Ruperto do Reno

Ruperto
Duque de Cumberland
Conde de Holderness
Retrato por Peter Lely, c. 1667-1671
Dados pessoais
Nascimento27 de dezembro de 1619
Praga, Boêmia
Morte9 de dezembro de 1682 (62 anos)
Londres, Inglaterra
Sepultado em6 de dezembro de 1682
Abadia de Westminster, Londres, Inglaterra
Descendência
Dudley Bard
Ruperta Howe
CasaWittelsbach
PaiFrederico V, Eleitor Palatino
MãeIsabel de Inglaterra
ReligiãoProtestantismo
AssinaturaAssinatura de Ruperto
Brasão

Ruperto do Reno (Praga, 27 de dezembro; 17 de dezembro no calendário juliano de 1619 — 9 de dezembro; 29 de novembro no calendário juliano de 1682)[1], Duque de Cumberland e Conde de Holderness, foi um nobre e militar alemão. Tornou-se conhecido inicialmente como comandante da cavalaria realista durante a Guerra Civil Inglesa.[a] Ruperto foi o terceiro filho de Frederico V, eleitor palatino do Reno, e de sua esposa Isabel da Inglaterra, filha do rei Jaime VI da Escócia e I da Inglaterra.

Ruperto teve uma carreira diversificada. Lutou como jovem soldado ao lado das forças holandesas contra a Espanha dos Habsburgos durante a Guerra dos Oitenta Anos (1568–1648) e contra o Sacro Império Romano-Germânico na Alemanha durante a Guerra dos Trinta Anos (1618–1648). Aos 23 anos, foi nomeado comandante da cavalaria realista durante a Guerra Civil Inglesa, tornando-se o arquétipo do "Cavaleiro" do conflito e, finalmente, o principal general realista. Rendeu-se após a queda de Bristol e foi banido da Inglaterra. Serviu sob o rei Luís XIV da França contra a Espanha, e posteriormente como corsário realista no Mar do Caribe. Após a Restauração, retornou à Inglaterra, tornando-se um importante comandante naval inglês durante a Segunda Guerra Anglo-Holandesa e a Terceira Guerra Anglo-Holandesa, além de atuar como o primeiro governador da Companhia da Baía de Hudson. Faleceu na Inglaterra em 1682, aos 62 anos.

Ruperto é considerado um general de cavalaria rápido e enérgico, embora tenha sido prejudicado pela impaciência juvenil ao lidar com seus pares durante a Guerra Civil. No interregno inglês, continuou o conflito contra o Parlamento por via marítima, do Mediterrâneo ao Caribe, demonstrando grande persistência diante das adversidades. Como chefe da Marinha Real Britânica em seus últimos anos, mostrou maior maturidade e realizou contribuições duradouras para a doutrina e o desenvolvimento naval inglês. Como governador colonial, Ruperto influenciou a geografia política do atual Canadá: a posse inglesa conhecida como Terra de Ruperto foi criada para ele administrar, sendo seu primeiro governador e um dos fundadores da Companhia da Baía de Hudson. Seus variados interesses científicos e administrativos, combinados com suas habilidades artísticas, fizeram dele uma das figuras públicas mais interessantes da Inglaterra durante o período da Restauração dos Stuart.

Família

O pai de Ruperto era Frederico V do Palatinado, pertencente ao ramo Palatinado-Simmern da Casa de Wittelsbach. Na qualidade de Eleitor Palatino, Frederico era um dos príncipes mais importantes do Sacro Império Romano-Germânico. Ele também liderava a União Protestante, uma coalizão de Estados protestantes germânicos. O Palatinado era um Estado próspero, e Frederico vivia com grande luxo.[2]

A mãe de Frederico, a condessa Luísa Juliana de Orange-Nassau, era filha do Guilherme, o Taciturno e meia-irmã de Maurício de Orange-Nassau, que, como príncipes de Orange, eram os líderes da República Neerlandesa.[3]

A mãe de Ruperto era Isabel de Inglaterra, filha do rei Jaime VI da Escócia e I de Inglaterra. Assim, Ruperto era sobrinho do rei Carlos I de Inglaterra, e primo de primeiro grau do rei Carlos II de Inglaterra, que o nomeou Duque de Cumberland e Conde de Holderness. Sua irmã, a Eleitora de Hanôver, foi mãe de Jorge I da Grã-Bretanha.[4]

Ruperto recebeu esse nome em homenagem a Roberto, rei da Germânia, um célebre ancestral da Casa de Wittelsbach.[5]

Primeiros anos

Nascimento e exílio

Ruperto nasceu em Praga, na Boêmia, em 1619, e foi declarado príncipe pelo principado da Lusácia.[7] Seu pai havia acabado de ser eleito rei pelos Estados protestantes da Boêmia, o que foi interpretado como um ato de rebelião pela católica Casa de Habsburgo, que detinha o trono da Boêmia desde 1526. Esse episódio desencadeou a Guerra dos Trinta Anos. Frederico não recebeu apoio da União Protestante e, em 1620, foi derrotado pelo Sacro Imperador Fernando II na Batalha da Montanha Branca.[8] Como resultado, os pais de Ruperto passaram a ser ironicamente chamados de "Rei e Rainha de Inverno".[9] Ruperto quase foi deixado para trás na pressa da corte em fugir do avanço das tropas de Fernando sobre Praga, mas foi salvo no último momento por um cortesão, Kryštof z Donína (Christopher Dhona), que o lançou dentro de uma carruagem.[10]

Príncipe Ruperto (1619-1682)
Michiel Jansz van Mierevelt, 1625, Royal Collection

Ruperto acompanhou seus pais até Haia, onde passou os primeiros anos de sua infância na Hof te Wassenaer (Corte de Wassenaer).[11] Sua mãe, segundo relatos da época, dedicava pouca atenção aos filhos, demonstrando preferência por seus macacos e cães de estimação.[12] No lugar da atenção materna, Frederico contratou um casal francês, Monsieur e Madame de Plessen, para atuarem como preceptores das crianças. Elas foram educadas com uma visão positiva tanto dos boêmios quanto dos ingleses, além de serem criadas sob rigorosa doutrina calvinista. O cotidiano escolar era bastante disciplinado, com aulas de lógica, matemática, escrita, desenho, canto e instrumentos musicais.[12]

Na infância, Ruperto era por vezes malcomportado, descrito como "impulsivo, travesso e apaixonado", e ganhou o apelido de Robert le Diable, ou "Ruperto, o Diabo".[13] Apesar disso, demonstrou-se um aluno talentoso. Aos três anos de idade, já falava um pouco de inglês, tcheco e francês, e aprendeu alemão com facilidade; no entanto, nunca demonstrou grande interesse por latim e grego.[12] Destacava-se nas artes, tendo sido aluno de Gerard van Honthorst, e demonstrava aptidão natural para matemática e ciências.[12] Aos 18 anos, Ruperto já media cerca de 1,93 m (6 pés e 4 polegadas).[14]

Durante o período em Haia, a família de Ruperto continuou tentando recuperar o Palatinado. Enfrentavam dificuldades financeiras, dependendo de uma pensão modesta fornecida por Haia, dos lucros de investimentos familiares em ataques navais holandeses contra navios espanhóis e da receita obtida com a penhora de joias da família.[15] Frederico empenhou-se em formar uma aliança com nações como Inglaterra, França e Suécia, visando reconquistar o Palatinado e a Boêmia.[13] No início da década de 1630, estabeleceu uma relação próxima com o rei Gustavo Adolfo da Suécia, então o principal líder protestante na Alemanha. No entanto, em 1632, os dois romperam relações após Gustavo Adolfo exigir que Frederico concedesse direitos iguais a seus súditos luteranos e calvinistas, caso recuperasse suas terras. Frederico recusou-se a aceitar e retornou a Haia, mas morreu de febre durante a viagem, sendo enterrado em uma sepultura sem identificação.[16]

Ruperto perdeu o pai aos 13 anos de idade, e a morte de Gustavo Adolfo na Batalha de Lützen, ocorrida no mesmo mês, privou a família de um importante aliado protestante. Com a morte de Frederico, o rei Carlos I de Inglaterra sugeriu que a família se mudasse para o território inglês. A mãe de Ruperto recusou, mas solicitou que Carlos oferecesse sua proteção aos filhos que haviam restado.[17]

Adolescência

Ruperto na juventude visitando a corte de seu tio, o rei Carlos I de Inglaterra, por Anthony van Dyck.

