino político na Academia, bem como no juízo sobre Dion e os seus planos. Mas Dion não deteve o poder, nem mesmo em Siracusa, tempo suficiente para concluir algo, quaisquer que fossem as suas intenções. Os eventos na Sicília tomaram o seu rumo, com ou sem a intervenção de Platão. O salvador não veio de Atenas mas de Corinto, e foi um militar, não um filósofo.

— Finley 1998, p. 110

Em 343 a.C., Dionísio II viu-se sitiado pelas forças vindas de Cartago e pelas tropas de Timoleão. Dionísio II foi definitivamente destronado e exilado em Corinto. O poder foi estabilizado por Timoleão, que pôs fim à tirania dionisiana, reformando as leis, inicialmente em sentido democrático, como atestam Plutarco (Timoleão, 22, 2) e Diodoro Sículo (XVI, 70, 5) e, posteriormente, de forma oligárquica.[254] Em todo caso, sobre essas reformas que Timoleão teria adotado logo após conquistar Siracusa as fontes não são nada claras e há quem pense que nessa fase de turbulência ele preferiu manter o status quo normativo, que o enquadraria talvez como strategòs autokrátor, embora nem sequer fosse cidadão de Siracusa.[255]

A Academia, um "berço de tiranos"?

A Academia de Platão representada em um mosaico de Pompeia

A Academia teve um papel importante na expedição militar de Dion contra Dionísio II, tanto na propaganda quanto na participação concreta.[256][257] O apoio à tomada do poder por Cálipo, por sua vez assassinado pelo pitagórico Leptines, permanece um ponto controverso da ação acadêmica.[258] Embora o caso de Siracusa tenha sido certamente o primeiro e mais marcante,[259] a intervenção dos acadêmicos na política das poleis repetiu-se em várias ocasiões: Popper, ao contar nove discípulos e pró-acadêmicos que usurparam tronos de diferentes cidades, definindo a Academia Platônica como criadora de tiranos ("The Academy was notorious for breeding tyrants")[260] remete a Ateneu de Náucratis (cuja fonte por sua vez parece ser Demócares),[261][262] que apresenta a Academia de Platão como uma "forja de tiranos".[263] Esta definição, contudo, continua controversa.[262]

Ateneu descreve o caso de Querão de Pelene, discípulo de Platão e Xenócrates, que agiu de modo deplorável na tentativa de criar o estado ideal descrito na República e nas Leis.[264]

O próprio Timoleonte foi definido como pró-acadêmico ou, de qualquer forma, ligado ao pensamento platônico.[265] O coríntio, de fato, realizou as reformas desejadas na Carta VII: expulsou da Sicília os mercenários e empreendeu a guerra contra Cartago; em essência, dedicou-se à defesa da helenidade contra os bárbaros. Uma visão inversa também foi proposta: teria sido a Academia a inspirar-se nas reformas de Timoleonte, redigindo a Carta VII algum tempo depois desses eventos e atribuindo-a a Platão.[266] Apesar disso, não é possível estabelecer se os acadêmicos e os pró-acadêmicos agiam com um grande projeto político por trás, talvez delineado pelo próprio Platão, ou se se tratava de iniciativas isoladas e casos esporádicos.[267]

O Estado ideal e a reforma de Siracusa

Platão entre o compromisso e o descompromisso político na transição do século V para o século IV a.C.

Estátua de Platão (Leonidas Drosis), atual Academia de Atenas

Embora a política tenha sido, sem dúvida, objeto de interesse de Platão, faltam nos diálogos platônicos referências claras aos acontecimentos políticos de seu tempo ou indicações de que o filósofo tenha tentado colocar em prática as próprias ideias. Enquanto o livro VI da República parece indicar uma tendência ao desengajamento em relação aos problemas da Atenas de sua época, o texto das Leis, último diálogo platônico, parece remeter, ao contrário, a um desejo de servir a cidade natal. John Burnet chega a escrever que Platão, antes mesmo de completar trinta anos, já havia abandonado qualquer interesse pela vida política ativa.[268] É de se presumir que Platão escrevesse tendo em vista os problemas de seu tempo, mas os diálogos (com exceção das Leis e do Político) parecem, ao contrário, referir-se a cenários e figuras da geração anterior, a do século de Péricles: Protágoras, Trasímaco, Cálicles, o próprio Péricles, Temístocles etc.[269][270] É possível supor que Platão pretendesse tratar dos problemas de seu tempo de maneira indireta, discutindo os do século anterior, também porque, como observou Guy Cromwell Field,[271] talvez não percebesse entre a época de Péricles e seu tempo a ruptura que os historiadores modernos costumam identificar: Platão e seus contemporâneos percebiam talvez essa ruptura mais entre as Guerras Persas (primeira metade do século V a.C.) e a Guerra do Peloponeso (431–404 a.C.). Alguns temas tratados nos diálogos políticos parecem, aliás, mais facilmente atribuíveis ao século IV a.C. do que ao V, como, por exemplo, a desconfiança em relação ao poder dos retóricos no Górgias, a condenação do atletismo, do espírito competitivo e da litigiosidade entre as poleis, bem como o apelo à necessidade de uma classe combatente, na República.[269] A complicar o panorama, há a incerteza dos estudiosos quanto à “questão socrática”: não está claro, de fato, se Platão, em seus diálogos políticos, quis relatar fielmente as ideias de Sócrates e as avaliações deste em relação à sua época (século V a.C.) ou se deu voz, por meio de Sócrates, às próprias ideias e em relação ao século IV.[272]

As controversas cartas platônicas mostram um Platão fortemente envolvido na política ativa: oito delas se relacionam à sua experiência em Siracusa, mas as restantes, com exceção da Carta XII, também lançam alguma luz sobre o pensamento político de Platão ou, pelo menos, sobre como esse pensamento foi retratado por um imitador talvez próximo a ele. Em particular, os detalhes biográficos contidos no início da Carta VII (324b–325e) fazem pensar que as opiniões expressas na República sejam platônicas e não socráticas. Nesse sentido, parece natural pensar que o alvo da sátira mordaz contida no diálogo seja o demos ateniense da época de Platão: a “grande e forte besta” (θρέμματος μεγάλου καὶ ἰσχυροῦ) do livro VI (República, 493a) poderia ser uma referência à Atenas dos primeiros anos do século IV e não à do século V.[273] A figura do tirano no final do livro VIII e no IX, como já foi dito por vários autores, é modelada em Dionísio I.[274] A constituição timocrática descrita é, como Platão afirma expressamente, bem exemplificada por Esparta e Creta.[275]

O século IV: da crise da polis à afirmação do Estado territorial e do homem forte

O século IV a.C., mesmo na consciência dos contemporâneos, foi um século de crise para o mundo grego. A Guerra do Peloponeso deixou profundas cicatrizes no tecido da sociedade helênica. Trinta anos de guerra haviam desviado as energias sociais da atividade econômica, enquanto o território agrícola sofreu danos significativos. Toda uma geração foi treinada para a guerra e cresceu sem quaisquer outras habilidades. Muitos desses jovens, ao final da guerra, tornaram-se soldados profissionais: em suma, formou-se uma espécie de classe mercenária. As poleis se viram mutuamente impotentes e já não eram capazes de conter os persas. No oeste, Cartago e as tribos itálicas estiveram a um passo de aniquilar a civilização helênica na Itália e na Sicília.[276] O conflito entre as facções oligárquicas e democráticas na Grécia era muito intenso. Nas Leis, Platão parece se referir ao seu próprio tempo quando faz o ateniense dizer: "Os Estados de hoje não são politeiai; são apenas agregações de pessoas que vivem em cidades e que são súditos e servos de uma parte do seu próprio grupo" (IV, 712e).[277] Para Platão, a luta entre facções ( stasis ) nada mais era do que a manifestação de uma degeneração moral, que havia rompido os laços constitutivos das poleis, isto é, o respeito ( αιδώϛ ) e o senso de justiça ( δίκη ), que no mito da criação do Estado ilustrado no Protágoras (322c ) são trazidos à Terra por Hermes, por iniciativa de Zeus, temendo que o estado de natureza levasse ao fim da raça humana.[278]

O século IV foi também o século dos homens fortes, dos quais os maiores exemplos são Evágoras, um soldado da fortuna que conseguiu tornar-se rei de Chipre, e Dionísio I, que unificou os gregos da Itália e da Sicília e conseguiu impedir a invasão cartaginesa. Mais ao norte, na Tessália, Jasão de Feras teve menos sucesso. Ainda mais ao norte, o Reino da Macedônia foi a potência que eventualmente eliminaria as liberdades gregas. Embora "tirano" e "tirania" fossem tradicionalmente termos depreciativos, no século IV começaram a ser percebidos como menos desagradáveis: Xenofonte, em seu Híeron, embora se refira à caracterização típica do tirano como “um fora da lei no trono”, acaba admitindo que um déspota esclarecido seria de grande benefício para Atenas e seu retrato de Ciro, o Grande é entusiástico. Diógenes Laércio (VI, 16) relata um escrito de Antístenes que tem Ciro como protagonista. Tanto nas Leis quanto na Carta VII, o julgamento sobre Ciro e Dario é muito positivo.[279]

Na Sicília, o ímpeto para a construção de vastos organismos territoriais remontava já ao século VI a.C., com Fálaris e os Emênidas em Agrigento, com Hipócrates em Gela e, ainda mais, com o dinomenida Gelão.[280] Nas palavras de Consolo Langher:

[...] é sobretudo a partir de Gélon que a tendência a superar os limites ideais e geográficos da polis se identificou [...] com a própria história de Siracusa, que se tornou o centro de um império voltado para o Tirreno, a Magna Grécia e o Adriático, capaz de defender a helenidade dos assaltos dos cartagineses e etruscos. Em conexão com as estratégias de domínio próprias dessa política de arché, que comportava complexos processos de incorporações territoriais, de assentamentos de mercenários, de misturas étnicas, desenvolveu-se, após a queda dos Dinomênidas, o fenômeno de uma frequente instabilidade interna, alimentada pela heterogeneidade e mobilidade do tecido social, causa de lutas de poder e de tensões também ideológicas.[281]


No decorrer do século V, Siracusa conseguiu estabelecer um sistema plenamente democrático. A constituição modificada por Diocles no final do século V permitiu à polis encontrar um equilíbrio social e econômico. No século IV, porém, o conflito com os cartagineses levou ao despovoamento de muitas cidades e vastas áreas agrícolas da ilha: a grave crise econômica resultante forçou muitos cidadãos gregos à servidão por dívidas. Apesar das iniciativas de Dionísio II em favor da remissão de dívidas e da libertação dos insolventes, a situação em 357/356 era muito grave e é com esse panorama em mente que as iniciativas redistributivas de Heráclides devem ser lidas.[282]

Na República, Platão distingue entre stasis (‘discórdia interna’) e polemos (‘guerra externa’).[283][N 46] A stasis em Siracusa era determinada por vários fatores: o uso e a naturalização de mercenários, o uso sistemático da deportação de cidadãos gregos subjugados e o transplante casual de milhares de habitantes do campo, o endividamento e o desequilíbrio econômico entre as classes. A relação entre tyrannis e stasis na Sicília foi talvez complicada pelas características diferentes da polis ocidental, desprovida de uma “ideologia sólida” e de “coesão cívica”.[284]

Em geral, muitos pensadores gregos do século IV viam no homem forte, que deveria liderar os gregos rumo à unidade e derrotar os bárbaros, a melhor solução para o problema do egoísmo das poleis e do conflito entre facções dentro delas. Platão não é exceção: na República, o governo ideal tem à sua frente um monarca instruído em filosofia. Nas Leis, porém, a ideia de um governo absoluto é vista com grande suspeita.[285] Tanto as Leis quanto o Político destacam que as formas de governo devem ser distinguidas não tanto entre monarquias, oligarquias e democracias, mas entre regimes em que os governantes estão, como os súditos, sujeitos à lei e regimes em que estão acima de qualquer lei.[286] A posição do autor da Carta VII mostra uma clara aversão ao despotismo (por exemplo, em 334c).[287]

Entre a República e as Leis: o papel do rei-filósofo e a soberania da lei

Papiros de Oxirrinco LII 3679 (século III d.C.), com um fragmento da República (Πολιτεία)

Na República,[N 47] Sócrates, protagonista do diálogo, define os cânones da "ἀρίστη πόλις" (IV, 434e) ou "ἀρίστη πολιτεία" (VI, 497c), um Estado ideal com um seleto círculo de filósofos no seu ápice.[288] O Estado descrito por Sócrates é composto por três classes: os δημιουργοί (ou seja, os produtores: artesãos e agricultores), os φύλακες (ou seja, os defensores: guardiões ou guerreiros) e os ἄρχοντες (os governantes: regentes ou “guardiões”). Cada classe deveria respeitar o próprio papel, para que prevalecesse a harmonia do ser humano com o todo.[289] Nas Leis, porém, ele limita o seu ideal máximo, provavelmente devido aos anos passados em contato estreito com a tirania siciliana,[249] e define os cânones do melhor Estado possível, admitindo, além da "ἀρίστη (ou πρώτη) πόλις καὶ πολιτεία", povoada por "deuses ou filhos de deuses" (Leis, V, 739d),[N 48] também um "δευτέρα καὶ τρίτη πόλις καὶ πολιτεία" (Leis, V, 739a-e), ou seja, um segundo e um terceiro melhor Estado possível na ordem de classificação do seu ideal político.[291]

Uma passagem famosa da Carta VII reproduz fielmente a tese central expressa na República:[292]

Portanto, os males humanos nunca terão fim até que os verdadeiros e autênticos filósofos cheguem ao poder político, ou os governantes das cidades, por alguma graça divina, se tornem realmente filósofos.


Κακῶν οὖν οὐ λήξειν τὰ ἀνθρώπινα γένη, πρὶν ἂν ἢ τὸ τῶν φιλοσοφούντων ὀρθῶς γε καὶ ἀληθῶς γένος εἰς ἀρχὰς ἔλθῃ τὰς πολιτικὰς ἢ τὸ τῶν δυναστευόντων ἐν ταῖς πόλεσιν ἔκ τινος μοίρας θείας ὄντως φιλοσοφήσῃ.

— Carta VII, 326a-b[293][N 49] (em grego clássico)

O texto da República é o seguinte:

A menos que [...] os filósofos reinem nos Estados ou aqueles que hoje são chamados reis e senhores pratiquem uma filosofia genuína e válida, e não se reúnam na mesma pessoa o poder político e a filosofia, e não seja necessariamente fechado o caminho às muitas naturezas daqueles que atualmente se movem apenas por uma das duas, não pode haver, querido Glauco, uma cessação dos males para os Estados e, creio eu, nem mesmo para a humanidade; assim como não será nunca realizada e verá a luz do dia esta constituição que agora expusemos em palavras. E é precisamente isso que há muito me faz hesitar em falar, porque vejo que grande parte do meu discurso irá contra a opinião corrente.


