Sociologia relacional
Sociologia relacional parte do princípio de que as relações sociais são o centro de criação, manutenção e transformação dos indivíduos e das estruturas sociais ao longo do tempo. Isso quer dizer que nem o indivíduo nem a sociedade existem por si mesmos, mas apenas por meio de suas relações mútuas e constitutivas.[1][2]
Não se trata de uma grande teoria unificadora, mas de um conjunto diversificado de abordagens sociológicas — para analisar o mundo social — que compartilham do mesmo princípio fundamental.
Conceitos e princípios

Como a sociologia relacional entende a realidade social
A sociologia relacional parte da ideia de que as relações são a base da vida social. Em vez de considerar indivíduos e estruturas como elementos isolados, ela entende que ambos emergem e se transformam dentro das relações que estabelecem entre si. Essas relações possuem existência própria e podem gerar efeitos que não se reduzem às intenções ou características dos participantes.[4]
Como se conhece o social por meio das relações
O pensamento relacional propõe uma mudança de perspectiva: em vez de perguntar “o que é” um fenômeno social, pergunta-se “como ele se relaciona” com outros fenômenos. Essa abordagem substitui categorias fixas — como indivíduo, grupo ou sociedade — por redes dinâmicas de interdependência. Assim, compreender um fato social significa analisar as conexões que o sustentam e o modo como se transforma no tempo.[5]
Como se estuda o social nas relações
Do ponto de vista metodológico, a sociologia relacional utiliza técnicas que capturam interdependências e processos em vez de variáveis isoladas. Entre os métodos mais empregados estão a análise de redes sociais, a etnografia relacional e a modelagem de interações, que permitem observar como as relações se formam, se estabilizam e se transformam ao longo do tempo.[4]
Origens e desenvolvimento
As raízes da sociologia relacional possui sistema teórico complementar que pode ser rastreado por quatro pensadores clássicos: Karl Marx, Georg Simmel, Gabriel Tarde e Marcel Mauss.[6]
Karl Marx e o estruturalismo relacional
Karl Marx fornece a base para o estruturalismo relacional através de sua análise do fetichismo da mercadoria.[7] Ele demonstra que as mercadorias não devem ser compreendidas como objetos isolados, mas como cristalizações de relações sociais de produção.[6] Um par de sapatos, por exemplo, materializa a rede complexa de trabalho e interdependências entre fazendeiro, curtidor, sapateiro, comerciante e consumidor — suas jornadas, salários, condições de trabalho e relações de poder.[7] O termo "cristalização" indica que a mercadoria solidifica e torna visível, sob forma objetiva, relações sociais que ocorreram no tempo. Como afirma Marx, "uma relação social determinada entre as pessoas aparece na forma fantasmagórica de uma relação entre coisas":[7] as relações humanas tornam-se invisíveis, enquanto vemos apenas objetos trocando-se por outros objetos. Marx assim demonstra que os agentes econômicos não são indivíduos isolados, mas estão inseridos em redes de interdependência onde cada um produz relacionalmente, uns para os outros e uns através dos outros.[6]
Georg Simmel e as formas de associação
Georg Simmel contribui definindo a sociologia como o estudo das "formas de associação" (Vergesellschaftung). Ele dissolve a sociedade ao afirmar que cada elemento do mundo pode ser analisado a partir de múltiplas perspectivas relacionais (Wechselwirkungen).[8][9] Ele usa o exemplo do dinheiro, que pode ser compreendido simultaneamente sob o ângulo econômico (como meio de troca), sociológico (como estruturador de hierarquias), psicológico (como objeto de desejo) ou filosófico (como símbolo da abstração moderna). Cada uma dessas perspectivas revela diferentes relações que o fenômeno "dinheiro" mantém com outros elementos da realidade. A unidade desses múltiplos aspectos não é "substantiva" - isto é, não deriva de uma essência fixa ou de uma "coisa em si" -, mas sim estrutural e processual. Estrutural porque o significado emerge da posição do elemento numa rede de relações; processual porque se define pelos processos em que participa. Por exemplo, uma cadeira não existe primordialmente como "objeto de madeira com quatro pernas", mas como o conjunto integrado de suas relações: suporte ergonômico na relação com o corpo, elemento decorativo na relação com o ambiente, mercadoria na relação com a economia, testemunho histórico na relação com o tempo, forma estética na relação com a arte. Para Simmel, o pensamento é a operação que conecta, relaciona e integra esses fragmentos de perspectivas em uma unidade coerente. Esta abordagem desloca radicalmente o foco da investigação, quer dizer, em vez de perguntar "o que é esta coisa?", Simmel pergunta "como esta coisa se relaciona com tudo o mais?"[6]
