Rusga de Marselha
| Rusga de Marselha | |
|---|---|
| Parte de Holocausto na França | |
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| Nome nativo | Rafle de Marseille |
| Data | 22, 23 e 24 de janeiro de 1943 |
| Local | |
| Coordenadas | 43° 17′ 47″ norte, 5° 22′ 12″ leste |
| Tipo | Rusga |
| Organizado por | |
| Participantes | |
| Inquérito | O sistema de justiça francês, por meio do Ministério Público de Paris, abriu um processo por crimes contra a humanidade em 29 de maio de 2019. |
| Apreensões |
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A rusga de Marselha, também conhecida como Operação Sultan,[1][2] foi a deportação sistemática dos judeus de Marselha no Vieux-Port da cidade, entre 22 e 24 de janeiro de 1943, sob o regime da França de Vichy, durante a ocupação alemã da França. Auxiliados pela polícia francesa, sob o comando de René Bousquet, os alemães organizaram uma rusga composta por quase 6 000 pessoas, para prender os judeus.[2] A polícia verificou os documentos de identidade de 40 000 pessoas e a operação enviou 1 642 pessoas, incluindo 782 judeus,[2] — entregues aos alemães e colocados em vagões para transporte de gado —, primeiro para Fréjus, depois para o Campo de Royallieu, próximo a Compiègne, na região norte da França, e então para o Campo de Drancy, última parada antes dos campos de extermínio, como o de Sobibor.[3]
A operação também incluiu a expulsão de um bairro inteiro, com cerca de 20 000 pessoas, antes de sua destruição.[4] Localizado no bairro Vieux-Port, o primeiro arrondissement era considerado um "ninho de terroristas" pelos alemães, devido a suas ruas pequenas, estreitas e sinuosas.[5] Para a ocasião, o líder da Schutzstaffel, Carl Oberg, comandante das forças policiais alemãs na França, viajou de Paris e transmitiu ordens que recebeu diretamente de Himmler a René Bousquet. Tratou-se de um caso notável de colaboração entre a polícia francesa e os ocupantes alemães.[6]
Contexto histórico
A invasão promovida pelos Aliados ao desembarcarem no Norte da África e colocarem em execução a Operação Tocha desencadeou um contra-ataque cuidadosamente preparado pelos Nazis. Como parte da Operação Anton, tropas alemãs ocuparam Marselha a partir de 12 de novembro de 1942, invadindo a cidade com tanques e veículos camuflados, atravessando o Portão d'Aix, passando pelo boulevard d'Athènes e pela Canebière, até o bairro Vieux-Port e o centro da cidade — a primeira ocupação da cidade desde 1815. Soldados da Wehrmacht se estabeleceram em escolas locais e lotaram bares e cinemas.[7]
Embora os invasores tivessem muito a aprender sobre a cultura local, trouxeram consigo um sólido preconceito contra Marselha, considerada um "covil de criminosos internacionais" e uma versão francesa de Hamburgo.[7] A ocupação alemã enfrentou resistência: uma série de ataques atingiu as tropas nazistas, incluindo dois que mataram oficiais e soldados, em 3 de janeiro de 1943.[8] Em resposta, e para justificar as represálias, Oberg declarou em 14 de janeiro de 1943, perante as autoridades francesas de Vichy, que Marselha era "o cancro da Europa".[9] As autoridades alemãs decidiram realizar operações de represália, confirmadas pela diretiva secreta de Heinrich Himmler, de 18 de janeiro de 1943, impondo medidas severas contra a população local:[8]
- a prisão dos criminosos de Marselha e sua deportação para a Alemanha, compreendendo aproximadamente 8 000 pessoas;[10]
- a destruição do "bairro criminoso"; e
- a participação da polícia francesa em tais operações.