Ruperto passou o início da adolescência entre as cortes de Haia e a de seu tio, o rei Carlos I, antes de ser capturado e aprisionado em Linz durante as fases intermediárias da Guerra dos Trinta Anos. Ruperto tornou-se soldado muito jovem; aos 14 anos, participou do pas d'armes holandês ao lado do príncipe protestante Frederico Henrique, Príncipe de Orange.[18] Mais tarde naquele mesmo ano, lutou ao lado dele e do Duque de Brunsvique no cerco anglo-germânico de Rheinberg. Já em 1635, Ruperto atuava como guarda pessoal do príncipe Frederico.[19] Em 1637, Ruperto combateu com sucesso contra a Espanha imperial na campanha ao redor de Breda, durante a Guerra dos Oitenta Anos nos Países Baixos.[20] Ao fim desse período, Ruperto já havia conquistado reputação por sua coragem em combate, seu entusiasmo e diligência notáveis.[19]

Retrato de Carlos Luís, Eleitor Palatino (1617-1680) e seu irmão, Ruperto do Palatinado (1619-1682)
Anthony van Dyck, 1637, Museu do Louvre

Entre essas campanhas, Ruperto visitou a corte de seu tio na Inglaterra. A causa do Palatinado era uma questão protestante popular no país e, em 1637, uma subscrição pública financiou uma expedição liderada por Carlos Luís com o objetivo de recuperar o eleitorado como parte de uma campanha conjunta com a França.[20] Ruperto foi nomeado comandante de um regimento de cavalaria do Palatinado,[21] e seu futuro amigo, lorde Craven, admirador de sua mãe, auxiliou na arrecadação de fundos e acompanhou o exército na campanha. No entanto, a campanha teve um desfecho desastroso na Batalha de Vlotho (17 de outubro de 1638), durante a invasão da Vestfália. Ruperto escapou com vida, mas foi capturado pelas forças do general imperial Melchior von Hatzfeldt, já nos momentos finais da batalha.[22]

Após uma tentativa frustrada de subornar seus guardas para obter a liberdade,[23] Ruperto foi aprisionado em Linz. Lorde Craven, também feito prisioneiro na batalha, tentou convencer os captores a permitir que permanecesse com Ruperto, mas teve seu pedido recusado.[23] A prisão de Ruperto ganhou contornos religiosos. Sua mãe temia profundamente que ele fosse convertido do calvinismo ao catolicismo;[24] seus captores, incentivados pelo Sacro Imperador Fernando III, recorreram a padres jesuítas para tentar convertê-lo.[24] O Sacro Imperador chegou a oferecer-lhe liberdade, um posto de general imperial e um pequeno principado, caso aceitasse a conversão.[25] Ruperto recusou.[26]

Boy, o poodle do príncipe Ruperto.

Sua prisão tornou-se mais branda por recomendação do arquiduque Leopoldo Guilherme da Áustria, irmão mais novo de Fernando, que conheceu Ruperto e passou a simpatizar com ele.[27] Durante esse período, Ruperto praticava gravura, jogava tênis, treinava tiro, lia manuais militares e era levado a caçadas, sempre sob escolta.[25] Também viveu um romance com Susan Kuffstein, filha do Conde von Kuffstein, seu carcereiro.[28] Recebeu ainda de presente um raro poodle branco, a quem deu o nome de "Boy" ou, por vezes, "Pudel", e que o acompanharia durante a Guerra Civil Inglesa. Apesar de uma tentativa fracassada de libertação por um exército franco-sueco que tentou tomar Linz, a libertação de Ruperto foi finalmente negociada por meio da mediação do arquiduque Leopoldo e da imperatriz Maria Ana. Como condição, Ruperto comprometeu-se a jamais pegar em armas contra o Sacro Imperador. Em troca, seria libertado. Ruperto prestou homenagem ao Sacro Imperador beijando-lhe a mão no final de 1641, recusou uma última oferta de comando imperial e partiu da Alemanha rumo à Inglaterra.[29]

Guerra Civil Inglesa

Ruperto é provavelmente mais lembrado hoje por seu papel como comandante realista durante a Guerra Civil Inglesa.[30] Obteve considerável sucesso nos primeiros anos do conflito, graças à sua determinação, energia e experiência com técnicas militares europeias, o que lhe garantiu vitórias iniciais.[31] À medida que a guerra avançava, contudo, a juventude de Ruperto e sua imaturidade na condução das relações com outros comandantes realistas acabaram levando à sua destituição do cargo e, posteriormente, à sua retirada definitiva do conflito.[32] Durante toda a guerra, Ruperto também ocupou uma posição simbólica de grande força: era uma figura icônica entre os Cavaleiros realistas (Royalist Cavaliers) e, por isso, foi frequentemente alvo tanto da propaganda parlamentarista quanto da realista,[33] imagem essa que perdurou ao longo dos anos.[34]

Primeira Guerra Civil Inglesa

Fases iniciais (1642–1643)

A Véspera da Batalha de Edgehill, por Charles Landseer, 1845. Carlos I (com uma faixa azul) preside um conselho de guerra em Edgecote, no dia anterior à Batalha de Edgehill. Ruperto, sentado, comandava a cavalaria do rei.

Em agosto de 1642, Ruperto, juntamente com seu irmão, o príncipe Maurício, e um grupo de soldados profissionais, atravessou o mar desde as Províncias Unidas dos Países Baixos em uma travessia arriscada. Após uma tentativa inicial fracassada,[35] conseguiram escapar da marinha pró-parlamentarista e desembarcaram em Newcastle.[36] Cruzando o interior do país a cavalo, Ruperto encontrou o rei com um pequeno exército na Abadia de Leicester e foi imediatamente nomeado General da Cavalaria (Master of the Horse), uma das nomeações mais cobiçadas nas guerras europeias da época.[31] Ruperto então se dedicou ao recrutamento e treinamento de tropas: com grande esforço, até o final de setembro havia formado uma força de cavalaria parcialmente treinada, com cerca de 3.000 homens.[37] Sua reputação continuava a crescer. Liderando uma carga repentina e corajosa, derrotou uma força parlamentarista na Batalha de Powick Bridge, o primeiro confronto militar da guerra. Embora tenha sido um combate de pequena escala, teve enorme valor propagandístico, transformando Ruperto em figura heroica para muitos jovens no campo realista.[38]

Ruperto juntou-se ao rei na marcha sobre Londres, desempenhando um papel crucial na Batalha de Edgehill, em outubro. Mais uma vez, Ruperto demonstrou sua habilidade em movimentos rápidos de campo de batalha: na véspera da batalha, realizou uma marcha forçada e tomou o cume de Edgehill, garantindo uma posição vantajosa para os realistas.[39] No entanto, quando entrou em conflito com o comandante da infantaria, Robert Bertie, começaram a surgir sinais das fragilidades de Ruperto. Ele interveio de forma enérgica, provavelmente com razão, mas certamente de maneira pouco diplomática, argumentando que Lindsey deveria posicionar suas tropas segundo o modelo sueco moderno, ao qual Ruperto estava habituado na Europa, o que maximizaria o poder de fogo disponível.[40] O resultado foi uma discussão diante das tropas, levando à renúncia de Lindsey e à sua substituição por sir Jacob Astley. Na batalha que se seguiu, os cavaleiros de Ruperto realizaram uma carga dramática, mas, apesar de seus esforços, a dispersão e a perda de disciplina entre suas tropas transformaram uma possível vitória em um impasse.[41]

Ilustração do príncipe Ruperto em Edgehill.

