The Firebrand
| The Firebrand | |
|---|---|
![]() Capa da primeira edição em capa dura | |
| Autor(es) | Marion Zimmer Bradley |
| Idioma | Inglês |
| País | |
| Gênero | Fantasia histórica |
| Arte de capa | Wilson McLean |
| Editora | Simon & Schuster |
| Lançamento | 1º de outubro de 1987 |
| Páginas | 608 |
| ISBN | 0-671-64177-8 |
The Firebrand é um romance de fantasia histórica escrito pela autora estadunidense Marion Zimmer Bradley. A história se passa na cidade antiga de Troia e é uma recontagem da epopeia Ilíada, de Homero. O livro é narrado a partir do ponto de vista de Cassandra, uma profetisa e filha do rei Príamo, também tendo a aparição de vários outros personagens importantes da mitologia grega. Cassandra prevê que uma catástrofe cairá sobre Troia, porém poucas pessoas a levam a sério. Bradley apresenta a personagem como uma mulher forte e perspicaz, diferentemente de suas representações tradicionais como alguém com insanidade.
Bradley escreveu The Firebrand após o sucesso de seu livro The Mists of Avalon de 1983, em que recontou lendas arturianas do ponto de vista feminino. Ela incluiu menos elementos de fantasia em The Firebrand do que suas obras anteriores com o objetivo de deixar o livro mais atrativo para um público maior, sendo o único de seus romances ambientado na Grécia Antiga. Seu marido Walter Breen, que tinha conhecimento de história e língua gregas, a ajudou nas pesquisas. The Firebrand foi descrito por acadêmicos como pertencendo aos gêneros de revisionismo histórico e literatura feminista, abordando temas como gênero, religião e poder.
The Firebrand foi publicado pela primeira vez nos Estados Unidos no dia 1º de outubro de 1987 pela editora Simon & Schuster em uma edição em capa dura, com uma edição em brochura estreando em setembro do ano seguinte. O romance foi ofuscado pela popularidade de The Mists of Avalon, recebendo menos atenção e elogios da crítica. Avaliações na época de sua publicação ficaram entre mistas e positivas, com muitos críticos elogiando a habilidade de Bradley de dar novas caracterizações a personagens lendários. O livro já foi traduzido para mais de dez idiomas, com os primeiros tendo sido português e francês em 1989.
Personagens
A protagonista de The Firebrand é a princesa Cassandra de Troia,[1] com a história sendo contada a partir da sua perspectiva.[2][3] Ela começa com uma Cassandra idosa concordando relutantemente em corrigir a versão homérica da Guerra de Troia contada por um bardo viajante.[4][5] Ela relembra suas experiências vivendo em Troia e na Cólquida,[6] como passou a se rebelar contra os papéis de gênero ditados pela cultura troiana e seu conflito interno sobre servir à Deusa ou servir ao deus Apolo.[7]
Cassandra era conhecida na sua infância dentre sua família como "a inteligente", enquanto sua irmã mais velha Polixena era "modesta" e "a bonita".[8] A intenção de seus pais era que Cassandra fosse criada como uma dama e se casasse com um nobre, uma ideia que a desagrada cada vez mais.[9] Ela frequentemente entra em conflito com seu pai, o rei Príamo,[10] que é caracterizado como cruel, violento e sedento de poder.[11] Cassandra e sua mãe, a rainha Hécuba, não são próximas, com a segunda frequentemente depreciando a primeira por suas profecias.[12] Hécuba cresceu como uma amazona,[13][14] mas gradualmente adotou os costumes patriarcais de Troia.[15][16]
Seu irmão Heitor é próximo de Polixena,[17] sendo descrito por Cassandra como um "intimidador".[18] Ele desaprova o desejo de Cassandra de ser uma guerreira,[19] mas é amado pela cidade.[20] Cassandra, quando adulta, reflete que "de todos os filhos [de Príamo e Hécuba], Heitor era o mais querido no coração dos pais, e Cassandra, a menos amada. Era apenas por ter sido sempre tão diferente dos outros?"[21] Cassandra sente-se mais feliz com as amazonas,[22] cuja líder Pentesileia se torna uma figura materna.[23]
