Tristão de Ataíde, capitão das Molucas

Tristão de Ataíde, capitão das Molucas
Nascimento1490
Reino de Portugal
Morte1550
CidadaniaPortugal
Progenitores
  • Álvaro de Ataíde, senhor de Penacova
Irmão(ã)(s)Nuno Fernandes de Ataíde, Catarina de Ataíde
Ocupaçãoexplorador, administrador colonial, comandante militar, fidalgo
LealdadeImpério Português

Tristão de Ataíde (c. 1490 - c. 1550 ?) foi um explorador e militar português do século XVI, que exerceu o cargo de capitão das Molucas, com sede em Ternate, de 1534 a 1536.[1]

Biografia

Era filho natural de Álvaro de Ataíde (c. 1440 - 1498), senhor de Penacova e Alcaide-mor do castelo de Alvor. Sendo assim meio-irmão do famoso capitão de Safim, Nuno Fernandes de Ataíde, e de D. Catarina de Ataíde, mulher de Vasco da Gama.[2]

Não se sabe ao certo a data do seu nascimento, mas dado ter iniciado a sua carreira militar no Oriente sob Afonso de Albuquerque e ter mantido sempre uma relação muito próxima com seus sobrinhos, filhos de Vasco da Gama com Catarina de Ataíde (dando a impressão de ser de faixa etária não muito distante da deles), é provável que tenha ocorrido durante, ou logo após, a década de 1480.

Fez toda a sua carreira militar no império português e em 1513 já estava prestando serviço na Índia, como atesta um mandado do governador de Índia, Afonso de Albuquerque, dirigido ao feitor de Goa, para que fosse pago a Tristão de Ataíde "o que lhe é devido do seu mantimento".[3]

Governador das Molucas

Mais tarde, tomou parte na tomada de Diu e de Baçaim e, no ano de 1533, foi nomeado pelo governador Nuno da Cunha, de quem era muito próximo, para o cargo de capitão (governador) das Molucas,[4] tendo feito a viagem, numa primeira etapa até Malaca, na companhia do seu sobrinho D. Paulo da Gama e finalmente até Ternate, onde chegou em outubro de 1533.[5][6]

Depois de tomar posse do cargo, logo mandou prender o seu antecessor, Vicente da Fonseca, pelos abusos que praticara durante o seu governo. Mas rapidamente deu mostras de um exercício arbitrário do poder ("entrou governando branda e suavemente, o que logo se lhe mudou"),[7] mandando prender o rei de Ternate, juntamente com a sua mãe e colaboradores próximos, a quem enviou para Goa, colocando no seu lugar um seu protegido.[8][9]

De seguida, assumiu pessoalmente o controle pleno do comércio do cravo nas Molucas, determinando que a especiaria fosse exclusivamente vendida a ele próprio e seus mais próximos colaboradores, os quais, pela força, submetiam as populações e as obrigavam a cumprir estritamente essa determinação. Declarou também guerra ao rei de Bachão, anteriormente amigo dos portugueses, queimando e ocupando a sua capital.[10]

Porém, durante o seu mandato nas Molucas não se limitou a ações militares, pois também organizou várias expedições, incluindo uma de escopo também comercial, "para descobrir as ilhas de Mindanau".[11] Segundo relata Diogo do Couto,

Mandou Tristão de Ataíde hum João Pinto a descobrir as ilhas de Mindanao, e as vizinhas a ella, para se prover de mantimentos, porque em todas as de Maluco lhes tinham tapado os portos ... partido este homem em uma naveta, chegou à ilha de Mindanao, aonde desembarcou, e viu aquele Rey, que lhe fez muitos agasalhos, e assentando com ele pazes e amizades, vendeu o que levava e comprou o que quis, liberalmente e à sua vontade.[7]

Entretanto, o seu governo com mão de ferro acabou por gerar várias revoltas e uma situação de grande instabilidade, pelo que o governador Nuno da Cunha, apesar de seu amigo, se viu obrigado a substituí-lo por António Galvão. Porém, enquanto este não chegava a Ternate, Tristão de Ataíde aumentou a pressão sobre os habitantes das ilhas Molucas, confiscando o seu ouro e suspendendo o envio da parte do cravo que cabia à coroa, alegando que a situação de guerra e revoltas (geradas por reação contra o seu governo) o impedia de reunir os carregamentos que deviam ser enviados para Portugal.

António Galvão, depois de chegar a Ternate, conseguiu pacificar a situação, e relatou as irregularidades que se haviam passado sob o governo de Tristão de Ataíde em cartas que enviou a Malaca e a Goa, através um homem de sua confiança, António Madureira. Mas Tristão de Ataíde, que continuava a exercer um substancial poder de facto nas Molucas, através de vários influentes parentes e amigos, mandou atacar Madureira, recuperou as cartas e obrigou-o a regressar a Ternate.

