Tonheca Dantas

Tonheca Dantas
Retrato de Tonheca Dantas.
Tonheca Dantas.
Informações gerais
Nome completoAntônio Pedro Dantas
Nascimento13 de junho de 1871[1]
OrigemAcari, RN
País Brasil
Morte7 de fevereiro de 1940 (68 anos)[2]
Gênero(s)Choro, Polka, Tango brasileiro, Marcha, Valsa, Dobrados, Maxixe, Xote, Hinos
Instrumento(s)Clarinete, Regência

Antônio Pedro Dantas, mais conhecido como Tonheca Dantas (Acari[nota 1], 13 de junho de 1871[1]Natal, 7 de fevereiro de 1940[2]) foi um prolífico compositor e maestro brasileiro, autor de uma obra estimada em mais de mil peças musicais.[4] Nascido na localidade de Carnaúba de Baixo, então parte de Acari,[1] era filho de João José Dantas, um tenente-coronel da Guarda Nacional, e de Vicência Maria do Espírito Santo, uma mulher ex-escravizada.[1] Pertencia a uma família com tradição musical, sendo primo do também compositor e maestro Felinto Lúcio Dantas.[5]

Formação e início da carreira

Demonstrou interesse pela música desde cedo, aprendendo os fundamentos com seus irmãos, em particular com José Venâncio,[2] numa banda de música em sua cidade natal.[2] Foi um músico autodidata, nunca tendo recebido formação musical formal em instituições acadêmicas.[2] Desenvolveu suas habilidades através da prática constante e da interação com músicos locais, aprendendo a tocar diversos instrumentos, especialmente os de sopro.[2] Sua habilidade e dedicação o tornaram uma figura influente em sua comunidade desde jovem, chegando a inspirar seu primo Felinto Lúcio Dantas a seguir carreira na música.[5]

Atuação como maestro

Banda da Polícia Militar do RN

Em 1898, mudou-se para Natal, capital do Rio Grande do Norte, onde foi contratado como maestro da Banda de Música do Batalhão de Segurança, que viria a ser a banda da Polícia Militar do Rio Grande do Norte (PMRN).[2] Sua nomeação oficial como mestre de música ocorreu em 30 de maio de 1898, com um contrato inicial de três anos.[6][7] Seu notório talento musical o dispensou do curso de formação de soldados.[7] Em reconhecimento à sua contribuição, o auditório da Banda de Música da PMRN foi nomeado em sua homenagem.[7]

Uma anedota, registrada na biografia escrita por Cláudio Galvão,[4] ilustra sua versatilidade: durante o teste para maestro, ao ser questionado sobre qual instrumento escolheria para tocar uma partitura apresentada, Dantas respondeu com segurança: ‘Qualquer um… O Sr. Diga qual o que quer’. A comissão examinadora, surpresa, desafiou-o a executar a peça em diversos instrumentos da banda, o que ele fez demonstrando grande domínio musical.[7]

Belém e Paraíba

Em 1903, Tonheca Dantas mudou-se para Belém, no Pará, onde assumiu a regência da Banda de Música do Corpo de Bombeiros Militar do Pará. Permaneceu nesta função até o ano de 1910.[2] Em seguida, em 1910, transferiu-se para a Paraíba, onde liderou as bandas de música das cidades de Alagoa Grande e Alagoa Nova por aproximadamente um ano.[2]

Retorno a Natal

Em 1911, retornou definitivamente a Natal e reintegrou-se à Banda de Música da Polícia Militar do Rio Grande do Norte.[2]

Composições e estilo

Tonheca Dantas deixou uma vasta obra, com estimativa superior a mil composições,[4] que se destacam pela diversidade de gêneros. Embora seja mais conhecido por suas valsas, também compôs dobrados, maxixes, hinos, xotes, polcas, marchas e outras peças orquestradas.[4][2] Suas músicas continuam presentes no repertório de bandas filarmônicas em todo o Brasil e ocasionalmente são executadas no exterior.[4]

Valsa "Royal Cinema"

Uma de suas criações mais célebres é a valsa Royal Cinema. A peça foi uma encomenda de José Petronilo de Paiva, que era proprietário do cinema homônimo em Natal, e tinha como finalidade ser tocada na abertura das sessões cinematográficas.[8] A valsa ganhou notoriedade internacional inesperada durante a Segunda Guerra Mundial, quando foi frequentemente transmitida pela Rádio BBC de Londres[4] e, segundo relatos, também pela Rádio Berlim.[7] No entanto, nessas transmissões, a autoria era frequentemente omitida, sendo anunciada como de "autor desconhecido".[4]

