Torom-do-pará

Torom-do-pará
Indivíduo avistado em Parauapebas, no Pará
Indivíduo avistado em Parauapebas, no Pará
Indivíduo avistado em Paragominas, no Pará
Indivíduo avistado em Paragominas, no Pará
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Passeriformes
Família: Grallariidae
Género: Hylopezus
Espécie: H. paraensis
Nome binomial
Hylopezus paraensis
(Snethlage, 1910)
Distribuição geográfica
Distribuição do torom-do-pará
Distribuição do torom-do-pará
Sinónimos[1]
  • Grallaria macularia paraensis Snethlage, 1910
  • Hylopezus macularius paraensis (Snethlage, 1910)

O torom-do-pará[2] (nome científico: Hylopezus paraensis) é uma espécie de ave passeriforme da família dos gralariídeos (Grallariidae) e do gênero Hylopezus. Se trata de uma espécie endêmica do Brasil, que ocorre nos estados do Pará e Maranhão. Sua ecologia e biologia é pouco compreendida em decorrência da antiga confusão feita em sua classificação taxonômica, haja vista ter sido originalmente reconhecido como subespécie do torom-carijó. As áreas onde ocorre estão sob pressão antrópica e a espécie foi classificada como vulnerável.

Etimologia

O nome genérico Hylopezus deriva do grego hylē (ὕλη, "floresta, bosque", e pezós (πεζός), "pedestre". O epíteto específico paraensis é latim para "do Pará".[3] O nome popular torom tem origem onomatopeica.[4]

Taxonomia

O torom-do-pará foi descrito pela primeira vez por Maria Emilie Snethlage em 1907. Seu holótipo (MPEG 3272) tem como localidade-tipo Ourém, próximo ao rio Guamá, no Pará. Originalmente, chamava-se Grallaria macularia berlepschi, mas anos depois Carl Eduard Hellmayr apontou que berlepschi estava ocupado dentro do gênero, o que levou Snethlage a atribuir o epíteto paraensis, cuja descrição oficial sob o nome Grallaria macularia paraensis foi dada.[5]

Originalmente foi interpretado como subespécie do torom-carijó (Hylopezus macularius), mas uma reavaliação das evidências disponíveis indicou que a forma como o torom-carijó era definido consistia em múltiplas espécies. Por essa razão, o torom-do-pará (H. paraensis), o torom-do-imeri (H. dilutus) e o torom-de-alta-floresta (H. whittakeri). O próprio torom-carijó foi originalmente reconhecido como subespécie de torom-mascarado (H. auricularis), mas diferenças nas vocalizações justificaram o reconhecimento delas como espécies distintas.[6] O torom-do-pará é monotípico.[7][8]

Descrição

As plumagens dos indivíduos jovens e imaturos ainda não foram descritas, mas presume-se que sejam muito semelhantes às do torom-carijó. Os adultos apresentam coroa cinza com tonalidade oliva que se estende até a nuca. Uma linha preta fina separa o anel ocular bem definido, de tom ocráceo-amarelado, de uma mancha loreal branco-amarelada. Essa mesma linha preta se prolonga abaixo do olho, formando uma listra malar que separa a garganta branca dos lados do pescoço, os quais, assim como as coberteiras auriculares, exibem coloração marrom-oliva com estrias e manchas indistintas em preto e ocre. O dorso transita gradualmente do cinza-oliva da coroa para um marrom-oliva, sendo as escapulares levemente marcadas com finas estrias de tom creme-claro. As asas são predominantemente marrom-oliva, mas as coberteiras primárias têm coloração mais escura, quase negra, contrastando com uma mancha ferrugínea gerada pela base pálida das primárias, exceto nas duas mais externas. As coberteiras menores e médias da parte superior das asas apresentam pontas amplas em tom amarelo-ocre, formando duas faixas alares irregulares. A garganta é branca, com uma faixa submalar preta e fina logo abaixo da listra malar. O restante das partes inferiores é branco, com um tom pálido e um tanto apagado de amarelo-ocre ou amarelo sujo atravessando o peito. Os lados do corpo e os flancos têm leve tonalidade oliva e são marcados por manchas pretas, que formam curtas estrias no peito e pequenos pontos nos flancos. Machos e fêmeas são semelhantes na plumagem. As partes nuas incluem o bico, cuja maxila varia de cinza-escuro a quase preta, enquanto a mandíbula apresenta ponta escura e base de cinza claro a rosado. A íris é castanho-escura. Tarsos e dedos são rosados ou castanho-rosados.[5]

