Sherri Chessen

Sherri Chessen
Pseudônimo(s)Miss Sherri
Outros nomesSherri Finkbine
Nascimento
1932 (94 anos)

Sherri Chessen (nascida em 1932), também conhecida como Sherri Finkbine, é uma ex-apresentadora de televisão infantil americana. Ficou famosa como Miss Sherri, seu personagem na versão de Phoenix do programa infantil Romper Room [en]. Em 1962, Chessen tornou-se centro de uma controvérsia ao buscar um aborto após descobrir que a talidomida que ela tomava causava graves deformidades fetais quando usada no início da gravidez.[1]

Controvérsia sobre o aborto

Em 1961, o marido de Chessen, Bob Finkbine, acompanhou um grupo de estudantes do ensino médio em uma turnê pela Europa, onde comprou sedativos de venda livre e trouxe o restante para casa. Chessen tomou 36 desses comprimidos nos estágios iniciais de sua quinta gravidez, sem saber que continham talidomida,[1] que poderia causar deformidades no feto.[2] Seu médico recomendou que ela realizasse um aborto terapêutico,[3] o único tipo permitido no Arizona na época. Para alertar sobre os perigos da talidomida, Chessen contatou o jornal The Arizona Republic [en]. Embora tivesse sido assegurada de anonimato, sua identidade não foi mantida em segredo.[4] A mídia a identificou como "Sra. Robert L. Finkbine" e "Sherri Finkbine", embora ela pessoalmente não usasse esse nome.[5]

Após a publicação de sua história pelo jornal, o hospital onde ela planejava realizar o aborto, preocupado com a publicidade, buscou garantias de que não seria processado.[6] Como não obteve tais garantias, o aborto programado foi cancelado. Quando seu médico solicitou uma ordem judicial para prosseguir com o procedimento, ela e seu marido tornaram-se figuras públicas,[7][8] recebendo cartas e telefonemas contrários ao aborto solicitado. Algumas cartas continham ameaças de morte,[3] e o FBI foi acionado para protegê-la.[9] Ela também perdeu seu emprego como apresentadora do programa Romper Room.[10] O caso de Chessen foi arquivado pelo juiz Yale McFate, que concluiu que não tinha autoridade para decidir sobre o assunto.[4]

A controvérsia serviu de base para um telefilme em 1992, A Private Matter, com Sissy Spacek no papel principal.[11]

Aborto na Suécia

Chessen tentou ir ao Japão para realizar o aborto, mas teve o visto negado pelo consulado japonês.[12][13] Ela e seu marido viajaram então para a Suécia, onde ela obteve um aborto legal e bem-sucedido, que gerou uma pequena controvérsia. O conselho de aborto da Junta Médica Real Sueca aprovou o pedido de Chessen em 17 de agosto de 1962, para proteger sua saúde mental.[14] A operação foi realizada no dia seguinte.[1]

O obstetra sueco que realizou o aborto informou a Chessen que o feto não tinha pernas e possuía apenas um braço, e não teria sobrevivido. O médico afirmou que o feto era gravemente deformado, a ponto de não ser possível identificar seu gênero.[15] Em 1965, Chessen teve outra filha, saudável.[16]

Impacto

A interrupção da gravidez de Chessen é considerada um evento crucial na história dos direitos ao aborto nos Estados Unidos.[4] Segundo a historiadora Mary Frances Berry [en], sua história "ajudou a mudar a opinião pública [sobre o aborto]. Cinquenta e dois por cento dos entrevistados em uma pesquisa Gallup consideraram que ela fez a coisa certa."[17] Até 1965, Berry continua, "a maioria dos americanos, 77 por cento, queria a legalização do aborto 'quando a saúde da mãe estivesse em perigo'"; naquele mesmo ano, o The New York Times pediu a reforma da legislação sobre o aborto.[17][18] A Federação de Paternidade Planejada da América escreveu que Chessen teve condições financeiras para viajar ao exterior para realizar o aborto, mas muitas outras mulheres que buscavam interromper gestações indesejadas recorriam a abortos ilegais.[19]

Lee Epstein [en], professora de direito e ciência política, escreveu que "a situação de Finkbine gerou reações solidárias de várias organizações e, essencialmente, levou à criação de um movimento de reforma do aborto na América."[20]

Vida posterior

Chessen teve seis filhos de seu primeiro casamento com Robert Finkbine. O casal se divorciou em 1973. Chessen casou-se com David Pent em 1991, que faleceu em 2002.[5]

Entre setembro e dezembro de 1970, Chessen apresentou um programa de variedades de uma hora na KPAZ-TV [en] em Phoenix. Na década de 1990, ela fez dublagem para desenhos animados e escreveu dois livros infantis abordando questões de violência armada e bullying.[4]

