Trevor Huddleston

Trevor Huddleston, CR KCMG
Trevor Huddleston
Busto de bronze de Huddleston com citação de Mandela em Bedford

Título

Arcebispo da Igreja da Província do Oceano Índico
Atividade Eclesiástica
Igreja Igreja da Inglaterra
Diocese Diocese de Maurícia
Nomeação 1978
Predecessor Ghislain Emmanuel (Maurícia)
Edwin Curtis (Província)
Sucessor Rex Donat (Maurícia)
French Chang-Him (Província)
Mandato 1978-1983
Hierarquia
Ordenação e nomeação
Ordenação diaconal 27 de setembro de 1936
Catedral de Bristol
por Clifford Woodward
Ordenação presbiteral 26 de setembro de 1937
Catedral de Bristol
por Clifford Woodward
Ordenação episcopal 30 de novembro de 1960
Dar es Salaam
por Leonard Beecher
Dados pessoais
Nascimento Bedford, Bedfordshire
15 de junho de 1913
Morte Mirfield, West Yorkshire
20 de abril de 1998 (84 anos)
Nacionalidade Britânico
Habilitação académica Christ Church, Oxford
Wells Theological College
Funções exercidas - Bispo de Masasi (1960-1968)
- Bispo de Stepney (1968-1978)

Ernest Urban Trevor Huddleston CR KCMG (15 de junho de 1913 – 20 de abril de 1998) foi um bispo anglicano inglês. Foi Bispo de Stepney, em Londres, antes de se tornar o segundo Arcebispo da Igreja da Província do Oceano Índico. Era conhecido por seu ativismo antiapartheid, tendo sido um dos fundadores e presidente do Movimento Anti-Apartheid.[1]

Formação e sacerdócio

Filho de um oficial de classe alta da Marinha Britânica da Índia,[2] Trevor Huddleston nasceu em Chaucer Road, Bedford, e foi batizado na Igreja de São Paulo em Bedford. Entre 1921-1937, frequentou o Lancing College e a Christ Church, Oxford.[3] Ele foi feito diácono na Michaelmas de 1936 (27 de setembro)[4] e ordenado sacerdote na Michaelmas seguinte (26 de setembro de 1937)[5] — ambas às vezes por Clifford Woodward, Bispo de Bristol, na Catedral de Bristol.

Entre 1937-1939, estudou teologia no Wells Theological College. Em 1939, se juntou a uma ordem religiosa anglicana, a Comunidade da Ressurreição em Mirfield, West Yorkshire. De 1939 a 1941, atuou como cura em St Mark's, em Swindon. Em 1941, padre Huddleston fez seus votos na ordem.[3]

Servindo na África do Sul, de 1943 a 1956, Huddleston foi padre responsável pela Missão da Comunidade em Sophiatown,[3] uma área residencial negra em Joanesburgo, onde tornou-se um ativista antiapartheid e ganhou o apelido de Makhalipile, "o destemido".[1] A partir de 1949, foi Provincial da Comunidade na África do Sul e Superintendente da Escola St. Peter.[3] Seu trabalho foi reconhecido em dezembro de 1955, quando recebeu, juntamente com o Chefe Albert Luthuli e o Dr. Yusuf Dadoo, o primeiro prêmio Isitwalandwe/Seaparankoe, dado pelo Congresso Nacional Africano.[6]

Temendo por sua segurança, a Igreja da Inglaterra chamou Padre Huddleston de volta, e no ano seguinte, ele publicou Naught for your Comfort.[3] Seu livro se tornou um best-seller; nele, o sacerdote inglês descreveu a ilegalidade de sua congregação negra e toda a violência que sofriam devido ao apartheid.[7]

Entre 1956-1957, foi Guardião dos Noviços na casa-mãe da CR em Mirfield. Em 26 de junho de 1959, Huddleston e Julius Nyerere discursam na reunião de fundação do Movimento Anti-Apartheid (AAM) em Londres.[3]

Em 1959, o Ministro das Relações Exteriores da África do Sul, Eric Louw, acusou o padre Trevor de causar grandes danos à União da África do Sul. Ele se referia ao boicote promovido na África e nos Estados Unidos a produtos e meios de transporte sul-africanos na tentativa de fazer o governo moderar suas robustas políticas de apartheid.[7]