Gabriel Tarde: imitação, simpatia e difusão

Gabriel Tarde contribuiu para a sociologia relacional com três núcleos fundamentais. Primeiro, ao inverter a perspectiva de Emile Durkheim: enquanto este propunha "tratar os fatos sociais como coisas",[10] Tarde afirma que "toda coisa é um fato social" - isto é, toda coisa já é uma sociedade em si mesma.[11][12] Assim, ele inverte a relação indivíduo/sociedade, descendo ao nível molecular da realidade: qualquer elemento social, por menor que seja, já constitui em si mesmo uma sociedade de elementos ainda menores em interação. Uma mesa, por exemplo, é uma sociedade de moléculas de madeira, mas milhares de átomos individuais entrando em ressonância. Assim, para onde quer que se olhe - células, sociedades humanas, estrelas, encontram-se apenas diferenças que ressoam, se comunicam e se inter-relacionam. Com tudo isso, ele quer dizer que cada coisa tem seu princípio interno de desenvolvimento - cada semente de carvalho tem em si mesmo seu projeto de desenvolvimento, que é tornar-se um carvalho, sem precisar de instruções externas, tem autonomia e espontaneidade. Não uma ordem derivada de símbolos e normas compartilhados existentes no nível coletivo (como entende Durkheim).[6]
O segundo, ao propor três "mecanismos" explicativos da coordenação das relações: 1) imitação (um indivíduo copia outro, gerando ondas de propagação), 2) simpatia (ressonância afetiva direta entre as unidades mínimas) e, 3) difusão (espalhamento de crenças e desejos como ondas pelo tecido social).[12] Ou seja, a coordenação das interações se dá sem representação coletiva. Uma moda se espalha não por haver uma "norma coletiva" prévia, mas pela cascata de imitações que gera padrões emergentes da própria dinâmica de contágio; numa multidão assistindo a um show, há apenas milhares de átomos individuais (pessoas), cada um com seus desejos, crenças, percepções que entram em ressonância uns com os outros através de imitação (copiar gestos, gritos) e contágio afetivo (entusiasmo se espalhando) gerando co-vibração do desejo. Não há uma "consciência coletiva" que paira sobre todos (como afirma Durkheim).[6]
O terceiro, Tarde explica a estrutura social como fluxo contínuo, sem hierarquias entre micro e macro, indivíduo e sociedade, tudo existiria no mesmo "plano", onde as estruturas aparentes - a multidão, a amizade - são apenas cristalizações temporárias desses fluxos contínuos.[6] Para entender essa ideia de temporalidade como fluxo contínuo podemos ir até o filósofo pré-socrático Heráclito, que também privilegiava os processos e relações no lugar de entidades fixas. A ele é atribuído o ditado "Águas sempre novas fluem sobre aqueles que entram nos mesmos rios", do qual emerge o "tudo flui".
Marcel Mauss e a teoria da dádiva

O antropólogo Marcel Mauss estabelece o simbolismo relacional através da "teoria da dádiva". Em Ensaio sobre a Dádiva (1923-1924) demonstrou que as relações entre pessoas são sempre mediadas por representações simbólicas, invertendo Marx ao mostrar que "as relações entre as coisas são sempre relações entre pessoas".[13] A reciprocidade obrigatória (dar, receber, retribuir) emerge como motor universal da sociedade, constituindo redes de solidariedade e rivalidade mediadas simbolicamente. Recusar-se a dar significa excluir-se da comunidade; recusar-se a receber constitui uma ofensa; e não retribuir equivale a uma traição do vínculo social. Assim, a reciprocidade é o fundamento que impede a dissolução das relações sociais e o colapso no individualismo atomizado.[13] Nas sociedades modernas encontramos reciprocidade, por exemplo, nos sistemas de previdência, os jovens contribuem porque se aposentarão no futuro; editores contribuem para a Wikipédia gratuitamente, recebendo de volta conhecimento coletivo.
