Theraphosinae

Theraphosinae
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Arthropoda
Classe: Arachnida
Ordem: Araneae
Família: Theraphosidae
Subfamília: Theraphosinae
Pérez-Miles et al., 1996
Distribuição geográfica

Gêneros
~50 gêneros (veja o texto)

Os terafosinos (Theraphosinae) formam uma subfamília de aranhas migalomorfas da família Theraphosidae, endêmica do Novo Mundo. É a subfamília mais diversa de tarantulas no mundo, com mais de 500 espécies conhecidas distribuídas exclusivamente nas Américas.[1][2]

A subfamília é caracterizada por um mecanismo singular de defesa: o uso de pêlos urticantes abdominais que podem ser liberados no ar quando perturbados.[1][3] As maiores e mais longevas aranhas do mundo pertencem a esta subfamília, incluindo a aranha-golias-comedora-de-pássaros (Theraphosa blondi), que pode pesar até 175 gramas e atingir 28 centímetros de envergadura das pernas.[4]

Características

Morfologia

As espécies de Theraphosinae apresentam grande variação de tamanho. A menor espécie conhecida, Aphonopelma paloma, possui corpo de apenas 12 milímetros de comprimento,[5] enquanto a maior, Theraphosa blondi, pode atingir 13 centímetros de comprimento corporal e envergadura de pernas de até 28 centímetros, com massa podendo chegar a 175 gramas.[4]

Como todas as Mygalomorphae, possuem quelíceras robustas voltadas para baixo, com presas que podem atingir até 4 centímetros de comprimento em espécies grandes como T. blondi.[6] O corpo é geralmente robusto, coberto por pelos densos, e as pernas são equipadas com duas garras terminais.

Pêlos urticantes

A característica mais distintiva da subfamília Theraphosinae é a presença de pêlos urticantes especializados no abdômen, uma adaptação defensiva exclusiva de tarantulas do Novo Mundo.[3][7] Foram documentados sete tipos morfológicos diferentes de pêlos urticantes em Theraphosinae (tipos I a VII), sendo os tipos I, III e IV os mais comuns na subfamília.[3]

Esses pelos podem ser liberados de duas maneiras: esfregando as pernas traseiras contra o abdômen para lançá-los no ar em direção ao predador, ou por contato direto. Os pêlos urticantes causam irritação intensa em pele e mucosas, sendo particularmente eficazes contra mamíferos predadores.[1] Além do uso defensivo direto, as fêmeas incorporam esses pelos em seus casulos de ovos e algumas espécies os utilizam para forrar as paredes de suas tocas como proteção adicional.[7]

Algumas espécies, como Theraphosa blondi, também são capazes de produzir sons audíveis (estridulação) esfregando cerdas especializadas nas pernas, criando um ruído de advertência que pode ser ouvido a até 4,5 metros de distância.[8]

Hábitos e comportamento

As espécies de Theraphosinae são predominantemente terrestres e construtoras de tocas, habitando buracos no solo que forram com seda para maior estabilidade.[1] Vivem em praticamente todos os ambientes terrestres dentro de sua distribuição, desde o nível do mar até altitudes de 4.524 metros nos Andes, o maior registro altitudinal conhecido para qualquer tarântula.[9]

São predadores generalistas noturnos que se alimentam principalmente de grandes artrópodes, mas espécies maiores podem ocasionalmente capturar pequenos vertebrados como roedores, lagartos e anfíbios.[1] Apesar do nome popular "comedoras de pássaros" atribuído ao gênero Theraphosa, a predação de aves é extremamente rara e oportunística.[4]

Distribuição geográfica

A subfamília Theraphosinae é endêmica do Novo Mundo, com distribuição que se estende desde o sudoeste dos Estados Unidos até as zonas temperadas do norte da Argentina e sul do Chile.[1][2] Nos Estados Unidos, as tarantulas são encontradas a oeste do Rio Mississípi, ao sul de uma linha que atravessa Missouri, Kansas, Colorado, Utah e Nevada, e através do norte da Califórnia.[10]

A subfamília está presente em praticamente todos os países da América Central e América do Sul, incluindo México, Guatemala, Belize, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Brasil, Peru, Equador, Bolívia, Paraguai, Argentina e Chile, além de diversas ilhas do Caribe como Trinidad, Cuba e Antilhas Menores.[1][5]

As espécies habitam uma ampla variedade de ambientes, incluindo florestas tropicais, savanas, pampas, desertos, florestas de montanha e regiões semiáridas.[5] A maior diversidade de espécies concentra-se nas regiões tropicais da Amazônia e florestas da América Central, embora gêneros como Aphonopelma tenham se diversificado extensivamente em ambientes áridos e desérticos da América do Norte.[5]

Gêneros

A subfamília Theraphosinae inclui aproximadamente 50 gêneros reconhecidos e mais de 500 espécies descritas:[1][2]