Episcopado

Huddleston durante seu serviço de consagração em 1960

Foi consagrado bispo no Dia de Santo André de 1960 (30 de novembro)[8] por Leonard Beecher, Arcebispo da África Oriental, em St. Nicholas', Ilala, Dar es Salaam,[9] para servir como Bispo de Masasi, Tanzânia (então sudeste de Tanganica), cargo que ocupa por oito anos. No ano seguinte, se torna vice-presidente do AAM, cargo que ocupou até 1981.[3] Em 1968, Huddleston é nomeado bispo de Stepney, um bispo sufragâneo na Diocese de Londres.[10]

Uma década depois, Huddleston foi eleito Bispo de Maurícia e Arcebispo da Igreja da Província do Oceano Índico.[3]

Em abril de 1981, com a morte do bispo Ambrose Reeves, Huddleston é eleito presidente do AAM, cargo que ocupou até 1994.[3] Naquele ano, o AAM se transformou na Ação para a África Austral (ACTSA), da qual ele foi patrono até sua morte.[11]

Huddleston se aposentou do ofício episcopal em 1983, em St. James, Piccadilly, e aceitou o cargo de reitor do Colégio Teológico Anglicano-Não-Conformista de Selly Oak, Birmingham. Ele recebeu a Medalha de Ouro das Nações Unidas. No ano seguinte, o arcebispo emérito recebeu, do governo da Zâmbia, a mais alta condecoração do país, a Ordem da Liberdade de 1ª Classe, além do Prêmio Dag Hammerskjold da Paz; também liderou uma delegação do AAM para se encontrar com a primeira-ministra Margaret Thatcher para protestar contra a visita do presidente Pieter Willem Botha.[3]

Em 1994, Huddleston recebeu a Tocha do Kilimanjaro da Tanzânia e o Prêmio Indira Gandhi da Índia pela Paz, Desarmamento e Desenvolvimento. Em 26 de abril daquele ano, ele votou na primeira eleição democrática da África do Sul na Trafalgar Square, em Londres. Ele retornou à África do Sul em 1995 por um curto período e passou seus últimos anos com a Comunidade da Ressurreição em Mirfield.[3]

Em 1998, Huddleston é nomeado pela Rainha Elizabeth II como Cavaleiro Comandante da Ordem de São Miguel e São Jorge nas Honras de Ano Novo de 1998.[12] Na sua investidura, em 24 de março, ele escolhe a designação "Bispo Trevor de Sophiatown".[3] Em 1994, Huddleston recebeu o título honorário de Doutor em Letras Humanas (LHD) do Whittier College.[13]

Vitral memorial para Huddleston na Capela Lancing

Ele morreu em sua casa em Mirfield. Suas cinzas foram enterradas em um local próximo à Igreja de Cristo Rei em Sophiatown em 2015.[3][14]

Acusações e legado

Em 1974, Huddleston foi interrogado pela polícia devido a queixas de suposta impropriedade sexual feitas pelos pais de quatro meninos que estavam brincando no escritório de Huddleston. Em sua declaração, Huddleston disse: "Eu nunca fiz nada para prejudicar uma criança... Os meninos estão dizendo a verdade [sobre dar palmadas em suas nádegas], mas as implicações de indecência são completamente absurdas." O relatório policial recomendou acusá-lo de quatro acusações de indecência grave, mas devido ao seu alto perfil, o assunto foi encaminhado ao diretor do Ministério Público, Sir Norman Skelhorn.[15][16] Skelhorn decidiu não o acusar após consultar figuras do Partido Trabalhista e o caso foi arquivado até 2069. A existência da investigação e do relatório só foi descoberta como parte da pesquisa para a publicação da biografia de Piers McGrandle em 2004.[17]

Em sua biografia, Trevor Huddleston: Turbulent Priest, Piers McGrandle cita o Arcebispo Desmond Tutu e o Bispo Gerald Ellison, que rejeitaram as alegações como uma conspiração do Departamento de Segurança do Estado da África do Sul (BOSS) para desacreditar um proeminente oponente do apartheid. Tutu escreveu o prefácio do livro de McGrandle, e o Arcebispo Rowan Williams, o posfácio. McGrandle era capelão de meio período de Huddleston e queria apresentar Huddleston a uma nova geração.[18]

A memória de Huddleston continua a ser celebrada principalmente devido a seu ativismo. Sobre o arcebispo, Nelson Mandela disse: “Nenhuma pessoa branca fez mais pela África do Sul que Trevor Huddleston”.[15][19][20] O ex-presidente sul-africano esteve em Bedford, em 2000, para inaugurar uma estátua em sua homenagem.[20]