Pierre Bourdieu e o método relacional
Ao final do século XX, Pierre Bourdieu elaborou uma teoria do espaço social que, embora enraizada no estruturalismo, é amplamente considerada um passo decisivo em direção ao relacionalismo contemporâneo. Sua teoria dos campos e do habitus parte do princípio de que as posições dos indivíduos no espaço social só adquirem sentido em relação umas às outras. O espaço social é concebido como uma rede de diferenças objetivas, onde o volume de capitais (econômico, cultural, social e simbólico) definem as possibilidades de ação e percepção dos agentes.[14][15]
O habitus expressa a internalização dessas posições sob a forma de possibilidades de ação e percepção dos agentes, fazendo com que as práticas individuais resultem de relações objetivas entre trajetórias de vida e estruturas sociais. Diversos autores identificam nesse modelo um “método relacional” que antecipa a sociologia relacional atual.[14][15]
Vertentes contemporâneas
Abordagem estrutural-relacional
A vertente estrutural-relacional parte da ideia de que o lugar que uma pessoa ou grupo ocupa nas redes de relações sociais influencia fortemente suas ações e possibilidades. Inspirada em autores como Karl Marx, Georg Simmel e Marcel Mauss, essa abordagem entende que os fenômenos sociais não podem ser explicados apenas pelas características individuais, mas pelas posições que os atores ocupam em relação aos outros. A chamada Escola de Nova York, liderada por Harrison White e Charles Tilly, foi pioneira em desenvolver métodos para representar e analisar essas redes.[16][17] A partir dela, pesquisadores como Mustafa Emirbayer,[2] Margaret Somers[18] e Barry Wellman[19] passaram a estudar a sociedade por meio dos vínculos e interdependências que conectam as pessoas, em vez de focar em atributos isolados como classe, profissão ou idade.
A vertente estrutural-relacional integra influências de Marx, Simmel e Mauss, desenvolvendo-se através da análise de redes sociais. A Escola de Nova York, liderada por Harrison White e Charles Tilly, criou métodos formais para mapear estruturas relacionais. Autores como Mustafa Emirbayer, Margaret Somers e Barry Wellman substituem análises de atributos individuais por análises de posições em redes.[6]
Abordagem processual e interacionista
A vertente processual-interacionista, influenciada por Simmel, Tarde e Mauss, enfatiza o caráter dinâmico e contingente da vida social. Parte do pressuposto de que a realidade é constituída por fluxos de interação contínuos, em vez de estruturas fixas. Essa abordagem inclui três sublinhas principais:
Pragmatismo relacional
Autores como François Dépelteau,[20][21][22] Andreas Glaeser[23] e Andrew Abbott[24] entendem que a vida social está sempre em movimento. Para eles, a sociedade não deve ser vista como algo fixo ou organizado em camadas rígidas, mas como um processo contínuo de interações entre pessoas, grupos e instituições. A cada momento, essas interações criam novas conexões, ajustam antigas e dão origem a situações temporárias, que logo mudam novamente. Assim, o social é algo que se faz e se refaz o tempo todo — o resultado provisório das ações e relações que acontecem entre as pessoas.
