Solidariedades orgânica e mecânica

Em Sociologia, as solidariedades orgânica e mecânica[1] são as duas categorias possíveis para a classificação da solidariedade social, formuladas pelo sociólogo francês Émile Durkheim. O acadêmico introduziu o conceito como parte da sua teoria sobre o desenvolvimento das sociedades em sua dissertação de doutorado Da Divisão do Trabalho Social (em francês: De La Division du Travail Social), estabelecendo que cada tipo de solidariedade seria correlata com o tipo de sociedade, que também pode ser classificada como mecânica ou orgânica. Ambos os tipos de solidariedade podem ser distinguidos por características demográficas e morfológicas, normas sociais vigentes e a intensidade o conteúdo da chamada consciência coletiva, conceito também formulado por Durkheim.[2]

Uma sociedade que exibe uma solidariedade mecânica deriva sua coesão e integração da homogeneidade dos indivíduos que a pertencem, isto é, as pessoas se conectam através de atividades laborais, educacionais e religiosas similares, além de outros fatores como idade, gênero e estilo de vida. Esse tipo de solidariedade é comum em sociedades tradicionais de pequeno porte, como por exemplo, tribos. Nessas sociedades mais simples, a solidariedade é usualmente baseada em laços familiares.

Por outro lado, a solidariedade mecânica é baseada na interdependência que surge da especialização laboral encontrada em sociedades mais "avançadas" (isto é, modernas e industriais). Embora os indivíduos pertencentes a estas sociedades performem diferentes tarefas e regularmente estejam sujeitos a diferentes valores e interesses, a ordem e a coesão social dependem da confiança mútua de cada membro em que todos irão realizar suas respectivas funções. Em suma, a solidariedade dessas sociedades é mantida pela interdependência entre suas partes constituintes, por exemplo: fazendeiros produzem comida para operários que fabricam equipamentos que serão utilizados pelos fazendeiros em sua produção no campo.

Comparação seguindo os conceitos de Durkheim

Solidariedade mecânica vs. Solidariedade orgânica[3]
Característica

Solidariedade mecânica

Solidariedade orgânica

Morfológica (estrutural)

  • Baseada em semelhanças entre seus membros (predominante em sociedades menos avançadas tecnologicamente)
  • Tipo segmentado (inicialmente baseadas em clãs, posteriormente territoriais)
  • Baixos níveis de interdependência (conexões sociais relativamente fracas)
  • População relativamente pequena
  • Relativamente baixa "densidade moral" e "material"
  • Baseada na divisão de trabalho (predominante em sociedades mais modernas)
  • Tipo organizado (fusão de mercados e crescimento das cidades)
  • Alta interdependência (Conexões sociais relativamente intensas)
  • População relativamente grande
  • Relativamente alta "densidade moral" e "material"

Normas sociais (tipificadas pela lei)

  • Governo por meio de sanções repressivas
  • Predominância do direito penal
  • Governo por meio de sanções restitutivas
  • Predominância do direito cooperativo (i.e., civil, comercial, procedural, administrativo e constitucional)

Características formais da consciência coletiva

  • Grande volume
  • Alta intensidade
  • Alta propriedade
  • Autoridade coletiva é absoluta
  • Pequeno volume
  • Baixa intensidade
  • Baixa propriedade
  • Maior brecha para reflexão e iniciativa individual
  • Altamente religiosa
  • Transcedental (superior aos interesses humanos e além da discussão)
  • Valor supremo colocado na sociedade e nos interesses da sociedade como um todo
  • Concreto e específico
  • Cada vez mais secular
  • Humanista (preocupado com interesses humanos e aberto a discussão)
  • Valor supremo colocado na dignidade individual, igualdade de oportunidade, ética laboral e justiça social
  • Abstrato e geral

Referências

  1. Lukes, Steven; Scull, Andrew (2017). Durkheim and the Law 1st ed ed. London: Bloomsbury Academic. Consultado em 14 de outubro de 2025 
  2. Collins Dictionary of Sociology. p. 405–06.
  3. Lukes, S. 1973. Emile Durkheim: His Life and Work. London: Allen Lane, as adapted by Collins Dictionary of Sociology, p. 406.