Ruy Ferraz Fontes

Ruy Ferraz Fontes
Nascimento
Morte
15 de setembro de 2025 (64 anos)

Nacionalidadebrasileiro
Ocupaçãodelegado de polícia
servidor público

Ruy Ferraz Fontes (São Paulo, 1 de abril de 1961Praia Grande, 15 de setembro de 2025)[1] foi um delegado de polícia brasileiro, atuante na Polícia Civil do Estado de São Paulo, onde exerceu o cargo de delegado-geral da corporação entre 2019 e 2022. Destacou-se pelo combate pioneiro ao crime organizado paulista, em particular ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Formação

Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo (FDSBC), onde também concluiu uma pós-graduação lato sensu em Direito Civil.[2] Realizou especializações em administração geral e financeira em órgãos públicos e participou de cursos internacionais relacionados à repressão ao narcotráfico e ao terrorismo, em países como França e Canadá.[3][4] Além disso, atuou como professor Assistente de Criminologia e Direito Processual Penal da Universidade Anhanguera e também como professor de Investigação Policial pela Academia da Polícia do Estado de São Paulo.[5]

Carreira policial

Iniciou a carreira na Polícia Civil de São Paulo no início da década de 1980, atuando em diferentes unidades do interior e da capital.[6] Foi delegado titular em delegacias como a do município de Taguaí, além de ter chefiado setores estratégicos como a Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Denarc), a Delegacia de Investigações sobre Furtos e Roubos a Bancos, no Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), e a Delegacia de Polícia Especializada em Homicídios, vinculada ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).[2] Também ocupou a direção do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap).[7] Fontes atuou por mais de 40 anos na corporação, até a sua aposentadoria em 2023.[8][9]

Atuação contra o PCC

No Deic, Ruy Ferraz Fontes se tornou o primeiro delegado a investigar a atuação da facção no estado. Em maio de 2002,[10] Fontes divulgou um inédito organograma do PCC, que trazia no topo o nome de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, e da ex-mulher dele, a advogada Ana Maria Olivatto, assassinada a tiros em Guarulhos após ser jurada de morte pela cúpula da facção à época por supostamente colaborar com a polícia.[11][12] Nesse momento, expressos no relatório de Fontes, também integravam o primeiro escalão José Márcio Felício, o Geleião e de César Augusto Roriz Silva, o Cesinha, fundadores do PCC que foram jurados de morte pelo Marcola, após a morte de sua ex-mulher.[12][13]

Nesse cenário, em novembro de 2002, após ser excluído da organização, Geleião concedeu informações ao Deic sobre o PCC, fato que contribuiu para que 16 lideranças da facção fossem isoladas, em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) na penitenciária de Presidente Bernardes, e posteriormente indiciadas por Fontes pelo crime de formação de quadrilha.[10]

Em 2003, o delegado divulgou outro organograma da facção. Dessa vez, após as alterações internas geradas pelas disputas de liderança no ano anterior, figuravam como líderes, ao lado de Marcola, os nomes de Júlio César Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, e Sandro Henrique da Silva Santos, o Gulu.[12]

Em 2006, Fontes foi o responsável por indiciar toda a cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC), incluindo o líder Marcola, antes de serem isolados no presídio de segurança máxima de Presidente Venceslau.[14][15]

Nomeação a delegado-geral

Em janeiro de 2019, foi nomeado delegado-geral da Polícia Civil do Estado de São Paulo, durante o governo de João Doria, permanecendo no cargo até abril de 2022.[16] Nesse período, conduziu políticas de reorganização administrativa da corporação e intensificou operações de enfrentamento ao crime organizado.[17]

Atuação em cargos públicos

Após sua saída da Delegacia Geral e posterior aposentadoria da Polícia Civil, Fontes assumiu em janeiro de 2023 o cargo de secretário de Administração da Prefeitura de Praia Grande, no litoral paulista, onde permaneceu até sua morte.[3] No município, fazia a gestão de recursos humanos, gestão de patrimônio e era responsável pela última fase dos processos licitatórios. Ele acompanhava também os processos administrativos relacionados ao pagamento de salários.[18]

Morte

Ruy Ferraz Fontes foi morto em 15 de setembro de 2025, aos 64 anos, em Praia Grande, município de São Paulo.[19] O crime, de alta repercussão midiática, ocorreu quando deixava a prefeitura, sendo alvo de uma emboscada praticada por homens armados. O veículo em que estava foi perseguido, colidiu com um ônibus e capotou, momento no qual criminosos dispararam diversos tiros de fuzil contra ele.[20] A investigação inicial apontou indícios de execução planejada, com suspeita de envolvimento do PCC, em razão de sua longa trajetória de combate à facção.[6] Pouco antes de sua morte, Fontes havia relatado a pessoas próximas preocupações com a própria segurança, afirmando que se encontrava sem estrutura de proteção adequada e exposto a riscos.[21]

