Sarcófago de Alexandre

Alexandre derrota os persas em um dos lados longos do Sarcófago de Alexandre
Reconstrução colorida de um dos lados curtos do sarcófago

O Sarcófago de Alexandre é um sarcófago em pedra do final do século IV a.C., de estilo helenístico, proveniente da Necrópole real de Ayaa próxima a Sídon, no Líbano.[1] É ornamentado com esculturas em alto-relevo representando Alexandre, o Grande e cenas narrativas de caráter histórico e mitológico. A obra é considerada excepcionalmente bem preservada, tanto estruturalmente quando pelas suas remanescentes marcas de policromia, prática comum na Antiguidade em que estátuas e edificações eram pintadas em cores vibrantes.[2] Atualmente encontra-se no acervo do Museu Arqueológico de Istambul.[3]

História

Segundo diversos estudiosos, tanto a proveniência quanto a datação do Sarcófago de Alexandre são amplamente aceitas,[4] situando sua produção na cidade de Sídon, provavelmente após 332 a.C.[4] A presença contínua de representações de Abdalônimo, rei de Sídon, ajuda a delimitar o período de execução do sarcófago. Sabe-se que Abdalônimo foi nomeado por Alexandre entre 333 e 332 a.C.,[5] e que morreu por volta de 311 a.C. (embora a data exata seja desconhecida).[5] O arqueólogo e estudioso Karl Schefold demonstrou que o sarcófago foi feito antes da morte de Abdalônimo,[6] em razão de seu estilo ainda clássico, supostamente não influenciado pela obra de Lísipo. Para Schefold, o sarcófago mantém uma abordagem conservadora[6] em sua composição e iconografia, contrastando com a progressão estilística marcada por Lísipo. Ele também afirma que o túmulo teria sido preparado em vida do rei,[6] embora a cronologia incerta mantenha essa hipótese em aberto.

Descoberta

O Sarcófago de Alexandre foi encontrado na Necrópole real de Ayaa, uma necrópole subterrânea dividida em dois hipogeus,[4] consistindo de salas interligadas. Provavelmente funcionava como necrópole real,[4] o que auxilia na discussão sobre seu possível patrono.

Este sarcófago é um dos quatro grandes sarcófagos entalhados encontrados em dois pares durante as escavações de 1887 conduzidas por Osman Hamdi Bey e Yervant Voskan em Sídon, no Líbano.

Debate acadêmico

Secção transversal da Necrópole de Ayaa. O Sarcófago de Alexandre está no centro inferior.

Patrono

Embora se saiba desde cedo que este não foi o sarcófago de Alexandre, o Grande,[4] há amplo debate sobre quem o encomendou. Inicialmente acreditou-se[7] que fosse o sarcófago de Abdalônimo (m. 311 a.C.), rei de Sídon nomeado por Alexandre após a Batalha de Isso (333 a.C.).[8]

O estudioso Andrew Stewart defende que o sarcófago foi encomendado pelo próprio Abdalônimo, seguindo a prática comum de reis orientais que preparavam seus túmulos em vida, visando sua reputação póstuma.[9]

Entretanto, Waldemar Heckel argumenta que o sarcófago teria sido feito para Mazaeus, nobre persa e governador de Babilônia. Ele questiona por que um sarcófago para Abdalônimo incluiria tantas figuras e iconografias persas,[5] sugerindo que trajes, feições e atividades do personagem central se alinham mais à nobreza persa.[5] Heckel também propõe que um dos frisos laterais represente a Batalha de Gaugamela (331 a.C.), enfatizando a liderança militar de Mazaeus.[5]

Atribuição

A autoria cultural do sarcófago também é tema de debate. Schefold identifica seis mãos de escultores jônios, trabalhando em um estilo ático.[6] Stewart concorda, associando a síntese estilística à escultura ático-helenística.[9] A arqueóloga Margaret C. Miller argumenta que a obra foi provavelmente feita por uma oficina rodiana atuando em Sídon.[10]

Como Sídon era uma cidade fenícia,[4] estudiosos como Caroline Houser veem raízes fenícias na obra. A maioria dos detalhes escultóricos remete ao estilo grego,[4] reflexo da captura grega da região. Entretanto, há elementos orientais, como os leões com atributos asiáticos[4] e criaturas mitológicas com “três chifres de carneiro em cabeças felinas”,[4] desconhecidas da fauna helenística.

