Serra da Nave
Localização:
A Serra da Nave é uma elevação (altiplano) no centro-norte de Portugal, no distrito de Viseu, estendendo-se pelos concelhos de Moimenta da Beira, Vila Nova de Paiva, Castro Daire e Tarouca. As suas penedias foram sede de municípios medievais como seja Pêra e Caria onde parece ter existido fortificações acasteladas, destruídas pelo exército de Almançor em 997, jamais reconstruídas e ocupadas, dando origem a povoações com o mesmo nome, mas mais próximas do vale. Situada entre os rios Paiva (leste e sul) e Távora (a nordeste), e a serra de Montemuro (a oeste) ligando-se a esta através de Santa Helena pertence ao Maciço Galaico-Duriense. O Planalto da Nave, corresponde à região natural do Alto Paiva e Alto Varosa, apresentando uma superfície de altiplano predominando altitudes entre os 750m e os 1000m, com elevações que ultrapassam ligeiramente este valor: 1008m no talefe da serra de Leomil (Moimenta da Beira), 1013m na Laje Branca (serra da Póvoa - Vila Nova de Paiva), igualmente 1013m na Nave (serra do Touro - Vila Nova de Paiva), e 1032m na serra da Cascalheira (Castro Daire).[1] [2]
Nome:
Do ponto de vista da geomorfologia é identificada como serra de Leomil desde meados do século XIX, mantendo a identidade como serra da Nave na sua dimensão histórica, sociológica, etnográfica, arqueológica, literária – veja-se o mestre da língua portuguesa, Aquilino Ribeiro, etc. O erro histórico de mudança de nome, nunca corrigido nem justificado, remonta ao ano de 1860, em que a parte (serra de Leomil) usurpou a designação do todo (serra da Nave). Diz-nos Aquilino: “O crisma data do dia em que, sob a direção do engenheiro Filipe Folque, os irmãos Costas Perry, procedendo ao levantamento da carta geodésica, içaram no topo mais alto o marco branco que o povo ficou a chamar talefe. Mal informados ou à laia de homenagem para com a localidade que os agasalhou, promoveram a denominação particular a genérica, passando a figurar nos atlas e publicações oficiais. Mas nunca perdeu o nome que tinha, tanto para as localidades circunscritas à zona montanhosa, como para os mais lugares e a própria cabeça do concelho. Os autores modernos, que se ocuparam da comarca, Leite de Vasconcelos, Vasco de Almeida Moreira, Manuel Fonseca da Gama, A. De Almeida Fernandes, António de Andrade, sem falar em Pina Manique e Albuquerque, geógrafo, etnólogo e campeão estrénuo da Beira-Douro, serra da Nave preferentemente lhe chamam. [3]
Embora o nome de “serra da Nave” se perca nas brumas da história, este tomar a parte pelo todo não é novo como o atesta a referência de Bernardo Brito, em 1609, à serra «que chamão de Pera»[4]. Mais recentemente, nas Memórias Paroquiais de 1758, a designação de “serra da Nave” é unânime, aparecendo nas Memórias de Ariz, Castelo (Moimenta), Peva, Peravelha, Touro, Vila Cova à Coelheira, Quintela e Leomil. Nesta última, o memorialista de Leomil refere 8 vezes serra da Nave e nem uma só vez serra de Leomil.[5] [6] A exceção estará no cura coadjutor de Ariz que a identifica como Nave de Pera.[7]
A designação de “serra de Leomil” ficará, assim, como um testemunho do centralismo prepotente que impõe uma mudança do nome histórico à revelia dos povos da Nave e suas tradições. Se esta confusão de nomes é um erro de geógrafos desconhecedores do significado e do ónus histórico-cultural da vetusta designação de serra da Nave, só nesse âmbito deve ser contido. Com efeito, quão absurdo seria considerar as populações de Alvite, Peravelha, Touro… ou, indo além, de Almofala e Pendilhe, mesmo de Cujó, como gente de Leomil! Todavia são gente da Nave e com esta serra construíram a sua história. Histórica e culturalmente, serra de Leomil estará sempre associada a uma localidade singular e será sempre a parte de um todo. Por essa razão, adverte Paul Choffat (1849-1919): “É sempre estranhável aplicar ao todo o nome de uma parte (…) Devem preferir-se os nomes que não sejam tirados de localidades”.[8]
A designação secular de Nave não virá do latim navis com significado muito distinto que remete para uma estrutura construtiva (nave de uma igreja ou construção, ou navio), antes virá do primitivo basco (euskara) significando planalto, ou altiplano. Diz-nos Aquilino Ribeiro: “Parece que nave em euscara significa planalto, e o maciço de que tratamos bem merece o título pela sua configuração: alto, arredondado e plaino, o prolongamento em verdade da meseta castelhana através das serras da Lapa e da Marofa”.[9]
