Rosa Casaco
| Rosa Casaco | |
|---|---|
| Nascimento | 1 de março de 1915 Abrantes |
| Morte | 5 de julho de 2006 Cascais |
| Cidadania | Portugal |
| Ocupação | fotógrafo |
António Rosa Casaco (Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes, 1 de Março de 1915 – Cascais, Cascais, 11 de Julho de 2006) foi o agente da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) que chefiou a brigada que assassinou o General Humberto Delgado.
Origens
De origens humildes, era filho natural de Joana Rosa, doméstica, também natural de Rossio ao Sul do Tejo.[1] O apelido Casaco foi escolhido pela mãe, que o terá ido buscar a familiares longínquos. Oficialmente, era filho de pai incógnito. Um pai que, no entanto, está bem identificado e conheceu perfeitamente, embora o desprezasse profundamente: João Augusto Martins Júnior, irmão de António Augusto da Silva Martins, ex-campeão de tiro e participante nos Jogos Olímpicos de Verão de 1924, em Paris. Primo de dois conhecidos clínicos — António Gentil da Silva Martins e Francisco Gentil da Silva Martins, o primeiro o cirurgião plástico e cirurgião pediatra que chegou a ser 8.º Bastonário da Ordem dos Médicos de 1977 a 1986, este último oncologista. Dada a relação tumultuosa com o pai, chegou a inventar um suposto progenitor, António Rodrigues Casaco, que passou a constar de alguns dos seus documentos.[2]
Não concluiu a instrução primária. Começou a trabalhar em Rossio ao Sul do Tejo aos 10 anos, como aprendiz de marceneiro, e aos 15 anos foi para Lisboa trabalhar ao balcão de uma leitaria de uns tios, com quem passou a viver. Cumpriu o serviço militar em Rossio ao Sul do Tejo, onde se alistou como voluntário no Grupo Misto de Artilharia Montada n.° 24, liderada pelo coronel Júlio Lourenço, irmão do diretor da PVDE/PIDE, Agostinho Lourenço.[2]
Carreira
Terminado o serviço militar, estava desempregado. Em 1936, alistou-se na recém-criada Legião Portuguesa. Por sugestão do coronel Júlio Lourenço, candidatou-se e foi admitido em janeiro de 1937 na Polícia Internacional e de Defesa do Estado, quando ainda era então denominada Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. Começou a trabalhar na sede, em Lisboa, depois no Porto e ainda na fronteira com Espanha, em Vila Real de Santo António. Em Lisboa, estagiou com o n.º 2 da PIDE, o capitão Catela. Em 1938, foi promovido a agente de 3.ª classe, já com louvores do diretor da PIDE, Agostinho Lourenço, e foi nomeado correio diplomático entre Portugal e Espanha, função que desempenhou ainda durante a Guerra Civil de Espanha e depois durante a II Guerra Mundial até ao seu término, em 1945. Mais tarde, passaria a receber a correspondência do próprio presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar. As idas a Espanha proporcionam-lhe contacto e grande proximidade com o embaixador de Portugal em Madrid, Pedro Teotónio Pereira, e com a cúpula da Dirección General de Seguridad espanhola - equivalente à PIDE - e as duas polícias ibéricas passaram a dispor de uma ligação próxima, ao ponto de Rosa Casaco ter prestado vários serviços à DGS espanhola.[2]
A 25 de dezembro de 1939, casou civilmente em Lisboa com Ivone Viana Espírito Santo e Silva (Santo Ildefonso, Porto, c. 1918), doméstica, filha de Virgílio Viana do Espírito Santo e de Zulmira Viana do Espírito Santo e Silva, doméstica, ambos naturais de Lisboa (ele da freguesia de São Julião e ela da freguesia de Santa Catarina). Ivone não era membro da família de banqueiros Espírito Santo. O primeiro filho de ambos, Pedro, nasceu em junho de 1942 e teve como padrinho o então embaixador de Portugal em Madrid, Pedro Teotónio Pereira. O casal teve ainda mais dois filhos.[1][2]