Teoria do ator-rede
A teoria do ator-rede (em inglês, Actor-Network Theory – ANT), desenvolvida pelo sociólogo francês Bruno Latour junto com Michel Callon e John Law, propõe uma forma de entender o social que consideram a sociedade como formada por redes de relações que ligam pessoas, instituições, objetos, tecnologias e ideias. Essas redes estão sempre em transformação: criam-se, se desfazem e se reorganizam o tempo todo. Para a ANT, o social não é algo que existe por si mesmo, mas o resultado dessas conexões em movimento, nas quais tanto humanos quanto não humanos participam e influenciam uns aos outros.[25]
Teoria dos sistemas
A vertente luhmanniana, desenvolvida pelo sociólogo alemão Niklas Luhmann, parte da ideia de que a sociedade é composta por diferentes sistemas (como o político, o jurídico, o econômico e o científico), cada um operando com base em seus próprios códigos de comunicação. Inspirado na cibernética de segunda ordem, Luhmann entende que os sistemas sociais observam e reproduzem a si mesmos por meio das comunicações que produzem — um processo denominado autopoiese.[26][nota 1] Em vez de focar nos indivíduos ou em suas intenções, sua teoria procura explicar como esses sistemas mantêm sua continuidade, transformam-se e se relacionam entre si, constituindo o tecido social de maneira interdependente.[26]
Realismo crítico relacional
Essa vertente procura entender a sociedade como algo que é, ao mesmo tempo, real e relacional. Ela combina o realismo crítico — formulado pelo filósofo britânico Roy Bhaskar, que defende a existência de estruturas sociais com efeitos concretos[27][nota 2] — com a ideia de que esses efeitos só aparecem nas relações entre pessoas, grupos e instituições. Em outras palavras, as relações são o espaço onde as estruturas ganham vida e onde a ação humana pode reforçar ou transformar essas estruturas. Entre os principais representantes dessa corrente estão Margaret Archer e Pierpaolo Donati, que desenvolveram modelos para explicar como as relações produzem mudanças sociais.[28][29]
Sociologia figuracional
O sociólogo alemão Norbert Elias propôs o conceito de “figuração” para descrever como as pessoas estão sempre ligadas umas às outras por relações de dependência mútua. Em vez de ver a sociedade como algo separado dos indivíduos, Elias a entende como o conjunto dessas inter-relações em movimento — o que ele chama de “pessoas no plural”. Sua teoria mostra que a vida social muda com o tempo e que o equilíbrio entre autonomia e dependência entre as pessoas nunca é fixo, mas se transforma continuamente ao longo da história.[30]
Quadro-resumo
| Vertente | Principais autores | Ideia central | Conceitos e contribuições-chave |
|---|---|---|---|
| Abordagem estrutural-relacional | Harrison White, Charles Tilly, Mustafa Emirbayer, Margaret Somers, Barry Wellman | O comportamento social é moldado pelas posições que indivíduos e grupos ocupam nas redes de relações. O foco está nas conexões e interdependências, não em características isoladas. | Estrutura relacional; posição em rede; vínculos sociais; análise de redes. |
| Abordagem processual e interacionista | François Dépelteau, Andreas Glaeser, Andrew Abbott | A vida social é um processo em constante mudança. As relações se formam, se desfazem e se reorganizam continuamente nas interações entre pessoas, grupos e instituições. | Processo; fluxo; interação; pragmatismo relacional; temporalidade. |
| Teoria do ator-rede | Bruno Latour, Michel Callon, John Law | O social é resultado de redes que conectam humanos e não humanos (objetos, tecnologias, ideias). A sociedade não é uma estrutura fixa, mas um efeito dessas conexões em movimento. | Atores-rede; associações; simetria entre humanos e não humanos; redes sociotécnicas. |
| Teoria dos sistemas | Niklas Luhmann | A sociedade é composta por sistemas de comunicação (como o político, o jurídico ou o econômico) que se autoreproduzem e se observam a si mesmos. | Autopoiese; sistemas sociais; comunicação; diferenciação funcional. |
| Realismo crítico relacional | Margaret Archer, Pierpaolo Donati | As estruturas sociais são reais e produzem efeitos, mas esses efeitos aparecem apenas nas relações. A mudança social ocorre quando a ação humana transforma essas estruturas. | Estrutura e agência; reflexividade relacional; morfogênese; bens relacionais. |
| Sociologia figuracional | Norbert Elias | A sociedade é formada por redes de interdependência entre pessoas que mudam ao longo do tempo. A vida social resulta do equilíbrio móvel entre autonomia e dependência. | Figuração; interdependência; processo civilizador; mudança histórica. |
Síntese de autores contemporâneos