Após Edgehill, Ruperto solicitou ao rei uma ofensiva rápida de cavalaria sobre Londres, antes que o exército do Conde de Essex pudesse retornar. No entanto, os principais conselheiros do rei recomendaram uma marcha lenta com todo o exército em direção à capital. Quando finalmente chegaram, a cidade já havia organizado defesas contra os realistas.[41] Alguns historiadores argumentam que, ao adiar, os realistas talvez tenham perdido sua melhor chance de vencer a guerra. Outros, porém, sustentam que o ataque proposto por Ruperto teria dificuldade em romper as defesas de uma Londres hostil. Em vez disso, no início de 1643, Ruperto iniciou a pacificação do sudoeste da Inglaterra, capturando Cirencester em fevereiro,[42] antes de avançar sobre Bristol, um porto estratégico.[43] Ruperto tomou Bristol em julho, com o apoio de seu irmão Maurício e tropas córnicas (do povo da Cornualha), sendo então nomeado governador da cidade.[44] Já em meados de 1643, Ruperto havia se tornado figura tão influente que sua presença representava um obstáculo em qualquer tentativa de acordo de paz. O Parlamento exigia que fosse punido como parte de qualquer solução negociada, e o simples fato de Ruperto permanecer na corte, próximo ao rei durante as negociações, era visto como uma declaração de beligerância.[45]

Estágios posteriores (1644–1646)

George Digby, por Anthony Van Dyck; embora fosse um soldado menos bem-sucedido, Digby era um rival político cada vez mais poderoso de Ruperto dentro da corte realista durante a segunda metade da Guerra Civil Inglesa.

Na segunda metade da guerra, a oposição política dentro da alta liderança realista contra o príncipe Ruperto continuou a crescer. Sua personalidade durante o conflito lhe granjeou tanto amigos quanto inimigos. Ruperto possuía uma "disposição franca e generosa", demonstrava uma "rapidez de intelecto", estava disposto a enfrentar grandes perigos e podia ser meticuloso e paciente quando necessário.[46] Contudo, ele carecia das habilidades sociais típicas de um cortesão, e seu humor podia se transformar em um "sarcasmo mordaz e uma atitude de desprezo": com um temperamento impetuoso, era rápido para expressar a quem respeitava e a quem desprezava.[46] Como resultado, embora fosse capaz de inspirar grande lealdade em alguns, especialmente entre seus homens, Ruperto também fez muitos inimigos na corte real.[47] Quando o príncipe tomou Bristol, também desconsiderou o Marquês de Hertford, líder realista do sudoeste que, embora politicamente importante, era lento e pouco enérgico.[48] Mais criticamente, ele entrou em conflito com George Digby, favorito tanto do rei quanto da rainha. Digby era o típico cortesão, e Ruperto acabou discutindo repetidamente com ele em reuniões.[49] Como consequência, ao final da guerra, a posição de Ruperto na corte foi cada vez mais enfraquecida pelos seus inimigos.

Ruperto continuou a impressionar no campo militar. Em 1644, agora como Duque de Cumberland e Conde de Holderness, liderou o socorro a Newark e a Iorque e seu castelo. Tendo marchado para o norte, tomou Bolton e Liverpool em dois sangrentos ataques pelo caminho.[50] Em seguida, interveio em Yorkshire com duas manobras altamente eficazes: na primeira, superou rapidamente as forças inimigas em Newark; na segunda, marchou pelo interior e aproximou-se de Iorque pelo norte.[51] Ruperto comandou grande parte do exército realista na derrota em Marston Moor, com parte da culpa recaindo sobre a má relação entre Ruperto e o Marquês de Newcastle,[52] além de ordens do rei que transmitiam equivocadamente a necessidade desesperada de uma vitória rápida no norte.[53]

Em novembro de 1644, Ruperto foi nomeado general de todo o exército realista, o que aumentou ainda mais as tensões entre ele e vários conselheiros do rei. Em maio de 1645, agora com severa falta de suprimentos,[54] Ruperto capturou Leicester, mas sofreu uma dura derrota na Batalha de Naseby um mês depois.[55] Embora Ruperto tivesse aconselhado o rei a evitar a batalha em Naseby, prevaleceram as opiniões de Digby no conselho: ainda assim, a derrota política recaiu sobre Ruperto, e não sobre Digby.[56] Após Naseby, Ruperto considerou a causa realista perdida e aconselhou Carlos a negociar a paz com o Parlamento. Carlos, ainda apoiado pelo otimista Digby, acreditava que poderia vencer a guerra. No final do verão, o príncipe ficou encurralado em Bristol pelas forças parlamentares. Diante de uma situação militar insustentável, Ruperto rendendo-se em Bristol em setembro de 1645, foi dispensado do serviço e do comando pelo rei.[57]

Ruperto reagiu atravessando territórios controlados pelo Parlamento para se juntar ao rei em Newark acompanhado do príncipe Maurício e cerca de cem homens, combatendo pequenos destacamentos inimigos e evitando forças maiores.[58] O rei Carlos tentou ordenar que Ruperto desistisse, temendo um golpe armado, mas Ruperto chegou à corte real mesmo assim.[58] Após uma reunião difícil, Ruperto convenceu o rei a realizar um conselho de guerra para analisar sua conduta em Bristol, que o absolveu, assim como a Maurício.[59] Após uma última discussão sobre o destino de seu amigo Richard Willis, governador de Newark, que havia permitido a entrada de Ruperto na corte, Ruperto renunciou e deixou o serviço do rei Carlos, junto com a maioria de seus melhores oficiais de cavalaria.[60] Interpretações anteriores deste evento focavam na preocupação de Ruperto com sua honra diante da dispensa inicial do rei;[59] trabalhos mais recentes ressaltam a importância prática do conselho de guerra para a futura empregabilidade de Ruperto como mercenário na Europa, já que ele sabia que a guerra estava, de fato, perdida.[61] Ruperto e Maurício passaram o inverno de 1645 em Woodstock, avaliando opções de emprego sob a República de Veneza, antes de retornarem a Oxford e ao rei em 1646.[62] Ruperto e o rei reconciliaram-se, e o príncipe permaneceu para defender Oxford quando Carlos partiu para o norte. Após o cerco e rendição de Oxford em 1646, o Parlamento baniu Ruperto e seu irmão da Inglaterra.[63]

Reputação

Os contemporâneos de Ruperto acreditavam que ele estivera envolvido em alguns dos episódios mais sangrentos da guerra. Ruperto havia crescido e lutado em meio à brutalidade da Guerra dos Trinta Anos, travada na Europa Central.[64] Pouco depois de sua chegada à Inglaterra, causou consternação ao empregar práticas semelhantes. Um de seus primeiros atos foi exigir duas mil libras dos habitantes de Leicester para o rei, como preço para poupar a cidade de ser saqueada.[65] Embora tal conduta estivesse em conformidade com os costumes europeus da época, não era considerada aceitável na Inglaterra, e Ruperto foi repreendido pelo rei.[64]

Ruperto era uma figura comum da propaganda parlamentar, retratado aqui, com seu cachorro Boy, saqueando a cidade de Birmingham.