Andrômaca, esposa de Heitor, é a filha mais velha da rainha Imandra da Cólquida; Andrômaca fica feliz em adotar a cultura patriarcal de Troia e ser subserviente ao seu marido apesar de ter crescido no meio da cultura matriarcal da Cólquida.[24] Ela e Cassandra tornam-se próximas,[25] assim como Cassandra e Helena, apesar de sua insatisfação pelos problemas que Helena causa à Troia.[26] Páris não gosta de Cassandra, apesar de ser seu gêmeo.[27] Ela rapidamente percebe que a principal falha de caráter do irmão é "uma total falta de interesse em qualquer coisa que não se relacionasse com ele ou não contribuísse de alguma forma para seu próprio conforto e satisfação".[28]
Enredo
Volume Um

Na rica a poderosa cidade de Troia, a rainha Hécuba, grávida, tem um sonho profético que a deixa perturbada. Uma sacerdotisa da Deusa diz a Hécuba e seu marido, o rei Príamo, que a rainha dará à luz uma criança que trará destruição para Troia. Príamo decreta que o menino deverá ser morto, mas volta atrás três dias depois quando a criança nasce e concorda com os pedidos de Hécuba de enviar o recém-nascido para ser criado por um pastor nas encostas do Monte Ida. Príamo nomeia o menino da Alexandros (depois renomeado Páris), enquanto a menina gêmea é chamada de Alexandra, porém Hécuba decide chamá-la de Cassandra.[29]
Cassandra, aos seis anos de idade, visita o templo do deus Apolo com sua mãe e tem uma visão dele lhe dizendo para se tornar sua sacerdotisa. Ela tem mais visões nos anos seguintes. Cassandra aos doze anos tem uma visão de Páris, agora vivendo como pastor, e pergunta ao pai sobre o menino, porém Príamos fica furioso. Ela então é enviada para viver com Pentesileia, irmã de Hécuba e chefe das amazonas, uma tribo exclusivamente feminina de guerreiras nômades. Cassandra passa a amar seu estilo de vida enquanto continua a ter visões do irmão, inclusive o Julgamento de Páris, quando ele escolhe a deusa Afrodite como mais bela do que as deusas Atena e Hera. Afrodite o recompensa com o futuro amor de Helena de Esparta, filha de Leda e do deus Zeus.[30]
Na Cólquida, Cassandra passa pelos rituais de uma sacerdotisa e é informada que seu destino é servir à Deusa. Ela volta para Troia aos quinze anos em tempo de acompanhar um festival em que Páris vence vários torneios e é revelado como o verdadeiro filho do rei e da rainha. Príamos e Hécuba o acolhem, mesmo com a profecia. Entretanto, Heitor sente ciúmes da atenção e realizações de Páris e sugere que ele seja enviado para tratar com o rei Agamemnon de Micenas. Páris concorda. Enquanto isso, Cassandra começa seu treinamento como sacerdotisa de Apolo, apesar de dúvidas sobre abandonar a Deusa; parte de seus deveres incluem cuidar das serpentes do templo. Páris retorna com Helena, esposa do rei Menelau de Esparta. Cassandra avisa que Helena destruirá Troia, mas é ignorada e Páris a acusa de ser louca. Helena é acolhida pela cidade.[31]
Volume Dois
Cassandra é abusada por Crises, outro sacerdote de Apolo que tenta se disfarçar do deus para seduzi-la. Ela percebe o truque e luta contra ele, porém Apolo sente-se insultado e faz os troianos pararem de acreditar em suas profecias. Agamemnon, irmão de Menelau, usa a fuga de Helena como pretexto para uma guerra e logo começa a lançar ataques contra Troia, iniciando a Guerra de Troia. Cassandra passa cada vez mais tempo com sua família para ajudar em tarefas diárias enquanto os homens, liderados por Heitor, lutam contra os aqueus. A guerra prossegue esporadicamente apesar das tentativas de Odisseu, um pirata e amigo de Príamo, de tentar negociar um fim do conflito.[32]
Cassandra retorna para a Cólquida depois de dois anos de guerra para aprender mais sobre serpentes. No caminho encontra Pentesileia, mas fica infeliz ao descobrir que a vida nômade das amazonas e dos centauros está morrendo e que a tribo de Pentesileia está com números cada vez menores. Cassandra tem uma visão assustadora de Apolo disparando flechas indiscriminadamente contra troianos e aqueus, um sinal de sua ira, decidindo retornar para casa. No caminho ela encontra uma criança recém-nascida abandonada, adotando-a e nomeando-a de Mel. Cassandra chega em Troia e descobre que a guerra não está indo bem para os troianos.[33]
Crises é tomado por Apolo e espalha uma praga pelo acampamento aqueu em retaliação por Agamemnon se recusar a devolver Criseida, filha de Crises, que está sendo mantida como prisioneira e concubina do rei por três anos. Criseida é relutantemente devolvida para Crises e Agamemnon pega a concubina do jovem guerreiro Aquiles como reparação. Aquiles fica furioso e se recusa a continuar lutando. Menelau e Páris travam um duelo, mas Páris foge com uma intervenção de Afrodite na forma de Helena.[34]