Quanto à massa corporal, os machos apresentam média de 43 gramas, variando entre 42 e 44 gramas, enquanto as fêmeas têm média de 45,2 gramas, com intervalo de 42 a 48,4 gramas, considerando amostras de 2 a 4 machos e 2 a 3 fêmeas. Agora, quanto às medidas, o comprimento da asa varia em torno de 95 milímetros, a cauda mede cerca de 34 milímetros, o cúlmen exposto do bico aproximadamente 20 milímetros e o tarso 35 milímetros, com base em uma amostragem não especificada. Outros registros apontam asas com 87 a 90 milímetros, caudas entre 35 e 37 milímetros e bicos de 19 a 20 milímetros (n = 5, sexo indeterminado). Medidas adicionais incluem o bico a partir das narinas com 13,6 milímetros e tarsos variando de 36,6 a 37,5 milímetros em três machos. Um exemplar masculino apresentou asa de 86 milímetros, cauda de 31,4 milímetros, cúlmen total de 22 milímetros e tarso de 31,7 milímetros. Dados agregados de uma amostra de 16 indivíduos (4 machos, 3 fêmeas e 9 de sexo indeterminado) indicam médias para o comprimento da asa entre 81,1 e 87,0 milímetros, cauda de 34,1 a 40,8 milímetros, comprimento do bico desde as narinas de 12,2 a 14,2 milímetros, largura na frente das narinas de 5,0 a 6,4 milímetros e profundidade no mesmo ponto entre 5,1 e 6,0 milímetros.[5]

Distribuição e habitat

O torom-do-pará é endêmico do bioma da Amazônia no Brasil e sua distribuição é restrita ao Centro de Endemismo Belém e a porção norte do Centro de Endemismo Xingu, nas sub-bacias do Gurupi, do Baixo Tocantins e do rio Xingu, nos estados do Pará e Maranhão.[1] Insuficientemente bem conhecido para determinar se difere de espécies relacionadas. Assim como estas, habita o sub-bosque de florestas maduras de terra firme, provavelmente preferindo áreas de sub-bosque denso, como perto de quedas de árvores e áreas ribeirinhas. Aparentemente restrito a altitudes abaixo de 500 metros.[9]

Ecologia

Não há dados disponíveis no momento à dieta e táticas de forrageamento do torom-do-pará, mas presumivelmente é semelhante a outros Hylopezus[9] do grupo macularius, que forrageiam no chão, em floresta úmida e exigem um bosque aberto, com pelo menos algum solo exposto.[1] Sua vocalização consiste numa série de cinco a seis notas semelhantes, com ritmo em desaceleração e duração de aproximadamente três segundos, emitida em torno de 0,8 kHz, às vezes com uma leve queda no tom. Normalmente, é repetida em intervalos de 10 a 20 segundos. Devido à confusão anterior na literatura com espécies relacionadas, não há informações publicadas especificamente sobre o comportamento ou outros aspectos da história natural do torom-do-pará. É, sem dúvida, semelhante ao observado no torom-carijó. Durante a vocalização, a pele rosada localizada sob as penas da garganta costuma ficar visível, como ocorre com outras espécies do gênero Hylopezus. Seu comportamento é praticamente indocumentado, e ninho e ovos não foram descritos. Sem dúvida, sua biologia reprodutiva deve ser semelhante à de outras espécies do complexo de espécies macularius. Pinto relatou uma fêmea com um ovo bem formado no oviduto coletado em 9 de fevereiro de 1929 em Belém (como ‘Utinga’).[9]

Conservação

O torom-do-pará foi registrada em apenas dois dos nove remanescentes florestais importantes amostrados no Centro de Endemismo Belém. Durante um levantamento de cinco meses realizado no município de Paragominas, entre agosto e novembro de 2010 e em maio de 2011, a espécie foi observada apenas duas vezes, em duas microbacias distintas de floresta primária, seja intacta ou com exploração seletiva. É considerada potencialmente extinta na região metropolitana de Belém, onde não há registros há cerca de cinco décadas. Não existem dados concretos sobre o tamanho populacional atual ou histórico, mas presume-se que tenha ocorrido um declínio expressivo, com perda de mais de 70% de seu habitat original.[10] Modelagens realizadas para uma espécie com distribuição e tempo geracional semelhantes (cabeça-de-prata, Lepidothrix iris) indicam uma perda de habitat projetada entre 60% e 68% ao longo de três gerações futuras, o que sugere uma redução populacional superior a 30%, especialmente considerando a sensibilidade da espécie a alterações no habitat.[1]