Sua reputação nunca se recuperou totalmente, e em cercos e ataques posteriores ele foi frequentemente acusado de agir com brutalidade. A cidade de Birmingham, um centro importante de produção de armas, foi tomada em abril de 1643,[66] e Ruperto enfrentou acusações, provavelmente falsas, de ter deliberadamente incendiado a cidade (Batalha de Camp Hill).[67] Pouco tempo depois, Ruperto tentou tomar a cidade de Lichfield, cuja guarnição havia executado prisioneiros realistas. Furioso, ele prometeu matar todos os soldados no interior da cidade.[67] Apenas um chamado urgente do rei solicitando sua ajuda impediu que ele cumprisse a ameaça, levando-o a aceitar termos mais brandos em troca de uma rendição rápida.[68] Perto do fim da guerra, práticas violentas passaram a ser comuns em ambos os lados. Leicester, que havia se rebelado novamente, foi retomada por Ruperto em maio de 1645, e não houve tentativa de restringir os massacres e saques que se seguiram.[69]

Ruperto tornou-se, assim, uma figura central na propaganda parlamentarista. Enfrentou inúmeras acusações de bruxaria, tanto diretamente quanto por meio de seu cão de estimação, Boy, também chamado Pudel, um grande poodle branco de caça que o acompanhava desde 1642 até sua morte em Marston Moor. O animal era suspeito de ser um familiar de bruxa. Várias histórias circularam sobre as habilidades de Boy: alguns diziam que era o próprio Diabo disfarçado, enviado para ajudar Ruperto. Publicações pró-realistas passaram a ridicularizar tais alegações,[70] incluindo uma sátira que afirmava que o cão de Ruperto era, na verdade, uma “dama da Lapônia” transformada em cão branco;[71] Boy seria capaz, aparentemente, de encontrar tesouros escondidos, resistir a ataques físicos, apanhar balas com a boca para proteger Ruperto, e profetizar com a mesma precisão da vidente do século XVI, Mãe Shipton.[72] Histórias semelhantes circularam a respeito do macaco de estimação de Ruperto. Assim como o cão, o macaco também aparecia nos jornais da época e era supostamente dotado de poderes de metamorfose, sendo capaz de se disfarçar atrás das linhas inimigas.[73]

Segunda Guerra Civil Inglesa e interregno

Príncipe Ruperto em trajes de Cavaleiro da Ordem da Jarreteira
Peter Lely, c. 1665, Museus Reais de Greenwich

Após o fim da Primeira Guerra Civil Inglesa, Ruperto foi contratado pelo jovem rei Luís XIV de França para combater os espanhóis nos anos finais da Guerra dos Trinta Anos.[74] Sua atuação militar, no entanto, era dificultada pelas promessas feitas anteriormente ao Sacro Imperador Romano-Germânico, que haviam possibilitado sua libertação do cativeiro em 1642, além de seu compromisso contínuo com a facção realista inglesa no exílio.[75] Ainda em 1642, Ruperto foi nomeado Cavaleiro da Ordem da Jarreteira.

Durante esse período, Ruperto enfrentou dificuldades devido à falta de uma fonte de renda segura, bem como por conta de desentendimentos recorrentes com outras figuras proeminentes do círculo realista no exílio.[76]

No Exército Francês

Ruperto viajou inicialmente para a corte real no exílio, localizada no Castelo de Saint-Germain-en-Laye, mas encontrou o ambiente ainda dominado pela Rainha e por seu favorito, Digby, inimigo de Ruperto.[77] Em vez de permanecer ali, Ruperto decidiu seguir adiante e aceitou uma comissão bem remunerada de Ana da Áustria, para servir a Luís XIV como maréchal de camp (marechal de campo), sob a condição de que estaria livre para deixar o serviço francês, caso fosse chamado a lutar por seu primo, o rei Carlos.[77]

Em 1647, Ruperto combateu sob o comando do marechal Jean de Gassion contra os espanhóis. Após um cerco de três semanas, Ruperto conquistou a poderosa fortaleza de La Bassée por meio de negociações discretas com o comandante inimigo, um feito impressionante, que lhe rendeu prestígio nos círculos da corte francesa.[78] Pouco tempo depois, Gassion e Ruperto foram surpreendidos por uma emboscada das forças espanholas; durante o confronto, Ruperto foi baleado na cabeça e gravemente ferido. Após o incidente, Gassion comentou: Monsieur, estou profundamente incomodado por saber que fostes ferido. Ao que Ruperto teria respondido: E eu também.[79] Gassion foi morto pouco tempo depois, e Ruperto retornou a Saint-Germain para se recuperar.[79]

Na Marinha Realista

Em 1648, eclodiu a relativamente breve Segunda Guerra Civil Inglesa, e Ruperto informou ao rei francês que retornaria ao serviço de Carlos I.[80] A marinha parlamentar amotinou-se em favor do rei e navegou para a Holanda, fornecendo aos realistas uma grande frota pela primeira vez desde o início do conflito civil; Rupert juntou-se à frota sob o comando do Duque de Iorque, que assumiu o posto de Lorde-Almirante.[81]

Ruperto defendeu que a frota fosse usada para resgatar o rei, então mantido prisioneiro na Ilha de Wight, enquanto outros aconselhavam que se prestasse apoio às batalhas no norte. A frota, no entanto, rapidamente perdeu a disciplina, com muitas tripulações focadas em apreender navios e cargas locais.[81] Esse comportamento ressaltava um grande problema enfrentado pelos realistas: o custo de manutenção da nova frota estava muito além de seus recursos. A indisciplina aumentava, e Rupert precisou intervir pessoalmente diversas vezes, inclusive desarmando um grupo de marinheiros amotinados ao pendurar subitamente o líder do motim pela lateral do navio, ameaçando lançá-lo ao mar. A maior parte da frota acabou retornando para a Inglaterra no final de 1648, novamente mudando de lado.[82]

Posteriormente, após certo grau de reconciliação com Carlos, Ruperto obteve o comando da frota realista. O plano era restaurar as finanças da causa realista utilizando os navios restantes em uma campanha de pirataria organizada contra embarcações inglesas na região.[83] Um dos obstáculos enfrentados foi o fortalecimento crescente da marinha parlamentar, liderada por Robert Blake, considerado um dos mais habilidosos almirantes da época.[84]

RCampanha marítima de Ruperto no Oceano Atlântico e nos mares Mediterrâneo e Caribe, 1650–1653.

A campanha naval de Ruperto dividiu-se em duas fases. Na primeira, a frota realista partiu de Kinsale, na Irlanda, rumo a Lisboa, em Portugal. Ruperto comandava três grandes navios, o Constant Reformation, o Convertine e o Swallow, além de quatro embarcações menores.[85] Durante o percurso até Lisboa, capturou vários navios como prêmios de guerra,[86] sendo recebido com entusiasmo pelo rei João IV de Portugal, recém-independente, e simpatizante da causa de Carlos II. Blake chegou pouco depois com a frota parlamentar, provocando um impasse armado.[87] Com o aumento da tensão e o início de escaramuças, João IV passou a desejar a saída dos realistas. Em outubro de 1650, a frota de Ruperto, agora com seis navios, conseguiu escapar para o Mar Mediterrâneo.[88] Ainda perseguida por Blake, a frota navegou ao longo da costa espanhola, perdendo gradualmente embarcações para os adversários.[89]

A segunda fase da campanha teve início com a travessia de Ruperto de volta ao Oceano Atlântico em 1651. Ele rumou para as Açores, capturando mais navios no caminho. Seu objetivo era prosseguir até as Índias Ocidentais (Caribe), em busca de alvos mais lucrativos.[90] No entanto, uma tempestade de final de verão afundou o Constant Reformation, resultando na morte de 333 pessoas, o príncipe Maurício, irmão de Ruperto, escapou por pouco[91], e na perda de grande parte do tesouro capturado. Ruperto recuou para reparos, ancorando no Cabo Branco (atualmente Mauritânia), no início de 1652.[92] Aproveitou a ocasião para explorar a região e adquiriu um jovem servo mouro, que o acompanharia por muitos anos. Também explorou cerca de 240 km do rio Gâmbia, capturando dois navios espanhóis e contraindo malária.[93]

Ruperto finalmente conseguiu cruzar o Atlântico com sucesso, desembarcando primeiramente em Santa Lúcia, e em seguida navegando pelas Antilhas Menores até as Ilhas Virgens. Lá, a frota foi atingida por um furacão que dispersou os navios e afundou o Defiance, desta vez com Maurício a bordo.[94] A confirmação da morte de seu irmão levou algum tempo, sendo um golpe profundo para Ruperto. Forçado a retornar à Europa, ele chegou à França em março de 1653 com uma frota reduzida de cinco navios.[95] Com o cálculo dos lucros e prejuízos da campanha pirata, ficou evidente que os ganhos haviam sido bem menores do que o esperado. Isso agravou as tensões dentro da corte realista, e, após negociações, Carlos II e Ruperto dividiram os espólios. Ruperto, cansado e um tanto amargurado, retirou-se para repousar na França.[96]

Em 1654, Rupero aparentemente envolveu-se em um complô para assassinar Oliver Cromwell. O plano previa que o assassinato fosse seguido por um golpe de Estado, o desembarque de um pequeno exército em Sussex e a restauração de Carlos II ao trono. O próprio Carlos teria rejeitado a proposta de assassinato, mas três conspiradores que implicaram Ruperto no plano foram presos e confessaram o envolvimento em Londres.[97]