Volume Três

A maior parte da família de Cassandra passa achá-la louca e fica furiosa quando ela sente-se compelida a vocalizar suas profecias sobre o fim de Troia. A exceção é Eneias, marido de sua meia-irmã Creusa, com quem Cassandra começa um romance depois de Creusa e seus filhos serem enviados para fora da cidade. Um terremoto enviado pelo deus Poseidon acerta Troia e mata os três filhos de Páris e Helena, apesar dos avisos de Cassandra. O guerreiro Pátroclo, amigo próximo de Aquiles, é morto por Heitor e Aquiles volta para a luta em busca de vingança. Heitor e seu irmão caçula Troilo são mortos, causando luto por toda Troia. Aquiles também mata Pentesileia, porém pouco depois é morto por Cassandra, que usa as vestes de Apolo e acerta uma flecha envenenada em seu calcanhar.[35]
Poseidon envia outro terremoto e isto derruba as defesas de Troia. Os aqueus invadem a cidade, com Mel sendo morta e Cassandra estuprada pelo guerreiro Ájax. As mulheres sobreviventes são divididas entre os aqueus, com Cassandra se tornando a concubina de Agamemnon. Ela engravida dele e dá luz um menino, nomeado Agatão. Cassandra e o filho são libertados pela rainha Clitemnestra, esposa de Agamemnon, que o mata assim que ele finalmente retorna para Micenas. Cassandra volta para a Cólquida, mas permanece apenas brevemente, partindo para tentar fundar uma cidade no estilo antigo, uma governada por uma poderosa mulher.[36]
Desenvolvimento
"Zeus de Dodona, olhai este presente
meu e de minha família –
Agatão, filho de Equéfilos,
família de Zaquintos,
Cônsules dos Molossos e seus aliados,
descendentes por trinta gerações
de Cassandra de Troia."
Inscrição da tabuleta 803 do Museu Arqueológico Nacional de Atenas[37]
The Mists of Avalon, o romance anterior da autora estadunidense Marion Zimmer Bradley, era uma recontagem das lendas arturianas a partir do ponto de vista da personagem de Morgana das Fadas, a antagonista do rei Artur.[38][39] Bradley escreveu The Firebrand alguns anos após publicar The Mists of Avalon em 1983.[40][41] Segundo John Clute e John Grant, Bradley passou a escrever histórias após The Mists of Avalon que tinham grande apelo literário com o objetivo de trair um público leitor amplo em vez de se concentrar no gênero fantasia. As obras posteriores da autora frequentemente focavam-se em protagonistas fortes em "ambientações mito-históricas" com poucos elementos de fantasia.[42] Por exemplo, em The Firebrand os centauros são representados como uma tribo nômade formada por cavaleiros baixos e nus, diferentemente das criaturas meio humana e meio cavalo das lendas tradicionais.[43]
The Firebrand foi a segunda vez que Bradley recontou uma lenda famosa[44] e seu único romance ambientado na Grécia Antiga.[45] Ela quis repensar lendas a partir da perspectiva feminina pois tinha interesse em "ouvir mais sobre as realidades humanas" de histórias bem conhecidas, mas não acreditava que isto era uma forma de escrita feminista.[46] Também comentou que enxergava a lenda da Guerra de Troia como um exemplo de cultura masculina dominando e obscurecendo pontos de vista e contribuições femininas.[47] Ela disse:
| “ | Durante a invasão dórica, quando o ferro venceu o bronze, o culto feminino morreu. As culturas minoicas e micênicas morreram da noite para o dia. Mas você também pode olhar para esse período da história e dizer, aqui estão duas culturas que deveriam ter sido governadas por gêmeas mulheres – Helena e Clitemnestra. E sabe o que mais? Quando se casaram com Menelau e Agamemnon, os homens assumiram suas cidades. Eu só queria olhar para o que a história era antes dos misóginos tomarem posse dela. Eu queria olhar para essas pessoas como quaisquer outras, como se ninguém nunca tivesse escrito sobre elas antes.[47] | ” |
