Tacacá

Tacacá (em nheengatu: Takaka; goma)[1] é um prato de origem indígena típico da Região Amazônica.[2] É amplamente degustado em diversas localidades da região Norte do Brasil, onde é comumente elaborado e consumido nos mais variados contextos culturais e gastronômicos desses estados federados.[2]

Etimologia

A palavra tacacá provém certamente do nheengatu ou língua geral, o tupi veicular da Amazônia.[3] Pode derivar do tupi "Mbae Tykycú" que significaria "cousa para beber aos tragos" ou de "takaka" que significa algo como "goma" ou "caldo de goma".[4]

Ingredientes

Preparado com um caldo amarelado, chamado tucupi. Coloca-se esse caldo por cima da goma de mandioca, também servida com jambu (erva amazônica que provoca uma dormência na boca) e camarão seco.[3] Serve-se quente, temperado com sal, alho e pimenta de cheiro, em cuias. O tucupi e a fécula são resultados da massa ralada da mandioca que, após prensada para fazer farinha, resulta num líquido leitoso-amarelado. Após deixado em repouso, a fécula fica depositada no fundo do recipiente e o tucupi na sua parte superior.

Valores para referência nutricional

[5]

Componente Valor por 100g
Energia 47 calorias
Carboidratos 3,4 g
Proteínas 7,0 g
Lipídeos 0,4 g
Colesterol 71 mg
Fibra Alimentar 0,2 g
Cinzas 4,1 g
Cálcio 45 mg
Magnésio 30mg
Manganês 0,12 mg
Fósforo 89 mg
Ferro 0,9 mg
Sódio 1349 mg
Potássio 240 mg
Cobre 0,22 mg
Zinco 0,8 mg

Origem

A provável origem do tacacá está na culinária indígena. Ao que tudo indica, o prato é uma variação do mani poi, uma sopa apreciada pelos indígenas, muito antes da chegada dos europeus na região.[6]

O primeiro escrito que se tem notícia acerca do tacacá, ocorre no século XVI pelo padre capuchinho Abbeville em sua descrição das práticas alimentares indígenas.[3]

Num depoimento de junho de 1859, o médico e pesquisador alemão Robert Avé-Lallemant (1812-1884) descreve aquilo que provavelmente se trate da iguaria. O pesquisador visitou a vila de Serpa (atual Itacoatiara) e outros lugares da Amazônia, de que resultou o livro No Rio Amazonas (1859), de sua autoria, traduzida em São Paulo em 1980.

Ao visitar o lago de Serpa, nos fundos da Colônia Agroindustrial, Robert Avé-Lallemant ficou encantado com a floresta, os pássaros, os macacos, a vitória-régia, o trabalho da pesca do pirarucu e das tartarugas. Conversou com alguns indígenas Mura aculturados, agricultores e cortadores de lenha para a Companhia do Amazonas, liderados por um português. Chamou-lhe a atenção um grupo de indígenas “sob uma varanda, sentadas com um bando de crianças bronzeadas, de todas as idades e na mais inocente nudez. Faziam pequenos trabalhos manuais, redes, etc., enquanto os homens gozavam do dolce far niente a que têm direito em todo o Amazonas. Arcos e flechas para pesca, arpões com as pontas móveis, anzóis, remos, etc., constituem principalmente os utensílios domésticos, tudo o mais sendo inteiramente rudimentar”.

No lago de Serpa, Avé-Lallemant provou o tacacá (ele menciona o termo cacacá), qualificando-a como “a bebida nacional dos Mura”: mingau quase líquido de goma de tapioca temperado com tucupi, jambu, camarão e pimenta, que bebeu “com a maior naturalidade” achando-a “bem saborosa e nutritiva”. No dia 12 de agosto de 1859 o viajante alemão deixou Serpa, sua “última parada no Amazonas”, legando à posteridade um belo trabalho descritivo sobre a paisagem física e humana da Amazônia.