Harrison White (1930-2024) foi figura central tanto na "revolução de Harvard" em análise de redes sociais (anos 1960-1970) quanto na posterior Escola de Nova York. Sua inovação foi desenvolver modelos matemáticos de estrutura social baseados em padrões de relações, não em atributos individuais. Entre suas contribuições metodológicas estão as "cadeias de vagas" (vacancy chains) — que mostram como uma vaga de emprego em uma organização desencadeia uma cadeia de movimentações — e os "modelos de blocos" (blockmodels) — técnicas matemáticas para identificar padrões estruturais em redes complexas. Por exemplo: em vez de explicar o comportamento de um executivo pelas suas qualificações pessoais, White propunha analisar a rede de relações profissionais em que esse executivo está inserido — com quem ele se comunica, de quem depende, a quem influência. Para White, é essa posição na rede de relações que molda fundamentalmente as ações e possibilidades do indivíduo.[31]
O conceito de "identidade e controle" argumenta que as identidades sociais não são características fixas que as pessoas possuem internamente, mas sim emergem e são mantidas através das relações sociais específicas nas quais as pessoas estão envolvidas. Um professor, por exemplo, não é professor de forma abstrata, mas constrói e mantém essa identidade através de suas relações concretas com alunos, colegas, instituições e práticas pedagógicas. White mostrou que os atores sociais buscam "controle" — isto é, previsibilidade e capacidade de ação — através do posicionamento estratégico em redes de relações.[16]
Sua obra mais recente Markets from Networks: Socioeconomic Models of Production (2002) aplicou essa perspectiva relacional à sociologia econômica, demonstrando que os mercados não funcionam como espaços abstratos onde forças impessoais de oferta e demanda operam livremente — como supõe a economia neoclássica. Ao contrário, os mercados são constituídos e estruturados por redes sociais concretas: produtores observam uns aos outros, estabelecem nichos de mercado através de relações de competição e colaboração, e os preços emergem dessas interações sociais estruturadas em rede, não de um mecanismo impessoal.[32]
Charles Tilly (1929-2008) aplicou a perspectiva relacional ao estudo de processos políticos e históricos de larga escala, desenvolvendo o conceito de "repertórios de confronto" (repertoires of contention) — conjuntos limitados de formas de ação coletiva disponíveis em determinado contexto histórico.[17] Por exemplo: no século XVIII, os repertórios incluíam ações como linchamentos, destruição de propriedades de autoridades locais e manifestações diante de casas de notáveis; já no século XX, os repertórios passaram a incluir greves organizadas, manifestações de rua com faixas e palavras de ordem, ocupações de prédios públicos e abaixo-assinados. Essas formas de protesto não são inventadas do zero a cada vez, mas aprendidas, transmitidas e modificadas através das relações entre ativistas, organizações e movimentos sociais ao longo do tempo.
Tilly demonstrou que fenômenos fenômenos políticos de grande escala como — como democratização, revoluções e movimentos sociais — devem ser compreendidos através de relações dinâmicas entre múltiplos atores ao longo do tempo — como trabalhadores se organizam e negociam com empregadores, como movimentos sociais formam coalizões, como o Estado responde a desafios e como essas interações transformam mutuamente todos os envolvidos — não por características fixas de grupos ou indivíduos — como insatisfação popular, consciência de classe ou valores democráticos.[17]
Ao invés de Tilly perguntar "quais são as características dos revolucionários?" ou "o que causa revoluções?", ele passou a investigar como as relações entre Estados, elites, classes populares e organizações intermediárias se transformam através de sequências específicas de interações — confrontos, negociações, alianças, repressões — que podem ou não resultar em uma revolução.[33]
O italiano Pierpaolo Donati fundamenta-se na ideia de que as relações têm existência própria e não são meras conexões entre substâncias pré-existentes. A amizade, por exemplo, gera algo novo — os "bens relacionais": confiança mútua, obrigações de reciprocidade, memórias compartilhadas, apoio emocional. Esses bens só existem enquanto a relação está ativa. Se a amizade termina, os bens relacionais deixam de existir, mesmo que as duas pessoas individualmente permaneçam as mesmas. A relação possui, portanto, propriedades emergentes irredutíveis às características dos indivíduos envolvidos.[1][21] A própria existência social das pessoas depende fundamentalmente de suas relações: identidade de um pai só existe através das relações concretas com filhos; a de um professor, através das relações com alunos e instituições. Isso redefine o objeto da sociologia: "a sociedade 'é' relação e não 'tem' relações."[34]