ἐὰν μή [...] ἢ οἱ φιλόσοφοι βασιλεύσωσιν ἐν ταῖς πόλεσιν ἢ οἱ βασιλῆς τε νῦν λεγόμενοι καὶ δυνάσται φιλοσοφήσωσι γνησίως τε καὶ ἱκανῶς, καὶ τοῦτο εἰς ταὐτὸν συμπέσῃ, δύναμίς τε πολιτικὴ καὶ φιλοσοφία, τῶν δὲ νῦν πορευομένων χωρὶς ἐφ᾽ ἑκάτερον αἱ πολλαὶ φύσεις ἐξ ἀνάγκης ἀποκλεισθῶσιν, οὐκ ἔστι κακῶν παῦλα, ὦ φίλε Γλαύκων, ταῖς πόλεσι, δοκῶ δ᾽ οὐδὲ τῷ ἀνθρωπίνῳ γένει, οὐδὲ αὕτη ἡ πολιτεία μή ποτε πρότερον φυῇ τε εἰς τὸ δυνατὸν καὶ φῶς ἡλίου ἴδῃ, ἣν νῦν λόγῳ διεληλύθαμεν. ἀλλὰ τοῦτό ἐστιν ὃ ἐμοὶ πάλαι ὄκνον ἐντίθησι λέγειν, ὁρῶντι ὡς πολὺ παρὰ δόξαν ῥηθήσεται.

— República, V, 473d-e[294] (em grego clássico)

Num período em que a polis já não conseguia suscitar nos cidadãos um sentido de comunidade, a raiz do mal social residia, segundo Platão, na dissolução de uma ordem que transcendia a dimensão do desejo individual. A própria lei não passava agora de um instrumento que permitia a diferentes facções manter ou conquistar o poder. Os Sofistas, aliás, defendiam a doutrina segundo a qual a lei deriva da força.[295] O que, em relação à justiça, as gerações anteriores viam como ordem da natureza, os sofistas interpretavam como “convenções”. A filosofia política de Platão aparece como um esforço para restabelecer o papel da lei e a sua autoridade, como garantia de ordem e coesão da polis. A Carta VIII é repleta de referências à divindade da lei: ela é “o deus dos homens sábios” (354e). Licurgo assegurou à lei um papel central, fazendo dela “senhora e rainha dos homens, não os homens tiranos da lei” (354b-c).[296] A solução de Platão não consistia, porém, num simples retorno ao passado: ele tentou acolher a ideia da natureza convencional das leis humanas.[297]

O sofismo e democracia estavam, na Atenas do século IV, intimamente ligados: como escreve Adriana Cavarero, pertenciam a “uma única organização do poder: a teorização da validade de toda opinião e a gestão do estado confiada à assembleia, onde todos podiam defender a sua tese e onde as teses mais 'convincentes' prevaleciam".[298] O discurso erístico também aparece na Carta VII. Em 343c, faz-se uma distinção entre a refutação honesta, destinada à busca do bem, e a refutação desonesta, que conduz, ainda segundo Cavarero, "o questionado ou o ouvinte a uma escuridão total sem saída. Isto acontece porque [...] os limites imediatos do discurso são absolutos, e assim o discurso deixa de ser o lugar da verdade e torna-se o instrumento da imposição".[299]

Apesar da sua sensibilidade antidemocrática, Platão reconhecia que a democracia ateniense do século IV havia conseguido evitar que Atenas caísse na anarquia e no conflito entre facções. Uma passagem da Carta VII (325b) não hesita em reconhecer a moderação da facção democrática de Trasíbulo e Trasilo no tratamento dos oligarcas ligados aos Trinta Tiranos.[53] É perceptível, nesse sentido, a abordagem diferente das Leis em relação à República: no diálogo de sua maturidade tardia, Platão reconhece o valor do princípio democrático e delineia uma constituição mista, que une monarquia e democracia. Posições semelhantes são expressas nos conselhos aos partidários de Dion, com a recomendação de uma constituição que tenha vários traços democráticos.[300] A mudança de perspectiva da República para as Leis é objeto de debate entre os estudiosos. De fato, Platão sempre viu na democracia pura uma forma de governo desprovida de excelência, incapaz de produzir grandes danos ou grandes benefícios.[301]

A escolha de Siracusa

Dion é a primeira figura da história antiga cujas ações políticas foram ligadas, ao menos por tradição, a uma escola filosófica. Essa “hipoteca platônica” sobre Dion também teve grande influência na historiografia moderna (como no caso de Renata von Scheliha e Helmut Berve[302]). Uma reconstrução precisa dos fatos, particularmente os posteriores a 356 a.C., é marcada por um traço pró-Dioniano, já bem definido em Plutarco, e, portanto, é essencialmente impossível.[303] Em um nível teórico, além das dificuldades ligadas à questão da autenticidade da correspondência, há o problema da relação entre o ideal de Estado delineado na República e a receptividade da proposta. Atenas, com toda a probabilidade, não foi capaz de aceitar esse modelo. Isso porque os elementos constitutivos da pólis do século IV a.C. (individualismo e interesse privado) foram interpretados por Platão como males extremos. Talvez nem mesmo para Platão fosse possível indicar os meios para superar esses males: a Grécia estava no caminho que levaria ao helenismo, e o movimento de Platão era contrário e quase anti-histórico. Essa relação entre modelo e realidade histórica favoreceu na crítica moderna uma visão da proposta de Platão em termos de utopia. De fato, a proposta da República representa um ideal regulador, que não pode ser realizado no momento devido a uma impossibilidade histórica, mas que deve permanecer na mente do povo grego porque mantém firme a essência da pólis original, que tornou o povo grego grande.[304] Adriana Cavarero escreve: "Platão comete o "erro" histórico de propor uma estrutura que decaiu para sempre, mas ele tem a inteligência de identificar os elementos de um declínio que percorrerá um longo caminho na história".[305] Desses elementos, o mais importante foi a miragem do “homem forte”:

Por isso eu refletia e hesitava se deveria dar-lhe ouvidos e partir para Siracusa novamente. No fim, o que fez a balança pender foi a consideração de que, se alguém um dia quisesse tentar realizar seus pensamentos sobre leis e Estado, agora era a hora: bastaria persuadir um só homem, e eu teria feito todo o bem possível.


ὅθεν μοι σκοπουμένῳ καὶ διστάζοντι πότερον εἴη πορευτέον καὶ ὑπακουστέον ἢ πῶς, ὅμως ἔρρεψε δεῖν, εἴ ποτέ τις τὰ διανοηθέντα περὶ νόμων τε καὶ πολιτείας ἀποτελεῖν ἐγχειρήσοι, καὶ νῦν πειρατέον εἶναι: πείσας γὰρ ἕνα μόνον ἱκανῶς πάντα ἐξειργασμένος ἐσοίμην ἀγαθά.

— Carta VII, 328b-c[306] (em grego clássico)

Enquanto Atenas estava nas mãos das opiniões de muitos e da teorização sofística das opiniões, a Sicília estava nas mãos de um único homem e, por esta razão, uma reforma parecia ser mais facilmente alcançável.[305]

Já em fontes antigas encontramos a acusação contra Platão de ter dedicado mais atenção a Siracusa e de ter negligenciado a política de Atenas,[307] passando muito tempo longe de sua cidade natal em vez de se dedicar a ela, possivelmente por razões menos nobres.[N 50][308] Uma interpretação, com uma inclinação menos antiplatônica, enxerga na empreitada siciliana a tentativa de colocar em prática[309] o que fosse possível do Estado ideal. Nesse sentido, a Sicília representava para Platão uma espécie de terra prometida.[310] Giuseppe Girgenti comparou uma polaridade vertical, em Platão, entre a cidade celestial e a terrena, com uma polaridade horizontal entre Atenas e Siracusa:

[...] na vida de Platão houve certamente também uma segunda tensão [...]: a tensão entre Atenas e Siracusa, entre a sua cidade de origem, percebida como velha, decadente e corrupta (sobretudo após a condenação à morte de Sócrates), e a cidade nova, a colônia grega do Ocidente, virgem (ou quase); essa tensão [...] naturalmente já existira antes, e em particular nas vicissitudes de Górgias, de Sócrates e de Alcibíades, mas na época de Platão assume um significado totalmente particular, dada a presença em Siracusa de uma tirania. Em Siracusa, Platão não viu a presença do tirano Dionísio como fruto da decadência e da corrupção, como em Atenas, mas como a possibilidade de uma transformação profunda e radical, graças à ação de um rei-filósofo esclarecido, que ele enxergou no jovem Dion [...].

— (Girgenti 2004, p. 104)

A situação geopolítica da pólis siciliana era, além disso, muito particular. Siracusa era, de fato, a outra capital político-intelectual da Grécia: um posto avançado a ser observado contra o invasor bárbaro, um ponto focal de um novo império, como Alcibíades o definiu, parecia totalmente imersa naquele mundo italiota, que se tornara a terra dos pitagóricos, no qual a influência e o controle dos dionisíacos eram palpáveis. Controlar os siracusanos teria, portanto, dado-lhes acesso a um império sociocultural que parecia ao seu alcance.[311]

Filippo Forcignanò, por sua vez, sublinhou que, na Carta VII, já nas primeiras passagens (em particular em 324a-b), o autor declara que apoiará os dionisíacos apenas se eles permanecerem fiéis à linha e aos objetivos (διάνοια καὶ ἐπιθυμία) de Dion e especifica que consistem na ideia de que os siracusanos devem preservar a sua liberdade e viver sob as melhores leis: esta visão, observa Forcignanò, não é a da República.[312]

A reforma de Siracusa

Segundo a Carta VII (326a-b), quando Platão chegou a Siracusa, ele já era da opinião de que a sociedade humana só poderia ser salva se os filósofos obtivessem o poder político ou se os reis se dedicassem à filosofia. Trata-se da tese central contida na República. Podemos, portanto, imaginar razoavelmente que, nas primeiras conversas entre Platão e Dion, o papel dos filósofos e da filosofia em vista de uma reforma política tenha sido central, mas é duvidoso que ele pudesse ter concebido para Siracusa a aplicação direta das normas imaginadas na República (como a partilha dos bens privados e das mulheres) e, de qualquer forma, a referência à filosofia não esclarece o que concretamente Platão tinha em mente para reformar Siracusa.[292]

Três podem ter sido as linhas concretas de reforma que Platão quis sugerir a Dion.[313]

Em primeiro lugar, o espaço reservado ao tema da luxúria e da gula na Carta VII sugere que Platão possa ter recomendado a Dion uma reforma dos costumes. Em 336c-d, ele recomenda aos partidários de Dion que retornem aos costumes dóricos da metrópole de Corinto. Na Carta VIII (355b-c), recomenda aos siracusanos que adotem leis que distribuam as honras colocando a alma (ψυχή) em primeiro lugar e só depois o corpo (σῶμα) e as riquezas (χρήματα). Após o encontro com Platão, pela Carta VII (327b) sabemos que Dion escolheu um estilo de vida austero.[314]

Dião apresenta Platão a Dionísio, o Velho. Ilustração de artista anônimo, 1876 (Sammlung Archiv für Kunst und Geschichte, Berlim).

Em segundo lugar, é possível argumentar que Platão tenha sugerido a Dion que substituísse a tirania por um regime constitucional. Nesse sentido, deve ser entendida a insistência no papel das leis (presente tanto na Carta VII quanto nas Leis). Aos adversários de Platão em 367 (e a Filisto em primeiro lugar) era claro que o objetivo do filósofo fosse a derrubada da tirania. Cornélio Nepos (Dione, 3) escreve: "Plato autem tantum apud Dionysium auctoritate potuit valuitque eloquentia, ut ei persuaserit tyrannidis facere finem libertatemque reddere Syracusanis".[315] Permanece incerto se Platão já estava determinado nesse propósito em 388 a.C., na época de sua primeira viagem. Que assim seja parece ser sugerido por uma passagem na Carta VII (334c-d), na qual o autor escreve que repetiu três vezes o conselho de se libertar dos déspotas e de se render à primazia das leis: uma primeira vez a Dion, uma segunda vez a Dionísio, o Jovem, e uma terceira vez aos partidários de Dion (na mesma Carta VII ). A mesma comparação com Dionísio, o Velho, transmitida pela tradição (em particular por Plutarco), mostra a aversão explícita de Platão à tirania, que também se encontra nos diálogos. Em conclusão, a primazia da lei é talvez a doutrina política mais relevante transmitida pela Carta VII.[316] Um exemplo disso é o apelo apaixonado à facção vitoriosa em Siracusa, que deve refrear seu desejo de poder absoluto, renunciando a represálias contra a facção perdedora, como a única maneira de realmente pôr fim à guerra civil.[317]

O terceiro ponto que pode ter estado no centro da atenção de Platão na educação dada a Dion é o da defesa dos gregos contra os bárbaros na Sicília e na Itália. Embora Dionísio, o Velho, tivesse conseguido por muito tempo conter a ameaça cartaginesa, por vários anos antes de sua morte em 367 ele foi obrigado a pagar tributo aos púnicos. Além disso, a própria política de domínio sobre a ilha, voltada a subtrair às outras poleis gregas qualquer margem de autonomia, tornava estas últimas incapazes de contribuir para a defesa dos gregos (sem contar que Agrigento, a segunda polis mais importante da ilha, havia sido destruída pelos cartagineses em 406). Dionísio também abriu caminho para o uso de mercenários das tribos itálicas. Diversas passagens de suas cartas atestam sua atenção a esse ponto: III, 315d; VII, 332e, 336a, 336d; VIII, 353e; 357a-b. A solução oferecida foi reconstruir as cidades gregas abandonadas ou repovoar com gregos aquelas ocupadas por estrangeiros e unir todas as poleis contra Cartago.[318] Pode-se também conjecturar que foi a própria ameaça cartaginesa que consolidou o poder do tirano e que Platão estava ciente da falta de filo-helenismo do tirano desde 388.[319] A contraposição entre stasis e polemos reaparece na Carta VIII, em que o autor expressa o temor de que, devido à instabilidade política de Siracusa (que naquele momento enfrentava uma stasis deletéria[320]), a Sicília pudesse cair em mãos dos bárbaros Oscos ou Fenícios, chegando até a perder o conhecimento da língua grega. Ele, portanto, recomendou a união entre os gregos para evitar que isso acontecesse ( Carta VIII, 353e). Somente a guerra entre gregos e bárbaros é realmente guerra, enquanto o conflito entre gregos deve ser condenado ou, pelo menos, regulamentado.[321][N 51]