Em 2018, o torom-do-pará foi classificado como vulnerável (VU) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).[11][12] Assim como a maioria dos gralariídeos, os membros do complexo macularis são muito sensíveis aos efeitos da perda, fragmentação e perturbação de habitat.[13] Em sua área de distribuição, a espécie está presente em algumas áreas de conservação: a Floresta Nacional de Carajás (Flona Carajás), a Floresta Nacional de Caxiuanã (Flona Caxiuanã), a Floresta Nacional de Tapirapé-Aquiri (Flona Tapirapé-Aquiri), a Reserva Biológica do Gurupi (Rebio Gurupi), a Reserva Biológica do Tapirapé (Rebio Tapirapé), a Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Pioneira (RPPN Fazenda Pioneira) e a Terra Indígena Sarauá (TI Sarauá).[1]

Referências

  1. a b c d e Aleixo, Alexandre Luis Padovan; Ruiz, Carlos Martínez; Lima, Diego Mendes; Lopes, Edson Varga; Cerqueira, Pablo Vieira; Dantas, Sidnei de Melo; Oliveira, Túlio Dornas de (2023). «Hylopezus paraensis Snethlage, 1910». Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). doi:10.37002/salve.ficha.22260. Consultado em 15 de junho de 2025. Cópia arquivada em 5 de maio de 2025 
  2. Paixão, Paulo (Verão de 2021). «Os Nomes Portugueses das Aves de Todo o Mundo» (PDF) 2.ª ed. A Folha — Boletim da língua portuguesa nas instituições europeias. p. 208. ISSN 1830-7809. Consultado em 13 de janeiro de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 23 de abril de 2022 
  3. Jobling, James A. (2010). The Helm Dictionary of Scientific Bird Names. Londres: Christopher Helm. pp. Hylopezus, p. 197; paraensis, p. 291. ISBN 978-1-4081-2501-4 
  4. Grande Dicionário Houaiss, verbete torom
  5. a b c Greeney, H. F.; Schulenberg, T. S. del Hoyo, J.; Elliott, A.; Sargatal, J.; Christie, D. A.; Juana, E. de, eds. «Snethlage's Antpitta (Hylopezus paraensis), version 1.0». Birds of the World. Ítaca, Nova Iorque: Laboratório Cornell de Ornitologia. doi:10.2173/bow.rucant2.01. Consultado em 8 de junho de 2025. Cópia arquivada em 9 de dezembro de 2024 
  6. Remsen, J. V., Jr.; Areta, J. I.; Bonaccorso, E.; Claramunt, S.; Jaramillo, A.; Lane, D. F.; Pacheco, J. F.; Robbins, M. B.; Stiles, F. G.; Zimmer, K. J. «A classification of the bird species of South America». American Ornithological Society. Cópia arquivada em 4 de abril de 2022 
  7. Gill, Frank; Donsker, David; Rasmussen, Pamela, eds. (agosto de 2024). «Antthrushes, antpittas, gnateaters, tapaculos & crescentchests». IOC World Bird List. 15.1. Consultado em 1 de junho de 2025. Cópia arquivada em 21 de fevereiro de 2025 
  8. Clements, J. F.; Schulenberg, T. S.; Iliff, M. J.; Roberson, D.; Fredericks, T. A.; Sullivan, B. L.; Wood, C. L. (2018). The eBird/Clements checklist of birds of the world. Ítaca, Nova Iorque: Laboratório Cornell de Ornitologia 
  9. a b c Lees, A. C.; Moura, N. G. de; Santana, A.; Aleixo, A.; Barlow, J.; Berenguer, E.; Ferreira, J.; Gardner, T. A. (2012). «Paragominas: a quantitative baseline inventory of an eastern Amazonian avifauna» (PDF). Consultado em 16 de junho de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 16 de junho de 2025 
  10. Da Silva, José Maria Cardoso; Rylands, Anthony B.; Da Fonseca, Gustavo A. B. (junho de 2005). «The Fate of the Amazonian Areas of Endemism». Conservation Biology (em inglês) (3): 689–694. ISSN 0888-8892. doi:10.1111/j.1523-1739.2005.00705.x. Consultado em 16 de junho de 2025. Cópia arquivada em 6 de maio de 2024 
  11. «Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção» (PDF). Brasília: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ministério do Meio Ambiente. 2018. Consultado em 3 de maio de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 3 de maio de 2018 
  12. «Hylopezus paraensis Snethlage, 1910». Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr). Consultado em 15 de junho de 2025. Cópia arquivada em 17 de janeiro de 2020 
  13. Barlow, Jos; Lennox, Gareth D.; Ferreira, Joice; Berenguer, Erika; Lees, Alexander C.; Nally, Ralph Mac; Thomson, James R.; Ferraz, Silvio Frosini de Barros; Louzada, Julio (julho de 2016). «Anthropogenic disturbance in tropical forests can double biodiversity loss from deforestation». Nature (em inglês) (7610): 144–147. ISSN 1476-4687. doi:10.1038/nature18326. Consultado em 6 de maio de 2024. Cópia arquivada em 16 de junho de 2025