Além do conceito de "bens relacionais" ele desenvolveu também o de "reflexividade relacional" - a capacidade das relações sociais de observarem e modificarem a si mesmas, e "diferenciação relacional" - processo pelo qual novas formas relacionais emergem na sociedade, substituindo a diferenciação funcional como princípio explicativo da complexidade social.[1]
A socióloga britânica Margaret Archer tornou-se uma das principais referências da sociologia relacional de orientação realista. Sua teoria, chamada de modelo morfogenético, procura explicar que as mudanças sociais não são automáticas nem puramente individuais: elas surgem do entrelaçamento contínuo entre as estruturas que condicionam a ação e as ações que, por sua vez, transformam as estruturas. Archer propõe que é possível compreender esse processo observando separadamente, em diferentes momentos, a relação entre estrutura e agência — isto é, entre as condições sociais existentes e a capacidade das pessoas de agir dentro delas.[28]
O modelo funciona como um ciclo em três etapas. (1) Condicionamento estrutural (T1): as estruturas sociais — como leis, instituições, distribuição de recursos ou sistemas de valores — criam oportunidades e limites para a ação, mas não determinam completamente o comportamento das pessoas. Por exemplo: um sistema educacional existente condiciona quem tem acesso à universidade, mas não determina totalmente as escolhas individuais. (2) Interação social (T2–T3): dentro dessas condições, os agentes interagem entre si e podem tanto manter quanto transformar as estruturas existentes. Estudantes podem aceitar o sistema (morfostase) ou mobilizar-se para mudá-lo (morfogênese). (3) Elaboração estrutural (T4): as ações acumuladas produzem novos arranjos institucionais, que se tornam o ponto de partida para o próximo ciclo.[28] Essa separação temporal permite identificar os mecanismos causais específicos sem cair na ideia de que estrutura e agência se fundem num único momento, tornando impossível distinguir seus efeitos causais separados.
Archer também desenvolveu o conceito de "reflexividade relacional", argumentando que os seres humanos mantêm uma "conversação interior" (internal conversation) através da qual refletem sobre suas circunstâncias, relações e projetos. Essa reflexividade é relacional porque, embora seja um processo interno, é moldada pelas relações sociais da pessoa e, por sua vez, orienta como a pessoa se posicionará em suas relações futuras.[35] O sujeito relacional não é, portant nem o indivíduo atomizado do liberalismo nem o agente totalmente socializado do funcionalismo, mas alguém cuja identidade e capacidades emergem das relações, ao mesmo tempo que mantém a capacidade reflexiva de avaliar essas relações e eventualmente transformá-las.[36]
Ann Mische e Mustafa Emirbayer desenvolveram juntos uma teoria relacional da agência social, ou seja, a capacidade das pessoas de agir, fazer escolhas e influenciar o mundo social ao seu redor em contraste com apenas serem passivamente moldadas pelas estruturas sociais). Eles argumentam que a capacidade de agir emerge das relações sociais através de três dimensões: rotina (hábitos passados), propósito (orientação futura) e julgamento (avaliação do presente). Essas dimensões se entrelaçam em toda ação humana, embora em cada situação uma delas possa ser mais proeminente.[37][4]
Ann Mische colaborou com Emirbayer na teorização da agência relacional[37] e desenvolveu análises sobre deliberação pública e projetos coletivos em movimentos sociais. Sua obra Partisan Publics (2008) é considerada marco da sociologia relacional, integrando análise de redes com etnografia e estudo de conversações políticas. O livro é resultado de uma etnografia política e de redes que analisa como jovens ativistas brasileiros, especialmente nos anos 1980 e 1990, conectavam movimentos sociais e partidos políticos, mostrando como diferentes formas de comunicação moldam a ação coletiva e a deliberação pública.[38]

Em Towards Relational Sociology (2010), o britânico Nick Crossley argumentou que uma relação é uma trajetória vivida de interações repetidas — constrói-se através de uma história compartilhada de encontros passados e, ao mesmo tempo, projeta-se para o futuro através das expectativas mútuas que os participantes desenvolvem. Por exemplo: uma amizade não é apenas o conjunto de encontros que já aconteceram, mas inclui também as expectativas de que haverá futuros encontros, de que há obrigações mútuas a serem cumpridas, e de que existe uma memória compartilhada que dá continuidade à relação.[39] A abordagem de Crossley é fortemente empírica e metodológica, tendo aplicado análise de redes sociais a diversos campos: mundos musicais (especialmente as cenas punk e post-punk de Manchester, Liverpool e Sheffield), movimentos sociais, redes de saúde mental e criatividade cultural. Ele busca integrar análise estrutural de redes com atenção aos significados culturais, à agência criativa e às experiências vividas dos atores sociais.[39]