A reforma constitucional na Carta VIII e nas Leis

Segundo a tradição, quando Dionísio, o Velho, morreu e seu filho ascendeu ao poder, Dion viu diante de si a oportunidade há muito esperada e convidou Platão para Siracusa. Este, embora não estivesse entusiasmado, sentiu que não podia recusar, tanto por dever de amizade para com seu discípulo quanto para evitar parecer um mero teórico. É difícil imaginar, porém, que ele ou Dion realmente pretendessem remodelar a constituição de Siracusa segundo a utopia prefigurada na República e fazer de Dionísio, o Jovem, um rei-filósofo segundo o modelo descrito no mesmo diálogo. As intenções podem ter sido mais modestas e condizentes com uma constitucionalização do poder do tirano, dentro da estrutura de uma constituição mista, com elementos monárquicos, aristocráticos e democráticos, como descrito na Carta VIII.[322]

Levi Arnold Post[323] destacou como os primeiros livros das Leis pareçam dedicados à questão siracusana. É de toda forma possível que tenham sido redigidos sob a influência da experiência siracusana. Por exemplo, em Leis, IV, 709e-711c, é expressa a opinião de que a tirania é a forma de governo da qual é mais fácil passar a um governo bem reformado. Isso porque um tirano esclarecido pode com grande eficácia e em pouco tempo influenciar os cidadãos, com o exemplo, com prêmios e com punições. Era certamente impossível aspirar a tornar Dionísio, o Jovem, um rei-filósofo à maneira dos ἄρχοντες concebidos na República, mas era uma ambição razoável buscar ao menos fortalecer o seu caráter. Não é, contudo, conhecido o conteúdo dos ensinamentos de Platão a Dionísio, o Jovem, a não ser alguma rara informação oferecida pela Carta VII e o que escreveu Plutarco (Dion, 9-14), que sobre o assunto, como em outros lugares, se basearia em Timeu.[324] Registra-se já a partir do historiador de Tauromênio a tendência a conceber esses ensinamentos como a colocação em prática do curso de estudos desenhado para a classe dos filósofos na República. Há apenas um trecho da Carta VII (331d-333a) em que são descritos esses ensinamentos, todos relativos a questões morais e políticas. Platão e Dion teriam sublinhado a Dionísio, o Jovem a necessidade da temperança, um meio para a obtenção de amigos e seguidores, fundamentais à descentralização do poder. Uma característica do poder de Dionísio, o Velho, era a desconfiança do tirano para com os subordinados e a consequente obsessiva centralização. A incapacidade do velho tirano de procurar subordinados fiéis é contraposta à habilidade de Dario da Pérsia em distribuir governadores provinciais confiáveis em sete regiões, cada uma delas maior do que a Sicília.[325][N 52] É nesse sentido que o autor da Carta VII aconselhava Dionísio II a reconstruir as cidades gregas, vinculando-as com leis e constituições que despertassem no povo o amor por ele e o preparassem para a resistência contra o invasor cartaginês.[327] Ao mesmo tempo, recomendava livrar-se das colônias militares compostas por mercenários de origem bárbara e tornar a Sicília totalmente grega.[328][N 53]

As diretrizes constitucionais apresentadas na Carta VIII apontam precisamente para uma ampla partilha de poder. O autor da Carta VIII concede à facção monárquica a manutenção de três reis, encarregados dos sacrifícios rituais. Não está claro quais outros poderes ele confiou aos três reis, além, talvez, do comando do exército em guerra e de algumas funções judiciais menores (parcialmente análogas às dos reis espartanos). Em geral, os três reis eram, portanto, incumbidos de uma função primordialmente honorífica, enquanto o poder efetivo era confiado a um grupo de trinta e cinco nomofílaxes (ou "guardiões da lei"), encarregados de governar por meio de um conselho e uma assembleia popular. A Carta VIII não especifica os poderes dessa assembleia popular. De modo geral, o esboço apresentado na Carta VIII tem muitas semelhanças com o que é previsto nas Leis: se essas semelhanças forem significativas, é possível hipotetizar que tanto os nomofílaxes quanto o conselho seriam eleitos pela assembleia popular.[330] Nas Leis, onde se prevê uma colônia imaginária chamada Magnésia, a divisão dos cidadãos em quatro classes, com base na propriedade, é prevista; o conselho é composto por um número igual de membros retirados das quatro classes (VI, 756c-d) e o acesso ao cargo de nomofílax não é restrito a nenhuma classe (VI, 755b).[331] Interpretando a Carta VIII com base nas Leis, é possível supor que o autor pretendia conceder muito à facção democrática.[332]

O autor da Carta VIII demonstrou um notável interesse pelos tribunais de justiça: era previsível que estes estariam muito ocupados nos primeiros anos de um novo regime constitucional. Tanto a Carta VIII quanto as Leis se afastaram, neste aspecto, da tradição democrática. Todos os casos relativos a penas de morte ou exílio seriam decididos por um órgão colegiado, composto pelos trinta e cinco nomofílaxes e pelos magistrados que mais se destacaram no ano anterior. Nisso, a Carta VIII coincide com as Leis (VI, 767). Além disso, a Carta VIII especifica (357a) que a administração da justiça deveria ser retirada das mãos dos reis, que "não deveriam se manchar com derramamento de sangue, prisões ou exílios".

Crítica moderna

Karl Popper (1902-1994): o primeiro volume da sua obra A sociedade aberta e seus inimigos (1945) é dedicado a Platão

O pensamento de Platão permeou toda a história da filosofia ocidental. Nas diferentes fases dessa história, intérpretes e filósofos privilegiaram os aspectos do pensamento platônico que mais se adequavam às necessidades da época. Assim, na Idade Média, Platão foi lido sobretudo como teólogo, enquanto a ênfase em Platão como pensador político é característica do século XX.[333] A reflexão sobre o Platão político começou com Hegel, que em suas aulas de Berlim sobre a história da filosofia leu em Platão o retorno do Estado ético e orgânico, tal como configurado na pólis original, em contraste com a exaltação da subjetividade personificada por Sócrates.[334]

Hans-Georg Gadamer, aluno de Martin Heidegger,[N 54] fala da "atração fatal" do filósofo pelo tirano; Gadamer cunhou o termo "síndrome de Siracusa"[336] em referência àqueles que sentiam a necessidade de dominar com a própria filosofia a vida de um governo.[337] Jacques Derrida também se concentra no fracasso político de Platão e defende uma separação total entre filosofia e política.[338]

Leo Strauss e Alexandre Kojève, em sua discussão sobre o Híeron de Xenofonte, chamaram a atenção para o conceito de tirania no mundo antigo e, portanto, para a dificuldade atual de compreender as ações do filósofo ateniense.[339]

Karl Popper foi particularmente crítico de Platão, tendo-o definido como um pensador totalitário na sua obra A Sociedade Aberta e Seus Inimigos,[N 55][341] repreendendo-o por ter colocado os gregos acima de todos os outros povos.[342]

Contrariamente à visão de Popper, Gadamer argumentou que a "cidade celestial" de Platão era inteiramente utópica, portanto, seus pensamentos sobre ela deveriam ser vistos com ironia. Platão pretendia ser provocativo e não tinha a intenção de aplicar seu modelo ideal à realidade.

Muitos não interpretaram Platão corretamente. Toda a sua construção política, a da “República”, é também, ao mesmo tempo, uma zombaria.

— Gadamer em (Girgenti 2004, p. 115).

Para Girgenti, Popper está errado por um lado, pois não consegue compreender o Platão do século IV a.C., que, confrontado com a tragédia fratricida representada pela Guerra do Peloponeso, tenta salvar o que resta do seu mundo helênico, mas, por outro lado, está certo ao acusar as interpretações de Platão amplamente difundidas nas distorções políticas alemãs que tentaram apresentar o filósofo ateniense como um guia para os seus propósitos totalitários.[343] Giovanni Reale, partindo do pressuposto de que Popper foi condicionado pelas interpretações errôneas acima mencionadas, argumenta que foram feitas extrapolações indevidas contra Platão fora do seu contexto, quando Platão, na verdade, considerava o absolutismo tirânico o pior dos males.[344]

Para Charles L. Griswold, o modelo da cidade ideal é um aviso aos homens; Platão quer mostrar que a imperfeição pode se instalar em qualquer lugar, mesmo em uma sociedade ideal hipotética.[345]

Werner Jaeger e Eric Voegelin, por sua vez, privaram Platão de um propósito "político" no sentido moderno do termo: o filósofo ateniense pretendia, antes de tudo, realizar uma ordem divina na alma, de modo que para Jaeger é possível falar de um cidadão de dois mundos, um interno e outro externo;[346] a cidade situada no céu constitui um modelo ideal e transcendente, do qual a terrestre sempre representará uma réplica imperfeita, segundo Voegelin.[347]

Thomas Alan Sinclair argumentou que Platão 'nunca imaginou nenhum mortal naquela parte sublime, exceto ele próprio'[348] e continua afirmando que:

Platão nunca tentou implantar em Siracusa o Estado ideal da República, ou seja, uma cópia terrena do mesmo; faltavam todas as condições necessárias para constituí-lo, além de não lhe terem sido concedidos os trinta anos necessários para formar os seus governantes [...].

— Thomas A. Sinclair, p. 243.

Hans Krämer observou que "o projeto foi mantido bastante elástico e flexível, estando fundamentalmente aberto à expansão, tanto no seu todo como nos seus detalhes. Pode-se, portanto, falar de uma instância não dogmática, mas sim heurística, que em alguns pormenores permaneceu mesmo na fase de esboço, e, por conseguinte, de um sistema aberto".[349]

A interpretação mais recente de Cosimo Quarta vê nos filósofos-governantes do Estado platônico os verdadeiros precursores daquilo a que a humanidade, enquanto coletivo, está destinada a se tornar.[N 56]

Possíveis implicações com o mito de Atlântida

Mapa de Atlântida da obra Mundus subterraneus do jesuíta alemão Athanasius Kircher, de uma edição publicada em Amsterdã em 1678

Naquela que é considerada a nona tetralogia de Platão, encontram-se dois diálogos, Timeu e Crítias (que deveriam ter sido seguidos por Hermócrates). Nesses diálogos, o ateniense fala de uma imensa ilha perdida, Atlântida, engolida pelas águas em um único dia e uma única noite. Isso aconteceu, escreve Platão, 9.000 anos antes de sua época.

A Atlântida é geralmente considerada um mito criado por Platão.[351] No entanto, há quem acredite que o seu afundamento foi real e, com base nos diálogos platônicos, procure a localização desta civilização perdida em algum lugar da Terra.[N 57] Neste caso queremos analisar os numerosos pontos de contato entre a Atlântida de Platão, entendida como um mito, e a Siracusa dos dois Dionísios.[353]

O fato de Platão especificar que os atlantes eram governados por uma sociedade perfeita, totalmente devotada às leis que os tornavam um povo escolhido, estabelece um paralelo com o estado ideal que Platão desejava que se formasse em Siracusa. Ao cederem às tentações dos mortais, os atlantes provocaram a ira de Zeus, que reuniu os deuses em conselho para punir Atlântida, que se tornara ávida por conquistas e poder. O castigo reservado a Atlântida ocultaria uma mensagem política para a sociedade grega, vista por Platão como corrupta e decadente,[354] ou, mais especificamente, um aviso para Dionísio II: "se ele não optar pelo governo dos filósofos no sentido platônico, seu estado será ameaçado pelo destino de Atlântida".[355]

Em apoio a esta identificação, existem semelhanças físicas e morais com a Atlântida descrita por Platão: Siracusa no século IV a.C. era uma potência naval, tinha objetivos expansionistas em várias frentes do Mediterrâneo, mas, tal como a Atlântida, estendia o seu controle até ao Mar Tirreno.[N 58][357]

Após essa análise, parece-me quase inevitável que Platão, ao desenvolver essa descrição da Atlântida, tivesse em mente a Siracusa dos dionisianos.


After this examination, it seems to me all but inevitable that Plato, when developing this portrayal of Atlantis, had the Dionysians’ Syracuse in mind.

— Gunnar Rudberg, Atlantis and Syracuse[358] (em inglês)

Sua conformação geográfica coincide de forma notável com a de Atlântida: a planície fértil que a circundava,[N 59] por sua vez cercada por montanhas que se estendiam até o mar, as fontes de água doce na ilha central; e Ortigia representava, como a ilha central de Atlântida, o ponto focal do poder: a acrópole e o palácio; dela ramificavam-se as outras quatro partes fortificadas da pólis.[360] Além disso, havia um vasto porto e um grande número de estruturas defensivas.[361][362]

As características geológicas da região, marcada pela sismicidade[N 60] e pelo vulcanismo,[N 61] de que se supõe que Platão tivesse conhecimento, poderiam ter fornecido ao filósofo ateniense as causas que desencadearam o fim catastrófico do reino da Atlântida.[N 62] A identificação dessas analogias permite, portanto, supor que as viagens de Platão à Sicília possam ter fornecido a inspiração para o seu mito de Atlântida.[362]

Ver também

Notas

  1. Referências diretas de Plutarco à Carta VII estão em Dion, 4, 11, 18, 20 e 54, embora sejam genéricas e introduzidas por expressões como “Platão nos diz”. Em Dion, 8 e 52 há referências à Carta IV, enquanto em Dion, 21, há referência à Carta XIII. Há ainda outras referências de Plutarco à Carta VII, menos explícitas, mas que retomam claramente certas passagens: por exemplo, Dion, 10, parece retomar as passagens 321c, 331e e 332d da Carta VII; Dion, 16 remete a 330a-b, 333a-b e 338a-b. Dion, 22 parece retomar 350c.[28]
  2. Assim escreve Tucídides, A Guerra do Peloponeso, VIII, 1:

    Quando a notícia da derrota chegou a Atenas, a cidade permaneceu por muito tempo incrédula, mesmo diante dos relatos de alguns sobreviventes, homens de comprovada qualidade militar, que regressavam fugitivos do próprio teatro de operações. O aniquilamento do exército não poderia ter sido tão total assim.


