Rudolf Kraus

Rudolf Kraus
Rudolf Kraus (1868–1932)
Nascimento
Morte
16 de julho de 1932 (63 anos)

Nacionalidadeaustríaco
Alma materEscola Médica de Viena
Prêmiospioneiro da química clínica e do diagnóstico laboratorial
Carreira científica
Campo(s)Medicina e bacteriologista

Rudolf Kraus (Jungbunzlau, 31 de outubro de 1868Santiago, 16 de julho de 1932) foi um médico austríaco associado à chamada Escola Médica de Viena.

Destacou-se nos campos da patologia, bacteriologia e imunologia, sendo considerado um pioneiro da química clínica e do diagnóstico laboratorial.[1]

Biografia e carreira

Kraus nasceu em 30 de outubro de 1868, em Mladá Boleslav, na Boêmia, na atual República Tcheca. Formou-se em medicina pela Universidade Alemã de Praga, em 1893. No ano seguinte, Kraus mudou-se para Viena, onde passou a trabalhar na clínica do professor Edmund Neusser (1852–1912). Em 1895, seguiu para o Instituto Pasteur de Paris, permanecendo alguns meses, até ser convidado a integrar o recém-criado Instituto Soroterápico Federal de Viena (Staatliches Serotherapeutisches Institut Wien), dirigido por Richard Paltauf. Kraus ingressou no instituto em 1896 e rapidamente se destacou pelas pesquisas em reações sorológicas e imunizações.[1][2]

Em 1903, trabalhou na Estação Zoológica de Rovigno, em colaboração com Fritz Schaudinn, e novamente no Instituto Pasteur de Paris, ao lado de Constantin Levaditi. Dois anos depois, em 1905, frequentou o curso de protozoologia no Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo (Institut für Schiffs- und Tropenkrankheiten). Em 1906, obteve o título de privatdozent em patologia geral e experimental (Allgemeine und Experimentelle Pathologie) na Universidade de Viena, instituição na qual lecionava desde 1901, ministrando cursos sobre imunologia, soroterapia, doenças infecciosas e malária.[1][3][2]

Iniciou sua carreira sob a orientação de Salomon Stricker, no Instituto de Patologia Geral e Experimental da Universidade de Viena. Stricker buscava integrar a pesquisa experimental à prática clínica e atraiu diversos cientistas de renome, entre eles o jovem Kraus. Com base em seus trabalhos experimentais na universidade, Kraus publicou em 1897, na Wiener Klinische Wochenschrift, o primeiro estudo sobre a reação de imunoprecipitação, sendo reconhecido como o descobridor das precipitinas.[4] Em 1904, desenvolveu em colaboração com Robert Doerr uma forma de soroterapia aplicada à disenteria bacilar. Pesquisas posteriores sobre a chamada heterobacterioterapia, realizadas por Kraus (1914), Giuseppe Mazza (1858–1922) e outros, antecederam a introdução da proteinoterapia, proposta em 1916 por Rudolf Schmidt (1873–1947).[1][2]

No início de 1913, Kraus se destacou ao liderar uma expedição destinada a combater surtos de cólera, disenteria e febre tifoide que atingiam o exército búlgaro durante a Guerra dos Bálcãs (1912–1913).[4] Apesar do reconhecimento por sua atuação científica, suas perspectivas de ascensão profissional eram restritas, uma vez que a direção tanto do Instituto Soroterápico quanto do Instituto de Patologia Experimental da Universidade de Viena estava sob o comando de Richard Paltauf, que acumulava também a cátedra de patologia experimental. Outro fator relevante que pode ter limitado sua carreira acadêmica foi sua origem judaica, possivelmente um obstáculo para a obtenção de uma cátedra na Universidade de Viena.[1][2]

Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Kraus deixou a Áustria e passou dez anos na América do Sul, onde realizou importantes pesquisas microbiológicas na Argentina, no Chile e no Brasil, além de formar diversos discípulos. Nesse período, atuou como diretor do Instituto Bacteriológico-Seroterapêutico de Buenos Aires e do Instituto Bacteriológico de Santiago do Chile. Em 1923, retornou a Viena e deu continuidade ao seu trabalho no Instituto Seroterapêutico da universidade.[1]

Kraus desenvolveu uma vacina (ou antitoxina) contra a coqueluche durante sua atuação na América do Sul. No Brasil, seu imunizante, conhecido como "vacina Kraus" ou “antitoxina Kraus”, começou a ser produzido já a partir de 1916–1917 pelo Laboratório Paulista de Bacteriologia (LPB) e pelo Instituto Bacteriológico, sendo aplicada em São Paulo com resultados favoráveis relatados no congresso de 1916. A partir de 1917, os resultados de seu uso foram divulgados em várias revistas médicas brasileiras. A vacina tornou-se tão conhecida que chegou a ser solicitada ao Instituto Oswaldo Cruz em 1920. Além disso, pediatras brasileiros de destaque, como Angelo de Azevedo Santos Moreira e Leoncio de Queiroz, recomendavam a vacinoterapia em seus manuais, e instituições como o LPB continuaram a produzir vacinas baseadas no método de Kraus, com eventuais adaptações por Carvalho Lima.[1]

Morte

Krauss morreu em Santiago, no Chile, em 16 de julho de 1932, aos 63 anos. Após sua morte, Rudolf Kraus foi sepultado em um túmulo honorário no Arkadengang da Feuerhalle Simmering, em Viena, ao lado das urnas de Guido Holzknecht e Friedrich Knauer.[1]

Referências

  1. a b c d e f g h Cavalcanti, Juliana Manzoni (2013). «Dossiê Brasil - Alemanha: Relações Médico-Científicas». Hist. cienc. saúde-Manguinhos. 20 (1). doi:10.1590/S0104-59702013000100012. Consultado em 27 de agosto de 2025 
  2. a b c d «The development of immunology in the Danube Monarchy and the First Republic». Austrian Society for Allergology and Immunology. Consultado em 27 de agosto de 2025 
  3. «Rudolf Kraus». Österreichisches Biographisches Lexikon 1815–1950. Consultado em 27 de agosto de 2025 
  4. a b «Ueber spezifische Reaktionen in keimfreien Filtraten aus Cholera-Typhus-Pestbouillonculturen erzeugt durch homologes Serum» [Sobre reações específicas em filtrados livres de germes de culturas em caldo de cólera, tifoide e peste, produzidas por soro homólogo]. Wiener klinische Wochenschrift (em alemão). 10 (32): 736–739. 1897