Bradley tinha usado uma ampla variedade de lendas arturianas como fonte para The Mists of Avalon, mas citou poucas fontes para The Firebrand.[48] Ela creditou seu então marido, o autor Walter Breen, como tendo ajudado na pesquisa para o livro e criação da história. Breen tinha conhecimento sobre história e idioma gregos antigos; segundo Bradley, foi ele quem a persuadiu a usar transliterações linguisticamente corretas para os nomes dos personagens, como "Akhilles" em vez de "Aquiles".[49] O destino de Cassandra permanece incerto na Ilíada, mas Bradley encontrou uma inspiração para o final da personagem no livro a partir da inscrição de uma tabuleta no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, que menciona os descendentes de Cassandra.[5][37] O autora acreditou que essa inscrição proporcionava a base histórica para a existência da personagem.[49][50]
Temas e análises
Papéis de gênero

Personagens femininas receberam pouca atenção na história original mostrada na epopeia Ilíada; elas são cruciais para o progresso dos eventos da história, porém não possuem identidades desenvolvidas próprias e em vez disso são definidas como mães, esposas e irmãs. Cassandra não tem uma única fala na Ilíada, porém é hoje mais lembrada por ter previsto a ruína de Troia e não ter sido acreditada por seus habitantes, que a consideram louca. Cerâmicas gregas antigas a mostram seminua e com cabelos longos e bagunçados,[51] já na peça Troilo e Créssida de William Shakespeare ela é caracterizada como uma mulher insana.[52] Depois dos aqueus usarem o Cavalo de Troia para entrarem na cidade, a Eneida de Virgílio e outros relatos mostram Cassandra sendo estuprada por Ájax,[53] em seguida sendo aprisionada por Agamemnon e depois morta junto com ele por Clitemnestra.[3][54] Bradley, ao estabelecer sua história na perspectiva feminina, dá às mulheres uma voz, especialmente a anteriormente silenciosa Cassandra.[55][56] A personagem é representada em The Firebrand como uma mulher forte e perspicaz em vez de uma lunática, mesmo assim ela é incompreendida pela maioria das pessoas ao seu redor.[57] Clitemnestra poupa Cassandra de sua ira para que esta possa registrar uma contra-narrativa feminina.[58][59]
The Firebrand aborda temas similares àqueles vistos em outras obras de Bradley,[47][60] incluindo a inversão de papéis de gênero em que "mulheres são as verdadeiras heroínas" enquanto os homens "orgulhosos e arrogantes" são aqueles que levam Troia para a ruína e "não conseguem despertar a simpatia do leitor".[61] O título do romance é uma referência a Páris e à destruição que ele traz para Troia.[62] The Firebrand já foi considerado como pertencendo ao gênero do revisionismo histórico,[63] pois se encaixa em uma "reinven[ção de] histórias que são históricas ou derivadas de mitos/lendas, mas frequentemente consideradas históricas" e então contadas com uma narrativa diferente.[50] O romance também já foi enxergado como um exemplo de literatura feminista.[64] Apesar de Bradley ter se recusado a se considerar uma feminista,[65] suas obras frequentemente lidavam com temas de gênero, religião e poder, especialmente em sociedades historicamente patriarcais.[66][67] Bradley apresenta ideais feministas em The Firebrand ao equiparar a cultura patriarcal com tendências opressivas;[14] Cassandra, percebida como tendo sido desprezada pelo deus masculino Apolo, deixa de ser acreditada pelos troianos por conta de seu gênero.[68]
Funda Başak Dörschel comentou que por não existir "humanidade ou compaixão neste mundo masculino", personagens tradicionalmente associados com qualidades nobres e positivas são em vez disso "despojados de seu próprio glamour" e retratados negativamente. Por exemplo, Aquiles é um "cachorro louco" que estupra Pentesileia como um ato de desprezo frio e calculista, em vez de um ato de amor repentino por ter causado sua morte. Agamemnon e Menelau são retratados como estereótipos patriarcais.[69] Mary-Kay Bray escreveu que o relato de Bradley faz com que esses heróis tradicionais pareçam mais humanos e falhos, mesmo que também sejam menos admiráveis.[70]
Religião e gênero