  • Acanthoscurria
  • Aenigmarachne
  • Aphonopelma
  • Bonnetina
  • Brachypelma
  • Chromatopelma
  • Citharacanthus
  • Clavopelma
  • Crassicrus
  • Cyclosternum
  • Cyriocosmus
  • Cyrtopholis
  • Euathlus
  • Eupalaestrus
  • Grammostola
  • Hapalopus
  • Hapalotremus
  • Hemirrhagus
  • Homoeomma
  • Lasiodora
  • Lasiodorides
  • Magulla
  • Maraca
  • Megaphobema
  • Melloleitaoina
  • Metriopelma
  • Neostenotarsus
  • Nesipelma
  • Nhandu
  • Ozopactus
  • Pamphobeteus
  • Paraphysa
  • Phormictopus
  • Plesiopelma
  • Proshapalopus
  • Pseudhapalopus
  • Reversopelma
  • Schismatothele
  • Schizopelma
  • Sericopelma
  • Sphaerobothria
  • Stichoplastoris
  • Theraphosa
  • Thrixopelma
  • Tmesiphantes
  • Vitalius
  • Xenesthis

Estudos filogenéticos recentes baseados em dados genômicos sugeriram a necessidade de reorganização taxonômica da subfamília, com propostas de divisão em três tribos: Theraphosini, Hapalopini e Grammostolini.[2] O gênero Aphonopelma, amplamente distribuído nos Estados Unidos e México, foi recuperado como polifilético, indicando que pode representar múltiplas linhagens evolutivas distintas.[2]

Taxonomia e evolução

A subfamília Theraphosinae foi formalmente revisada e definida por Fernando Pérez-Miles et al. em 1996, com base em análise cladística que identificou os pêlos urticantes como principal sinapomorfia do grupo.[11]

Estudos filogenômicos recentes utilizando dados de transcriptoma e elementos ultraconservados confirmaram a monofilia de Theraphosinae e sua posição como grupo-irmão de Aviculariinae, outra subfamília americana com pêlos urticantes.[7][2] A diversificação do grupo nas Américas ocorreu principalmente nos últimos 5 milhões de anos, com rápida radiação adaptativa em ambientes áridos e desérticos, particularmente no gênero Aphonopelma.[5]

Conservação

Diversas espécies de Theraphosinae enfrentam ameaças devido à destruição de habitat e coleta excessiva para o comércio de animais de estimação. Todas as espécies do gênero Brachypelma, endêmico do México, estão listadas no Apêndice II da CITES, com algumas espécies no Apêndice I devido ao risco crítico de extinção.[12]

A espécie Brachypelma smithi foi a primeira aranha a ser incluída na CITES, em 1985, devido à coleta excessiva para o comércio internacional.[12] A criação em cativeiro tem se expandido significativamente, ajudando a reduzir a pressão sobre populações selvagens, embora o tráfico ilegal ainda represente uma ameaça significativa para várias espécies.[12]

Referências

  1. a b c d e f g h Pérez-Miles, Fernando; Perafán, Carlos (2020). Theraphosinae. New World Tarantulas. Cham: Springer. pp. 121–151. doi:10.1007/978-3-030-48644-0_5. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  2. a b c d e f Borges, Lucas M. (2023). «Phylogenomics of Lasiodoriforms: reclassification of the South American genus Vitalius Lucas, Silva and Bertani and allied genera». Frontiers in Ecology and Evolution. 11. doi:10.3389/fevo.2023.1177627. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  3. a b c Bertani, Rogerio; Guadanucci, Jose Paulo L. (2013). «Urticating setae of tarantulas (Araneae: Theraphosidae): morphology and revision». Zoologia. 30 (3): 292-306. doi:10.1590/S1984-46702013000300006. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  4. a b c «Largest spider». Guinness World Records. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  5. a b c d e Hendrixson, Brent E.; De Russy, Bryce L.; Hamilton, Chris A.; Bond, Jason E. (2016). «Taxonomic revision of the tarantula genus Aphonopelma Pocock, 1901 (Araneae, Mygalomorphae, Theraphosidae) within the United States». ZooKeys. 560: 1-340. doi:10.3897/zookeys.560.6264. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  6. «Goliath birdeater». Encyclopædia Britannica. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  7. a b c Foley, Iris C. (2019). «Tarantula phylogenomics: A robust phylogeny of deep theraphosid clades inferred from transcriptome data sheds light on the prickly issue of urticating setae evolution». Molecular Phylogenetics and Evolution. 140. 106573 páginas. doi:10.1016/j.ympev.2019.106573. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  8. «Goliath bird-eating tarantula». Smithsonian's National Zoo. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  9. Ferretti, Nelson (2015). «Revision of Hapalotremus Simon, 1903 (Araneae: Theraphosidae)». Zootaxa 
  10. «The Tarantula (Family Theraphosidae)». The Florida State Collection of Arthropods. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  11. Pérez-Miles, F.; Lucas, S.M.; Silva, P.I.; Bertani, R. (1996). «Systematic revision and cladistic analysis of Theraphosinae». Mygalomorph. 1: 33-68 
  12. a b c Mendoza, Jorge I.; Francke, Oscar F. (2020). «Species conservation profiles of tarantula spiders (Araneae: Theraphosidae) listed on CITES». Biodiversity Data Journal. 8: e39679. doi:10.3897/BDJ.8.e39679. Consultado em 17 de janeiro de 2026