A presença de Ruperto na corte realista continuava a ser problemática; assim como em 1643, era visto por figuras como Eduardo Hyde, 1.º Conde de Clarendon como alguém belicoso e um obstáculo às negociações de paz. Em 1655, Ruperto deixou a França e partiu para a Alemanha.[98]

No Palatinado

Após sua desavença com a corte realista no exílio, Ruperto viajou para Heidelberg a fim de visitar seu irmão Carlos Luís, então parcialmente restaurado como Eleitor Palatino, ocasião em que tiveram uma reunião ambivalente.[99] Carlos Luís e Ruperto não haviam sido próximos durante a infância e quase lutaram em lados opostos durante a Guerra Civil. Para piorar, Carlos Luís fora privado de metade do Eleitorado do Palatinado pelo Tratado de Westfália, o que o deixou em grave dificuldade financeira, embora ainda fosse legalmente responsável, sob as leis imperiais de apanágio, por prover o sustento de seu irmão mais novo. Ofereceu, assim, uma pensão anual de £375, que Ruperto aceitou.[100] Ruperto seguiu então para Viena, onde tentou reivindicar as £15.000 de compensação que lhe haviam sido atribuídas pelo Tratado de Westfália. O Sacro Imperador Fernando III o recebeu calorosamente, mas afirmou não poder pagar a quantia de forma imediata, seria necessário fazê-lo em parcelas, o que era desvantajoso para Ruperto.[101]

Nos doze meses seguintes, Ruperto foi convidado pelo Duque de Módena, no norte da Itália, para levantar um exército contra os Estados Papais. Ruperto atendeu ao pedido e posicionou o exército no Palatinado, mas a empreitada fracassou antes mesmo de começar; em seguida, o duque solicitou que Ruperto invadisse Milão, então sob domínio espanhol.[102] Ruperto recusou-se a seguir adiante, deixando Carlos Luís em uma situação diplomática delicada com a Espanha.[102] Depois disso, Ruperto continuou sua jornada, tentando convencer Fernando III a apoiar os esforços de Carlos II para retomar o trono inglês.[103]

Em 1656, as relações entre Ruperto e Carlos Luís se deterioraram gravemente. Ruperto havia se apaixonado por Marie Luise von Degenfeld, uma das damas de honra da cunhada. [104] Um dos bilhetes de Ruperto declarando seu afeto caiu acidentalmente nas mãos da esposa de Carlos Luís, Carlota de Hesse-Cassel, que acreditou ser a destinatária. Carlota, interessada em ter um caso com Ruperto, ficou decepcionada ao descobrir que o bilhete não lhe era dirigido e que o príncipe não correspondia a seus sentimentos. Degenfeld, por sua vez, não demonstrava interesse por Ruperto, pois mantinha um relacionamento amoroso com o próprio Carlos Luís. O caso foi posteriormente descoberto, levando à anulação do casamento de Carlos Luís e Carlota.[105] Ruperto, por sua parte, estava insatisfeito com a incapacidade do irmão em lhe conceder uma propriedade adequada, e os dois se separaram em maus termos em 1657. Ruperto recusou-se a retornar ao Palatinado e passou a servir ao Sacro Imperador Fernando III, assumindo uma posição militar no Reino da Hungria.[106]

Interesse em arte

A maior e mais famosa gravura de autoria de Ruperto, O Grande Carrasco, considerada pelo crítico Antony Griffiths como "uma das maiores gravuras".

Durante esse período, Ruperto envolveu-se intimamente no desenvolvimento de mezzotint, um processo de gravura "negativo" ou intaglio que acabou por substituir o antigo método da xilogravura. Ruperto teria contado a diversos associados que concebeu o processo da gravura ao observar um soldado raspando a ferrugem do cano de seu mosquete durante uma campanha militar. Em 1662, John Evelyn creditou a Ruperto a invenção da técnica, e a história foi ainda mais popularizada por Horace Walpole durante o século XVIII.[107]

Há um considerável debate acadêmico sobre o tema, mas o consenso moderno é que a gravura foi, na verdade, inventada em 1642 por Ludwig von Siegen, um tenente-coronel alemão que também era artista amador. Siegen pode ou não ter conhecido Rupert: ele trabalhou como camarista e provavelmente também como tutor parcial do jovem primo de Ruperto, Guilherme VI, Conde de Hesse-Cassel, com quem Ruperto discutiu a técnica em cartas datadas de 1654. Contudo, Ruperto tornou-se um artista notável da gravura por mérito próprio. Produziu algumas gravuras estilizadas na técnica, em sua maioria interpretações de pinturas existentes, e introduziu a forma na Inglaterra após a Restauração Inglesa, embora tenha sido Wallerant Vaillant, assistente ou tutor artístico de Ruperto, quem primeiramente popularizou e explorou comercialmente o processo.

A obra mais famosa e de maior dimensão de Ruperto, O Grande Carrasco (1658), é ainda considerada por críticos como Arthur Hind e Antony Griffiths como repleta de "brilhantismo e energia",[108] "excelente" e "uma das maiores gravuras" já produzidas;[109] outras obras importantes de Rupert incluem Head of Titian e The Standard Bearer.[110]

Na Restauração

Com a Restauração da monarquia sob Carlos II em 1660, Ruperto retornou à Inglaterra, onde o rei já havia, em grande parte, concluído o processo de equilibrar as diferentes facções do país na nova administração.[111] Como a maioria dos cargos de governo mais importantes já havia sido preenchida, o papel de Ruperto foi limitado, embora Carlos o tenha recompensado com a segunda maior pensão concedida até então, no valor de £4.000 por ano.[112] Os laços familiares estreitos de Ruperto com o rei foram essenciais para sua calorosa recepção; após a morte do Duque de Gloucester e da Princesa de Orange, Ruperto tornou-se o parente adulto mais próximo do rei em território inglês, depois de seu irmão, o Duque de Iorque, tornando-se assim uma figura-chave no novo regime.[113] Como Duque de Cumberland, Ruperto retomou seu assento na Câmara dos Lordes.[113] Pela primeira vez em sua vida, sua situação financeira tornou-se relativamente estável, e ele havia amadurecido. Relatos da época descrevem que "seu temperamento era menos explosivo que anteriormente e seu julgamento, mais sensato".[114] Ruperto continuou servindo como almirante na Marinha Real Britânica, alcançando eventualmente o posto de "General por Terra e Mar".[115]

Ruperto.

Ruperto foi nomeado para o Conselho Privado do Rei em 1662, assumindo funções no Comitê de Política Externa, no Comitê do Almirantado e no Comitê de Tânger.[116] As descrições sobre o papel de Ruperto nesses comitês governamentais variam. Samuel Pepys, que não era amigo de Ruperto, participou com ele do Comitê de Tânger e posteriormente declarou que tudo o que Rupert fazia era rir e praguejar ocasionalmente; outros registros, como os do Comitê de Política Externa, mostram que ele teve uma atuação plena e ativa nas deliberações.[114]

Em 1668, o rei nomeou Ruperto como Condestável do Castelo de Windsor.[117] Ruperto já era um dos Cavaleiros da Ordem da Jarreteira, cuja sede localizava-se no castelo, e era um companheiro próximo do rei, que desejava ser devidamente entretido no local.[118] Rupert imediatamente iniciou a reorganização das defesas do castelo, solucionando as acomodações da guarnição, reparando a Torre do Diabo, reconstruindo a quadra de tênis real e melhorando a área de caça do castelo.[119] Ruperto obteve seus próprios aposentos no castelo, que foram descritos como sendo "muito singulares", alguns decorados com um número "extraordinário" de "lanças, mosquetes, pistolas, bandoleiras, coldres, tambores, peças de couraça, de peito e de cabeça", e seus aposentos internos eram "ornamentados com tapeçarias, quadros curiosos e efeminados".[120] O rei Carlos II e Ruperto passaram muitos momentos juntos ao longo dos anos, caçando e jogando tênis em Windsor,[121] e Ruperto também era um companheiro próximo de Jaime, o Duque de Iorque.[114] Pepys considerava Ruperto como um dos quatro melhores jogadores de tênis da Inglaterra.[122]

Pintura da Batalha dos Quatro Dias (1666), por Abraham Storck, representando o primeiro uso das novas táticas agressivas de combate naval introduzidas por Ruperto.

