Transferência
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Transferência (Übertragung, em alemão) é um conceito psicanalítico que designa o processo pelo qual sentimentos e desejos originalmente dirigidos a figuras significativas do passado são redirecionados inconscientemente para pessoas do presente. O fenômeno se manifesta nas mais diversas formas de interação social, mas assume maior relevância em uma análise, pois, além de revelar padrões emocionais do paciente, oferece condições de resolver conflitos internos através da reflexão e interpretação conduzidas no setting terapêutico.[1]
O termo foi introduzido na psicanálise por Sigmund Freud, que considerou a transferência como condição necessária para o estabelecimento e a manutenção do processo analítico, uma vez que a corrente de sentimentos amistosos direcionada ao analista, denominada transferência positiva, favorece o engajamento do paciente na relação terapêutica. No entanto, a frustração de demandas de amor pode desencadear sentimentos hostis em relação ao analista, caracterizando a transferência negativa. Ambas as formas de transferência proporcionam resistência ao processo, cabendo ao analista manejá-las de maneira profissional e ética para dar sequência ao tratamento.[2]
Definição
Em Psicanálise, o conceito de transferência sofreu alterações ao longo do tempo. No início, Freud considerava a transferência um deslocamento de afeto de uma ideia para outra. Com os avanços teóricos sobre o Complexo de Édipo, Freud passou a encarar a transferência como desejo inconsciente do paciente de o analista desempenhar figuras parentais, podendo despertar tanto sentimentos amorosos (transferência positiva) quanto hostis (transferência negativa). Como não é possível lembrar todas as lembranças recalcadas, o psicanalista acrescentou à conceituação do termo a ideia de transferência como repetição e ato, no qual o paciente repete inconscientemente comportamentos como uma forma de reviver na fantasia alguma situação real vivida anteriormente.[3]
Formulação
A Interpretação dos Sonhos (1900)
Freud identificou, em pacientes neuróticos, a presença de ideias excessivamente intensas durante a análise, inicialmente percebidas como ininteligíveis e desproporcionais, mas que, com o avanço do tratamento, surgiam outras ideias que justificavam as sensações causadas pelas primeiras. Nesses casos, as segundas ideias ficavam alheias à consciência, mas suas sensações eram sentidas pelo indivíduo a partir das primeiras ideias, havendo, portanto, uma transposição psíquica de uma ideia para outra. Ao estudar a formação onírica em A Interpretação dos Sonhos, o psicanalista vienense estendeu esse princípio ao funcionamento dos sonhos, propondo que uma determinada força psíquica de alto valor cria representações com elementos de baixo valor psíquico, o que leva a uma “transferência e deslocamento de intensidades psíquicas”.[4]
Sobre a dinâmica da transferência (1912)
A partir da experiência clínica, Freud notou que as relações amorosas dos pacientes apresentavam um traço comum na escolha dos parceiros. Amparado pela teoria do inconsciente, concluiu que tanto disposições inatas quanto experiências vivenciadas na infância determinam a vida amorosa dos indivíduos. No entanto, no decorrer do desenvolvimento psíquico do indivíduo, apenas uma parte dessas condições permanece consciente ao indivíduo, enquanto a outra jaz na fantasia ou fica totalmente recalcada no inconsciente. Dessa forma, a atração e o interesse amoroso das pessoas seriam parcialmente explicados pela transferência de sentimentos antigos às pessoas do presente. Tal fenômeno também ocorreria na relação analítica, uma vez que os padrões relacionais e emotivos do paciente são atualizados na figura do analista.[5]
Ainda que a transferência seja vista como repetição no processo analítico de “investimentos libidinais”, ela também é considerada como motivo de resistência ao tratamento. Nesse sentido, Freud interpretou determinados casos clínicos como exemplos de introversão da libido, um conceito criado por Carl Jung que descreve o momento em que a energia libidinal direcionada à realidade é reduzida e destinada às fantasias inconscientes.[6] Neste momento, Freud considera que a direção do tratamento analítico consiste em trazer a libido de volta à consciência, de modo a ser empregada na realidade e não na fantasia. Porém, as mesmas forças responsáveis pela introversão da libido também se opõem à sua reversão, uma vez que visam conservar o estado em que a libido se encontra.[7] Segundo o psicanalista, “[as] moções inconscientes não querem ser lembradas, tal como o tratamento o deseja, mas elas almejam se reproduzir, de acordo com a atemporalidade e a capacidade alucinatória do inconsciente”.[8] Ainda explica que “a confissão de cada moção de desejo é especialmente dificultada quando deve ser abandonada diante daquela pessoa para a qual a moção é direcionada”. É por essa razão que o esclarecimento da transferência para o paciente deve abranger também as relações que ela estabelece com a resistência.[9]
Freud atribuiu um caráter ambivalente à transferência ao caracterizá-la como positiva e negativa. A primeira é subdividida na transferência simpática e carinhosa — capaz de chegar à consciência — e a que permanece recalcada no inconsciente, cujas fontes costumam ser de fontes eróticas. Já a transferência negativa abrange os sentimentos hostis, conscientes ou não. Dessa forma, a direção do tratamento deve visar o esclarecimento ambas as formas de transferência quando atuam a serviço da resistência, desvinculando o analista de seu conteúdo.[10]