Bradley acreditava que "choque cultural, o choque de culturas diferentes, é a essência da literatura e drama", incorporando este ponto de vista em muitas de suas obras.[71] The Firebrand se passa em uma época de mudança e Cassandra se vê no meio de culturas novas e antigas.[15][70] Os troianos, apesar de governados por um rei e venerarem o deus masculino Apolo, ainda respeitam a cultura antiga sobre a Deusa. Na Cólquida, a poderosa rainha Imandra governa sozinha, porém seu modo de vida está morrendo; ela está envelhecendo e há uma incerteza sobre sua sucessora, enquanto as áreas empobrecidas ao redor contém duas culturas em declínio: as amazonas e os centauros.[15]
Críticos literários enxergaram elementos de neopaganismo presentes no romance. Bradley frequentemente incluía características de neopaganismo em suas histórias enquanto explorava da intersecção entre religião e gênero. Não há uma definição única sobre neopaganismo, mas muitos de seus seguidores o definiram como uma religião primitiva e matriarcal que floresceu na Europa Ocidental e era centrada na veneração de uma "Deusa-mãe", tendo sido praticamente decimada pela ascensão do cristianismo.[72] Carrol L. Fry escreveu que "a presunção básica [em The Firebrand] é que as pessoas da Grécia antiga veneravam a Deusa antes da chegada dos Aqueus", um povo que trouxe consigo um "panteão de deuses guerreiros masculinos ... e gradualmente subverteram os modos antigos".[22] Pentesileia diz a Cassandra na história: "Mas lembre-se, criança: antes mesmo que Apolo, Senhor do Sol, viesse a governar estas terras, nossa Mãe Cavalo – a Grande Égua, a Mãe Terra de quem todos nós nascemos – estava aqui".[73]
The Firebrand combina dois sistemas de crenças e mistura o neopaganismo com elementos da mitologia grega.[74] Acadêmicos destacaram similaridades entre The Firebrand e The Mists of Avalon, com ambos servindo a "propósitos paralelos" ao recontarem lendas antigas na perspectiva feminina.[40][75] Ambos lidam com o confronto entre crenças terrestres centradas no feminino e a ascensão de religiões patriarcais.[75] Esta dicotomia religiosa aparece primeiro no confronto entre Apolo e a Deusa, depois entre os deuses aqueus e troianos.[48][76][77] Na tradição estabelecida pelo romance, as serpentes representam o lugar proeminente da Deusa na vida religiosa, imortalidade, renascimento e regeneração. É dito que a Píton, uma divindade cobra feminina e símbolo da Deusa, foi morta por Apolo, representando a destruição do poder social, político e religioso feminino.[75][78]
Bradley usou suas personagens femininas para criar uma dicotomia feminina; Cassandra e Pentesileia representam o "lado feminista" na busca por independência, enquanto muitas das outras mulheres, como Andrômaca, Helena e Hécuba, "se subordinam a tradições, valores e bens patriarcais".[48][79] A perda desta cultura matriarcal foi considerada o tema principal do romance.[14] Bradley escreveu sobre o poder das mulheres em muitas de suas obras, incluindo The Mists of Avalon e a série Darkover,[80] com The Firebrand continuando isto ao representar Cassandra vivendo dentro de um mundo idealizado; as amazonas seguem a Deusa, mas estão lentamente em declínio diante do "panteão de deuses guerreiros masculinos" patriarcal. A autora, por meio da experiência de Cassandra com as amazonas, mostra que idealiza esse grupo de mulheres.[22]
Repercussão
Publicação
The Firebrand foi publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em uma edição em capa dura em 1º de outubro de 1987 pela editora Simon & Schuster,[47][62] enquanto uma edição em brochura estreou em setembro do ano seguinte.[81] O romance foi publicado pela primeira vez no Brasil em 1989 pela editora Imago sob o título O Incêndio de Troia, tendo sido traduzido por A. B. Pinheiro de Lemos; esta foi a primeira tradução de The Firebrand junto com a versão em francês por Hubert Tezenas. Foi publicado em Portugal em 1990 pela editora Difel com o título Presságio de Fogo, tendo tradução de Rute Rosa da Silva. O romance também já publicado em mais de uma dezena de idiomas.[82]
Crítica
