Teatro José Lúcio da Silva

Teatro José Lúcio da Silva
Informações gerais
TipoTeatro, cinema, sala de espectáculos
Estilo dominanteModernista
ArquitetoCarlos Manuel Ramos (filho), José Bruschy
Proprietário atualCM Leiria
PromotorJosé Lúcio da Silva
DiretorJosé Manuel Pires
Geografia
PaísPortugal
CidadeLeiria
LocalizaçãoAvenida Heróis de Angola
Coordenadas🌍
Localização em mapa dinâmico

O Teatro José Lúcio da Silva é uma sala de espectáculos localizada na cidade de Leiria, em Portugal, projectada pelos arquitectos Carlos Manuel Ramos e José Bruschy. Com capacidade para 729 espectadores, o teatro encontra-se desde Agosto de 2024, em processo de classificação como Monumento de Interesse Municipal.

História

Origens

A génese de um espaço teatral na cidade de Leiria remonta a 1878, ano em que foi lançada a primeira pedra do Teatro D. Maria Pia no antigo Campo D. Luís I, local correspondente ao actual Largo de Goa, Damão e Diu, situado entre o Jardim Público Luís de Camões e o antigo Convento de Sant'Ana. Embora tenha constituído o primeiro recinto fechado digno da designação de teatro, o edifício enfrentou severas dificuldades financeiras e uma degradação física progressiva, sendo considerado por muitos como um teatro apenas de nome, numa época em que o público exigia a exibição de cinema.

Apesar dos esforços de uma nova administração composta por "um punhado de homens válidos" que assegurou temporariamente a continuidade cultural, e das ordens de encerramento emanadas pela Inspecção dos Espectáculos por motivos de segurança, a discussão sobre a sua demolição iniciou-se em 1951. O último espectáculo no velho recinto ocorreu em Janeiro de 1958, tendo a estrutura sido demolida nesse mesmo ano.

No período de transição que se seguiu, a actividade cinematográfica foi transferida para uma estrutura provisória: um barracão adquirido no Montijo pelo valor de 100 contos e instalado no fundo do jardim, nas imediações das escadas de acesso ao Marachão. Este espaço alternativo foi inaugurado a 12 de Janeiro de 1958 com a exibição da película A Leste do Paraíso, protagonizada por James Dean. Contudo, a aspiração por um edifício definitivo ganhou novo fôlego na altura da Segunda Guerra Mundial e concretizou-se decisivamente em 1963.[1]

O teatro de José Lúcio da Silva

Foi neste ano que José Lúcio da Silva, um leiriense nascido em 1902 que começou a sua vida profissional como empregado na filial de Leiria do Banco Nacional Ultramarino, criou nesta cidade pequenas indústrias de alpercatas e baquelites e acabou fazendo fortuna na indústria da borracha em Lisboa e integrando os corpos sociais do Sporting Clube de Portugal e do Leiria Ginásio Club, surgindo entretanto como mecenas. A sua oferta de cinco mil contos para a construção do novo teatro foi inicialmente noticiada pelo Diário Popular, a 21 de Outubro de 1963, sob a forma de um acto de um "benemérito anónimo".

O impacto da notícia levou o Presidente da Câmara e o Governador Civil a deslocarem-se à capital para agraciar o autor da doação. José Lúcio da Silva, até então pouco conhecido na sua terra natal, impôs condições específicas: a coordenação do projecto ficaria a seu cargo, caberia à autarquia providenciar o terreno e ser-lhe-ia garantida, a si e à sua família, a utilização vitalícia de um dos camarotes.

O local escolhido para a implantação do imóvel era uma antiga vinha pertencente à família Marques da Cruz, que cedeu gratuitamente a parcela necessária, permitindo a urbanização da área remanescente. Esta operação urbanística foi determinante para a definição da actual Avenida Heróis de Angola, para onde a cidade cresceu no fim da década de 1960. O benemérito não só cumpriu a promessa inicial como acabou por custear a totalidade da obra, cujo valor final duplicou a oferta original. A primeira pedra foi lançada a 29 de Julho de 1964 e a construção decorreu num ritmo célere, ficando concluída em cerca de dezoito meses.

A inauguração solene ocorreu na noite de sábado, 15 de Janeiro de 1966, com a presença do então Chefe de Estado, o Almirante Américo Thomaz. O programa de estreia incluiu, na primeira parte, o Monólogo do Vaqueiro (ou Auto da Visitação) de Gil Vicente, interpretado por João Motta, e na segunda parte a comédia em três actos Os Velhos, de D. João da Câmara. No dia seguinte, domingo, dia 16, iniciou-se a exploração cinematográfica com o filme Lord Jim, publicitado como "a mais extraordinária e grandiosa aventura até hoje filmada".