O cronista Fernão Lopes de Castanheda comentou este episódio com as seguintes palavras:

& assi se enterrou o que Tristao datayde & os outros fizerão, & el rey foy muyto deservido ... E a culpa disto he toda dos governadores da India , q não trabalhão muyto por saberem os delitos que se fazem em Maluco, & sabidos os não castigão muyto bem.[4]

Comandante militar e conselheiro em Malaca e Goa

Tristão de Ataíde foi em seguida para Malaca, de onde participou nas expedições que o seu sobrinho, D. Estêvão da Gama, empreendeu contra o sultão de Achém.[12]

Já em Goa, onde exibia com orgulho toda a fortuna que acumulara nas ilhas Molucas, participou em várias expedições guerreiras, por cujo bom desempenho militar seria formalmente elogiado, no ano de 1539.[6]

Quando o seu sobrinho D. Estêvão da Gama assumiu o governo do Estado da Índia (1540 - 1542) tornou-se o mais influente conselheiro do governador, comandando frotas que foram a Cambaia e juntando-se a D. Estêvão na famosa expedição que este conduziu ao Mar Vermelho.

Terminaria a sua carreira numa outra parte do império português, em Marrocos, nomeadamente na praça de Mazagão, onde sustentou combates e se correspondeu com D. João III sobre a situação militar dessa fortaleza lusa em território marroquino.[13]

Descendência

Segundo o escritor e genealogista Felgueiras Gaio, Tristão de Ataíde nunca casou, mas deixou um filho ilegítimo, Nuno Fernandes de Ataíde, pai de outro Tristão de Ataíde, que exerceu o cargo de capitão da praça de Cananor (hoje, Kannur).[14]

Referências

  1. «Indonesia. Moluccas Portuguese Captains (at Ternate)». www.worldstatesmen.org. Consultado em 6 de agosto de 2025. 1534 - 1536 Tristão de Ataíde 
  2. Pessanha, Fernando (28 de agosto de 2022). «Álvaro de Ataíde, guerreiro do século XV e alcaide-mor de Alvor». Jornal do Algarve. Consultado em 6 de agosto de 2025. As genealogias conhecidas coincidem quanto à descendência de Álvaro de Ataíde: Nuno Fernandes de Ataíde (o célebre capitão de Safim), D. Catarina de Ataíde, casada com o famoso navegador Vasco da Gama (conde da Vidigueira).. Teve ainda outros filhos ilegítimos: Tristão de Ataíde, que veio a ser capitão de Maluco, Cananor e Mazagão 
  3. «Digitarq. Mandado de Afonso de Albuquerque para Francisco Corvinel, feitor de Goa, pagar a Tristão de Ataíde o que lhe é devido de seu mantimento». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 6 de agosto de 2025 
  4. a b Castanheda, Fernhão Lopes de (1561). Historia do descobrimento e conquista da India pelos Portugueses. Livro VIII. Lisboa: Typographia Rollandiana (publicado em 1833). pp. 218, 383. Consultado em 6 de agosto de 2025 
  5. «Digitarq. Carta de Tristão de Ataíde dando conhecimento a D. João III que se podia navegar de Goa para Maluco, entre outras notícias». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 6 de agosto de 2025 
  6. a b Grande enciclopédia portuguesa e brasileira: Ilustrada com cêrca de 15,000 gravuras e 400 estampas a côres. Volume III. Lisboa - Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia. 1960. pp. 617–618. Consultado em 6 de agosto de 2025 
  7. a b Diogo do Couto. «Da Asia. Década IV.». shinku.nichibun.ac.jp. pp. 294, 329. Consultado em 17 de outubro de 2025 
  8. «Digitarq. Carta de Tristão de Ataíde ao conde de Vimioso dando contas das notícias da Índia e da sua vinda para Maluco». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 6 de agosto de 2025 
  9. «Digitarq. Carta de Nuno da Cunha ao rei D. João III na qual lhe dizia que logo que Tristão de Ataíde prendera o rei das Molucas e fizera rei a outro irmão, que se levantara com os da terra matando alguns portugueses que lá estavam e outras notícias». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 6 de agosto de 2025 
  10. «Digitarq. Carta do rei de Molucas dando conta ao rei dos trabalhos e prisões em que se tinha visto por ordem do governador, Tristão de Ataíde, que se julgava feliz por vir a terra de católicos, onde se fez cristão, e do cuidado zelo e inteireza com que o dito governador satisfazia sua obrigação.». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 6 de agosto de 2025 
  11. Diogo do Couto. «Da Asia. 15vols. Vol. 1 e Índice». shinku.nichibun.ac.jp. Tomo I (p. 329), Índice (p. 37). Consultado em 6 de outubro de 2025. Manda descubrir as Ilhas de Mindanao 
  12. «Digitarq. Conta do capitão da Fortaleza de Molucas Tristão de Ataíde ao rei sobre o sucesso da guerra com os mouros e sobre a batalha de Malaca.». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 6 de agosto de 2025 
  13. «Digitarq. Carta de Tristão de Ataíde dando parte ao rei que a 11 de Fevereiro apareceram 5 bandeiras de mouros à vista da praça, porém que se retiraram sem lhe fazer dano. Que para ali fugira um mouro e que, passados alguns dias, se fizera cristão e que saindo trouxera uns bois de presa e lhe dissera que o filho do xarife fora desbaratado pelos de Fez. que estavam muito favorecidos com 1500 turcos que lhe vieram.». digitarq.arquivos.pt. Consultado em 6 de agosto de 2025. Corpo Cronológico Datas Produção 1549-02-16 
  14. «Nobiliário de famílias de Portugal, [Braga], 1938-1941 - Biblioteca Nacional Digital. Tomo III (Ataídes)». purl.pt. Consultado em 6 de agosto de 2025 
Precedido por
Vicente da Fonseca
Capitão das Molucas
1534-1536
Sucedido por
António Galvão