Durante grande parte do século XVII, a Inglaterra esteve envolvida em conflitos com sua rival comercial, a Holanda, por meio das Guerras Anglo-Holandesas.[123] Ruperto teve participação ativa nesses conflitos como almirante sênior a serviço do rei Carlos II, alcançando o comando da Marinha Real ao final de sua carreira. Embora diversos almirantes famosos da época, como Blake e Monck, tivessem sido originalmente comandantes do exército, eles lideraram forças terrestres relativamente pequenas. Ruperto, por sua vez, era ainda considerado uma exceção para o período, por possuir tanto experiência prática no comando de grandes exércitos quanto uma vivência naval significativa, adquirida em suas campanhas na década de 1650.[124]

No início da Segunda Guerra Anglo-Holandesa (1665–1667), Ruperto foi nomeado um dos três comandantes de esquadra da frota inglesa, sob o comando geral do Duque de Iorque, tendo como nau capitânia o HMS Royal James.[125] Como comandante da Esquadra Branca, Ruperto participou da Batalha de Lowestoft em 1665, rompendo as defesas inimigas em um momento crítico; sua perna foi ferida na batalha, e a lesão lhe causou dores contínuas.[126] Chamado de volta para acompanhar o rei durante a peste que assolava a cidade, Ruperto continuou defendendo que a frota buscasse um confronto decisivo com os holandeses, a fim de forçá-los a retornar à mesa de negociações.[127] No ano seguinte, Ruperto foi nomeado co-comandante da frota ao lado de Monck e teve a oportunidade de implementar esse plano. Em junho de 1666, enfrentaram os holandeses na Batalha dos Quatro Dias, uma das mais longas batalhas navais da história; nela, foram aplicadas as novas táticas agressivas de Ruperto e Monck, resultando em “um espetáculo até então inédito nas guerras com navios à vela, os ingleses navegando contra o vento e rompendo a linha inimiga pela sotavento.”[128] Apesar disso, a Batalha dos Quatro Dias foi considerada uma vitória holandesa, mas a Batalha do Dia de Santiago no mês seguinte permitiu a Ruperto e Monck empregar as mesmas táticas para infligir grandes danos aos holandeses, resultando em uma vitória significativa para a Inglaterra.[129] Contudo, os holandeses sairiam vitoriosos ao final da guerra com o decisivo Ataque a Medway.[130]

Ruperto também desempenhou papel de destaque na Terceira Guerra Anglo-Holandesa (1672–1674). Desta vez, Luís XIV de França era um aliado-chave da Inglaterra contra a Holanda, e decidiu-se que os franceses formariam uma esquadra dentro de uma frota combinada.[131] A frota inglesa havia sido bastante expandida, e Ruperto equipou três navios, o HMS Royal Charles, o HMS Royal James e o HMS Royal Oak, com um canhão de sua própria concepção, de alta especificação, fabricado por recozimento e usinagem em torno, o Rupertinoe. O alto custo da arma, três vezes maior que o de um canhão comum, impediu sua ampla adoção na frota.[132] O papel dos franceses no conflito tornou-se problemático quando Carlos teve que nomear um almirante. A oposição de Ruperto à aliança com a França era bem conhecida, e, portanto, o rei nomeou o Duque de Iorque para o cargo.[133] Ruperto, por sua vez, foi encarregado de assumir as funções do Duque no Almirantado, o que fez com entusiasmo.[133] Os planos navais aliados estagnaram após a batalha inconclusiva do Duque contra os holandeses em Solebay.[134]

Pintura da Batalha de Texel (1673), por Willem van de Velde, o Jovem, representando a vitória holandesa que marcou o fim da carreira de Ruperto como almirante do mar.

O plano inglês para 1673 previa primeiro alcançar a supremacia naval, seguida do desembarque de um exército na Zelândia. O rei nomeou o Duque como comandante supremo, com Ruperto como seu vice, reunindo os títulos de general e vice-almirante da Inglaterra.[135] Durante o inverno de 1672, no entanto, Carlos, ainda sem herdeiros legítimos, decidiu que o risco para o Duque, seu sucessor, era grande demais, e nomeou Ruperto comandante supremo das forças aliadas em seu lugar.[136] Ruperto iniciou a campanha de 1673 contra os holandeses ciente de que o apoio logístico para sua frota era incerto, com muitos navios subdimensionados em pessoal.[137] O resultado foram a Batalha de Schooneveld em junho e a Batalha de Texel em agosto, uma sequência controversa de combates em que, no mínimo, falhas de comunicação entre os comandantes franceses e ingleses favoreceram as vitórias holandesas.[138] Muitos comentaristas ingleses foram mais severos, culpando os franceses por não se engajarem plenamente nas batalhas, e Ruperto, que desde o início havia advertido contra a aliança, foi aclamado popularmente como herói.[139] Ruperto aposentou-se definitivamente do comando naval ativo ainda naquele ano.[140]

Ruperto possuía um estilo característico como almirante; ele se baseava em uma “liderança pessoal enérgica, sustentada por contato próximo com seus oficiais”;[141] no entanto, uma vez decidido sobre um curso de ação em uma campanha naval, sua equipe encontrava dificuldade em fazê-lo mudar de opinião.[141] Pesquisas recentes sobre sua atuação como comandante também destacam os avanços promovidos por Ruperto na formulação das ordens dadas à frota britânica. As comunicações navais eram limitadas no período, e as ordens tradicionais antes de uma batalha eram, portanto, bastante rígidas, restringindo a autonomia dos capitães durante o combate.[142] Ruperto teve papel fundamental nas conferências organizadas pelo Duque de Iorque em 1665 para revisar as táticas e métodos operacionais da Primeira Guerra Anglo-Holandesa, e aplicou esses princípios antes da Batalha do Dia de São Tiago.[143] Essas instruções e diretrizes suplementares aos capitães de navios, que buscavam equilibrar o cumprimento de ordens permanentes com a necessidade de explorar oportunidades emergentes durante o combate, exerceram grande influência ao longo dos cem anos seguintes[143] e moldaram a ideia de que um espírito combativo agressivo deveria estar no cerne da doutrina naval britânica.[144]

Após 1673, Ruperto permaneceu como figura sênior tanto na Marinha Real quanto na administração de Carlos II. Ele aliou-se a Lorde Shaftesbury em questões de política externa, mas permaneceu leal ao rei Carlos II em outras pautas,[145] sendo fervoroso defensor da preservação do privilégio real. Como consequência, opôs-se ao plano do Parlamento, em 1677, de nomeá-lo Almirante-Mor, sob o argumento de que apenas o rei deveria ter o direito de indicar tal cargo, embora tenha declarado que aceitaria o posto caso o rei assim desejasse.[146] A solução encontrada pelo monarca foi criar uma pequena e poderosa Comissão do Almirantado, da qual Ruperto se tornou o primeiro comissário.[147] Como resultado, de 1673 a 1679 Ruperto foi capaz de se concentrar em garantir uma regulamentação mais rigorosa de tripulação, artilharia e seleção de oficiais. Ele também estava envolvido na definição de prioridades entre os diferentes teatros de operações em que a Marinha Real estava agora envolvida em todo o mundo.[148]

Últimos anos

Após o fim de sua carreira naval ativa, Ruperto continuou envolvido tanto no governo quanto na ciência, embora estivesse cada vez mais afastado da política contemporânea.[149] Para os membros mais jovens da corte, o príncipe parecia pertencer a outra época, distante.[150] O Philibert, conde de Gramont descreveu Ruperto como "valente e corajoso até à imprudência, mas de temperamento difícil e incorrigivelmente obstinado... era cortês, até mesmo em excesso, fora de tempo; mas altivo, e até mesmo brutal, quando deveria ter sido gentil e cortês... seus modos eram pouco graciosos: tinha um rosto seco e severo, e um olhar austero, mesmo quando queria agradar; mas, quando estava de mau humor, era o verdadeiro retrato da repreensão".[150] A saúde de Ruperto também se deteriorou nesse período: a ferida na cabeça sofrida durante seu serviço na França exigiu um doloroso tratamento de trepanação, a lesão na perna continuava a causar-lhe dores, e ele ainda sofria dos efeitos da malária contraída enquanto estava na Gâmbia.[151]

Administração colonial

Retrato de Ruperto por volta de 1665. Atribuído a Peter Lely. No Museu Marítimo Nacional.

