Tereza de Benguela
| Tereza de Benguela | |
|---|---|
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| Nascimento | Benguela |
| Morte | 25 de julho de 1770 Cuiabá |
| Etnia | afro-brasileiros |
| Cônjuge | José Piolho |
| Ocupação | líder quilombola |
Tereza de Benguela (Reino de Benguela — Capitania de Mato Grosso, 25 de julho de 1770) foi uma líder quilombola documentada na década de 1770, quando liderava o Quilombo do Piolho, às margens do rio Guaporé, nas cercanias da cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade, atual estado de Mato Grosso.[1][2]
Liderança quilombola
Tereza de Benguela documenta-se em apenas duas fontes históricas, ambas da década de 1770, referentes à campanha de 1770 que teve por objetivo e consequência a destruição do Quilombo do Piolho e a morte de Tereza, então sua rainha: a descrição do provedor da fazenda real Filipe José Nogueira Coelho, e o texto dos Anais de Vila Bela, referente ao ano de 1770, e provavelmente escrito nesse mesmo ano.[2]
Mulher escravizada fugida do capitão Timóteo Pereira Gomes, Teresa fora esposa de José Piolho,[3] que chefiava o Quilombo do Piolho.[1]
O quilombo era governado por um sistema semelhante a parlamento, com casa própria para as reuniões do conselho, tendo por maior conselheiro José Piolho, "escravo da herança do defunto Antonio Pacheco de Morais", que em tempos liderara um quilombo no Rio de Janeiro. Após a morte de Piolho, baleado na sequência de várias ciladas que armara a soldados, muitos anos antes antes de 1770, Tereza assumiu a liderança,[4] comandando a estrutura política, econômica e administrativa do quilombo, mantendo um sistema de defesa com armas trocadas com pessoas brancas ou roubadas das vilas próximas. Os objetos de ferro utilizados contra a comunidade negra que lá se refugiava eram transformados em instrumento de trabalho, visto que muitos dominavam o uso desses instrumentos. O Quilombo do Quariterê, além do parlamento e de um conselheiro para a rainha, desenvolvia agricultura de algodão e possuía teares onde se fabricavam tecidos que eram comercializados fora dos quilombos, como também os alimentos excedentes.[5]
Tereza fora descrita pelos portugueses como tendo "poder tão absoluto que, não só chegou a mandar enforcar, mas também quebrar pernas e braços e enterrar vivos aqueles que, arrependidos da fuga, queriam tornar para a casa de seus senhores, sem que para semelhantes e outros castigos fosse preciso legal prova. Bastavam leves indícios para serem punidos quaisquer réus de semelhantes delitos"[6] e que "nem machos nem fêmeas [homens ou mulheres] eram ousados a levantar os olhos diante dela"[7]
Em 27 de junho de 1770 uma expedição organizada pelo sargento-mor Inácio Leme saiu do aquartelamento em direção ao quilombo, com a missão de destruí-lo. Chegaram ao local em 22 de julho, e abriram fogo contra as pessoas e famílias do quilombo, porém a maioria deles conseguiu fugir. Houve resistência, liderada por Teresa, que revidou com arma de fogo e flechadas, mas que não foram o suficiente.[3] Fugindo para a mata, conduzida pelo seu capitão mor, João Cavalo, escravo fugido do próprio sargento-mor, feriu-se num pé ao atravessar um riacho, sendo facilmente capturada e levada ao aquartelamento, à presença do sargento-mor. Veio a morrer pouco depois de "paixão da alma", segundo Filipe Coelho, ou de "pasmo", segundo os Anais, sendo a sua morte hoje interpretada como um ato voluntário de resistência à prisão. Segundo os Anais, após a sua morte a sua cabeça foi cortada e colocada num alto poste no centro do quilombo, como exemplo para todos os que ousassem se levantar contra a coroa de Portugal.[2]
A comunidade negra e indígena do Quilombo do Piolho resistiu à escravidão muito tempo, sobrevivendo até 1770, quando foi destruído pelas forças de Luís Pinto de Sousa Coutinho e a população (79 pessoas negras e 30 indígenas), morta ou aprisionada. As pessoas sobreviventes passaram por humilhação pública, foram marcadas a ferro com a letra F, de "fujão" ou fugitiva/e/o e devolvidas as pessoas/famílias nas quais estavam submetidas a escravização.[1]