    ἐς δὲ τὰς Ἀθήνας ἐπειδὴ ἠγγέλθη, ἐπὶ πολὺ μὲν ἠπίστουν καὶ τοῖς πάνυ τῶν στρατιωτῶν ἐξ αὐτοῦ τοῦ ἔργου διαπεφευγόσι καὶ σαφῶς ἀγγέλλουσι, μὴ οὕτω γε ἄγαν πανσυδὶ διεφθάρθαι

  3. « [...] embora Atenas tivesse conduzido uma política agressiva em relação ao Ocidente, apenas Siracusa havia sido capaz de deter seu avanço. Siracusa era a herdeira e superadora de Atenas [...]» (Alessandra Coppola, Archaiologhía e propaganda: i Greci, Roma e l’Italia, 1995, p. 99).[54]
  4. Na IX tetralogia: no Timeu (onde o considera adequado à função que deve desempenhar: Timeu 20 B) e no Crítias, Platão faz de Hermócrates um dos protagonistas dos seus diálogos sobre Atlântida. A identificação com o estadista siracusano é praticamente unânime entre os estudiosos.[55]
  5. Segundo (Boas 1948, p. 452) e (Nails 2002, p. 247), uma possível fonte para Diôgenes III, 6 é a obra Sucessões dos filósofos, do gramático grego Alexandre, o Polímata (século I a.C.).
  6. A tradição familiar de Platão é rica em origens nobres: por parte de pai descendia de Codro, o último dos grandes reis tribais de Atenas, enquanto por parte de mãe descendia de Sólon, legislador de Atenas. Além disso os seus dois tios, Crítias e Cármides, foram os dois homens mais destacados no governo dos Trinta Tiranos. Com uma tradição semelhante, era lógico, segundo Karl Popper, esperar de Platão um vivo interesse pelas questões políticas (como ele próprio admite na sétima carta) e assim foi efetivamente.[59]
  7. Diodoro Sículo XIII, 94, 4. Na Carta VIII (353b) aparece, ao contrário, a expressão incomum túrannos autokrátor.
  8. O governo de Dionísio I, fazendo de Siracusa o ponto nevrálgico de uma nova política, muito mais aberta em relação aos bárbaroi, despertava grande interesse no mundo grego e ao mesmo tempo suscitava muitas críticas: a militarização maciça e a posse de novas terras foram objeto de numerosos debates; sob a sua autoridade começou a realizar-se pela primeira vez o que diversos historiadores modernos definiram como o “Estado territorial” na sua forma embrionária e lançaram-se as bases do que depois sob Alexandre Magno tomará o nome de helenismo, ou seja, a difusão da civilização grega entre os povos não helênicos.[66]
  9. Diôgenes Laércio (III, 7) escreve: «Διέγνω δὴ ὁ Πλάτων καὶ τοῖς Μάγοις συμμῖξαι; διὰ δὲ τοὺς τῆς Ἀσίας πολέμους ἀπέστη», “Platão decidiu então encontrar-se também com os Magos; mas teve que desistir, devido às guerras na Ásia”.
  10. Cícero reúne nas peregrinações Platão, Pitágoras e Demócrito, usando a mesma expressão tanto em Tusculanae disputationes, IV, 19, 44 (Ultimas terras lustrasse Pythagoran Democritum Platonem accepimus), quanto em De finibus bonorum et malorum, V, 19, 50 (a quibus propter discendi cupiditatem videmus ultimas terras esse peragratas). Cfr. (Boas 1948, p. 445, nota 14).
  11. Diodoro Sículo, por exemplo, refere-se a essa tradição:

    De fato, muitos dos antigos costumes em vigor no Egito não só foram bem recebidos pelo povo do país, mas também foram muito admirados pelos gregos. Por isso, os homens mais famosos no campo da cultura desejavam intensamente ir ao Egito para conhecer as leis e instituições que, na opinião deles, eram merecedoras de destaque. De fato, embora o país fosse dificilmente acessível aos estrangeiros na antiguidade pelas razões que mencionamos, Orfeu e o poeta Homero, entre os antigos, e muitos outros, como Pitágoras de Samos e, posteriormente, o legislador Sólon, foram até lá.


    πολλὰ γὰρ τῶν παλαιῶν ἐθῶν τῶν γενομένων παρ᾽ Αἰγυπτίοις οὐ μόνον παρὰ τοῖς ἐγχωρίοις ἀποδοχῆς ἔτυχεν, ἀλλὰ καὶ παρὰ τοῖς Ἕλλησιν οὐ μετρίως ἐθαυμάσθη: διόπερ οἱ μέγιστοι τῶν ἐν παιδείᾳ δοξασθέντων ἐφιλοτιμήθησαν εἰς Αἴγυπτον παραβαλεῖν, ἵνα μετάσχωσι τῶν τε νόμων καὶ τῶν ἐπιτηδευμάτων ὡς ἀξιολόγων ὄντων. καίπερ γὰρ τῆς χώρας τὸ παλαιὸν δυσεπιβάτου τοῖς ξένοις οὔσης διὰ τὰς προειρημένας αἰτίας, ὅμως ἔσπευσαν εἰς αὐτὴν παραβαλεῖν τῶν μὲν ἀρχαιοτάτων Ὀρφεὺς καὶ ὁ ποιητὴς Ὅμηρος, τῶν δὲ μεταγενεστέρων ἄλλοι τε πλείους καὶ Πυθαγόρας ὁ Σάμιος, ἔτι δὲ Σόλων ὁ νομοθέτης.

    — Bibliotheca historica, I, 69, 2–4 (tradução de Giuseppe Cordiano). (em grego clássico)
    Em I, 98, 1–4, Diodoro Sículo fala das viagens ao Egito de Licurgo, Platão, Sólon, Pitágoras, Enópides e Eudoxo. Diversos apologistas do Cristianismo, como Justino, Taciano, Clemente de Alexandria (Stromata, I, 15), Tertuliano, Orígenes, Eusébio e Gregório de Nissa empenharam-se em mostrar a dívida cultural dos Gregos para com Egípcios, Fenícios, Hebreus, e a desenvolver o tema do “furto do conhecimento”, que Clemente (Stromata, I, 19) compara ao furto do fogo por parte de Prometeu.[69]
  12. Arquitas, embora provavelmente já na época fosse uma figura de destaque em Tarento, não estava ainda no comando da polis (cfr. (Muccioli 1999, p. 149)).
  13. [...] por que Platão viajou pelo Egito para aprender dos sacerdotes estrangeiros a matemática e a astronomia? por que depois foi a Tarento junto de Arquitas? por que junto dos restantes pitagóricos, Equeécrates, Timeu, Arião, a Lócris [...]?


    [...] cur Plato Aegyptum peragravit, ut a sacerdotibus barbaris numeros et caelestia acciperet? cur post Tarentum ad Archytam? cur ad reliquos Pythagoreos, Echecratem, Timaeum, Arionem, Locros [...]?

    — Cícero, Os termos extremos do bem e do mal, V, 29, 87, tradução italiana de Nino Marinone, Turim, Utet, 1976, p. 443. (em latim)
  14. [Platão] visitou o Egito, onde aprendeu dos sacerdotes daquela nação as diversas partes da geometria e o modo de observar os astros. [...] Não me admira portanto que se tenha dirigido à Itália para receber os preceitos e os princípios pitagóricos de Arquitas de Tarento, Timeu, Arião e Equeécrates de Lócris.


    [Plato] Aegyptum peragravit, dum a sacerdotibus eius gentis geometriae multiplices numeros et caelestium observationum rationem percipit. [...] Quo minus miror in Italiam transgressum, ut ab Archyta Tarenti, a Timaeo et Arione et Echecrate Locris Pythagorae praecepta et instituta acciperet.

    — Valério Máximo, Fatos e ditos memoráveis, VIII, 7, ext. 3, tradução italiana de Luigi Rusca, Milão, Rizzoli, 1972, p. 409. (em latim)
  15. As fontes antigas concordam em mencionar três viagens de Platão à Sicília. Assim Egesandro em Ateneu XI, 507b (τρὶς εἰς Σικελίαν ἐκπλεύσας, “Platão por três vezes navegou para a Sicília”); Apuleio, De Platone et eius dogmate, I, 4, 188 (tres ad Siciliam adventus, “as três chegadas à Sicília”); Diôgenes Laércio, III, 18 (τρὶς πέπλευκεν εἰς Σικελίαν, “por três vezes navegou para a Sicília”); Tzetzes, Chiliades, X 992–993 (τοῦτο τρισσάκις ἔπλευσεν· / τρὶς γὰρ ἐλθὼν εἰς Σικελοὺς τρισσάκις ἀπηλάθη, “por três vezes navegou pelo redemoinho; / de fato, por três vezes chegou à Sicília, e por três vezes foi expulso dela”). Na Carta VII, 340a, 345d, a última viagem é enumerada como τὸ τρίτον, “a terceira”.
  16. O contexto não deixa claro se Platão se refere a Hiparino, filho de Dionísio I, ou a Hiparino, filho de Dion (Hiparino Areteu); ver Luc Brisson, Platon, Lettres, Paris, Flammarion, 1987, nota 7, pp. 211–212; mais provavelmente, trata-se do filho de Dion (cfr. nota 1 ao texto, perseus.tufts.edu e (Morrow 1962, p. 85)).
  17. Por exemplo, Paul Natorp escreve: "Tudo isso nos permite supor que o texto reflete diretamente a viagem de Platão à Itália e à Sicília" (Dottrina platonica delle idee, Milano, Vita e Pensiero, 1999 [1903], p. 169). Se alguma vez houve uma erupção durante os anos da primeira viagem siciliana de Platão,[90] ela não deixou vestígios geológicos nem é mencionada nos relatos históricos, como no caso de uma grave erupção em 396 a.C.
  18. Diodoro Sículo (XIV, 59, 3) fala de uma erupção vulcânica ocorrida na época de Dionísio I: as forças cartaginesas de Imilcão, após destruírem Messana, marchavam contra Siracusa, mas tiveram que interromper sua marcha ao longo da costa em Naxos, devido a uma grande erupção do Etna, cuja lava chegou até mesmo ao mar Jônico. Enquanto o exército contornava o vulcão, a frota de Magone enfrentou vitoriosamente a de Dionísio: segundo Diodoro (XIV, 60, 6), os siracusanos perderam 100 navios e 20.000 homens no confronto. Isso aconteceu durante o primeiro ano da 96ª Olimpíada, em 396 a.C., ou seja, oito anos antes da chegada de Platão.[92] Foi uma das erupções mais desastrosas do Etna em sua história milenar.[93][94]
  19. "Após conquistar muitas cidades grandes da Sicília, saqueadas por bárbaros, ele não conseguiu instalar governos confiáveis de seus companheiros em cada uma delas, nem de outras pessoas, e mostrou-se sete vezes mais ineficaz do que Dario. Este, confiando não em seus irmãos ou criaturas, mas apenas em pessoas que haviam participado da subjugação do eunuco Medo, fez uma divisão em sete partes, cada uma maior do que a Sicília. Com as leis que promulgou, de fato, fez com que o império persa se conservasse até hoje. Além disso, os atenienses também colonizaram muitas cidades gregas que haviam sido invadidas por bárbaros. No entanto, eles as conquistaram quando já estavam habitadas e mantiveram o império por setenta anos, pois haviam garantido aliados em cada uma delas. Dionísio, por outro lado, que reuniu toda a Sicília em um único estado e não confiou em ninguém, mal conseguiu salvar a si mesmo." (Carta VII, 331e-332c. Tradução italiana em Platone. Tutte le opere, a cura de Enrico V. Maltese, Newton Compton, 2013).
  20. Mesmo sem citar Olimpiodoro, Ettore Pais escreve em Storia dell'Italia antica, p. 186. (cit. presente em Muccioli, p. 150)

    Platão se gabou de se tornar o reformador do Estado mais poderoso da Grécia e aconselhou Dionísio a transformar a tirania em um governo legítimo [...].