Referências

  1. «Curriculum Vitae de Ruy Ferraz Fontes» (PDF). Câmara Municipal de São Paulo. 27 de fevereiro de 2007. p. 3, 5. 
  2. a b Coelho, Thomaz (15 de setembro de 2025). «Quem era Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado inimigo do PCC executado em SP». CNN Brasil. Consultado em 17 de setembro de 2025 
  3. a b Pilipavicius, Ludmila (5 de janeiro de 2023). «Secretaria de Administração de PG passa a contar com novo secretário». Prefeitura de Praia Grande. Consultado em 16 de setembro de 2025. Arquivado do original em 15 de janeiro de 2026 
  4. «Emboscadas e assaltos: O que se sabe sobre atentados vividos por ex-delegado-geral antes de execução em SP; saiba mais». O Globo. 16 de setembro de 2025. Consultado em 17 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 15 de janeiro de 2026. (pede subscrição (ajuda)) 
  5. Sacheto, Cesar; Porto, Renan (16 de setembro de 2025). «Ex-delegado assassinado em SP era considerado inimigo n° 1 do PCC». Metrópoles. Consultado em 17 de setembro de 2025 
  6. a b Souza, Beto (16 de setembro de 2025). «Execução de ex-delegado em SP: o que a polícia sabe sobre crime». CNN Brasil. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  7. «Ex-delegado-geral de SP é assassinado no litoral paulista». A Gazeta. 15 de setembro de 2025. Consultado em 16 de setembro de 2025 [ligação inativa] 
  8. «Quem era o delegado inimigo do PCC morto em emboscada em SP». Deutsche Welle. 16 de setembro de 2025. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  9. «Na Alesp, familiares, amigos e colegas de profissão se despedem do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes». Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. 16 de setembro de 2025. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  10. a b Penteado, Gilmar (26 de novembro de 2002). «Crime organizado: Polícia indicia e isola 16 líderes do PCC». Folha de S.Paulo. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  11. Jozino, Josmar (22 de novembro de 2021). «Assassinato de ex-mulher de Marcola gerou a maior guerra interna no PCC». UOL. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  12. a b c Jozino, Josmar (17 de setembro de 2025). «Delegado assassinado divulgou o primeiro organograma do PCC em 2002; veja». UOL. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  13. Gonçalves, Eduardo (10 de maio de 2021). «Geleião criou o PCC, delatou Marcola e, jurado de morte, morreu de Covid». Veja. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  14. Arcoverde, Léo; Rodrigues, Rodrigo (16 de setembro de 2025). «Ruy Ferraz já escapou de plano do PCC para matá-lo em 2010, diz promotor». G1. Consultado em 17 de setembro de 2025 
  15. Bonets, Vitor (16 de setembro de 2025). «Inimigo do PCC: o que se sabe sobre execução de ex-delegado-geral em SP». CNN Brasil. Consultado em 17 de setembro de 2025 
  16. «Quem é Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral de São Paulo assassinado na Praia Grande». InfoMoney. 16 de setembro de 2025. Consultado em 17 de setembro de 2025 
  17. «Ex-delegado-geral de São Paulo é assassinado em emboscada». Folha Vitória. 16 de setembro de 2025. Consultado em 17 de setembro de 2025 
  18. Kruse, Tulio (16 de setembro de 2025). «Ex-delegado cuidava de pregões licitatórios e patrimônio público na prefeitura de Praia Grande». Folha de S.Paulo. Consultado em 17 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 15 de janeiro de 2026. (pede subscrição (ajuda)) 
  19. Dias, Paulo Eduardo; Richmond, Klaus (15 de setembro de 2025). «Ruy Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de SP, é assassinado na Praia Grande». Estado de Minas. Consultado em 16 de setembro de 2025 
  20. Marques, Bárbara (16 de setembro de 2025). «Enterro de ex-delegado Ruy Ferraz é marcado por homenagens». Folha de S.Paulo. Consultado em 17 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 17 de setembro de 2025. (pede subscrição (ajuda)) 
  21. «'Não tenho estrutura nenhuma', disse ex-delegado antes de morrer». Poder360. 16 de setembro de 2025. Consultado em 16 de setembro de 2025 

Bibliografia

  • Christino, Marcio Sergio; Tognolli, Claudio (6 de dezembro de 2017). Laços de sangue: A história secreta do PCC. São Paulo: Matrix. ISBN 978-85-8230-425-9