Outras obras notáveis

Além de "Royal Cinema", sua produção inclui peças como a Valsa Delírio, a suíte Melodia do Bosque, a Valsa A Desfolhar Saudades, a marcha solene Republicana e o dobrado Tenente José Paulino.[4][2] A presença de suas valsas Delírio e Odette no acervo de partituras da banda da polícia militar do Ceará,[9] demonstra a circulação de sua música para além das fronteiras do Rio Grande do Norte. Suas composições foram gravadas ao longo do tempo por diversos artistas e grupos, como a Banda de Música do 14º Regimento de Infantaria da Paraíba, o saxofonista Ivanildo do Sax de Ouro, o músico Zé de Elias, o Quarteto de Cordas da UFRN e a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte.[2] Em 1983, a UFRN lançou o LP "Tonheca Dantas – Royal Cinema", dedicado à sua obra.[2] Seu bisneto, o músico Antônio José Madureira, também o homenageou com a gravação da "Suíte retreta" em 1997.[2]

Legado e reconhecimento

Tonheca Dantas é reconhecido como uma figura central na história musical do Rio Grande do Norte, tendo alcançado "a mais elevada posição entre os músicos do Rio Grande do Norte" e desfrutado de popularidade em todo o Nordeste e outras regiões do Brasil.[1] O ex-prefeito de Natal, Djalma Maranhão, costumava chamá-lo afetuosamente de "Strauss Papa-Jerimum".[4] O apelido combinava uma comparação elogiosa ao famoso compositor austríaco de valsas, Johann Strauss, com o termo regional "Papa-jerimum", designação para os potiguares (naturais do RN), ressaltando a fusão do estilo europeu com a identidade local em sua música.

O Governo do Estado do Rio Grande do Norte prestou-lhe homenagem póstuma ao inaugurar a Sala Tonheca Dantas no prestigioso Teatro Alberto Maranhão, em Natal.[4] Em 2021, por ocasião do sesquicentenário (150 anos) de seu nascimento, diversas comemorações foram realizadas,[10] incluindo a inauguração de uma estátua em sua homenagem na cidade de Carnaúba dos Dantas.[10]

Notas

  1. A localidade de Carnaúba de Baixo, onde nasceu, pertencia ao município de Acari na época. Esta localidade daria origem ao futuro município de Carnaúba dos Dantas, que só se tornou distrito em 1938 e município em 1953.[3]

Bibliografia

  • Galvão, Cláudio (1998). A desfolhar saudade: uma biografia de Tonheca Dantas. Natal: Departamento Estadual de Imprensa/Gráfica Santa Maria  (Nota: O livro foi reeditado em 2021 pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte.[4])

Referências

  1. a b c d e «Revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras - Nº 44» (pdf). ANRL. 2011. pp. 188 (pág. 190 do PDF). Consultado em 30 de março de 2025 
  2. a b c d e f g h i j k l m n o «Tonheca Dantas». Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Consultado em 30 de março de 2025 
  3. «Carnaúba dos Dantas - Histórico». IBGE Cidades. Consultado em 28 de setembro de 2022 
  4. a b c d e f g h i j k «Biografia de Tonheca Dantas ganha reedição pela Assembleia Legislativa». Saiba Mais. 21 de julho de 2021. Consultado em 30 de março de 2025 
  5. a b André Luiz Oliveira de Araújo. «A musicalidade de Felinto Lúcio Dantas nos sertões do Rio Grande do Norte (Artigo baseado em dissertação de Mestrado UFRN, 2014)» (pdf). Typeset (anteriormente SciSpace). Consultado em 30 de março de 2025 
  6. Inez Martins (Março 2022). «(PDF) Práticas musicais conectadas: bandas militares no "longo século XIX" e a banda de música da Força Policial Militar do Ceará». ResearchGate. Consultado em 30 de março de 2025 
  7. a b c d e Inez Martins Borges (2012). «Bandas Militares como objeto historiográfico e a banda de música da polícia do Ceará (c.1850-1930) (Tese de Doutorado)» (pdf). Repositório Institucional da UFPB. 158 páginas. Consultado em 30 de março de 2025 
  8. Marcos César Cavalcanti de Torres Neto (2023). «A DOBRA, O GRAMPO E A COLA: escrita, edição e impressão musical no século XX (Dissertação de Mestrado)» (pdf). Repositório Institucional da UFRN. p. 81. Consultado em 30 de março de 2025 
  9. Inez Martins Borges (2018). «Sociedades de Euterpe : as bandas de música no Grão-Pará na segunda metade do século XIX (Tese de Doutorado - versão TXT)» (txt). Repositório Institucional da UFMG. Consultado em 30 de março de 2025 
  10. a b «Tonheca Dantas completou 150 anos e foi lembrado com estátua». Tribuna do Norte. 17 de junho de 2021. Consultado em 30 de março de 2025