  21. (Lloyd, p. 160), nota que as palavras usadas na Carta VII para descrever Dion são muito semelhantes às usadas por Teodoro para descrever Teeteto no diálogo homônimo platônico (Teeteto, 144a: texto em grego do trecho, com tradução em inglês em perseus.tufts.edu).
  22. Diógenes Laércio no livro III cita-o várias vezes junto com outros dois amores de Platão: Astero (ou Astro) e Fedro (III, 29). Para Kurt Hildebrandt, Dion foi a figura mais importante, juntamente com Sócrates, na vida de Platão. Ele escreveu que da proximidade com o jovem siracusano Platão derivou “a força para agir na terra e a segurança de seu poder” (Platon, der Kampf des Geistes um die Macht, tradução em Stefan George e l'antichità, Giancarlo Lacchin, 2006, p. 220).[122]
  23. O tema da covardia do tirano é retomado por Plutarco em Dion, 9, 5.
  24. Sobre o tema da justiça, aqui Plutarco parece evocar uma passagem do Górgias (470e).[133]
  25. A chegada de Pólis é interpretada como a vontade dos espartanos de impedir Dionísio de restabelecer relações com Atenas, dando continuidade ao acordo entre Esparta, Siracusa e a Pérsia, que, no entanto, chegará ao fim após a paz de Antálcidas (cfr. (Colonnese 2007, p. 53)).
  26. Pode ser que se trate de um erro de transcrição do nome Aristômaca, a irmã de Dion (cfr. (Brisson 1992, p. 3653, nota 150)).
  27. Ἐκ Πώλιδος ναυάρχου μὲν τῷ γένει Σπαρτιάτου / Πλάτωνα τὸν φιλόσοφον ὠνήσατο Ἀρχύτας, "Do navarca Pólis, que era espartano de nascimento, / Arquitas resgatou o filósofo Platão" (Tzetzes. «Chiliades». p. 403  ).
  28. Os antigos, desde Cícero em diante, consideravam Platão um pitagórico: (Joost-Gaugier 2008, pp. 117–118). Capparelli questiona: "Será que a atividade política que Platão tentou com tanta obstinação na Sicília, com o resultado que conhecemos, não foi inspirada pelo que os pitagóricos haviam realizado na Magna Grécia, com imenso sucesso, ainda que não duradouro?"[152]
  29. Plutarco (Dion, 11, 4) relata que Filisto, afastado de Siracusa, foi para εἰς τὸν Ἀδρίαν, ou seja, ao mar Adriático, onde se teria dedicado a escrever o seu livro de história (τὸν δὲ Φίλιστον ἐξήλασε Σικελίας, φυγόντα παρὰ ξένους τινὰς εἰς τὸν Ἀδρίαν, ὅπου καὶ δοκεῖ τὰ πλεῖστα συνθεῖναι τῆς ἱστορίας σχολάζων); cfr. (Muccioli 1999, p. 179).
  30. Na verdade é muito difícil determinar se o culto apolíneo de Dionísio II estava ligado a Platão, pois a sua pátria, Siracusa, sempre teve um fortíssimo vínculo com o deus sol: vale mencionar, por exemplo, o vínculo com o Apolo da Tenea Coríntia ou o nome de Ortígia, cuja etimologia liga todas as ilhas sagradas aos gêmeos dos astros, Ártemis e Apolo. Hipotetiza-se também o desejo de Dionísio II de aproximar-se do culto dos pitagóricos, que celebravam o culto de Apolo, pois, após conquistar a cidade de Régio, o tirano a refundou com o nome de Febea, "a Luminosa", em honra de Febo Apolo. Não se pode, porém, excluir a tentativa de aproximar-se mais da filosofia de Platão, notoriamente ligada ao deus Apolo.[162]
  31. (Muccioli 1999, pp. 147 e 159–160), considera que o filósofo ateniense foi convidado para a corte de Dionísio após pelo menos um ano de governo de Dionísio II e que chegou lá em 366. (Braccesi & Millino 2000, p. 150), e (Nails 2002, p. 248), também defendem a data de 366.
  32. Platão reconheceu em Dionísio II uma predisposição à erudição (Carta VII, 338d). Além disso, a Suda também menciona composições literárias do jovem tirano. Em particular, sabe-se da existência de um texto seu intitulado Sobre os poemas de Epicarmo. Esses testemunhos são importantes para analisar com um olhar mais crítico a tradição plutarquiana e filoplatônica, que tende a retratar Dionísio II como um jovem selvagem a ser educado segundo os costumes platônicos. Essa tradição poderia, ao contrário, ter surgido para justificar o fracasso das ideias platônicas na corte de Siracusa.[164]
  33. Brisson, porém, nota que tal pedido foi feito, pela metade do século III d.C., por Plotino ao imperador Galieno.[171] Plotino, de fato, segundo o que relata o seu discípulo Porfírio (Vida de Plotino, XII), pedira a Galieno a permissão de restaurar uma cidade da Campânia em ruínas, à qual teria dado o nome de Platonópolis, para aí viver segundo as "leis platônicas", conduzindo, ou seja, como explica Francesco Adorno, uma vida platônica, uma vida filosófica.[172]
  34. Assim afirma Plutarco: Dion 13, 1-4. A crítica moderna, porém, tende mais a acreditar que a mudança não se deveu aos ensinamentos de Platão, mas à complexa situação que opunha as facções de Dion e de Filisto.[173]
  35. Na verdade, a Carta VII fala de calúnias gerais contra Platão junto a Dionísio II para impedi-lo de seguir a sua filosofia, mas menciona fortes desentendimentos com os mercenários só a propósito da terceira viagem (330a-b).[181]
  36. Na narração plutarquiana, o desejo de Dionísio II de aprender as doutrinas platônicas é apresentado como pura possessividade tirânica; ele é volúvel e traiçoeiro.[186] Segundo Giorgini,[187] deve-se considerar também o doutrinamento a que foi submetido Dionísio II: o filósofo ateniense, como afirma na Carta VII (341c-d), precisou viver longo tempo em contato estreito com o discípulo para que os encontros produzissem os efeitos desejados. Isso poderia explicar a possessividade do siracusano.
  37. Platão relata na Carta VII: "Amava-me cada vez mais com o passar do tempo" (330a). O ateniense parece embaraçado: "vemo-lo forçado a fazer um acordo com o tirano, que pretende “usá-lo”, longe de ser por sua vez “usado”. Aqui está o verdadeiro fracasso de Platão".[188]
  38. Na Carta VII (338c), Platão afirma que foi por seu mérito que Dionísio II e Arquitas de Tarento estabeleceram relações de ϕιλία (filía) e xênia (xenía).[190] Resta, porém, a dúvida se tais relações resultaram em uma verdadeira συμμαχία (symmachia) entre Siracusa e Taranto (Stroheker se pronunciou a favor, embora com cautela). De qualquer forma, pode-se falar de uma relação sólida e duradoura.[191] Diodoro sintetiza algumas informações talvez extraídas de Éforo num trecho (XVI, 5, 1-4) que trata dos primeiros anos da tirania de Dionísio II e da sua política na Magna Grécia e na Sicília. Entre outras coisas, o trecho descreve uma paz com Cartago e o início e o fim de uma guerra com os lucanos. O trecho permite estabelecer como terminus ante quem desses acontecimentos o ano 359/358 e sugere ligação entre os dois fronts. Pode existir também ligação com a aliança entre Dionísio II e Arquitas, que talvez tivesse uma função anti-lucana. Plutarco também fala da eclosão de uma guerra (Dion, 16, 3: ἐν τούτῳ δὲ πολέμου τινὸς ἐμπεσόντος ἀποπέμπει τὸν Πλάτωνα, “nesse momento eclodiu uma guerra e [Dionísio II] expulsou Platão”) e o mesmo ocorre nas Cartas (VII, 338a: ἦν γὰρ τότε πόλεμος ἐν Σικελίᾳ, “porque naquela época havia uma guerra na Sicília”; Carta III – de Platão a Dionísio II –317a). É possível pensar que foi o conflito com os lucanos que permitiu a Platão regressar à pátria ao fim da segunda viagem e que exatamente esse conflito levou o tirano a firmar paz com os cartagineses. A guerra pode ter terminado em 363/362, período em que se interrompe a narração da História da Sicília de Filisto.[192]
  39. Seria o próprio Platão, segundo Plutarco (17, 3-4), quem aproximou Espeusipo de Dion, para que suavizasse com seu bom humor o caráter do siracusano (cfr. Muccioli 1999, p. 225, nota 618).
  40. Personagem ambíguo já nas fontes antigas, Cálipo de Atenas é listado entre os discípulos de Platão em Diógenes Laércio (III, 46), mas não no catálogo de Filodemo[194]. Platão distancia-se claramente dele (cfr. Carta VII, 333d-334c, 336c-d, 351d-e; Carta VIII, 352c). Plutarco o define como “companheiro de mistérios e de etería” (Dion, 17, 2; 54, 1-2; 56, 6). Cfr. Muccioli 1999, pp. 224–226.
  41. Motivos de segurança provavelmente o levaram a rodear-se dos acadêmicos mais fiéis, embora estes, como informa Plutarco (Dion, 22, 1-4), se mostrassem mais interessados no clima antitirânico já palpável em Siracusa. Sobre a presença de Xenócrates, Plutarco, porém, não menciona nada, e é possível que aqui ele tenha sido influenciado pelo relato de Timônides de Lêucade. Timeu, citado posteriormente por outros, relata uma anedota (provavelmente referente ao ano 361/360) relativa a Xenócrates na corte de Dionísio.[207]
  42. Arist., Pol., V, 1312b, 9-11, 16-17. Aristóteles afirma que as famílias nobres podem degenerar até à loucura, como no caso de Dionísio II.[214]
  43. O estratagema econômico de Dionísio foi uma revolução monetária que depois seria adotada também por outros Estados, como o de Ptolomeu II Filadelfo ou o de Augusto, que cunhou moedas em oricalco, igual ao bronze, mas com maior brilho e portanto maior valor nominal.[219]
  44. A constelação de Peixes, já ligada à deusa Atargatis, que aqui seria representada pelos dois golfinhos, simbolizava antigamente um “renascimento” e a cunhagem siracusana teria assim legitimado o novo poder, uma nova idade do ouro graças aos Dionísios. A estrela, por sua vez, evocaria o culto da Grande Mãe, neste caso Syra (com Sosia = Salvadora), assimilada a uma estrela (Sótis, Ísis, Atargatis, Astarte são todas deusas ligadas às estrelas) e, em conjunto, a moeda significaria, portanto, um novo renascimento sob os auspícios da deusa protetora Syra. Curiosa é a recriação da moeda dionisiana com a personificação de Sikelia e uma estrela de dezesseis raios pelos mercenários campanos de Taormina.[220]
  45. Com toda a probabilidade, trata-se do mesmo Ípon que dominava Messana na época da intervenção de Timoleonte (cfr. Muccioli 1999, p. 354).
  46. A oposição entre stasis e polemos é mencionada em Protágoras, aprofundada na República e retomada nas Leis (cfr. (Curi, p. 45) e As regras da guerra, ficha no Bollettino telematico di filosofia politica, Universidade de Pisa).
  47. A elaboração do diálogo deve ter sido longa. Acredita-se que o primeiro livro tenha sido concluído em 390 a.C., enquanto os nove livros seguintes podem ter sido redigidos após o retorno da primeira viagem a Siracusa, em 387, com uma reformulação do primeiro para conectá-lo aos nove seguintes. Cfr. Introdução histórico-bibliográfica à República de Platão, Bollettino telematico di filosofia politica, Universidade de Pisa.
  48. Platão diz que antigamente os seres humanos eram protegidos por Deus ou eram eles próprios divinos, mas agora tinham de regressar àquela origem (tal como os reis da Atlântida e os antigos habitantes de Atenas eram divinos por natureza).[290]
  49. (Adorno 1970, n. 47 em Timeu), sublinha que, segundo Platão, para que os déspotas se tornem filósofos, não basta a disciplina, é necessária uma intervenção divina.
  50. Aristóxenes, Epicuro (em Diógenes Laércio, X, 8), e talvez também Sátiro (cit. (Muccioli 1999, p. 199)), acusaram-no de ser um "parasita" e um "adulador" da corte dionisiana, pois teria recebido do tirano somas de dinheiro. Mólon acusou-o, ao contrário, de alimentar as próprias ambições na corte siracusana (em Diógenes Laércio, III, 34).
  51. Platão afirma que “a raça helênica é unificada pela familiaridade e pela afinidade, enquanto que em relação aos bárbaros é estranha e hostil”. (República, V, 470c). Umberto Curi defende que Platão, quando fala de “raça helênica”, não se refere apenas ao plano étnico, mas também a uma irmandade cultural: “não somos irmãos por pertencermos todos à mesma raça, mas, pelo contrário, esta é definida como o conjunto daqueles que são, ou se sentem, irmãos”. ((Curi, p. 46)).
  52. A doutrina segundo a qual apenas um governante virtuoso é capaz de obter o apoio sincero da população era bastante comum no século IV. Xenofonte refere-se a ela em sua obra Ciropédia.[326]
  53. Não só essa predileção pelos bárbaros por parte de Dionísio I, passada em herança ao filho Dionísio II, era visível no exército siracusano, composto principalmente por tropas mercenárias provenientes de várias partes do Mediterrâneo (Ibéria, Gália, Itália, África), mas presume-se que também em diversas lendas autóctones de povos bárbaros seja perceptível o nome e a identificação dos Dionísios, sinal tangível da sua influência (ver, a este respeito, as entradas Hiperbórea, Diomedes).[329]
  54. O filósofo Martin Heidegger teve ligações com o regime do Terceiro Reich. Nessa ocasião tomou-se como exemplo o caso de Platão em Siracusa: a adesão de Heidegger ao nazismo é chamada «Platon Irrtum» (Erro de Platão), enquanto o seu afastamento do regime é chamado «Zurück von Syrakus» (Regresso de Siracusa). Hannah Arendt, companheira do filósofo contemporâneo, afirmou que Platão era fascinado pelo tirano de Siracusa assim como Heidegger o foi por Hitler. Arendt afirma que o filósofo nunca deve deixar sua morada (espiritual) para se envolver nos assuntos humanos (Arendt, 1969). No entanto, essa comparação foi considerada infeliz por várias fontes.[335]
  55. «Defendendo Platão da minha acusação de ser um racista, o professor Levinson [R. B. Levinson, In Defense of Plato, Harvard University Press, Cambridge 1953] tenta compará-lo favoravelmente com alguns bem "notórios" racistas totalitários modernos cujos nomes procurei manter fora do meu livro. (E continuarei a mantê-los fora). Ele diz sobre eles [...] que o seu programa de reprodução "era essencialmente direcionado a preservar a pureza da raça dominante, um fim que, como nos esforçamos por demonstrar, Platão não compartilhava". Não compartilhava mesmo? ... "Deve ser puro o gênero dos guardiões", diz Platão... Ou os guardiões não são talvez os dominadores da cidade ideal de Platão?"[340]
  56. «Na proposta platônica dos filósofos-governantes parece ser possível reconhecer não apenas a instância da abolição do nomos, da lei escrita, que é mencionada na República e se tornará explícita no Político, mas também a abolição do Estado, entendido como estrutura de poder, como organização externa e opressiva que se sobrepõe e se impõe quando as relações comunitárias enfraquecem ou desaparecem. Pelo contrário, uma sociedade que tenha como fundamento e norma a virtude, o compromisso moral, não precisa de leis nem de Estado”.[350]
  57. Crantor, citado por Proclo, o mais antigo comentador do Timeu e entre os crentes em Atlântida, disse que Platão foi acusado pelos seus contemporâneos de não ter inventado a República, pois teria apenas copiado dos egípcios. Afirma ainda que nas colunas do templo de Saís no Egito estavam gravados testemunhos sobre Atlântida. Tal testemunho representaria a única fonte antiga que falaria de Atlântida de maneira independente de Platão. Contudo, foi hipotetizado que tenha havido uma tradução errada da prosa de Proclo, pois no mesmo texto do filósofo bizantino se afirma que era Platão, e não Crantor, a conhecer os antigos documentos egípcios.[352]
  58. Os siracusanos, após derrotarem os Etruscos em Cumas, na época de Hierão I, liderados por Filisto e Dionísio, avançaram até ao alto Tirreno, criando o seu próprio porto na Córsega e apoderando-se da ilha de Elba, devido ao seu interesse pelas reservas de cobre e ferro que o subsolo oferecia. Outros ataques ocorreram na Tirrenia; também associados à Siracusa dionisiana.[356]
  59. Além da planície fértil que une Atlântida e Siracusa, Mosconi, em seu estudo centrado nos números que compunham o reino da Atlântida, reconhece uma curiosa coincidência entre a base sexagesimal da planície atlântida e a de Siracusa. Da mesma forma, a organização da chora atlante, nos sessenta mil distritos da planície (aqui é impressionante a analogia com os sessenta mil homens do campo convocados por Dionísio I na planície de Epípoli), remete à organização dionisiana: os guardiões (o tirano e seu círculo) na ilha-acrópole e na “melhor parte” da polis, enquanto o resto da população — os cidadãos e súditos atlantes (os estrangeiros e os escravos libertos a quem Dionísio havia concedido o título de cidadão) — distribuídos de maneira igualitária na chora, controlados pelos chefes distritais (os arquitetos do tirano em Epípoli).[359]
  60. Siracusa dá atualmente o seu nome à escarpa hiblaica denominada "Escarpa de Malta e Siracusa": trata-se de um sistema de fraturas submarinas surgidas no ponto de colisão entre a placa africana e a placa euroasiática. Este sistema constitui a causa dos terremotos devastadores que atingiram a Sicília oriental.[363]
  61. O solo de Siracusa é composto por material calcário e lávico, uma vez que é dominado pelos Montes Ibleus: um complexo vulcânico submarino que emergiu no Pleistoceno (no que diz respeito à zona costeira), cujo pico mais alto, o Monte Lauro, é um vulcão muito antigo, já extinto, formado antes do Monte Etna; este último também se encontra muito próximo da área em questão (golfo pré-etneo).[364]
  62. Deve-se notar, contudo, que ao descrever a destruição de Atlântida Platão fala de um terremoto, mas não menciona qualquer vulcão em Atlântida "embora os minerais e as fontes termais possuam características deste tipo", ou seja, vulcânicas. Cit. Paul Jordan, La sindrome di Atlantide, 2013.[365]