The Firebrand não teve uma atenção da crítica ou sucesso tão grandes quanto The Mists of Avalon, que tende a ofuscá-lo.[1][83] O romance teve uma recepção mista para positiva da crítica literária. A Magill Book Reviews elogiou como Bradley permaneceu fiel à Ilíada, mesmo com "liberdades surpreendentes [que ela toma] com a obra de Homero". Entretanto, sobre os temas de gênero e religião, disse que foram em The Mists of Avalon tinham sido "executados artística e elegantemente", porém em The Firebrand "tornam-se cansativos com repetição".[61] Bradley comentou que alguns leitores ficaram incomodados pelas mudanças na lenda troiana, dizendo que "se eu tivesse me contentado com o relato da Ilíada, não existiria motivo algum para escrever um romance. Além disso, a Ilíada termina abruptamente justamente no ponto mais interessante, deixando ao escritor para conjecturar sobre o fim a partir de diversas lendas e tradições".[49] O Library Journal afirmou que os leitores deveriam se familiarizar com mitologia grega antes começarem, dizendo que Bradley "faz uma declaração contundente sobre a importância das mulheres terem controle sobre seus próprios destinos e sobre as crueldades que os homens infligem nelas".[84] Clute e Grant afirmaram que The Firebrand e The Forest House, outro romance de Bradley, "mostram seu talento para enredo, personagens, visão e ótima narrativa".[42]
H. J. Kirchhoff do The Globe and Mail comparou The Firebrand com The Mists of Avalon, escrevendo que o primeiro "não é tão novo nem tão encantador, embora seja uma leitura bastante agradável". Kirchhoff achou que The Firebrand era muito similar aos romances anteriores de Bradley, falando que "a mistura de narrativa antiga e ideologia feminista parece forçada", mas elogiou sua representação de "carne e osso" dos homens associados com as lendas.[85] Vicki McCash do Sun Sentinel elogiou o romance por fazer os personagens lendários "respirarem e sentirem" e por dar uma nova abordagem para uma história antiga. McCash escreveu que "Desde as primeiras páginas, o leitor é cativado pela magia da antiga Troia. Essas histórias são reverenciadas há séculos, mas em The Firebrand elas são recontadas para se tornarem um romance épico, não apenas de heróis e deuses, mas de heroínas e deusas e de uma mudança do que é feita a sociedade". Ela comentou que leitores homens talvez ficassem incomodados pela representação de seu gênero, mas que Bradley tentou evitar isso ao colocar alguns homens simpáticos como Eneias, bem como várias mulheres malignas como Clitemnestra.[86] Virginia Judge do The Herald chamou The Firebrand de "um conto fascinante, mas longo" e elogiou a representação de religiões antigas, mas criticou o final por achá-lo "artificial".[87]
Sally R. Frederick do English Journal elogiou o livro e considerou que um dos seus maiores pontos fortes era "sua capacidade de entreter o leitor com personagens que são basicamente fieis às suas origens na Ilíada, mas ao mesmo tempo mais redondos, completos e mais pessoalmente envolventes". Frederick disse que Bradley "desenvolve os estereótipos nos quais a caracterização da epopeia são baseados – o frio e calculista Aquiles, o astuto e gregário Odisseu, a frustrada Cassandra – com diálogos convincentes que não apenas carregam o enredo, mas faz referência a outros eventos, tanto míticos quanto históricos". Ela também disse que a autora "atenua a amargura e o cinismo da Cassandra de Homero, apresentando em vez disso uma mulher confusa e atormentada por um conhecimento sobre o qual ela é impotente para agir".[88] Don D'Amassa, em uma visão geral das obras de Bradley no livro Encyclopedia of Fantasy and Horror Fiction, disse que The Firebrand era "uma de suas melhores fantasias".[89] Os trabalhos da autora já foram elogiados por resenhistas feministas, que elogiaram especialmente sua capacidade de retratar mulheres multidimensionais como "reverenciado canal de religião e misticismo baseados na natureza", como aqui é o caso de Cassandra.[2] The Firebrand foi escolhido como o vigésimo melhor romance de fantasia de 1987 no Locus Award.[90]
Referências
- ↑ a b Sharp 2006, p. 249.
- ↑ a b Snodgrass 2006, p. 79.
- ↑ a b Thompson 2004, p. 192.
- ↑ Bradley 2025, pp. 11–14.
- ↑ a b Dörschel 2011, p. 155.
- ↑ Thompson 2004, p. 191.
- ↑ Bray 1988, pp. 106–107.
- ↑ Bradley 2025, pp. 57, 134.
- ↑ Thompson 2004, pp. 192–193.
- ↑ Bradley 2025, pp. 45, 184, 272.
- ↑ Dörschel 2011, p. 177.
- ↑ Bradley 2025, pp. 36–37, 146, 157.
- ↑ Bradley 2025, p. 22.
- ↑ a b c Dörschel 2011, p. 166.
- ↑ a b c Thompson 2004, p. 193.
- ↑ Dörschel 2011, pp. 167–168.