Representações controversas
Ao buscar pelo nome de Tereza de Benguela na internet, frequentemente se encontra uma pintura retratando uma mulher negra com três cicatrizes horizontais em um dos lados da face enrolada em um pano vermelho. A pintura, datada de 1911, da autoria do pintor franco-suíço Félix Vallotton, é habitualmente nomeada Femme noire assise de face (em português, "Mulher negra sentada de frente"). A mulher retratada serviu frequentemente de modelo ao pintor na década de 1910, num contexto europeu, incluindo na sua famosa obra La blanche et la noire (em português, "A branca e a negra"), de 1913, na qual surge numa pose ambígua, fumando e enrolada em um pano azul, sentada em uma cama na qual está deitada uma mulher branca nua, que observa com determinação.[8] A pintura, sem qualquer relação com Tereza de Benguela, vem sendo usada como um recurso fácil para ilustrar a líder quilombola, potencialmente transmitindo e amplificando estereótipos e preconceitos que eventualmente estão na base da própria escolha de uma imagem europeia proveniente do bafon parisiense pré-guerra para ilustrar uma líder guerreira negra do século XVIII num contexto sul-americano.[9]
Trabalhos contemporâneos que buscam retratar Tereza, como o projeto Faces Negras Importam,[10] acabam por perpetuar essa associação que, embora bem intencionada, seja uma fake news, pois ao invés de retratar a aparência de mulheres do tempo de Tereza, acabam por reproduzir uma imagem de outro contexto histórico, anacrônica e deslocada do tempo e do referencial real.
Dia Nacional de Tereza de Benguela
O dia de 25 de julho é instituído no Brasil pela Lei n° 12 987/2014 como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.[11]
Carnaval
A Unidos do Viradouro homenageou Teresa com o enredo "Tereza de Benguela, uma rainha negra no Pantanal", ficando em 3º lugar no Carnaval do Rio de Janeiro em 1994.
A escola de samba de São Paulo Barroca Zona Sul, em seu samba-enredo "Benguela… A Barroca Clama a Ti, Tereza", homenageou Tereza da Benguela no Carnaval de São Paulo em 2020.[12][13]
Referências
- ↑ a b c Thays de Campos Lacerda. «TEREZA DE BENGUELA: IDENTIDADE E REPRESENTATIVIDADE NEGRA». Unemat. Consultado em 27 de julho de 2020
- ↑ a b c Rodrigues, Bruno (1 de junho de 2022). «A luz de Tereza de Benguela não apagará: : o dito e o não-dito pelas fontes históricas». Fênix - Revista de História e Estudos Culturais (1): 494–513. ISSN 1807-6971. doi:10.35355/revistafenix.v19i1.983. Consultado em 28 de agosto de 2025
- ↑ a b «Teresa de Benguela: a heroica Rainha do quilombo Quariterê». Aventuras na História. Consultado em 27 de julho de 2020
- ↑ Amado, Janaína (2006). Anais de Vila Bela, 1734-1789. [S.l.]: EdUFMT. p. 140. Consultado em 28 de agosto de 2025
- ↑ «Tereza de Benguela, uma heroína negra». Geledés. 2 de agosto de 2014. Consultado em 1 de julho de 2020
- ↑ Anais de Vila Bela, 1734-1789, p. 139, Wikidata Q136088056
- ↑ Anais de Vila Bela, 1734-1789, p. 140, Wikidata Q136088056
- ↑ «Félix Vallotton - La Blanche et la Noire - Digital KMW». digital.kmw.ch. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Políticas do imaginário: imagens de mulheres negras -». centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br. Consultado em 31 de agosto de 2025
- ↑ «Luiza Mahin, Tereza de Benguela e Maria Felipa têm suas faces recriadas em iniciativa apoiada pelo Banco do Brasil». Banco do Brasil. 20 de dezembro de 2024. Consultado em 29 de agosto de 2025
- ↑ «L12987». www.planalto.gov.br. Consultado em 1 de julho de 2020
- ↑ «Barroca Zona Sul volta à elite após 15 anos cantando Tereza de Benguela, líder de quilombo». G1. Consultado em 15 de julho de 2020
- ↑ «Benguela… A Barroca Clama a Ti, Tereza - Aináh». Letras.mus.br. Consultado em 16 de dezembro de 2019
