Solimão ibne Muade
Solimão ibne Muade (em árabe: سليمان بن معاذ; romaniz.: Sulaymān ibn Muʿāḏ) foi um almirante do Califado Omíada, ativo durante o reinado de Solimão (r. 715–717). É mais conhecido por sua participação no fracassado Cerco de Constantinopla (717–718).
Contexto
No início de 715, o imperador Anastácio II (r. 713–715) reforçou sua marinha enviou-a contra a frota árabe que tinha chegado a Fênix (de localização disputada) para recolher madeira para a construção de navios. No entanto, em Rodes, encorajada pelos soldados do Tema Opsiciano, a frota revoltou-se, matou o seu comandante João, o Diácono, e zarpou para norte em direção a Adramício. Ali aclamaram imperador o relutante Teodósio III (r. 715–717), um cobrador de impostos.[1][2][3][4] Anastácio dirigiu-se então para a Bitínia, no Tema Opsiciano, para enfrentar a rebelião, mas a frota rebelde navegou para Crisópolis. Daí lançou ataques contra Constantinopla, situada no outro lado do Bósforo, até que, no final do verão, simpatizantes da rebelião lhes abriram os portões da cidade. Anastácio resistiu em Niceia durante vários meses, até que finalmente concordou em resignar e tornar-se monge.[5][6][7] A ascensão ao trono de Teodósio provocou a reação dos outros temas, especialmente do Anatólico e do Armeníaco, comandados, respetivamente, pelos estrategos Leão, o Isauro e Artavasdo.[1][2][3][4]
Identificação
Solimão é mencionado em algumas fontes árabes, bem como em várias fontes bizantinas contemporâneas, nas quais é citado apenas como Solimão (em grego: Σολιμᾶν, Soliman) ou Suleimão (Συλλειμάν / Σουλεημᾶν, Sylleimán / Souleēmān) por ocasião de suas atividades em solo imperial. Teófanes, o Confessor (depois seguido por Constantino Porfirogênito) e aparentemente os sinaxários tentaram identificá-lo com o califa Solimão ibne Abedal Maleque (r. 715–717), apesar das fontes explicitarem que o califa faleceu na região fronteiriça sírio-bizantina; Nicéforo I, Germano I e o Menológio de Basílio II apenas o citam nominalmente. É possível, embora incerto, que seja o homônimo que sitiou Amório nesse período,[8] cujas fontes bizantinas chamam de Solimas (Σολυμᾶς).[9]
Vida
As origens de Solimão são desconhecidas. Enquanto o Império Bizantino se encontrava praticamente em guerra civil, os árabes iniciaram o avanço que tinham vindo a preparar cuidadosamente. Em setembro de 715, a vanguarda comandada pelo general Solimão ibne Muade marchou pela Cilícia em direção à Ásia Menor, tomando a fortaleza estratégica de Lulo pelo caminho. Passaram o inverno em Afique, um local não identificado perto da saída ocidental das Portas da Cilícia. No início de 716, o exército de Solimão continuou em direção à Ásia Menor central. A frota omíada comandada por Omar ibne Hubaira navegou ao longo da costa ciliciana, enquanto Maslama ibne Abedal Maleque ficou na Síria com o exército principal à espera de desenvolvimentos.[10][11][12] Os árabes esperavam tirar partido da desunião entre os Bizantinos. Maslama tinha já entrado em contacto com Leão, o Isauro. O bizantinista francês Rodolphe Guilland (1888–1981) teorizou que Leão propôs tornar-se vassalo do Califado Omíada, apesar da sua intenção ser usar os árabes para concretizar os seus próprios planos de tomada do poder. Em troca, Maslama apoiou Leão esperando com isso maximizar a confusão e enfraquecer o império, facilitando a sua missão de tomar Constantinopla.[13][14]
O primeiro objetivo de Solimão era a estrategicamente importante fortaleza de Amório, que os árabes pretendiam usar como base no inverno seguinte. Amório tinha sido deixada sem defesas no tumulto da guerra civil e teria caído facilmente, mas os árabes optaram por apoiar as posições de Leão para contrabalançar o peso político e militar de Teodósio. Foram apresentadas à cidade condições de rendição se os seus habitantes reconhecessem Leão como imperador. A fortaleza capitulou, mas apesar disso não abriu as suas portas aos árabes. Leão foi até às proximidades com um punhado de soldados e empregou uma série de estratagemas e negociações para estacionar uma guarnição de 800 homens na cidade. O exército árabe, contrariado no seu objetivo e debatendo-se com falta de abastecimentos, retirou. Leão escapou para a Pisídia e, no verão, apoiado por Artavasdo, foi proclamado e coroado imperador, desafiando abertamente Teodósio.[15][16][17]
No interim, Maslama e o exército árabe principal tinham atravessado os montes Tauro e marchavam em direção a Amório. Além disso, como o general árabe não tinha recebido notícias do jogo duplo de Leão, não devastou os territórios por onde marchou, que faziam parte dos temas dos Armeníacos e dos Anatólicos, cujos governadores ele julgava ainda serem seus aliados.[18][19][20] Quando se encontrou com o exército de Solimão em retirada e tomou conhecimento da situação, Maslama mudou de planos: começou por atacar Acroino e daí marchou para as terras costeiras ocidentais para ali passar o inverno, saqueando Sárdis e Pérgamo pelo caminho. A frota árabe passou o inverno na Cilícia.[21][22][23][17] Leão iniciou a sua marcha sobre Constantinopla. Capturou Nicomédia, onde encontrou, entre outros oficiais, o filho de Teodósio, e depois marchou para Crisópolis. Na primavera de 717, depois de breves negociações, conseguiu que Teodósio resignasse e o reconhecesse como imperador, entrando na capital em 25 de março.[24][25][26][17]