Em Joanesburgo, existe o Trevor Huddleston CR Memorial Centre (THMC), fundado em 2000, para dar continuidade ao legado do Arcebispo Huddleston por meio da educação de jovens.[11] Uma janela em sua memória está na capela do Lancing College, a qual foi dedicada pelo Arcebispo Desmond Tutu em 2007. Eles se tornaram amigos quando Huddleston visitou o jovem Tutu no hospital quando ele estava doente com tuberculose. Mais tarde, eles trabalharam juntos se opondo ao apartheid.[1] Tutu é creditado por reconhecer que “Se você pudesse dizer que alguém sozinho fez do apartheid uma questão mundial, então essa pessoa seria Trevor Huddleston”.[16]

Nas comemorações do centenário do nascimento de Huddleston, 2013, tanto no Reino Unido quanto na África do Sul, muitas pessoas testemunharam o impacto que Huddleston teve em sua fé e prática como anglicanos ou como ativistas.[11][19] Em 2015, o Conselho Municipal de Bedford colocou uma placa para marcar o local de nascimento do Arcebispo Trevor Huddleston na cidade.[15]

Obras

  • Naught For Your Comfort. [S.l.]: Collins. 1956. ISBN 9780006269571 
  • The True and Living God. [S.l.]: Fontana Books. 1964. ISBN 978-0-00-620921-8
  • God’s World. [S.l.]: Fontana Books. 1966. ISBN 978-0-00-621411-3
  • The State of Anglo-Tanzanian Relations. [S.l.]: Africa Bureau. 1968. ISBN 978-0-900033-10-0
  • I Believe: Reflections on the Apostles’ Creed. [S.l.]: Fount. 1986. ISBN 978-0-00-627069-0
  • Makhalipile - The Dauntless One: Archbishop Trevor Huddleston Talks About His Life and Work. Johannesburg: Kliptown Books, 1990. ISBN 978-1-871863-03-1
  • Return to South Africa: The Ecstasy and the Agony. [S.l.]: W. B. Eerdmans. 1992. ISBN 978-0-86543-349-6 

Referências

  1. a b c «Lancing College - Archbishop Desmond Tutu visits Lancing College». www.lancingcollege.co.uk. Consultado em 27 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 8 de junho de 2013 
  2. Platten, Stephen (22 de junho de 2013). «The priest who helped to end apartheid». www.thetimes.com (em inglês). Consultado em 28 de setembro de 2025 
  3. a b c d e f g h i j k l m «Timeline: Father Trevor Huddleston». South African History Online (em inglês). 26 de outubro de 2012. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  4. «Ordinations». Church Times. 2 de outubro de 1936. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  5. «Ordinations». Church Times. 1 de outubro de 1937. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  6. «African National Congress - Kids». www.anc.org.za. Consultado em 27 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 23 de outubro de 2012 
  7. a b «De Slum-Pater». Der Spiegel (em alemão). 8 de setembro de 1959. ISSN 2195-1349. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  8. «New date fixed for Masasi consecration». Church Times. 28 de outubro de 1960. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  9. «Fr Huddleston a bishop». Church Times. 19 de dezembro de 1960. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  10. «No. 44628». The London Gazette. 5 de julho de 1968. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  11. a b c Africa (ACTSA), Action for Southern. «Over 300 People Attend Centenary Service in London to Mark the Birth of Trevor Huddleston». www.prnewswire.com (em inglês). Consultado em 28 de setembro de 2025 
  12. «No. 54993». The London Gazette (Supplement). 30 de dezembro de 1997. p. 3 
  13. «Honorary Degrees | Whittier College». www.whittier.edu. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  14. AP Archive (21 de julho de 2015), SOUTH AFRICA: ASHES OF TREVOR HUDDLESTON CARRIED TO SOUTH AFRICA, consultado em 28 de setembro de 2025 
  15. a b c «Archbishop Trevor Huddleston blue plaque unveiled despite indecency claims». BBC News (em inglês). 15 de junho de 2015. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  16. a b Grundy, Trevor (25 de junho de 2013). «Child abuse allegations mar anniversary of celebrated Anglican bishop». RNS (em inglês). Consultado em 28 de setembro de 2025 
  17. «Private Eye In The Back: It was different then». www.private-eye.co.uk. Consultado em 27 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 22 de junho de 2013 
  18. McGrandle, Piers (19 de julho de 2005). Trevor Huddleston (em inglês). [S.l.]: A&C Black. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  19. a b «London: Archbishop Trevor Huddleston centenary celebrations». ICN (em inglês). 21 de junho de 2013. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  20. a b «Bedford bids to 'free' Huddleston bust from Christmas tree». BBC News (em inglês). 10 de novembro de 2011. Consultado em 28 de setembro de 2025 

Leitura adicional