Hidrografia:
A rede de cursos de água da serra da Nave faz parte da bacia hidrográfica do Douro. A precipitação média anual varia entre os 1600 e os 2400 mm, sofrendo influência da barreira natural dos maciços do Montemuro, que modera a influência dos ventos marítimos do Atlântico. A altitude associada à localização numa zona de transição entre um clima marítimo e o continental resulta em verões moderadamente quentes e invernos rigorosos. Cruzada por diversos ribeiros que correm por entre grandes formações rochosas e vegetação rasteira, é berço de diversos afluentes do Douro. Nela nasce o rio Paiva (Carapito, Moimenta da Beira), o rio Varosa (Várzea da Serra, Tarouca) e o rio Mau (Castro Daire), outrora povoados de engenhos movidos a água. As Memórias Paroquiais dão conta de inúmeros açudes, moinhos e pisões ao longo dos cursos de água que cruzam ou escoam da serra da Nave.[10]
Flora:
A vegetação dominante varia em função da altitude, da pluviosidade e da orientação das vertentes conforme escoem para o Paiva ou para o Távora. Predomina o mato rasteiro nas zonas mais elevadas e expostas aos ventos e mais arborizadas nos vales e menor altitude. Nos matagais dominam giestas (Genisteae), urzes ou torgas (Erica), rosmaninho (Lavandula stoechas), tojos (Ulex), fetos (Polypodiopsida), sargaços e estevas (espécies de Cistus). Como espécies arbóreas prevalece o pinheiro bravo (Pinus pinaster), o carvalho negral (Quercus pyrenaica), carvalho alvarinho (Quercus robur), pinheiro manso (Pinus pinea), castanheiro (Castanea sativa) e o teixo (Taxus bacata). Recentemente foi introduzido e generalizado o eucalipto (Eucalyptus). Como vegetação ripícola domina o amieiro, (Alnus glutinosa), o freixo (Fraxinus excelsior), salgueiro e vime (ambas do género Salix) e sabugueiro (Sambucus nigra).
Património Arqueológico:
O megalitismo da serra da Nave testemunha a presença de comunidades tardias, comunidades estas que desenvolveram comportamentos simbólicos marcados pela consagração de sepulturas aos mortos e, certamente, demais rituais fúnebres com relação ao sagrado.[11]
A ocupação da serra da Nave está atestada desde os finais do V milénio a. C. nos monumentos megalíticos desta fase, muitas vezes reutilizados em épocas posteriores. Em trabalhos de prospeção arqueológica foram identificadas cerca de 3 centenas de jazidas arqueológicas. São construções devotadas a sepulturas e outros rituais associados, os dólmens, que podem apresentar complexidade e dimensão muito distintas, oferecendo a serra da Nave uma grande diversidade, com algumas estruturas bem conservadas e de significativa dimensão.[12]
- ↑ Carta Militar de Portugal Continental folhas n.º 147, 148,157,158
- ↑ «Paiva Natura». Consultado em consultado em 13-12-2025 Verifique data em:
|acessodata=(ajuda) - ↑ Ribeiro, Aquilino (1968). O Homem da Nave. Lisboa: Bertrand. p. 9-10
- ↑ Brito, Bernardo de (1609). Da Monarchia Lusytana - Segunda Parte. [S.l.: s.n.] p. 353
- ↑ Costa, Pina da (2024). As Terras do Demo nas Memórias Paroquiais de 1758. Lisboa: do Autor. pp. 20 e 323–326. ISBN 978-989-35862-1-1
- ↑ «Memórias Paroquiais de 1758». IANTT. Memórias Paroquiais de 1758. Consultado em 22 de abril de 2024
|nome1=sem|sobrenome1=em Authors list (ajuda) - ↑ IANTT Ariz - Memórias Paroquiais, vol. 4, memória 81, fl S. 567-560. (consultado em 22 abril de 2024)
- ↑ Choffat, Paul (2019). Notícia Explicativa da Carta Hipsométrica de Portugal, LNEG. Lisboa: LNEG
- ↑ Ribeiro, Aquilino (1968). O Homem da Nave. Lisboa: Bertrand. p. 11
- ↑ Costa, Pina da (2024). As Terras do Demo nas Memórias Paroquiais de 1758. Lisboa: do Autor. pp. 136–137 e 264–265). ISBN 978-989-35862-1-1
- ↑ Cruz, Domingos J. da (coordenação) (2000). Roteiro Arqueológico de Vila Nova de Paiva. [S.l.]: C. M. Vila Nova de Paiva
- ↑ Cruz, Domingos J. da (2011). As estátuas-menires da serra da Nave (Moimenta da Beira, Viseu) no contexto da ocupação pré-histórica do Alto Paiva e da Beira Alta. In Estelas e estátuas-menires da Pré à Proto-história, coordenação de Raquel Vilaça. [S.l.]: Edição Sabugal + E.M. pp. 117–142