Interpretação

Sarcófago de Alexandre (2024)

A cumeeira do sarcófago, composta por dois blocos maciços de mármore,[9] é adornada com pequenas estatuetas femininas, possivelmente representações da deusa Atargatis.[9] Os frisos e frontões apresentam diferentes narrativas,[9] cuja interpretação não é unânime entre os estudiosos.[9] Alguns veem uma narrativa biográfica de Abdalônimo, começando em 333/332 a.C. com a Batalha de Isso[9] e terminando em 306/305 a.C.[9] Stewart, porém, defende que não há um programa unitário,[9] pois os temas variam e mesclam padrões iconográficos ocidentais e orientais.[9]

Os relevos do lado longo mostram Alexandre combatendo persas em Isso. Volkmar von Graeve comparou o motivo ao Mosaico de Alexandre de Nápoles, concluindo que ambos derivam de uma pintura hoje perdida de Filoxeno de Eretria.[11] A comparação é amplamente aceita, inclusive por Stewart.[12]

Alexandre aparece montado, usando uma pele de leão e prestes a lançar uma lança contra a cavalaria persa. Debates persistem sobre a historicidade das figuras. Von Graeve as interpreta como retratos reais,[11] ao passo que Schefold as vê como representações míticas associadas à realeza e à caça.[6] Alguns identificam outro cavaleiro macedônio como Heféstion e um terceiro como Pérdicas.

O lado oposto mostra Alexandre reconhecível como o “cavaleiro à esquerda do centro”[9] caçando leões com Abdalônimo e persas. Stewart sugere que a cena represente uma caçada de Alexandre no parque real de Sídon em 332 a.C.[9] A colaboração entre macedônios e persas aqui contrasta com o massacre persa na cena oposta da Batalha de Isso.[9]

Em um dos lados curtos, vê-se uma caça mítica ao leão e, acima, no frontão, Abdalônimo em batalha.[9] O outro lado curto mostra uma batalha possivelmente identificada com a Batalha de Gaza (312 a.C.), com o frontão representando o assassinato de Pérdicas em 320 a.C.[9] Há hipóteses não comprovadas de que Abdalônimo teria morrido em Gaza.[9]

Policromia

O sarcófago é feito de mármore pentélico e conserva vestígios de policromia, em estilo similar ao de um templo grego. A policromia foi observada já na escavação de 1887.[4] Os macedônios são representados nus, conforme a iconografia grega,[2] mas originalmente pintados com detalhes de pele, cabelos, elmos e escudos. Os persas eram representados com armaduras coloridas, padrões elaborados em calças e túnicas[2] e escudos decorados.

Ver também

Notas

  1. Ancient Greece: From the Archaic Period to the Death of Alexander the Great, Britannica Educational Publishing, p.176
  2. a b c «Gods in Color - Golden Edition». Cópia arquivada em 15 de julho de 2017 
  3. Números de inventário do Museu de Istambul: 72–74.
  4. a b c d e f g h i j Palagia, Olga (1998). Regional Schools in Hellenistic Sculpture. [S.l.]: Oxbow Books, Limited. pp. 281–289 
  5. a b c d e Heckel, Waldemar. «Mazaeus, Callisthenes and the Alexander Sarcophagus». Historia: Zeitschrift für Alte Geschichte. 55: 385–396 
  6. a b c d e Sismondo Ridgway, Brunilde (1969). «Review: Der Alexander-Sarkophag by Karl Schefold». American Journal of Archaeology. 73. 482 páginas. JSTOR 504019. doi:10.2307/504019 
  7. Studniniczka Achäologische Jahrbook 9 (1894), pp. 226ss; F. Winter, 1912.
  8. J. D. Beazley e Bernard Ashmole, (Greek Sculpture and Painting 1932, p. 59, fig. 134), Margarete Bieber ("The Portraits of Alexander" Greece & Rome, 2ª série, 12.2, 1965, pp. 183–188) e Karl Schefold (Der Alexander-Sarkophag 1968).
  9. a b c d e f g h i j k l m n o p Stewart, Andrew (1993). Faces of Power: Alexander's Image and Hellenistic Politics. Oxford: University of California Press. pp. 294–298 
  10. Miller, Margaret C. (2004). Athens and Persia in the Fifth Century BC: A Study in Cultural Receptivity. [S.l.]: Cambridge University Press. 122 páginas 
  11. a b von Graeve, Volkmar (1970). Der Alexandersarkophag und seine Werkstatt. Berlin: [s.n.] 
  12. Stewart, Andrew (1993). Faces of Power. [S.l.]: UC Press. 43 páginas 

Referências

  • Gods in Color - Golden Edition
  • Heckel, Waldemar. "Mazaeus, Callisthenes and the Alexander Sarcophagus." Historia: Zeitschrift für Alte Geschichte 55, 2006.
  • Miller, Margaret C. Athens and Persia in the Fifth Century BC: A Study in Cultural Receptivity. Cambridge University Press, 2004.
  • Palagia, Olga. Regional Schools in Hellenistic Sculpture. Oxbow Books, 1998.
  • Sismondo Ridgway, Brunilde. "Review: Der Alexander-Sarkophag by Karl Schefold." American Journal of Archaeology 73, 1969.
  • Stewart, Andrew. Faces of Power: Alexander's Image and Hellenistic Politics. University of California Press, 1993.
  • von Graeve, Volkmar. Der Alexandersarkophag und seine Werkstatt. Berlin, 1970.

Ligações externas