Referências

  1. a b (Boas 1948, p. 439).
  2. António Maddalena, introdução a Platão, Opere complete, vol. 8: Lettere, definizioni, dialoghi spuri, Laterza, 2019.
  3. (Muccioli 1999, p. 82).
  4. a b c Storia dei filosofi. Platone e l’Academia [sic] (PHerc. 1021 e 164), edição, tradução e comentário por Tiziano Dorandi, Nápoles, Bibliopolis, 1991, pp. 186–187.
  5. Vimercati em (Apuleio 2015, p. 950 e p. 1147, n. 1).
  6. Biografia universale antica e moderna
  7. Tradução italiana: “La vita di Platone”, em Olimpiodoro d’Alessandria. Tutti i Commentari a Platone, (texto grego ao lado) por Francesca Filippi, Sankt Augustin, Academia Verlag, 2017, vol. I, pp. 5–12.
  8. a b Nicolas D’Andrès; Damian Caluori; Davide Del Forno; Luca Pitteloud; Dominic O’Meara; Jacques Schamp; Euree Song; Carolle Tresson; Martine Vonlanthen; Sebastian Weiner (2010). «Une Vie de Platon du VIe siècle (Olympiodore). Traduction et notes». Freiburger Zeitschrift für Philosophie und Theologie (em francês). 57 (2). pp. 432–476. ISSN 0016-0725 
  9. Publicada por Anton Westermann em Biographoi. Vitarum scriptores Graeci minores, Brunsvigae, Westermann, 1845, pp. 388–396.
  10. Lema sobre Platão, em tradução inglesa.
  11. a b (Riginos 1976, p. 74).
  12. a b (Boas 1948, p. 446).
  13. Domenico Fava, Gli epigrammi di Platone, texto, variantes, versão, precedidos de um estudo sobre a autenticidade deles, Milão, tip. Bernardoni di C. Rebeschini e c., 1901, pp. 50–51.
  14. a b (Riginos 1976, p. 70, nota 1).
  15. (Monoson 2000, p. 145).
  16. (Melling 1994, p. 26).
  17. a b Mario Vegetti, «Platão», em (Eco & Fedriga 2014, p. 108).
  18. a b (Morrow 1962, pp. 5–6).
  19. (Muccioli 1999, p. 45).
  20. Para aprofundamento sobre as cartas platônicas, ver (Pasquali 1967); Margherita Isnardi Parente, Filosofia e politica nelle Lettere di Platone, Nápoles, Guida, 1970, e em (Platão 1970); Luc Brisson, Platon. Lettres, 1987; L. J. Sanders, The Legend of Dion, 2008, pp. 2–6.
  21. (Boas 1948, p. 452).
  22. (Muccioli 1999, p. 49).
  23. (Edelstein 1966, p. 1, nota 4).
  24. a b (Morrow 1962, p. 5).
  25. (Morrow 1962, p. 6).
  26. (Cavarero 1980, p. 7, nota 1).
  27. (Muccioli 1999, p. 46).
  28. (Morrow 1962, pp. 19–20).
  29. (Morrow 1962, p. 5, nota 7).
  30. (Grote 1865, p. 203, nota z).
  31. (Friedländer 1969, p. 236).
  32. (Boas 1948, p. 454).
  33. (Muccioli 1999, p. 47, nota 84).
  34. (em inglês) Virtues in the Public Sphere: Citizenship, Civic Friendship and Duty, ed. James Arthur, Routledge, 2018, p. 168.
  35. (Nails 2002, p. 245).
  36. Trecho correspondente a 356a, 6–8. P.Mil.Vogl., inv. 1264 – Claudio Gallazzi, «Plato, Epistulae VIII 356A, 6–8», em Sixty-five Papyrological Texts Presented to Klaas A. Worp on the Occasion of his 65th Birthday, Brill, Leiden 2008, pp. 1–4.
  37. (Morrow 1962, p. 21).
  38. (Muccioli 1999, p. 32).
  39. a b c d e f g (Morrow 1962, pp. 22–23).
  40. (Muccioli 1999, pp. 32–35).
  41. (Muccioli 1999, pp. 35–37).
  42. (Muccioli 1999, p. 37, nota 56).
  43. (Muccioli 1999, pp. 37–38).
  44. (Muccioli 1999, p. 38).
  45. (Morrow 1962, pp. 24–25).
  46. a b (Morrow 1962, p. 25).
  47. a b (Morrow 1962, p. 26).
  48. (Morrow 1962, p. 31).
  49. (Morrow 1962, pp. 26–28).
  50. (Morrow 1962, pp. 29–30).
  51. (Morrow 1962, pp. 33–34).
  52. (Morrow 1962, pp. 34–37).
  53. a b (Morrow 1962, p. 131).
  54. Para a importância do evento e a influência que exerceu no prosseguimento da história mediterrânea ver, por exemplo, Lorenzo Braccesi, Hesperia 7: Studi sulla Grecità di Occidente, 1996 e André Piganiol, Le conquiste dei romani. Fondazione e ascesa di una grande civiltà, 2010, pp. 96–97.
  55. Sordi, Marta (1992). La dynasteia in occidente. [S.l.: s.n.] pp. 3, 5, 19 ; «Enciclopédia Treccani – Ermócrates». Consultado em 17 maio 2017 ; Travaini, Lucia (2009). Valori e disvalori simbolici delle monete: i trenta denari di Giuda. [S.l.: s.n.] p. 89 ; Carlo Sini (2005). Figure dell'enciclopedia filosofica «Transito Verità». 5. [S.l.: s.n.] pp. 46–47 
  56. A política de Ermócrates no pensamento de Platão em Quarte giornate internazionali di studi sull'area Elima: Erice, 1-4 dicembre 2000: atti, vol. 1, p. 110.
  57. (Grote 1865, p. 115).
  58. a b Tradução italiana de Giovanni Reale em (Diôgenes Laércio, Vite e dottrine dei più celebri filosofi, p. 313).
  59. (Popper 1973, cap. 3, sez. 1).
  60. Conforme descrito no relato inicial da Carta VII (325a-c).
  61. (Nails 2002, pp. 246–247).
  62. Cfr. (Muccioli 1999, p.148, nota 386).
  63. (Diodoro Sículo 1985, p. XI, 68).
  64. a b (Morrow 1962, p. 145).
  65. Marta Sordi, Amnistia, perdono e vendetta nel mondo antico, vol. 23, 1997, p. 172.
  66. Marta Sordi, I due Dionigi, i Celti e gli Illiri, 2002, p. 585; Lorenzo Braccesi, L’Alessandro occidentale: il Macedone e Roma, 2006, p. 57.
  67. a b (Joost-Gaugier 2008, pp. 116–118).
  68. a b (Muccioli 1999, p. 148).
  69. (em inglês), Yaacov Shavit, History in Black: African-Americans in Search of an Ancient Past, Routledge, 2013, p. 121.
  70. David Sansone, Plato and Euripides, em Illinois Classical Studies, vol. 21, janeiro 1996, p. 56, nota 80.
  71. a b (Boas 1948, p. 445).
  72. William M. Calder III, Diogenes Laertius 3.6: Plato and Euripides, em American Journal of Philology, vol. 104, n. 3 (Baltimore, The Johns Hopkins University Press, outono 1983), p. 287.
  73. Estrabão, XVII, 806, faz referência a Eudoxo e Platão em visita a Heliópolis (cfr. (Boas 1948, p. 445, nota 14)).
  74. a b (Huffman 1993, p. 5).
  75. Cfr. (Joost-Gaugier 2008, p. 116); (Cosenza 1977, p. 245).
  76. Citado em Pitagorici antichi. Testimonianze e frammenti, por Maria Timpanaro Cardini, vol. 2, Florença, La Nuova Italia 1962, p. 117; nova edição com apresentação de Giovanni Reale e por Giuseppe Girgenti, Milão, Bompiani, 2010, p. 321.
  77. Cfr. (Joost-Gaugier 2008, p. 116).
  78. (Brisson 1992, p. 3641).
  79. (Brisson 1992, pp. 3654–3655).
  80. Olympiodorus, Commentary on Plato's Gorgias, traduzido por Robin Jackson, Kimon Lycos e Harold Tarrant, Leiden, Brill, 1998, pp. 264–265.
  81. a b Cfr. (Boas 1948, pp. 446–447).
  82. (Canfora 2002, p. 11).
  83. Tradução de Maria Grazia Ciani em (Platão 1970, p. 65).
  84. Cfr. (Riginos 1976, p. 73, nota 16).
  85. Ateneu, I Deipnosofisti. I dotti a banchetto, primeira tradução italiana comentada sob projeto de Luciano Canfora, introdução de Christian Jacob, vol. I, Roma, Salerno editrice, 2001.
  86. Tradução italiana de Emmanuele Vimercati em (Apuleio 2015, pp. 958–959).
  87. Tradução italiana de Giovanni Reale em (Diôgenes Laércio, Vite e dottrine dei più celebri filosofi, p. 323).
  88. Tradução italiana de Gino Giardini em (Platão 1974, vol. 1, p. 247).
  89. Cfr. Dialoghi filosofici a cura di Giuseppe Cambiano, Utet, 2013, n. 87; Biagio Pace, Arte e civiltà della Sicilia antica, Società anonima editrice Dante Alighieri, 1945, p. 107; Maria Timpanaro Cardini (a cura di), Pitagorici: Ippocrate di Chio, Filolao, Archita e Pitagorici minori, La Nuova Italia, 1962, pp. 344–345, n. 22.
  90. (Alessi 1829, pp. 62–66).
  91. a b (Brisson 1992, p. 3655).
  92. (Alessi 1829, p. 61).
  93. Cfr. Genova, Museo civico di storia naturale, Giacomo Doria, Annali, 1878, p. 75; Enrico Mauceri, Sebastiano Agati, Il "Cicerone" per la Sicilia, 1907, p. 280; Sicilia, 2001, p. 82.
  94. «A atividade eruptiva do Etna dos últimos 2700 anos - The Etna eruptive activity in the last 2700 years» (PDF). Consultado em 24 de abril de 2016. Cópia arquivada (PDF) em 4 de março de 2016 
  95. (Muccioli 1999, p. 149).
  96. Cfr. (Boas 1948, p. 446).
  97. (Edelstein 1966, p. 13, nota 29).
  98. Tradução italiana de Teresa Alfieri Tonini em Diodoro Sículo. «Biblioteca histórica, livros XIV-XVII». p. 240  .
  99. Olympiodorus, Commentary on the First Alcibiades of Plato, 2, 97–99 ed. Westerink, citado em (Muccioli 1999, p. 149), n. 390. Tradução inglesa de Michael Griffin, Olympiodorus, Life of Plato and On Plato First Alcibiades, 1–9, 2015: «And in Syracuse he visited Dionysius the Great, who was the tyrant of that city, and he attempted to transform his tyranny into an aristocracy».
  100. Cfr. por exemplo em Ettore Pais, Storia dell'Italia antica e della Sicilia, 1933, p. 504; (Muccioli 1999, p. 133).
  101. Para aprofundar, vd. Alianças entre os gauleses e Siracusa.
  102. Cfr. (Culasso Gastaldi 1995, pp. 158–159).
  103. Éforo. ap. schol. ad Aristeid. p. 294, 13, Felix Jacoby (a cura di) Die Fragmente der griechischen Historiker (= FGrHist) 70 F 211; Diodoro Sículo, XV, 23, 5. Sobre a possibilidade de se tratar do segundo Dionísio e não do primeiro vd. (Muccioli 1999, p. 234).
  104. Para uma análise aprofundada do contexto de 388-386 a.C. e da conexão entre os vários eventos e as decisões de Dionísio I sobre Platão, vd. Sanders, 1987, 18–9; Sordi, Dionigi I e Platone, 1980, pp. 2013–2022.
  105. Para aprofundar vd. (Muccioli 1999, p. 150), n. 392 (Anello, Note sui rapporti).
  106. (Muccioli 1999, p. 151).
  107. Assim L. J. Sanders: «Dionysius' interest in establishing a "philosophical rule"», em Plato's First Visit to Sicily, Kokalos, 25 (1979), pp. 207–219.
  108. Cfr. (Muccioli 1999, p. 149).
  109. Cfr. Diógenes Laércio III, 46.
  110. a b (Canfora 2002, p. 14).
  111. (Braccesi & Millino 2000, p. 131).
  112. (Morrow 1962, pp. 86 e 147).
  113. (Morrow 1962, p. 86).
  114. a b c d e (Finley 1998, p. 108).
  115. a b (Morrow 1962, p. 147).
  116. (Finley 1998, p. 105).
  117. Carta VII, 326b-c.
  118. (Finley 1998, p. 109).
  119. (Muccioli 1999, p. 156).
  120. (Muccioli 1999, p. 156, nota 409).
  121. Cfr. Giovanni Reale, Eros, dèmone mediatore, e il gioco delle maschere nel Simposio di Platone, 1997, p. 238; Enrico Turolla, Platone: I dialoghi, l'Apologia e le epistole, vol. 3, 1953, p. 750. Outras fontes, porém, argumentam que o vínculo que unia Platão aos discípulos fosse também físico. Cfr. (Cosenza 1977, p. 255); (Giorgini 2008, pp. 62–63).
  122. Cfr. Alpha Omega: Rivista di Filosofia e Teologia dell'Ateneo Pontificio Regina Apostolorum, vol. 1, 1–3, 1998, p. 500; (Cosenza 1977, p. 255).
  123. Cfr. Theodor Gomperz, Pensatori Greci. Vol. III. Platone, 1897 (edição italiana Florença, La Nuova Italia, 1944, pp. 449–460); G. Calogero, Il simposio di Platone, 1946, p. 8; Pubblicazioni dell'Istituto di filosofia dell'Università di Genova, 1965, p. 197; Léon Robin, La teoria platonica dell'amore (1908), tr. it. Milano, CELUC 1973, p. 78.
  124. Tradução de Maria Grazia Ciani em Platão. «Cartas». pp. 71–73  .
  125. (Caven 1990, p. 189).
  126. (Nails 2002, p. 247).
  127. Prolegomeni alla filosofia di Platone, a cura di Anna Motta, Roma, Armando, 2014, p. 96.
  128. (Riginos 1976, p. 75, nota 22).
  129. (Porter 1943, p. 46).
  130. (Braccesi & Millino 2000, p. 146).
  131. (Riginos 1976, p. 75, nota 24).
  132. (Riginos 1976, p. 75).
  133. Texto em grego e tradução em inglês em perseus.tufts.edu. Cfr. (Riginos 1976, p. 78).
  134. (Riginos 1976, p. 77).
  135. Diodoro Sículo (XV, 7, 1) oferece um quadro mais vago (cfr. (Muccioli 1999, pp. 151–152)).
  136. Cfr. Martin Dreher, Barbara Scardigli (a cura di), Plutarco, Dion, 2000, p. 165; Michel Foucault, Il governo di sé e degli altri. Corso al Collège de France (1982–1983), Milano, Feltrinelli, 2015.
  137. Diógenes Laércio, III, 18. Tradução italiana de Marcello Gigante, em (Berti 2010, pp. 3–4).
  138. (Riginos 1976, p. 78).
  139. Vd. Olimpiodoro, Vida de Platão, edição de Anton Westermann, 1845, p. 385.
  140. a b c (Riginos 1976, p. 76).
  141. Olympiodorus, Life of Plato and On Plato First Alcibiades, 1–9, Londres, Bloomsbury, 2015, 97–114, pp. 74–75.
  142. Olympiodorus, Commentary on Plato's Gorgias, Leiden, Brill, 1998, 41.7–41.8, pp. 265–266.
  143. a b c (Nails 2002, p. 248).
  144. (Orsi 1998, pp. 288–291).
  145. Giovanni Reale em Diógenes Laércio. «Vidas e doutrinas dos mais célebres filósofos». p. 325  .
  146. (Riginos 1976, p. 91).
  147. a b c (Muccioli 1999, pp. 152–154).
  148. Marta Sordi, Dionigi I e Platone, em φιλίας χάριν. Miscellanea di studi classici in onore di Eugenio Manni, VI, Roma, 1980, pp. 2013–2022 (=Sordi, La dynasteia, pp. 83–91; cfr. pp. 165–166), citada em (Muccioli 1999, p. 152).
  149. (Colonnese 2007, pp. 53–54, n. 171).
  150. Cfr. Plutarco, Dion, 5, 5, e Diógenes Laércio, III, 19. Para uma análise das relações entre Egina e Atenas, vd. M. Amit, Great and Small Poleis. A Study in the Relations between the Great Powers and the Small Cities in Ancient Greece, Bruxelas, 1973, pp. 54–59, citado em (Muccioli 1999, p. 153, nota 401).
  151. (Muccioli 1999, p. 154).
  152. Cit. Vincenzo Capparelli, Il messaggio di Pitagora, vol. 1, 1990, p. 310. Sobre o assunto vd. também (Cosenza 1977, pp. 34–35); Cornelia J. de Vogel, Ripensando Platone e il platonismo, 1990, 110–111.
  153. Vd., porém, (Muccioli 1999, p. 149, nota 387).
  154. (Huffman 1993, p. 4).
  155. (em inglês) Lemma Philolaus, Stanford Encyclopedia of Philosophy.
  156. (Muccioli 1999, p. 157).
  157. a b c (Braccesi & Millino 2000, p. 149).
  158. (Finley 1998, p. 99).
  159. a b (Finley 1998, pp. 105–106).
  160. (Muccioli 1999, p. 50).
  161. (Muccioli 1999, p. 222).
  162. Cfr. as várias hipóteses em (Muccioli 1999, pp. 471–481); sobre o vínculo entre Platão e Apolo vd. Hípias Maior. Sobre o Belo: Diálogos socráticos, 2015, pp. 118–119.
  163. (Grote 1865, p. 126).
  164. Cfr. (Muccioli 1999, p. 159).
  165. Tradução italiana de (Canfora 2002, p. 11).
  166. Carta VII, 326a-b.
  167. Cfr. R. Radice, Platone, 2014; Enrico Berti, La filosofia del "primo" Aristotele, 2ª ed., Milano, Vita e pensiero, 1997, p. 68; T. Tuppini, Epicuro, 2014, filosofia-cronologia, ano 367–365 a.C.
  168. (Berti 2010, p. 19).
  169. a b (Boas 1948, p. 447).
  170. Tradução italiana de Giovanni Reale em Diógenes Laércio. «Vidas e doutrinas dos mais célebres filósofos». p. 325  .
  171. (Brisson 1992, p. 3659).
  172. Francesco Adorno, La filosofia antiga, volume 4, Feltrinelli, 1992, p. 248.
  173. Cfr. Colonnese 2007, pp. 27–28; Muccioli 1999, pp. 199–200.
  174. a b Tradução italiana em Braccesi & Millino 2000, p. 150.
  175. Plutarco, Dion, 11, 2-4.
  176. Nails 2002, p. 136.
  177. a b Braccesi & Millino 2000, p. 150.
  178. Cfr. Sordi, La Sicilia, pp. 9–10: Il IV secolo, p. 229; Muccioli 1999, p. 201.
  179. Cfr. Muccioli 1999, pp. 200–202, n. 543.
  180. FGrHist 556 T 6b.