Recordar, Repetir e Elaborar (1914)
Em Recordar, Repetir e Elaborar[nota 1], Freud relata que os pacientes repetem no presente comportamentos associados a experiências passados, o que chamou de "compulsão à repetição", e destaca a importância desses padrões para o tratamento. Nesse sentido, a transferência é concebida como um componente da repetição, enquanto a própria repetição é entendida como uma “transferência do passado esquecido não apenas para o médico, mas também para todos os outros aspectos da situação presente”.[12] Se o paciente obedece ao acordo estabelecido no início do tratamento de não tomar decisões importantes antes do “momento da cura” – tais como iniciar ou encerrar um relacionamento amoroso ou vínculos profissionais –, então torna-se possível conter a compulsão à repetição antes desta ocorrer, tornando-a inócua.[13] Freud cria uma metáfora para ilustrar essa situação, afirmando que a transferência se abre para a repetição “como um parque de diversões, onde ela tem autorização para se desenvolver com liberdade quase total e é instada a nos mostrar tudo que ficou escondido em termos de pulsões patológicas” na vida do paciente.[14]
O estabelecimento da transferência entre paciente e analista produz o que Freud descreve como uma "doença artificial", marcada por traços da vida real, mas de caráter provisório. Assim, a transferência do paciente para o analista permite superar as resistências e viabilizar o despertar de lembranças recalcadas.[14] No entanto, Freud adverte que apenas comunicar as resistências ao paciente não é o suficiente para dissolvê-las, inclusive costuma agravá-las. É preciso dar tempo ao paciente para se aprofundar na resistência, até então desconhecida, e dar um novo sentido às suas vivências, ou seja, elaborá-las.[15]
Compêndio de Psicanálise (1938)
Com o temor da própria morte, Freud se propôs a escrever em 1938 um texto que resumisse toda a teoria psicanalítica até então, resultando na redação do Compêndio de Psicanálise.[16] No sexto capítulo, dedicado à técnica psicanalítica, o psicanalista observa que o paciente, ao iniciar uma análise, vê no analista a “reencarnação” de uma pessoa importante do passado, geralmente o pai ou a mãe, e direciona a ele sentimentos correspondentes a essa pessoa. [17]
Freud considera que a transferência possui um aspecto positivo, na medida em que contribui para que o paciente busque agradar o analista e conquistar seu amor, o que pode levar à suspensão temporária de sintomas e ao fortalecimento de sua capacidade de realizar tarefas antes impossíveis, funcionando como força propulsora do processo analítico. A transferência também leva o paciente a colocar o analista como figura parental, concedendo a ele o lugar de seu Supereu. Quanto a este aspecto, Freud alerta os analistas para não ocuparem esse lugar, ou seja, de não servir de professor, modelo ou ideal para o paciente, pois não lhe cabe formar sujeitos à sua imagem, mas sim preservar a singularidade do paciente.[17]
Entretanto, em razão de seu caráter ambivalente, a transferência também pode constituir um obstáculo. As demandas de amor dirigidas ao analista, desde as eróticas até as mais sutis, como querer ser o paciente preferido ou se tornar mais íntimo do analista, encontram limites na própria relação analítica, e a frustração resultante pode gerar sentimentos hostis. Compete ao analista manejar a transferência de modo que o paciente possa reconhecer que tais sentimentos, embora vividos no presente, são remanescentes de vínculos passados.[17]
Notas
- ↑ Traduzido para Lembrar, repetir e perlaborar na edição consultada. O tradutor da Autêntica Editora optou traduzir erinnern por “lembrar”, uma vez que se trata de uma palavra mais utilizada pelos pacientes na clínica. Quanto a durcharbeiten, o verbo em alemão é oriundo de arbeiten, que significa “trabalhar” ou “laborar”. Como durcharbeiten tem sentido de perfazer uma ação e que vai do início ao fim, o tradutor optou pelo neologismo “perlaborar”.[11]
Referências
- ↑ Santana, Emanuele Rocha; Rocha, Angélica Barroso de Oliveira (7 de dezembro de 2024). «A importância da transferência no processo terapêutico para psicanálise: Uma revisão bibliográfica». Research, Society and Development. 13 (12). doi:10.33448/rsd-v13i12.47589. Consultado em 12 de dezembro de 2025
- ↑ Santos, Manoel Antônio dos. «A transferência na clínica psicanalística: a abordagem freudiana». Temas em Psicologia. 2 (2). Consultado em 11 de janeiro de 2024
- ↑ Laplanche, Jean; Pontalis, Jean-Bertrand (1985). Vocabulário da Psicanálise. [S.l.]: Martins Fontes. pp. 669–677
- ↑ Baratto, Geselda (2010). «Genealogia do conceito de transferência na obra de Freud». Estilos da Clinica. 15 (1): 233-234. ISSN 1415-7128. Consultado em 11 de janeiro de 2024
- ↑ Freud 2021, pp. 107-109.
- ↑ Freud 2021, pp. 109-111.
- ↑ Freud 2021, pp. 111-112.
- ↑ Freud 2021, p. 118.
- ↑ Freud 2021, p. 114.
- ↑ Freud 2021, p. 114-116.
- ↑ Freud 2021, p. 162.
- ↑ Freud 2021, pp. 154-155.
- ↑ Freud 2021, pp. 159-160.
- ↑ a b Freud 2021, p. 160.
- ↑ Freud 2021, p. 161.
- ↑ Tavares, Pedro Heliodoro; Iannini, Gilson (2014). O Testamento Inacabado de Sigmund Freud. Freud - Compêndio de Psicanálise. Belo Horizonte: Autêntica
- ↑ a b c Freud 2014.
Bibliografia
- Freud, Sigmund (2021). Freud - Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica. ISBN 978-8551301982
- Freud, Sigmund (2014). Freud - Compêndio de Psicanálise e outros escritos inacabados. Belo Horizonte: Autêntica. ISBN 978-8582175156
- Maurano, Denise (2006). A transferência. Rio de Janeiro: Zahar. ISBN 8571109508
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