José Lúcio da Silva assumiu a gestão durante o primeiro ano, assegurando uma programação de excelência que incluía as melhores produções cinematográficas mundiais e a presença de companhias teatrais de renome, trazendo a Leiria figuras como Amélia Rey Colaço, Raul Solnado, Eunice Muñoz, António Silva e Maria Barroso. O mecenas acabou por falecer em 1972.

O preçário original variava entre os 65$00 para os camarotes (quatro entradas) e os 7$50 para os lugares mais económicos de balcão, passando pelos 16$00 da tribuna e entre 11$00 a 13$00 para a plateia.

Ao longo das décadas, o teatro manteve uma actividade ininterrupta, sobrevivendo aos tempos da censura e consolidando-se como um pólo cultural vital. No que concerne às estatísticas de exibição cinematográfica, o filme Titanic (1998) detém o recorde de audiência, com 28.659 espectadores em quatro semanas de exibição, seguido por Jurassic Park (1993), com 17.839 espectadores em três semanas, e Sozinho em Casa 2: Perdido em Nova Iorque (1992), visto por 12.171 pessoas durante o mesmo período de tempo.

Em Setembro de 2005, o teatro encerrou temporariamente para a realização de obras de vulto visando a modernização do espaço e dos equipamentos.

A história do edifício e do seu percurso foi objecto de um estudo aprofundado por Adélio Amaro, resultando na obra Teatro José Lúcio da Silva - Contributos para a sua história (1951-1967), lançada por ocasião do aniversário da sala em Janeiro de 2025.[2][3][4][5][6]

Descrição

O edifício do Teatro José Lúcio da Silva, erguido numa das zonas de expansão da cidade a nascente, destaca-se pela sua volumetria rectilínea e depurada, características que evidenciam as propostas arrojadas do movimento moderno da arquitectura portuguesa. Projectado por Carlos Manuel Ramos (filho) e José Bruschy, o imóvel integra-se no plano de urbanização que estabeleceu a ligação entre o Largo 5 de Outubro e o Convento de São Francisco, constituindo, a par da estação rodoviária, um dos principais equipamentos desta área urbana.

No seu interior, a sala de espectáculos é descrita como "monumental", apresentando características cénicas de elevada qualidade que proporcionam um conforto visual invulgar. A capacidade da sala sofreu alterações decorrentes das diversas intervenções, sendo referenciada com 763 lugares ao longo da sua história e, noutro contexto pós-renovação, com 729 lugares.

O espaço foi alvo de sucessivas remodelações para assegurar a sua actualidade técnica e conforto, incluindo a substituição da alcatifa e das cadeiras, a remodelação do palco, a implementação de sistemas de som digital e a aquisição de nova maquinaria de projecção para garantir um melhor recorte de imagem. Segundo um administrador da empresa Solercine, trata-se de, "[s]em dúvida, uma das melhores salas do País".

A instituição tem como missão promover o lazer, o saber e a cultura, fomentando a relação entre o público e as artes cénicas com elevados padrões de qualidade. Além da sua função primordial como sala de espectáculos, o Teatro José Lúcio da Silva é membro fundador do m|i|mo – museu da imagem em movimento. Este museu, integrado na Rede Portuguesa de Museus em 2004, possui no seu acervo um fundo especificamente dedicado ao espólio deste teatro, preservando assim a memória de um espaço que marcou diversas gerações de leirienses.[1][7]

  1. a b ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (2007). Portugal Património: Guia-Inventário. III. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 353
  2. «Sobre o TJLS». Teatro José Lúcio da Silva. 15 de julho de 2015. Consultado em 6 de fevereiro de 2026 
  3. Portugal, Rádio e Televisão de (16 de janeiro de 2025). «História da construção do Teatro José Lúcio da Silva em Leiria contada em livro». História da construção do Teatro José Lúcio da Silva em Leiria contada em livro. Consultado em 6 de fevereiro de 2026 
  4. «Teatro José Lúcio da Silva – Visite Leiria». www.visiteleiria.pt. Consultado em 6 de fevereiro de 2026 
  5. «Teatro José Lúcio da Silva | Programação». Turismo Centro Portugal. Consultado em 6 de fevereiro de 2026 
  6. Leiria, Manuel. «Teatro José Lúcio da Silva: Uma história conturbada com final feliz e surpreendente». Região de Leiria. Consultado em 6 de fevereiro de 2026 
  7. «Teatro José Lúcio da Silva». CM Leiria. Consultado em 6 de Fevereiro de 2026