Ruperto demonstrava interesse por questões coloniais havia muitos anos. Ao chegar à Inglaterra em 1663, ele incentivou o governo a continuar sua própria exploração do rio Gâmbia na tentativa de encontrar ouro, o que levou à expedição de Robert Holmes no ano seguinte.[152] Ruperto era um acionista ativo na Companhia dos Aventureiros Reais que Comercializam com a África, estabelecida como resultado em 1662.[152] A companhia operou pelos oito anos seguintes, com financiadores incluindo o rei, o duque de Iorque e a Royal Society, e suas atividades incluíam o envolvimento no comércio de escravizados na África Ocidental, até sua dissolução em 1670.[153] As operações da companhia foram então fundidas com as da Companhia dos Comerciantes da Gâmbia na nova Companhia Real Africana, com uma carta real que concedia o direito de estabelecer fortes e feitorias, manter tropas e exercer lei marcial na África Ocidental, com o objetivo de comercializar ouro, prata e escravizados; Ruperto foi o terceiro membro nomeado do conselho de administração da companhia.[154]

Naquela altura, no entanto, a atenção de Ruperto havia se voltado para a América do Norte. Os exploradores franceses Pierre-Esprit Radisson e Médard des Groseilliers haviam vindo à Inglaterra após realizarem uma expedição conjunta à região da Baía de Hudson em 1659;[155] lá, seu relato atraiu a atenção do rei e de Ruperto.[156] Ruperto investiu inicialmente £270 de seu próprio dinheiro em uma proposta para uma nova expedição e começou a angariar mais fundos; apesar de contratempos, incluindo o Grande Incêndio de Londres, até 1667 ele havia formado um consórcio privado e alugado o navio Eaglet do rei para a expedição.[157] A Eaglet fracassou, mas sua embarcação irmã, a Nonsuch, realizou uma expedição bem-sucedida, retornando em 1669 com peles no valor de £1,400.[158] Em 1670, o rei aprovou a carta para a criação da "Governadoria e Companhia dos Aventureiros da Inglaterra comercializando na Baía de Hudson", que se tornaria a Companhia da Baía de Hudson, à qual foi concedido um monopólio comercial sobre toda a bacia hidrográfica da Baía de Hudson, um imenso território denominado Terra de Ruperto, com Ruperto nomeado como seu primeiro governador.[158] O primeiro secretário da companhia foi Sir James Hayes, e Radisson nomeou o rio Hayes, no atual Manitoba, em sua homenagem. A companhia continuou a prosperar, tornando-se a base de grande parte da atividade comercial do Canadá colonial. O papel de Ruperto no comércio colonial foi marcado pelo convite que recebeu para lançar a pedra fundamental da nova Royal Exchange em 1670, além de ser nomeado como um de seus primeiros conselheiros.[159][b]

Ciências e Royal Society

Gravura de 1667 celebrando Ruperto como membro fundador da Royal Society.

Após sua aposentadoria das atividades navais por volta de 1674, Ruperto pôde dedicar mais tempo à pesquisa científica e passou a ser creditado com diversas invenções e descobertas, embora algumas mais tarde tenham sido reconhecidas apenas como a introdução inovadora de invenções europeias na Inglaterra. Ruperto converteu alguns dos aposentos do Castelo de Windsor em um luxuoso laboratório, completo com forjas, instrumentos de laboratório e matérias-primas, de onde conduziu uma variedade de experimentos.[120]

Ruperto já havia se tornado o terceiro membro fundador da Royal Society (Sociedade Real de Ciências), sendo referido por seus contemporâneos como um “guerreiro filosófico”,[161] e atuou como conselheiro da Sociedade em seus primeiros anos.[162] Muito cedo na história da Sociedade, Ruperto demonstrou as chamadas gotas do Príncipe Ruperto ao rei Carlos II e aos membros da instituição, lágrimas de vidro que explodem ao se quebrar a cauda; embora na época tenha sido creditado como seu inventor, interpretações posteriores sugerem que ele foi, na verdade, responsável por introduzir essa descoberta europeia na Inglaterra.[163] Ele também demonstrou um novo dispositivo para elevação de água na Royal Society, e recebeu atenção por seu processo de “pintar cores sobre mármore, que, ao ser polido, se tornavam permanentes”.[164] Durante esse período, Ruperto também formulou um problema matemático sobre o paradoxo de que um cubo pode passar por dentro de outro cubo ligeiramente menor; ele questionou qual deveria ser o tamanho mínimo do cubo externo para que isso fosse possível.[165] Essa questão, conhecida como o Cubo do Príncipe Ruperto, foi resolvida pela primeira vez pelo matemático holandês Pieter Nieuwland.[165] Ruperto também era conhecido por seu sucesso na decodificação de cifras e códigos criptografados.[166]

Muitas das invenções de Ruperto tinham aplicação militar. Após projetar o canhão naval Rupertinoe, ele construiu um moinho hidráulico em Hackney Marshes para uma técnica revolucionária de furação de canos de armas; no entanto, seu segredo morreu com ele, e a empreitada fracassou.[167] Ruperto interessava-se por outros problemas militares e chegou a fabricar fechos de armas de fogo;[168] ele também projetou uma arma capaz de disparar múltiplos tiros em alta velocidade,[168] e uma arma de fogo portátil com canos rotativos (semelhante a um revólver).[169] A ele é atribuída a invenção de um tipo de pólvora que, ao ser demonstrada à Royal Society em 1663, possuía uma força mais de dez vezes superior à da pólvora comum; além disso, desenvolveu um método aprimorado para o uso de pólvora na mineração;[168] e também inventou um torpedo.[169] Ruperto criou ainda uma versão de munição de canhão de fragmentação para uso da artilharia.[169] No campo naval, ele desenvolveu um mecanismo de equilíbrio para melhorar medições com o quadrante em alto-mar,[168] e inventou um equipamento de mergulho para recuperar objetos do fundo do oceano.[169] Durante sua recuperação de uma cirurgia de trepanação, Ruperto se dedicou a criar novos instrumentos cirúrgicos para aprimorar futuras operações.[170]

Outras áreas do trabalho científico de Ruperto estavam ligadas à metalurgia. Ele inventou uma nova liga de latão, um pouco mais escura do que o latão comum,[171] composta de três partes de cobre para uma parte de zinco, combinadas com carvão vegetal;[172] essa liga passou a ser conhecida como "metal do príncipe" (Prince's metal), às vezes também chamada de “latão de Bristol”.[173] Ruperto desenvolveu essa liga com o objetivo de melhorar a artilharia naval,[174] mas ela acabou sendo usada também como substituto do ouro em ornamentos.[171] Ele também foi creditado com o desenvolvimento de um método excepcional de têmpera de anzóis do tipo kirby,[175] e com a criação de técnicas para fundição de objetos com aparência em perspectiva.[168] Ainda em 1663, ele inventou um método aprimorado para a fabricação de projéteis de chumbo de vários tamanhos, que mais tarde seria refinado pelo cientista Robert Hooke, amigo de Ruperto na Royal Society.[168] Em particular, ele é creditado por ter desenvolvido o processo de fundição de pequenas esferas de chumbo (ou chumbinho), derramando chumbo derretido através de uma peneira e deixando as gotas caírem alguns centímetros em água. Esse tipo de munição, comumente encontrado em sítios arqueológicos, especialmente em naufrágios dos séculos XVII e XVIII, é frequentemente chamado de "munição de Ruperto" pelos arqueólogos.