  181. Cfr. Muccioli 1999, pp. 207–208.
  182. a b c Braccesi & Millino 2000, p. 151.
  183. a b c d e f Nails 2002, p. 131.
  184. Muccioli 1999, pp. 203–206.
  185. Plutarco, Dion, 16.
  186. Cfr. Colonnese 2007, pp. 29, 30.
  187. Giorgini 2008, pp. 62–64.
  188. Canfora 2002, p. 15.
  189. Muccioli 1999, p. 209.
  190. Muccioli 1999, p. 143.
  191. Carta VII, 338c-d; 339d, 350a-b. Karl Friedrich Stroheker, Sizilien und die Magna Graecia cit., p. 129 e Dionysios I pp. 128, 135, n. 32 a p. 233. Cit. Colonnese 2007, p. 31, n. 87; Muccioli 1999, p. 211.
  192. Muccioli 1999, pp. 238–247.
  193. Plutarco, Dion, 17, 2-4 (= F 14 Isnardi Parente, Speusippo = T 29 Taran).
  194. Berti 2010, pp. 8–9.
  195. Muccioli 1999, pp. 224–225.
  196. Muccioli 1999, p. 224.
  197. Marta Zorat, Dionisio II, Dione e Sparta, em Hesperia 4, sob a direção de Lorenzo Braccesi, p. 168.
  198. Muccioli 1999, pp. 227–228.
  199. Muccioli 1999, p. 192.
  200. Muccioli 1999, p. 272.
  201. Muccioli 1999, pp. 274–275.
  202. Carta XIII (de autenticidade duvidosa) e Carta VII, 338a-c (cfr. Muccioli 1999, pp. 269–270).
  203. Muccioli 1999, p. 270.
  204. a b c d e Tradução de Maria Grazia Ciani em Platão 2002.
  205. a b Muccioli 1999, p.272, nota 741.
  206. Plutarco, Dion, 18, 3.
  207. Muccioli 1999, pp. 275–276.
  208. Muccioli 1999, p. 271.
  209. Assim Plutarco, Dion, 19, 2. Cfr. Muccioli 1999, pp. 272–273.
  210. =F 15 Isnardi Parente, Speusippo = T 30 Tarán.
  211. Assim afirma Helmut Berve, Dion, p. 793, citado em Muccioli 1999, p. 274.
  212. Labirinto filosofico, Adelphi, 2014.
  213. a b Muccioli 1999, p. 278.
  214. Cit. em Muccioli 1999, p. 295.
  215. Muccioli 1999, pp. 277–278.
  216. Muccioli 1999, p. 279.
  217. Finley 1998, p. 106.
  218. Muccioli 1999, p. 286.
  219. Sobre a cunhagem nos tempos de Dionísio I, ver Daniele Castrizio, La monetazione mercenariale in Sicilia, Rubbettino, 2000; Maria Caccamo Caltabiano, «La monetazione di Dionisio I fra economia e propaganda», cit., pp. 33-42; «Considerazioni sul pagamento del sîtos ai mercenari nella Sicilia tra Dionisio I e Timoleonte». Consultado em 17 de maio de 2016 
  220. Aprofundamentos em Maria Caccamo Caltabiano, «La monetazione di Dionisio I fra economia e propaganda», em La Sicilia dei due Dionisî, 2002, cit., pp. 33-42 e p. 44, nota 76; «Moneta docet. ΣYΡΑ o dell'Astro». Consultado em 14 de maio de 2016 
  221. Carta III, 318c.
  222. Muccioli 1999, p. 281.
  223. Muccioli 1999, p. 283.
  224. Muccioli 1999, pp. 302 e 312.
  225. a b Finley 1998, pp. 106–107.
  226. Muccioli 1999, pp. 313–314.
  227. Finley 1998, p. 107.
  228. Muccioli 1999, p. 317.
  229. Nails 2002, p. 132.
  230. Braccesi & Millino 2000, p. 153.
  231. Braccesi & Millino 2000, pp. 153–154.
  232. Muccioli 1999, p. 323.
  233. Muccioli 1999, p. 357.
  234. Consolo Langher, p. XVI.
  235. Muccioli 1999, p. 358.
  236. Braccesi & Millino 2000, p. 154.
  237. Braccesi & Millino 2000, pp. 154–155.
  238. Muccioli 1999, pp. 359–362.
  239. Muccioli 1999, pp. 355–356.
  240. Muccioli 1999, p. 363.
  241. a b c Braccesi & Millino 2000, p. 155.
  242. Muccioli 1999, pp. 367–368.
  243. Muccioli 1999, p. 373.
  244. Muccioli 1999, p. 377.
  245. Cfr. A República, 557d.
  246. Tradução italiana em Braccesi & Millino 2000, p. 155.
  247. Finley 1998, pp. 109–110.
  248. Cfr. Domenico Musti, Un ottativo dimenticato (Platone, "Lettera VIII", 356a), em Rivista di cultura classica e medioevale, 44, n. 1 (gennaio-giugno 2002), pp. 7-24.
  249. a b c Canfora 2002, p. 16.
  250. Tradução italiana de Giovanni Reale em Diógenes Laércio, Vite e dottrine dei più celebri filosofi, pp. 333–335.
  251. Muccioli 1999, p. 390.
  252. De Angelis 2016, p. 123.
  253. Braccesi & Millino 2000, pp. 156–157.
  254. Braccesi & Millino 2000, pp. 166–167.
  255. Dreher 2010, p. 59.
  256. Sanders 1987, pp. 95–137 Capítulo 4 The Response of the Academy.
  257. Ainda que poucos, os acadêmicos tiveram grande importância nas fileiras de Dion: Muccioli 1999, pp. 306–307.
  258. Muccioli 1999, p. 387.
  259. Alfieri 2008, p. 70.
  260. Cfr. Popper 1973, cap.7, n.25, também para a lista dos nomes.
  261. Ateneu, XI, 508f-509b
  262. a b Marasco 1985, pp. 114–115.
  263. A expressão é de Marasco 1985, p. 114. Ateneu (XI, 508d) escreve textualmente que a maior parte dos discípulos de Platão se tornou «τυραννικοὶ τινες καὶ διάβολοι».
  264. Ateneu, XI, 509b. Cfr. a respeito Marasco 1985, p. 115 e Muccioli 1999, p.356, n.967, que consideram as ações de Querão praxe da tirania e não da filosofia.
  265. Sobre todos veja Marta Sordi, Timoleonte, p. 22. A primeira a relacionar Timoleonte com Platão foi Renata von Scheliha, Dion. Die platonische Staatsgründung in Sizilien, Leipzig, 1934.
  266. Cfr. aprofundamento em (Muccioli 1999, pp. 189; 420-421).
  267. Cfr. (Muccioli 1999, p. 189) e (Marasco 1985, p. 115), o qual defende que se tratou apenas de iniciativas motivadas por ambições pessoais, sem que a escola de Platão fosse envolvida enquanto tal.
  268. Platonism, Berkeley, 1928, p. 92, citado em (Morrow 1962, p. 118, nota 1).
  269. a b (Morrow 1962, p. 119).
  270. (Forcignanò 2019, p.54, nota 2).
  271. Plato and His Contemporaries, Londres, 1930, p. 106, citado em (Morrow 1962, p. 119).
  272. (Morrow 1962, p. 120).
  273. (Morrow 1962, pp. 120-122).
  274. (Arruzza, p. 55).
  275. (Morrow 1962, p. 122).
  276. (Morrow 1962, pp. 123-124).
  277. Citado em (Morrow 1962, p. 125).
  278. (Morrow 1962, p. 126).
  279. (Morrow 1962, p. 134).
  280. (Consolo Langher 1997, p. XIII).
  281. (Consolo Langher 1997, pp. XIII-XIV).
  282. (Consolo Langher 1997, p. XIV).
  283. República, V, 470b.
  284. (Consolo Langher 1997, pp. XV-XVI).
  285. (Morrow 1962, p. 135).
  286. (Morrow 1962, p. 136).
  287. (Morrow 1962, p. 137).
  288. Hermannus Oldenberg, De Platonis arte dialectica, Gottingae, Officina Academica Dieterichiana, 1873, p. 51.
  289. (Adorno 1970, n. 3, n. 50).
  290. (Adorno 1970, n. 47).
  291. (Adorno 1970, n. 3).
  292. a b (Morrow 1962, p. 148).
  293. Tradução italiana de Antonio Carlini, em Platone, tutte le opere, p. 1413.
  294. Tradução italiana de Franco Sartori, em Platone, opere complete, vol. 6, Roma-Bari, Laterza, 1986, pp.187-188
  295. (Morrow 1962, p. 127).
  296. (Morrow 1962, p. 128).
  297. (Morrow 1962, pp. 128-129).
  298. (Cavarero 1980, pp. 37-38).
  299. (Cavarero 1980, pp. 38-39).
  300. (Morrow 1962, p. 132).
  301. (Morrow 1962, p. 133).
  302. Dion, Wiesbaden, 1956.
  303. Emilio Galvagno (2002). «Dione e i σύμμαχοι». In: Bonacasa, Nicola; Braccesi, Lorenzo; De Miro, Ernesto. La Sicilia dei due Dionisî: atti della Settimana di studio, Agrigento, 24-28 febbraio 1999. [S.l.]: L'Erma di Bretschneider. p. 405. ISBN 88-8265-170-3 
  304. (Cavarero 1980, pp. 42-43).
  305. a b (Cavarero 1980, p. 43).
  306. Tradução italiana de Adriana Cavarero em (Cavarero 1980, p. 58).
  307. Carta V, 322 a-b. Cfr. (Adorno 1970, n. 127).
  308. Cfr. (Pasquali 1967, p. 227); Broilo, Xenia (a cura di), 1985, pp. 114, 118; Rivista di storia della filosofia, 2006, vol. 61, ed. 1-3, p. 261.
  309. (Lami 2005, p.60, nota 3).
  310. Domenico Musti, Storia greca, 1989, p. 576, cit. em La Sicilia dei due Dionisî, 2002, pp. 139-140.
  311. Cit. (Canfora 2002, p. 12).
  312. (Forcignanò 2019, p.55, nota 4).
  313. (Morrow 1962, p. 154).
  314. (Morrow 1962, p. 149).
  315. Citado em (Morrow 1962, p. 150, nota 1).
  316. (Morrow 1962, pp. 149-150).
  317. (Morrow 1962, p. 151).
  318. (Morrow 1962, pp. 151-152).
  319. (Morrow 1962, p. 153).
  320. Cfr. (Consolo Langher 1997), pp. XV-XVI; Francesca Berlinzani, Convivenze etniche, scontri e contatti di culture in Sicilia e Magna Grecia, 2012, p. 19, onde se cita Aristóteles, segundo o qual uma das causas da stasis era a mistura dos gregos com os bárbaros (Pol. 5, 1303 a 25-b 3).
  321. República, V, 470c-d. Cfr. Carl Schmitt, Il concetto di «politico» em Le categorie del «Politico»: saggi di teoria politica, Il Mulino, Bolonha 1972. p. III, citado em Giuseppe Barletta, Le forme e il tempo: ricerche in filosofia, 1987, p. 28; (Adorno 1970, n. 65).
  322. (Morrow 1962, pp. 157-159).
  323. The Preludes to Plato's Laws, em Transactions of the American Philological Association, LX (1929), p. 13 ss., citado em (Morrow 1962, p. 164).
  324. (Morrow 1962, p. 164).
  325. (Morrow 1962, p. 165).
  326. (Morrow 1962, p. 166).
  327. Carta VII, 332e-333a. Cfr. (Pasquali 1967, p. 11).
  328. Carta VIII, em (Pasquali 1967, p. 41).
  329. Sobre o assunto, Alessandra Coppola, «Mito e propaganda alla corte dionisiana», em La Sicilia dei due Dionisî, 2002, pp. 373 e 384; A. Mastrocinque, Da Cnido a Corcira Melaina: uno studio sulle fondazioni greche in Adriatico, 1988, p. 45; Klearchos, Volumes 5-6, 1963, p. 98; Kōkalos, 1995, p. 574.
  330. (Morrow 1962, p. 183).
  331. (Melling 1994, p. 191).
  332. (Morrow 1962, pp. 183-184).
  333. (Cavarero 1980, pp. 157-158).
  334. (Cavarero 1980, p. 167).
  335. Cfr. Tomás Maldonado, Che cos'è un intellettuale?, 1995, pp. 69-72; Hannah Arendt (a cura di Simona Forti), Bruno Mondadori 1999, p. 227; Hans-Georg Gadamer, Zurück von Syrakus, em: Jürg Altwegg (a cura di), Die Heidegger Kontroverse, Francoforte, Athenäum 1988, 176-180.
  336. Hans-Georg Gadamer, Zurück von Syrakus em Jürg Altwegg (a cura di), Die Heidegger Kontroverse, Athenàum, Frankfurt am Main 1988.
  337. Cfr. (Girgenti 2004, p. 116) e o mesmo em (Sisti 2015, pp. 1-20). Para a definição de «Síndrome de Siracusa» veja também Diego Fusaro, p. 12 em Karl Marx, Salario, prezzo e profitto (traduzido e editado por Diego Fusaro), 2013; Giuseppe Bertagna, Pedagogia generale e filosofia dell'educazione (a cura di Giuseppe Vico), 2006.
  338. Jacques Derrida, Tentazione di Siracusa, Mimesis, 2019, a cura de Elio Cappuccio e Roberto Fai.
  339. Leo Strauss, Alexandre Kojève, Sulla tirannide (traduzido por D. De Pretto), 2010: Strauss defende que a filosofia não deve cruzar-se com a política, enquanto Kojève defende o oposto: a filosofia é política.
  340. (Popper 1973, addenda III).
  341. (Popper 1973, cap. 8, sez. 4).
  342. (Popper 1973, cap. 8, n. 49). Cfr. com Francis Macdonald Cornford, The Republic of Plato, 1941, p. 165.
  343. Girgenti em (Sisti 2015, p. 15).
  344. Giovanni Reale (23 agosto 2010). «L'utopia del governo perfetto. Platone e l'idea del Bene assoluto». Corriere della Sera 
  345. Cfr. Roberto Radice, Platone, cap. Le teorie della politica.
  346. Werner Jaeger, Paideia. Die Formung des grieschischen Menschen, 1944. Tradução italiana: Paideia. La formazione dell'uomo greco, Milão 2011. Cit. em (Sisti 2015, p. 16).
  347. Eric Voegelin, Platon, 1966. Tradução italiana: Ordine e storia. La filosofia politica di Platone, Bolonha 1986. Cit. em (Sisti 2015, p. 16).
  348. Thomas Alan Sinclair, 1951, p. 243 (cit. em Tomás Maldonado, 1995, Che cos'è un intellettuale?, p. 71).
  349. Hans Krämer, Platone e i fondamenti della metafisica, Vita e Pensiero, 1987, pp. 177-178.
  350. Cosimo Quarta (1993) [1985]. «L'utopia platonica, il progetto politico di un grande filosofo». Dedalo. p. 111 
  351. L. Sprague de Camp, Lost Continents - The Atlantis Theme, 1954, Fanucci, 1980.
  352. Proclo, Commento al Timeu di Platone Livro I, 76, 1-15. Cfr. em Ronald H. Fritze, Falsi miti. Come si inventa quello in cui crediamo, 2012, p. 37; Alessandro Greco, Atlantide Ritrovata, 2010, p. 16; Harold Tarrant, Dirk Baltzly, Proclus, Commentary on Plato's Timaeus, vol. I: Book 1, Cambridge University Press, 2006, pp. 168-169.
  353. Sobre a comparação entre o texto de Atlântida e o reino físico do tirano Dionísio I veja Constantin Ritter, Platon, sein Leben, seine Schriften, seine Lehre (Munique, 1910-23), p. 203, 453, n. 1 e p. 865; Gunnar Rudberg, Platonica Selecta (Estocolmo 1956) e Atlantis and Syracuse (tradução inglesa em 2012); Phyllis Young Forsyth, Atlantis. The making of myth, Montréal-Londres 1980; (Mosconi 2008, pp. 184, 190); (Mosconi 2010, pp. 37, 41, 43).
  354. (Gill 2016, pp. 40-43).
  355. Phyllis Young Forsyth cit. em (Gaiser 1991, p. 176) (o qual não compartilha a especificidade sobre Dionísio II).
  356. Sobre o assunto veja Marta Sordi, Dionigi e il Tirreno em La Sicilia dei due Dionisî, 2002, pp. 493-99; R. Lucca, Dionigi II e il Lazio em Hesperia 7: Studi Sulla Grecita Di Occidente, 1996; Giuseppe Barone, Le vie del Mezzogiorno: storia e scenari, 2002, p. 32.
  357. Vd. também «Wo das sagenumwobene Atlantis wirklich lag». Consultado em 21 junho 2016  (em alemão).
  358. Primeira publicação em sueco em 1917 (Atlantis och Syracusae); publicação em inglês em 2012.
  359. Para a edificação de Dionísio I nas Epípolas: Diodoro Sículo, XIV, 18, 3-5 (XIV, 7, 5 para o título de cidadão dado aos escravos libertos). Para as passagens sobre Atlântida: Crítias, 118e-119b (único trecho em que se fala dos habitantes da chora). Cit. em (Mosconi 2010, p. 43) e aprofundamento em (Mosconi 2008, pp. 187-190) e n. 84 e 85.
  360. Sobre as analogias específicas entre Ortígia e a ilha central de Atlântida veja (Mosconi 2008, p. 184), n. 74 e bibliografia citada; (Mosconi 2010, p. 41), n. 1 e 2, cap. 5. 3. Il diametro e le dimensioni dell'isola centrale; R. S. Brumbaugh, Plato's Mathematical Imagination, 1954, pp. 52-54.
  361. (Castleden 2002, p. 157).
  362. a b Cfr. descrição em todos os pontos em Gunnar Rudberg (o primeiro a ter ligado Atlântida a Siracusa), Atlantis and Syracuse, ed. 2012; Phyllis Young Forsyth, Atlantis. The making of myth, Montréal-Londres 1980; Paul Jordan, La sindrome di Atlantide, 2013, cap. 1 L'opera incompleta di Platone.
  363. Società geologica italiana, Bollettino della Società geologica italiana, vol. 126, 2007, p. 463; Società di studi geografici, Rivista geografica italiana, vol. 88, 1981, p. 169; «Una nuova microplacca: la sicula-iblea tra Europa e Africa». Consultado em 21 de junho de 2016. Cópia arquivada em 18 de novembro de 2015 
  364. Sobre os vulcões extintos dos Montes Ibleus, veja-se: «Vulcanismo dei Monti Iblei» (PDF). Consultado em 21 de junho de 2016. Cópia arquivada (PDF) em 22 de setembro de 2020  Sobre o vulcão Etna e a sua área, veja-se: «Il vulcano Etna in Sicilia». Consultado em 21 de junho de 2016 
  365. Quanto à instabilidade geológica de Siracusa: Cf. (Castleden 2002, p. 158). Sobre os minerais de Atlântida: Crítias, 114e. Sobre as fontes de Atlântida: Crítias, 117b-d.