- ↑ Bradley 2025, p. 425.
- ↑ Bradley 2025, p. 109.
- ↑ Bradley 2025, pp. 149–151.
- ↑ Bradley 2025, p. 215.
- ↑ Bradley 2025, p. 430.
- ↑ a b c Fry 1993, p. 75.
- ↑ Bradley 2025, pp. 83, 144.
- ↑ Bradley 2025, pp. 109–110.
- ↑ Bradley 2025, pp. 125, 177.
- ↑ Bradley 2025, pp. 222, 248, 257, 277.
- ↑ Bradley 2025, pp. 139–140.
- ↑ Bradley 2025, p. 63.
- ↑ Bradley 2025, pp. 20–29.
- ↑ Bradley 2025, pp. 30–106.
- ↑ Bradley 2025, pp. 117–187.
- ↑ Bradley 2025, pp. 204–272.
- ↑ Bradley 2025, pp. 279–324.
- ↑ Bradley 2025, pp. 336–362.
- ↑ Bradley 2025, pp. 365–474.
- ↑ Bradley 2025, pp. 495–541.
- ↑ a b Bradley 2025, p. 543.
- ↑ Paxson 1999, pp. 11, 18.
- ↑ «Marion Zimmer Bradley». Penguin Group. Consultado em 19 de dezembro de 2025. Arquivado do original em 13 de janeiro de 2012
- ↑ a b Chauvette 1994.
- ↑ Paxson 1999, p. 117.
- ↑ a b Clute & Grant 1997, p. 135.
- ↑ Dörschel 2011, p. 179.
- ↑ Crosby 2000, p. 54.
- ↑ Dörschel 2011, p. 151.
- ↑ Sharp 2006, p. 243.
- ↑ a b c d «Bradley, Marion Zimmer 1930–1999». Concise Major 21st Century Writers. 1 de janeiro de 2006. Consultado em 19 de dezembro de 2025. Arquivado do original em 15 de novembro de 2018 – via HighBeam
- ↑ a b c Smith 1993, p. 37.
- ↑ a b c Bradley 2003, Acknowledgments.
- ↑ a b Raddeker 2009.
- ↑ Dörschel 2011, pp. 152, 156–157.
- ↑ Shakespeare, William (1602). Troilo e Créssida. Ato 2, Cena 2.
- ↑ Virgílio. Eneida. Livro II.
- ↑ Dörschel 2011, pp. 152–154.
- ↑ Dörschel 2011, pp. 155–156, 166.
- ↑ Crosby 2000, pp. 54–55.
- ↑ Dörschel 2011, pp. 170–171.
- ↑ Komar 2003, p. 174.
- ↑ Thompson 2009, pp. 186–88.
- ↑ Roberts 2001, p. 113.
- ↑ a b «The Firebrand Themes». eNotes. Consultado em 20 de dezembro de 2025
- ↑ a b Lefkowitz, Mary (29 de novembro de 1987). «What the Amazons Taught Her». The New York Times. Consultado em 20 de dezembro de 2025. (pede subscrição (ajuda))
- ↑ Crosby 2000, p. 17.
- ↑ Crosby 2000, p. 43.
- ↑ Paxson 1999, p. 113.
- ↑ Paxson 1999, pp. 113–114.
- ↑ Fry 1993, pp. 71–72, 78.
- ↑ Dörschel 2011, p. 172.
- ↑ Dörschel 2011, pp. 175–177.
- ↑ a b Bray 1988, p. 106.
- ↑ Sharp 2006, p. 244.
- ↑ Fry 1993, p. 68.
- ↑ Bradley 2025, p. 62.
- ↑ Fry 1993, p. 76.
- ↑ a b c Reid 2009, p. 247.
- ↑ Dörschel 2011, pp. 166–168, 178–179.
- ↑ Crosby 2000, p. 56.
- ↑ Dörschel 2011, pp. 178–179.
- ↑ Dörschel 2011, pp. 166–168.
- ↑ Fry 1993, pp. 70–71.
- ↑ Becker, Alida. «New 'yuppieback' line hits the racks». Chicago Sun-Times. Consultado em 20 de dezembro de 2025. Arquivado do original em 17 de novembro de 2018 – via HighBeam
- ↑ «Index Translationum». Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Consultado em 20 de dezembro de 2025
- ↑ Dörschel 2011, p. 152.