A operação alemã visava remodelar o bairro de Vieux-Port, cujas ruas estreitas eram consideradas perigosas pelas autoridades alemãs.[11] Além disso, conforme as instruções de Himmler, a população detida deveria ser evacuada para campos de concentração na região norte — particularmente em Compiègne —, enquanto o bairro passava por uma revista realizada pela polícia alemã, auxiliada por seus colegas franceses, após o que os prédios seriam dinamitados. Contudo, em 15 de janeiro, as autoridades francesas, entre as quais o próprio Bousquet, conseguiram negociar alguns ajustes para a realização da operação, como a condução das ações principalmente por franceses, a redução do perímetro que seria evacuado e o envio daqueles que fossem evacuados primeiro para o campo de Fréjus, e não diretamente para Compiégne.[9]
Curso de ação
Em resposta à invasão promovida pelos Aliados, Hitler ordenou imediatamente a destruição do distrito de Vieux-Port. Em 13 de janeiro de 1943, Herbert Hagen, Carl Oberg, René Bousquet e o então chefe da polícia de Marselha, Maurice Rodel-du-Porzic, entre outras pessoas, se reuniram para discutir os detalhes da operação, decidindo realizar operações policiais bastante elaboradas em duas datas: na noite de sexta-feira, 22, para sábado, 23 de janeiro, em diversos bairros da cidade; e na noite de 23 para 24 de janeiro, entre 20h e 6h, no bairro de Vieux-Port.[12] Marselha foi investida por uma vasta força de segurança francesa, totalizando 12 000 policiais, gendarmes, guardas móveis e inspetores a paisana.[9] Antoine Lemoine, então prefeito do departamento de Bocas do Ródano e da cidade de Marselha, determinou que os policiais deveriam prender pessoas com antecedentes criminais, cafetões, moradores de rua, vagabundos, canalhas, pessoas sem licença para comer, estrangeiros sem autorização de residência, pessoas sem um emprego legal por mais de um mês — e todos os judeus.[13]
Execução da rusga


A operação começou nos arredores da Casa de Ópera, na noite de sexta-feira, 22 de janeiro. Ônibus começaram a circular pelas ruas rumo às favelas portuárias de Le Panier, a parte mais antiga da cidade.[6] Unidos a seus colegas alemães, cerca de 10 000 policiais franceses vasculharam primeiro os bairros além do porto, percorrendo casa por casa, inspecionando cada andar e obtendo listas de hóspedes de hotéis e quartos alugados por clientes particulares.[13] As atividades policiais, consideradas das mais importantes já vistas na França, duraram até a manhã de 24 de janeiro, com todo o centro da cidade barrado e revistado. Às cinco horas da tarde de sábado, 23 de janeiro, o regimento da SS cercou o bairro de Vieux-Port, instalando cavalos de frisa, arame farpado e auto-metralhadoras.[9]
Usando alto-falantes, a polícia ordenou aos moradores de Vieux-Port que deixassem suas casas e todos os seus pertences.[14] No domingo, 24 de janeiro, às seis horas da manhã, um toque de clarim soou enquanto carros equipados com rádios difundiram uma mensagem de evacuação.[9] Os policiais então instruíram a todos que trouxessem consigo apenas bagagem de mão, composta de cobertores, roupas, agasalhos e alimentos para quarenta e oito horas,[9] o que levou os moradores a terem a impressão de que ficariam fora por um curto período.[6] A mensagem de rádio alertava que aqueles que fossem encontrados portando armas de fogo ou armas brancas seriam detidos imediatamente e condenados à pena de morte.[9] Quando foram finalmente liberados, os milhares de moradores retornaram e descobriram que suas casas haviam sido dinamitadas. Nenhum deles recebeu indenização, ou qualquer outro tipo de ajuda da prefeitura.[6]
Prisões e deportações
De um total de 40 000 pessoas controladas durante toda a operação,[9] a rusga policial resultou em 5 956 pessoas presas, das quais 3 977 foram liberadas depois de investigação mais aprofundada.[14] Um total de 1 642 pessoas[14] — em sua maioria judeus e refugiados do Leste Europeu[9] — permaneceram presas, sendo identificadas e levadas para a estação ferroviária de Arenc,[14] de onde um trem partiu às nove horas, rumo ao Campo de Royallieu, próximo de Compiègne. Outras 600 pessoas foram consideradas suspeitas, passando por novo processo de investigação: quase todas foram posteriormente levadas para campos de trânsito — a maioria deles escalas a caminho dos campos de extermínio no Leste.[14] Os cerca de 20 000 evacuados do bairro de Vieux-Port foram levados até a estação de Arenc e, de lá, em vagões de mercadorias, chegaram a Fréjus, sendo instalados em campos sem qualquer preparação, se deparando com frio glacial e palha suja, contrastando com a propaganda da época, que vangloriava a qualidade do acolhimento reservado às pessoas.[9]
Testemunhos
Os relatos da evacuação testemunham cenas de aflição: "Viam-se moribundos, doentes, mulheres em trabalho de parto na calçada, idosos atordoados sem saber para onde ir, dentre eles um avô que gritava 'Deixem me aqui! Quero morrer aqui!'". A corrupção era evidente: enquanto algumas pessoas, como médicos e padeiros, recebiam autorização para passar pelos bloqueios policiais, outros passes eram vendidos com frequência pelos militares, a preços muito caros.[9]
Uma entrada do diário do advogado Lucien Vidal-Naquet, datada de 25 de janeiro, "a polícia francesa obedeceu às ordens de Berlim realizando buscas e prisões em massa, destinadas a entregar ao Moloque nazista o contingente de carne humana ordenado: trabalhadores, mulheres e crianças foram presos de forma completamente arbitrária e jogados em vagões lacrados com destino a trabalhos forçados na Polônia e na Rússia".[14]
A destruição do bairro de Vieux-Port

Após o encerramento da rusga, tropas de engenharia alemãs começaram a agir. Começando em primeiro de fevereiro de 1943, os soldados destruíram 1 200 prédios com explosivos, e todo o bairro, cuja área equivalia a 14 hectares, foi reduzido a pó e escombros.[15]
Louis Gillet escreveu em 21 de outubro de 1942, no diário municipal:[16]
"Subura obscena, uma das fossas mais impuras, onde se acumula a escória do Mediterrâneo [...] É o império do pecado e da morte. Esses bairros patrícios abandonados à plebe, à miséria e à vergonha, que maneira de esvaziá-los de seu pus e regenerá-los."