A sociologia relacional continua expandindo-se através de aplicações em diversas áreas: movimentos sociais, análise organizacional, sociologia da família, estudos urbanos e sociologia econômica.[40]
Exemplo de aplicação metodológica
Eduardo Marques desenvolveu métricas — como centralidade, densidade e a identificação de posições de intermediação — com o objetivo de compreender a estrutura relacional do campo decisório da cidade do Rio de Janeiro. Ele mapeou vínculos entre atores institucionais — como organizações não governamentais, associações de moradores, sindicatos e órgãos governamentais, e verificou como eles moldavam a implementação de políticas públicas e a gestão urbana no município. Os resultados revelaram que, apesar da pluralidade de organizações civis, as conexões mais densas e influentes se concentravam em poucos atores estatais e em um subconjunto restrito de organizações civis com acesso privilegiado à burocracia municipal, evidenciando assimetrias que limitaram a influência de segmentos mais periféricos da sociedade civil. A análise de redes sociais, nesse contexto, foi decisiva para tornar visíveis as configurações ocultas de poder e intermediação que condicionam a produção e a implementação de políticas públicas no espaço urbano.[41]
No estudo Partisan Publics, Mische realizou um estudo sobre redes de ativismo político juvenil no Brasil. A pesquisadora conceituou o espaço público como dimensão relacional, quer dizer, não como arena de "livre expressão" abstrata, mas como "espaço intersticial, entre sujeitos e instituições, no qual os participantes suspenderiam temporariamente certas marcas identitárias (vinculação a determinados grupos, movimentos, ideologias) visando à possibilidade de interlocução e negociação com outros sujeitos".[42] Esta definição operacionaliza o conceito relacional de que identidades e posições emergem da interação, não a precedem.
Críticas
Swedberg (2005) e Spillman e Strand (2013) argumentam que a sociologia relacional desconsidera o papel potencial que os interesses desempenham na ação social. De acordo com a chamada sociologia relacional, por exemplo, é antiquado e errado explicar as coisas por meio de "substâncias" (como interesses); tudo deve ser visto em termos de relações, e somente relações podem ser usadas para explicar.[43][44]
O sociólogo Christian Smith rejeita a posição de de que o substancialismo e o relacionalismo representam pontos de vista fundamentalmente diferentes, mas que a relacionalidade pura não pode e não cria objetos. Relações precisam de substâncias e substâncias precisam de relações. Tudo o que existe e todo o seu funcionamento requerem relações e substâncias.[45]
Ver também
- Teoria dos sistemas
- Redes sociais
- Realismo crítico
- Teoria ator-rede
- Análise de redes sociais
- Modelo matemático
- Redes complexas
Notas
- ↑ O termo autopoiese foi originalmente proposto por Humberto Maturana e Francisco Varela para designar sistemas vivos que se produzem e se mantêm a partir de suas próprias operações. Luhmann adaptou o conceito à sociologia para indicar que os sistemas sociais se reproduzem por meio das comunicações que geram.
- ↑ O realismo crítico, formulado pelo filósofo Roy Bhaskar nos anos 1970, é uma corrente que diz o seguinte: a realidade existe independentemente da nossa percepção, mas só podemos conhecê-la parcialmente, por meio da ciência e da experiência. Na sociologia, isso significa que as estruturas sociais existem de verdade — instituições, desigualdades, normas — e têm efeitos concretos sobre a vida das pessoas, mesmo que ninguém as veja ou nomeie diretamente. Por exemplo: mesmo que ninguém fale sobre “classe social” todos os dias, as diferenças econômicas continuam influenciando o que as pessoas podem ou não fazer. Ou seja, as estruturas têm poder causal real.
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Leitura complementar
MARQUES, Eduardo César (1998) Redes sociais e permeabilidade do Estado: instituições e atores políticos na produção da infraestrutura urbana no Rio de Janeiro. Tese de doutorado. Universidade de Campinas. Campinas.
ABRYTYN, S. (ed.) (2016) "Handbook of Contemporary Sociological Theory" Cham: Springer. (Handbooks of Sociology and Social Research). DOI: 10.1007/978-3-319-32250-6
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DÉPELTEAU, F. (ed.) (2018) "The Palgrave Handbook of Relational Sociology. Cham: Palgrave Macmillan. [Online] Available at: https://doi.org/10.1007/978-3-319-66005-9