Morte

Ruperto faleceu em sua casa em Spring Gardens, Westminster, em 29 de novembro de 1682, após um episódio de pleurisia, e foi sepultado na Abadia de Westminster em 6 de dezembro, no túmulo de Maria, Rainha dos Escoceses, com honras de funeral de Estado.[176] Ruperto deixou a maior parte de seu patrimônio, avaliado em cerca de £12.000, igualmente dividido entre Margaret Hughes e sua filha Ruperta.[177] Hughes enfrentou um período de "viuvez desconfortável"[177] sem o apoio de Ruperto, agravado supostamente por seu envolvimento improdutivo com jogos de azar.[178]

Presentes dados por Ruperto, como brincos que haviam pertencido à sua mãe, foram vendidos à Sarah Churchill, Duquesa de Marlborough, enquanto um colar de pérolas presenteado por Eleitor Frederico à Eleitora Isabel foi vendido à atriz Nell Gwynn. Hughes vendeu a casa em Hammersmith para dois comerciantes londrinos, Timothy Lannoy e George Treadwell; a propriedade foi então adquirida pelo Carlos Alexandre, Marquês de Brandemburgo-Ansbach, passando a ser conhecida como Casa de Brandemburgo (ou Brandenburgh House).[177]

Ruperta, filha de Ruperto, casou-se posteriormente com Emanuel Howe, futuro general inglês e membro do Parlamento,[177] com quem teve cinco filhos: Sophia, William, Emanuel, James e Henrietta. Por meio da filha de William, Mary, Rupert é ancestral dos Baronetes Bromley.

O filho de Ruperto, Dudley Bard, seguiu carreira militar, sendo frequentemente chamado de "Capitão Rupert", e morreu ainda adolescente, lutando no Cerco de Buda (1686).[179]

Relacionamentos e filhos

Frances Bard.

Ruperto envolveu-se romanticamente com Frances Bard (1646–1708), filha do explorador inglês e veterano da Guerra Civil Henry Bard.[180] Frances alegou ter se casado secretamente com Ruperto em 1664, embora ele tenha negado a afirmação, e não exista nenhuma prova concreta que comprove o matrimônio.[181] Ruperto reconheceu o filho que teve com Frances, Dudley Bard (1666–1686), frequentemente chamado de "Dudley Ruperto", que estudou no Eton College. Em 1673, Ruperto foi instado por seu irmão Carlos Luís a retornar ao Palatinado, casar-se e gerar um herdeiro, uma vez que parecia provável que o filho de Carlos Luís não sobreviveria à infância. Ruperto recusou e permaneceu na Inglaterra.[145]

Margaret Hughes.

No final de sua vida, Ruperto apaixonou-se por uma atriz atraente de Drury Lane, chamada Margaret Hughes, ou "Peg". Ele envolveu-se com ela no final da década de 1660, rompendo com sua antiga amante, Frances Bard, com quem teve um filho, Dudley. Hughes, por sua vez, aparentemente resistiu às investidas de Ruperto até negociar uma forma de segurança financeira adequada.[182] Com o apoio de Ruperto, Hughes obteve rápida ascensão: tornou-se membro da King's Company em 1669, o que lhe conferia status e imunidade contra prisões por dívidas, além de ter sido retratada quatro vezes por Sir Peter Lely, o principal pintor da corte na época.[183]

Apesar da pressão para que se casasse com Hughes,[182] Ruperto não oficializou a união, mas reconheceu a filha que teve com ela, Ruperta (nascida em 1673), que mais tarde casou-se com Emanuel Howe.[184] Durante a década de 1670, Hughes levou um estilo de vida dispendioso, com gosto por jogos de azar e joias; Ruperto presenteou-a com ao menos £20.000 em joias, incluindo diversas peças da coleção real do Eleitorado do Palatinado.[185] Hughes continuou a atuar mesmo após o nascimento de Ruperta, retornando aos palcos em 1676 na prestigiada Duke's Company, no Dorset Garden Theatre, próximo ao Strand, em Londres. No ano seguinte, Ruperto instalou Hughes em uma "residência magnífica" no valor de £25.000, comprada de Sir Nicholas Crispe, em Hammersmith.[184] Ruperto parecia apreciar a vida em família, comentando que sua jovem filha "já comanda a casa inteira e às vezes discute com a mãe, o que nos faz rir a todos".[184]

Legado

Segundo Ian Gentles:

O sobrinho de Carlos I, o príncipe Ruperto do Reno, foi um guerreiro famoso que, no entanto, venceu pouquíssimas batalhas por terra ou mar. Amado por seus homens por sua coragem desafiadora da morte e seu elevado senso de honra militar, era, ainda assim, um líder mal-humorado e arrogante. Seus defeitos de caráter se acentuaram com a idade. Ainda assim, permanece como uma das figuras mais românticas da história inglesa, admirado por suas investidas de cavalaria imprudentes, e por seus ataques navais igualmente temerários contra as muito mais fortes frotas parlamentaristas e, mais tarde, holandesas. [...] O príncipe afastou muitos por ser frequentemente irascível, sem tato, impaciente e—mais seriamente—um mau juiz de caráter.[186]

A memória do príncipe Ruperto está bem representada na geografia do Canadá. As terras da Companhia da Baía de Hudson, compreendendo toda a área drenada por rios que deságuam na Baía de Hudson, eram conhecidas como Terra de Rupert (Rupert's Land) de 1670 até 1870. A Diocese anglicana da Terra de Rupert, com sede em Winnipeg, Manitoba,[187] é um vestígio desse período, assim como as ruas Prince Rupert Avenue, Rupert Avenue e Rupertsland Avenue, também em Winnipeg.[188]

Notas

  1. Seu título completo era Ruperto, Conde Palatino do Reno, Duque da Baviera, Duque de Cumberland, Conde de Holderness (em alemão: Ruprecht Pfalzgraf bei Rhein, Herzog von Bayern).
  2. Em 1869, o controle sobre o território da Companhia da Baía de Hudson foi revertido aos governos britânico e canadense.[160]

Referências

  1. «Discover etcher, mezzotinter, painter Ruprecht van de Palts» 
  2. Spencer, pp. 6–7.
  3. «Digitaal Vrouwenlexicon van Nederland». 17 de setembro de 2019 
  4. «Sophia of Hanover Dies». History Today 
  5. Spencer, p. 2.
  6. Fergusson, p. 141.
  7. Spencer, p. 1.
  8. Spencer, p. 11.
  9. Spencer, pp. 16–17.
  10. Spencer, p. 14.
  11. Spencer, p. 15.
  12. a b c d Spencer, p. 20.
  13. a b Spencer, p. 23.
  14. Dalton, notas (capítulo 1, nota 7).
  15. Spencer, pp. 19–21.
  16. Spencer, p. 25.
  17. Spencer, pp. 25–26.
  18. Spencer, pp. 28–29.
  19. a b Spencer, p. 30.
  20. a b Spencer, p. 35.
  21. Spencer, p. 37.
  22. Spencer, pp. 38–39.
  23. a b Spencer, p. 39.
  24. a b Spencer, p. 40.
  25. a b Spencer, pp. 40–41.
  26. Kitson, p. 67.
  27. Spencer, p. 43.
  28. Spencer, p. 41.
  29. Warburton, p. 103.
  30. Spencer, p. xiii.
  31. a b Spencer, p. 55.
  32. Kitson, p. 17.
  33. Purkiss, 2007, p. 175.
  34. Spencer.
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  40. Wedgwood, p. 128.
  41. a b Wedgwood, p. 129.
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Leitura adicional

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  • Morrah, Patrick (1976). Prince Rupert of the Rhine. London: Constable.
  • Petrie, Charles (1974). King Charles, Prince Rupert, and the Civil War: From Original Letters. London: Routledge and Kegan Paul.
  • Thomson, George Malcolm (1976). Warrior Prince: Prince Rupert of the Rhine. London: Secker and Warburg.
  • Wilkinson, Clennell (1935). Prince Rupert, the Cavalier. Philadelphia: J.B. Lippincott.

Ligações externas