Bibliografia

Fontes antigas

  • Apuleio (2015). Emmanuele Vimercati, ed. Platone e la sua dottrina [Platão e sua doutrina]. Medioplatonici: opere, frammenti, testimonianze (em latim e italiano). Textos gregos e latinos lado a lado, introdução, tradução, notas e aparatos críticos. [S.l.]: Bompiani. pp. 947–1029 e 1147–1153. ISBN 978-88-452-8070-2 
  • Diodoro Sículo (1985). Teresa Alfieri Tonini, ed. Biblioteca storica, libri XIV-XVII [Biblioteca histórica, livros XIV-XVII]. [S.l.]: Rusconi. ISBN 88-18-16001-X 
  • Diógenes Laércio (2005). Giovanni Reale, ed. Vite e dottrine dei più celebri filosofi [Vidas e doutrinas dos filósofos mais célebres] (em grego antigo e italiano). [S.l.]: Bompiani. ISBN 88-452-3301-4 
    Texto em grego do livro III (ΠΛΑΤΩΝ), em perseus.tufts.edu.
  • Platão (1970). Francesco Adorno, ed. Dialoghi politici e Lettere [Diálogos políticos e Cartas]. 2 vols. 2ª ed. ed. [S.l.]: Utet 
    • Platão, Lettere, tradução de Antonio Carlini, in Tutte le opere [Todas as obras]. a cargo de Giovanni Pugliese Carratelli. [S.l.]: Sansoni. 1974. pp. 1397–1435 
    • Platão (2002). Margherita Isnardi Parente, ed. Lettere [Cartas] (em grego antigo e italiano). Traduzido por Maria Grazia Ciani. [S.l.]: Fondazione Lorenzo Valla, Arnoldo Mondadori Editore. ISBN 88-04-50666-0 
  • Platão, Fedone, prefácio, tradução e notas de Gino Giardini, in Tutte le opere [Todas as obras] (em grego antigo e italiano). 1. a cargo de Enrico V. Maltese. [S.l.]: Newton & Compton. 1997. pp. 137–259. ISBN 88-8183-745-5 
  • Orsi, Domenica Paola, ed. (1998). Vite [Vidas🔗 (em grego antigo e italiano). 3. [S.l.]: Unione tipografico-editrice torinese. pp. 261–387. ISBN 88-02-05334-0 
  • Tzetzes, Ioannes (1826). Historiarum variarum Chiliades [Quilíadas de histórias várias] (em grego antigo). Texto grego revisto segundo dois códices de Munique, com breve anotação e índices por Theophilus Kiesslingius. [S.l.]: sumptibus Fr. Chr. Chr. Guil. Vogelii 

Bibliografia secundária

Outros livros

  • Carrera, Pietro (1639). «Epistole di Diodoro Siciliano tradotte dal greco in latino dal cardinal niceno Bessarione e dal latino in italiano da Ottavio d'Archangelo (Cartas de Diodoro Siciliano traduzidas do grego para o latim pelo cardeal niceno Bessarion e do latim para o italiano por Ottavio d'Archangelo.)». Delle memorie historiche della città di Catania spiegate in tre volumi [Memórias históricas da cidade de Catânia explicadas em três volumes]. Nel quale in quattro libri si discorre dell'antica origine, e sito di essa, de gli edifici, pertinenze, iscrittioni, medaglie, & avvenimenti insino al tempo di Christo signor nostro compresi. Vi si aggiungono ancore l'Epistole di Diodoro con le annotationi del medesimo don Pietro (Nos quais, em quatro livros, discute-se a origem antiga e a localização da mesma, os edifícios, pertences, inscrições, medalhas e acontecimentos até ao tempo de Cristo, nosso Senhor, inclusive. Ainda se acrescentam as Epístolas de Diodoro com as anotações do próprio Dom Pietro.). 1. Catânia: Palazzo dell'illustrissimo Senato. pp. 457–491  (Contém: Epístolas 56–57, Os catanenses a Platão; Epístola 58, Platão aos catanenses).
  • Levy, Gertrude Rachel (1956). Plato in Sicily [Platão na Sicília] (em inglês). Londres: Faber and Faber 
  • Kriyananda (2005). Il tunnel del tempo. Una favola per tutte le età e per il bambino che è in te [O túnel do tempo: um conto para todas as idades e para a criança que há em ti]. Gualdo Tadino: Ananda. ISBN 978-88-97586-17-3  (Narra-se uma Siracusa despótica nascida como consequência da aplicação do Estado ideal de Platão: "o Estado é Deus" repete-se no livro).

Ligações externas