- ↑ Shuey, Andrea Lee (15 de outubro de 1987). «The firebrand : a novel». Consultado em 20 de dezembro de 2025. Arquivado do original em 4 de março de 2016
- ↑ Kirchhoff, H. J. (26 de outubro de 1987). «Book Briefs: An old story The Firebrand». The Globe and Mail. ProQuest 386021768
- ↑ McCash, Vicki (17 de abril de 1988). «A Feminist Reworking Of Mythology». Sun Sentinel. p. 10F. Consultado em 20 de dezembro de 2025. Arquivado do original em 21 de setembro de 2015
- ↑ Judge, Virginia (16 de janeiro de 1988). «'Firebrand' tells woman's views of the legend of Trojan War». The Herald
- ↑ Frederick, Sally R. (janeiro de 1989). «Booksearch: The Firebrand». English Journal. 78 (1): 85
- ↑ D'Ammassa 2006, p. 34.
- ↑ «1988 Locus Awards». Locus. Consultado em 20 de dezembro de 2025. Arquivado do original em 3 de outubro de 2012
Bibliografia
- Bradley, Marion Zimmer (2003) [1987]. The Firebrand. Nova Iorque: Roc Printing. ISBN 0-451-45924-5
- Bradley, Marion Zimmer (2025). O Incêndio de Troia. Traduzido por Marina Della Valle. São Paulo: Planeta de Livros. ISBN 978-85-422-3919-5
- Bray, Mary-Kay (1988). «Bradley, Marion Zimmer. The Firebrand. Simon & Schuster, NY, 1987, 603p». In: Catherine Fischer; Robert A. Collins; Robert Latham. Science Fiction & Fantasy Book Review Annual. Westport: Meckler Books. ISBN 0-88736-249-4
- Chauvette, Cathy (1994). «Marion Zimmer Bradley: Overview». In: Standley Berger, Laura. Twentieth-Century Young Adult Writers. Detroit: St. James Press. ISBN 978-1558622029
- Clute, John; Grant, John (1997). The Encyclopedia of Fantasy. Nova Iorque: St. Martin's Press. ISBN 978-0-312-19869-5
- Crosby, Janice C. (2000). Cauldron of Changes: Feminist Spirituality in Fantastic Fiction. Jefferson: McFarland & Company. ISBN 978-0-78640-848-1
- D'Ammassa, Don (2006). Encyclopedia of Fantasy and Horror Fiction. Nova Iorque: Facts on Files. ISBN 978-1-4381-0909-1
- Dörschel, Funda Başak (2011). Female Identity": Rewritings of Greek and Biblical Myths by Contemporary Women Writers (PDF) (Dissertação de Doutorado). Universidade Técnica do Oriente Médio
- Fry, Carrol L. (1993). «The Goddess Ascending: Feminist Neo-Pagan Witchcraft in Marian Zimmer Bradley's Novels». Journal of Popular Culture. 27 (1). doi:10.1111/j.0022-3840.1993.64521458967.x
- Komar, Kathleen (2003). Reclaiming Klytemnestra: Revenge Or Reconciliation. Champaign: University of Illinois Press. ISBN 0-252-02811-2
- Paxson, Diana L. (1999). «Marion Zimmer Bradley and The Mists of "Avalon"». Arthuriana. 9 (1). JSTOR 27869424. doi:10.1353/art.1999.0030
- Raddeker, Hélène Bowen (novembro de 2009). «Eco/Feminism and History in Fantasy Writing by Women». Outskirts. 21 (1)
- Reid, Robin Anne (2009). Women in Science Fiction and Fantasy. Westport: Greenwood Press. ISBN 978-0-313-33589-1
- Roberts, Virginia Woods (2001). «Bradley, Marion Zimmer». In: Browne, Ray B.; Browne, Pat. The Guide to United States Popular Culture. Madison: University of Wisconsin Press. ISBN 0-87972-821-3
- Sharp, Michael D. (2006). «Marion Zimmer Bradley». Popular Contemporary Writers Set. Nova Iorque: Marshall Cavendish. ISBN 0-7614-7601-6
- Smith, Jeannette C. (1993). «Myth as Source: Four Feminist Fantasy Novels by Marion Zimmer Bradley». Creative Woman. 13 (3)
- Snodgrass, Mary Ellen (2006). Encyclopedia of Feminist Literature. Nova Iorque: Facts on Files. ISBN 978-1-4381-0910-7
- Thompson, Diane P. (2004). The Trojan War: Literature and Legends From the Bronze Age to the Present. Jefferson: McFarland & Company. ISBN 0-7864-1737-4