No eventual Cerco de Constantinopla iniciado no mesmo ano, Omar ibne Hubaira, Solimão ibne Muade e Bactari ibne Haçane são mencionados como os lugar-tenentes de Maslama por Teófanes e Agápio de Hierápolis, ao passo que o posterior Kitab al-'Uyun substitui Bactari por Abedalá Albatal.[27][10] O menológio e os sinaxários identificaram-no com o almirante homônimo[8] que chegou próximo da cidade em 1 de setembro, inicialmente ancorando perto de Hebdomo, a sudoeste de Constantinopla. Dois dias depois, Solimão comandou a sua frota para o estreito do Bósforo e vários esquadrões começaram a ancorar nos subúrbios europeus e asiáticos da cidade. Uma parte foi para sul de Calcedônia, para os portos de Eutrópio e Antêmio para vigiar a entrada sul do Bósforo, enquanto o resto da frota navegou para o interior do estreito, passando em frente a Constantinopla, e começou a desembarcar nas costas entre Gálata e Clídio, cortando a comunicação da cidade com o mar Negro. Mas quando a guarda da retaguarda da frota árabe, constituída por vinte navios pesados com dois mil marinheiros, estava a passar na cidade, o vento norte fê-los parar e depois empurrou-os para as muralhas, onde um esquadrão bizantino os atacou com fogo grego. Teófanes reporta que alguns foram afundados, enquanto outros, velejaram, ardendo, para as ilhas dos Príncipes de Oxeia e Plateia.[28][29][30][31]
A vitória encorajou os bizantinos e desanimou os árabes, que segundo Teófanes, tinham originalmente planeado navegar até às muralhas marítimas durante a noite e escalarem-nas usando os remos dos navios. Na mesma noite, Leão mandou estender a corrente entre Gálata e Constantinopla, fechando a entrada do estuário do Corno de Ouro. A frota árabe ficou relutante em entrar em combate com os bizantinos e retirou para o porto seguro de Sostênio, mais a norte, na costa europeia do Bósforo.[28][29][30][31] Completam os sinaxários e o menológio que Solimão tentou entrar na cidade pelo portão do Bósforo, mas o seu cavalo se assustou ao ver a imagem da Teótoco acima do portão. Ele então se retirou sem nada conseguir e pereceu no mar Egeu.[8]
Referências
- ↑ a b Haldon 1990, p. 80.
- ↑ a b Mango & Scott 1997, pp. 535–536.
- ↑ a b Lilie 1976, pp. 123–124.
- ↑ a b Treadgold 1997, p. 344.
- ↑ Haldon 1990, p. 80, 82.
- ↑ Mango & Scott 1997, p. 536.
- ↑ Treadgold 1997, p. 344–345.
- ↑ a b c Lilie et al. 2013, Sulaimān ibn Mu'ād (#7160).
- ↑ Lilie et al. 2013, Sulaiman (#7158).
- ↑ a b Guilland 1959, p. 111.
- ↑ Mango & Scott 1997, p. 538.
- ↑ Lilie 1976, p. 123–125.
- ↑ Guilland 1959, pp. 118–119.
- ↑ Lilie 1976, pp. 125.
- ↑ Mango & Scott 1997, p. 538–539.
- ↑ Lilie 1976, pp. 125–126.
- ↑ a b c Treadgold 1997, p. 345.
- ↑ Guilland 1959, p. 125.
- ↑ Mango & Scott 1997, p. 539–540.
- ↑ Lilie 1976, pp. 126–127.
- ↑ Guilland 1959, p. 113–114.
- ↑ Mango & Scott 1997, pp. 540–541.
- ↑ Lilie 1976, p. 127.
- ↑ Haldon 1990, pp. 82–83.
- ↑ Mango & Scott 1997, pp. 540, 545.
- ↑ Lilie 1976, pp. 127–128.
- ↑ Canard 1926, pp. 91–92.
- ↑ a b Guilland 1959, pp. 119–120.
- ↑ a b Mango & Scott 1997, pp. 545–546.
- ↑ a b Lilie 1976, p. 128.
- ↑ a b Treadgold 1997, p. 347.
Bibliografia
- Canard, Marius (1926). «Les expéditions des Arabes contre Constantinople dans l'histoire et dans la légende». Journal Asiatique (em francês) (208): 61–121. ISSN 0021-762X
- Guilland, Randolphe (1959). «L'Expedition de Maslama contre Constantinople (717–718)». Paris: Publications de la Faculté des Lettres et Sciences Humaines de Paris. Études Byzantines. OCLC 603552986
- Haldon, John F. (1990). Byzantium in the Seventh Century: The Transformation of a Culture Revisada ed. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-31917-1
- Lilie, Ralph-Johannes (1976). Die byzantinische Reaktion auf die Ausbreitung der Araber. Studien zur Strukturwandlung des byzantinischen Staates im 7. und 8. Jhd. Vol. 22–23. Munique: Instituto de Filologia Bizantina e Grega Moderna da Universidade de Munique
- Lilie, Ralph-Johannes; Ludwig, Claudia; Zielke, Beate; Pratsch, Thomas (2013). «Sulaimān ibn Mu'ād (#7160); Sulaimān (#7158)». Prosopographie der mittelbyzantinischen Zeit Online. Berlim-Academia de Ciências de Brandemburgo: Nach Vorarbeiten F. Winkelmanns erstellt
- Mango, Cyril; Scott, Roger (1997). The Chronicle of Theophanes Confessor. Byzantine and Near Eastern History, AD 284–813. Oxford: Oxford University Press. ISBN 0-19-822568-7
- Treadgold, Warren (1997). A History of the Byzantine State and Society. Stanford: Stanford University Press. ISBN 0-8047-2630-2