Não existem registros de que os indígenas Muras tenham residido no lado oriental da Amazônia (Pará). Outro alemão, o etnólogo Kurt Nimuendaju (1883-1945) escreveu em 1926 que “de todas as tribos da Amazônia (a dos Mura) foi a que mais extenso território ocupou, espalhando-se das fronteiras do Peru até o Rio Trombetas”, no limite do Amazonas com o Pará. Foram moradores especialmente das bacias do Solimões, Médio Amazonas e Madeira. Por volta do ano de 1450 a.C., após se evadirem da margem esquerda do Amazonas, no interflúvio Urubu-Matari (atual Rio Preto da Eva), a noroeste da atual cidade de Itacoatiara, os Aroaqui, indígenas do grupo linguístico Arwak, foram ali substituídos pelos Mura, um grupo de língua isolada. Os Mura foram exterminados no século XVIII pelos colonizadores europeus.

O cronista que melhor reportou a etnologia da Amazônia, no século XVIII, foi o padre jesuíta João Daniel (1722-1776). Seu livro Tesouro Descoberto do Rio Amazonas, escrito entre 1757 e 1776, revela com riqueza de detalhes, além do trabalho missionário, os hábitos e costumes das populações indígenas e a natureza “das dilatadas margens dos rios Amazonas, Madeira, Urubu, Negro e outros”.

João Daniel pouco se refere ao Pará, quando faz menção a lugares, habitações, apetrechos de caça e pesca, culinária, vestuário, danças, instrumentos musicais, enfeites e outros assuntos referentes aos nativos — utiliza os seguintes termos: “índios do Rio Amazonas”… “tapuias do Amazonas”… povoadores do Amazonas”…; que “usam da bebida tacacá…”; que “o tucupi é um sumo venenoso extraído da raiz da mandioca”; que “cozido perde o veneno e então é servido como tempero de vários guisados e bebidas”.

Cultura

Em Manaus, o tacacá faz parte da cultura de modo que um importante evento musical e cultural local, se chama "Tacacá-na-bossa". Este é realizado no Largo São Sebastião, onde além de acompanhar os artistas, o público pode também apreciar a culinária local e regional.[7] Outros eventos envolvendo música e a culinária regional foi o "Tacacá Fest".[8]

Ver também

Referências

  1. «Pesquisas da Ufopa tentam preservar línguas Wai Wai e Nheengatu; veja palavras de origem indígena». O Liberal. Consultado em 30 de janeiro de 2024 
  2. a b Darlan Machado Dorneles, Lindinalva Messias do Nascimento Chaves (2014). «Breve glossário do tacacá» (PDF). Universidade Federal do Acre (UFAC). Consultado em 3 de dezembro de 2019 
  3. a b c Congresso Nacional (2024). «Projeto de Lei 1948, de 2024». Consultado em 29 de janeiro de 2026 
  4. Juliana Bessa (11 de novembro de 2023). «Eu vou tomar um tacacá' e fazer um também: conheça as origens do prato cantado por Joelma e passo a passo da receita». g1 Pará. Consultado em 29 de janeiro de 2026 
  5. NEPA-UNICAMP (2011). Tabela brasileira de composição de alimentos (PDF) 4 ed. [S.l.]: Book Editora. 161 páginas 
  6. «Tacacá». Britannica Escola. Consultado em 3 de dezembro de 2019 
  7. «Tacacá na Bossa retorna com força total ao Largo de São Sebastião». CulturadoAM. 11 de março de 2024. Consultado em 30 de janeiro de 2026 
  8. «Tacacá Fest celebra sabores e sons da Amazônia em Manaus». Jornal do Comércio. 31 de outubro de 2025. Consultado em 30 de janeiro de 2026 

Bibliografia

  • ALGRANTI, Márcia. Pequeno dicionário da gula. São Paulo: Record, 2000. 544 p.
  • AVÉ-LALLEMANT, Robert C.B. No rio Amazonas. São Paulo. Editora Itatiaia, 1980.
  • CASCUDO, Câmara Luís da. História da alimentação no Brasil. São Paulo: Global, 2004. 954 p. (1ª ed.: Companhia Editora Nacional, 1967).
  • CULINÁRIA amazônica: o sabor da natureza. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2000. 150 p.
  • FLORES, Jaques. Panela de Barro: crônicas, ensaios, fantasias. Rio de Janeiro: Adersen, 1947. 194 p.
  • GOMENSORO, Maria Lucia. Pequeno dicionário de gastronomia. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. 432 p

Ligações externas

Receita de tacacá