Após a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubar o caso Roe v. Wade (caso Dobbs v. Jackson Women's Health Organization) em junho de 2022, Chessen concedeu uma entrevista ao CBS News Sunday Morning, quase 60 anos após seu aborto. Na entrevista, ela se descreveu como pró-escolha e contra o aborto, dizendo que os abortos são "muito horríveis", mas que "não podemos voltar aos gravetos de salgueiro e agulhas de tricô e todas as coisas com as quais as mulheres perfuraram seus úteros."[21][22]

Referências

  1. a b c «Mrs. Finkbine Undergoes Abortion in Sweden; Surgeon Asserts Unborn Child Was Deformed--Mother of 4 Took Thalidomide (Published 1962)» (em inglês). 19 de agosto de 1962. Consultado em 10 de setembro de 2025 
  2. «Abortion to Bar Defective Birth Is Facing Legal Snag in Arizona; Woman Took Tranquilizers That Cause Abnormal Children-Operation May Be Delayed Pending Legal Study (Published 1962)» (em inglês). 25 de julho de 1962. Consultado em 10 de setembro de 2025 
  3. a b 'Before Roe v. Wade: Voices that Shaped the Abortion Debate Before the Supreme Court's Ruling'[Kaplan Publishing], 2010, pgs. 11-18.
  4. a b c d «Sherri Finkbine's Abortion: Its Meaning 50 Years Later». 15 de agosto de 2012. Consultado em 10 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 2 de setembro de 2012 
  5. a b Bland, Karina (15 de abril de 2016). «54 years after abortion, no regrets for 'Romper Room' host, but still sadness». The Republic. Consultado em 26 de julho de 2019 
  6. «Mother Loses Round in Legal Battle for Abortion; Arizona Court Dismisses Suit for Prosecution Immunity (Published 1962)» (em inglês). 31 de julho de 1962. Consultado em 10 de setembro de 2025 
  7. «Abortion Suit Is Filed (Published 1962)» (em inglês). 26 de julho de 1962. Consultado em 10 de setembro de 2025 
  8. «Phoenix Abortion Ruling Delayed (Published 1962)» (em inglês). 28 de julho de 1962. Consultado em 10 de setembro de 2025 
  9. «HBO films explores 'A Private Matter', Wilmington Morning Star». news.google.com. 18 de junho de 1992. Consultado em 10 de setembro de 2025 
  10. McBride, Dorothy E. (2008). Abortion in the United States: a reference handbook. [S.l.]: ABC-CLIO. p. 142. ISBN 9781598840988 
  11. Tucker, Ken (12 de junho de 1992). «A Private Matter». Entertainment Weekly (em inglês). Consultado em 6 de dezembro de 2020 
  12. «U.S. MOTHER SEEKS AID FROM SWEDEN; Leaves to Try for Abortion to Avert Thalidomide Peril (Published 1962)» (em inglês). 5 de agosto de 1962. Consultado em 10 de setembro de 2025 
  13. «Humboldt-Universität zu Berlin». Cópia arquivada em 1 de novembro de 2006 
  14. «SWEDEN ACCEDES TO ABORTION PLEA; Board Cites 'Mental Health' Needs of Mrs. Finkbine (Published 1962)» (em inglês). 18 de agosto de 1962. Consultado em 10 de setembro de 2025 
  15. White, James E. (2008). Contemporary moral problems. [S.l.]: Cengage Learning. p. 147. ISBN 9780495553205 
  16. «Mrs. Finkbine Gives Birth To Fifth Child in Arizona (Published 1965)» (em inglês). 1 de fevereiro de 1965. Consultado em 10 de setembro de 2025 
  17. a b Berry, Mary Frances (1999). The Pig Farmer's Daughter and Other Tales of American Justice: Episodes of Racism and Sexism in the Courts from 1865 to the Present 1st ed. New York: Knopf. ISBN 0-679-43611-1. OCLC 39672030 
  18. «Click - Debating Reproductive Rights - Reproductive Rights and Feminism, History of Abortion Battle, History of Abortion Debate, Roe v. Wade and Feminists». www.cliohistory.org (em inglês). Consultado em 1 de dezembro de 2017 
  19. «Sherri Finkbine's Abortion: Its Meaning 50 Years Later». Planned Parenthood Advocates of Arizona (em inglês). 15 de agosto de 2012. Consultado em 1 de dezembro de 2017 
  20. «The Impact of the ACLU Reproductive Freedom Project» (PDF). epstein.law.northwestern.edu. Consultado em 10 de setembro de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 4 de setembro de 2006 
  21. «Sherri Chessen on her 1962 abortion, and the fate of Roe: "We can't go back to willow sticks and knitting needles" - CBS News». www.cbsnews.com (em inglês). 3 de julho de 2022. Consultado em 20 de outubro de 2024 
  22. Watch Sunday Morning: Sherri Chessen on her 1962 abortion, end of Roe - Full show on CBS (em inglês). 20 de outubro de 2024. Consultado em 20 de outubro de 2024 – via www.cbs.com 

Ligações externas