O desenvolvimento do bairro que se estende ao longo da costa norte do Vieux-Port tem sido criticado desde o século XVIII. Vários projetos de renovação foram delineados ao longo dos séculos.[carece de fontes] Durante a guerra, um plano urbano foi elaborado por arquitetos comprometidos com a causa da "Revolução Nacional" implementada pelo regime de Vichy. As primeiras obras começaram no outono de 1942. Anteriormente, um bairro inteiro já havia sido arrasado no início do século XX, o "terreno atrás da Bolsa de Valores", abandonado como um deserto por cinquenta anos. No caso do bairro de Vieux-Port, a reconstrução só foi concluída em 1956. Os motivos de saneamento e planejamento urbano serviram para mascarar um gigantesco empreendimento de pilhagem e especulação.
Bibliografia
- Kitson, Simon (2014). Police and Politics in Marseille, 1936-1945. [S.l.]: Brill. 326 páginas. ISBN 9789004265233
- Knipp, Kersten (2020). Paris unterm Hakenkreuz. [S.l.]: Theiss in der Verlag Herder GmbH. 400 páginas. ISBN 9783806241419
Referências
- ↑ Harriss, Joseph (9 de janeiro de 2024). Yves Montand: The Passionate Voice (em inglês). [S.l.]: University Press of Kentucky. p. 1926. ISBN 9780813198613. Consultado em 15 de outubro de 2025
- ↑ a b c «Janvier 1943, les rafles de Marseille». Jewish Traces. 4 de janeiro de 2013. Consultado em 15 de outubro de 2025. Arquivado do original em 18 de fevereiro de 2017
- ↑ Dray-Bensousan, Renée. «The 1943 Marseille Roundup and the Destruction of the Old Port» (PDF). Cercle d’étude de la Déportation et de la Shoah
- ↑ Richardot, Robin (23 de abril de 2021). «Vingt mille personnes évacuées sur ordre d'Himmler : à Marseille, l'autre rafle tente de sortir de l'oubli». Le Monde (em francês). Consultado em 15 de outubro de 2025
- ↑ Rajsfus, Maurice (2021). La Police de Vichy. Les forces de l’ordre françaises au service de la Gestapo (1940-1944). [S.l.]: Éditions du Détour. p. 210. 368 páginas. ISBN 979-10-97079-73-4
- ↑ a b c d Whitehouse, Rosie (9 de janeiro de 2025). Two Sisters (em inglês). [S.l.]: Hurst Publishers. ISBN 9781805263449. Consultado em 20 de outubro de 2025
- ↑ a b Kitson 2014, p. 149.
- ↑ a b Follorou, Jacques; Nouzille, Vincent (2009). Les Parrains corses. Leur histoire, leurs réseaux, leurs protections. [S.l.]: Fayard. pp. 47–48. ISBN 9782213637396
- ↑ a b c d e f g h i j k Histoire de Marseille en treize événements. Internet Archive. [S.l.]: J. Laffitte. 1988. pp. 203–204. ISBN 2862761451. Consultado em 20 de outubro de 2025
- ↑ Korn-Brzoza, David. «La police de VICHY - Documentaire (Histoire 2ème Guerre mondiale) de David Korn-Brzoza (2017)». Ploud Video France. Consultado em 15 de outubro de 2025
- ↑ «Simon Kitson, French Police, German Troops and the Destruction of Marseille 1943 (pags. 133-145), Simon Kitson.» (em inglês)
- ↑ Knipp 2020, p. 261.
- ↑ a b Knipp 2020, pp. 261–262.
- ↑ a b c d e f Knipp 2020, p. 262.
- ↑ Korn-Brzoza, David (2017). La police de Vichy. France 3. Consultado em 11 de novembro de 2019 [ligação inativa]
- ↑ Follorou, Jacques; Nouzille, Vincent (2009). Les parrains corses. [S.l.]: Fayard. pp. 47–48. ISBN 9782213637396