Em 1945, foi promovido a agente de 1.ª classe. Em 1951, depois de um primeiro chumbo, subiu à categoria de chefe de brigada. Nos Serviços Reservados da PIDE, dedicou-se à repressão dos comunistas, e foi depois chefe do posto de fronteira do aeroporto de Lisboa, onde conheceu Humberto Delgado. Destacado para os Açores a partir de 1957, aí montou a sede da delegação da PIDE, em Ponta Delgada, e os postos de Angra do Heroísmo, Lajes e Santa Maria. Em julho de 1960, foi promovido a subinspetor, categoria até então reservada a oficiais da GNR e que Rosa Casaco foi o primeiro agente da PIDE a ocupar. Em julho de 1962, foi promovido a inspetor e encarregado da Intercepção Postal. Foi um dos principais operacionais da Operação Outono, da qual resultou o homicídio de Humberto Delgado em fevereiro de 1965. Na sede da PIDE, ocupava um gabinete contíguo ao do então diretor da PIDE, Fernando da Silva Pais.[2]
Esteve envolvido no caso Matesa, que Jorge Farinha Piano, presidente do Banco Viseense e seu amigo, orquestrou como esquema de tráfico de divisas provenientes de Espanha, cambiadas no Banco Viseense e depois depositadas em bancos norte-americanos. Rosa Casaco ordenou a três subordinados da PIDE que colaborassem, a troco de comissões, no transporte de divisas de Espanha para Portugal. Assumiu a total responsabilidade pelo sucedido perante a direção da PIDE. Em 1970, por decisão do então ministro do Interior, António Gonçalves Rapazote, foi-lhe instaurado um processo disciplinar, que acabaria arquivado por falta de provas. Foi, assim, despromovido, tendo sido nomeado subdiretor da delegação do Porto, onde permaneceu até à Revolução de 25 de abril de 1974, de que só foi avisado após a meia-noite pela DGS espanhola e durante a qual terá desobedecido às ordens de Silva Pais para disparar sobre a multidão em frente à delegação da PIDE. Acabou por perder a oportunidade de ser promovido a inspetor-adjunto e diretor de serviço. Dedicou-se a negócios na bolsa e no setor imobiliário.[2]
Rosa Casaco era conhecido como "o Pide, menino bonito de Salazar". Este último detinha grande confiança no primeiro e foi o autor das suas fotografias mais íntimas, como aquelas em que Salazar com a jornalista francesa Christine Garnier, com quem teria uma relação amorosa. Como fotógrafo, granjeou algum sucesso, concorrendo ao Salão Internacional de Fotografia de Lisboa e chegando a figurar em 12.º lugar no ranking dos melhores fotógrafos do mundo, segundo o Anuário de Fotografia de Boston, de 1952. Fotografou também a visita do Papa Paulo VI a Fátima, em 1967.[2]
Ainda em abril de 1974, fugiu para Madrid, onde foi acolhido, juntamente com a mulher, numa residência da DGS espanhola, organização na qual pontificava Vicente Reguengo, um seu amigo e comissário-chefe da Brigada Política e Social. Em junho de 1974, instalou-se na República Dominicana, com um passaporte falso em nome de António Roque Carmona, devido à amizade com o ex-presidente Héctor Trujillo, que havia pedido asilo a Portugal em 1960, tendo sido protegido pelo regime ditatorial do presidente Joaquín Balaguer, que lhe permitiu acesso a diversos negócios rentáveis. Em dezembro de 1974, regressou a Madrid, onde alega ter vivido dos rendimentos obtidos na República Dominicana. Nega ter pertencido a organizações como o Movimento Democrático de Libertação de Portugal ou o Exército de Libertação de Portugal. Em outubro de 1975, emigrou para o Brasil com dois dos três filhos, onde obteve documentação falsa e se registou com identidade falsa junto do consulado-geral de Portugal no Rio de Janeiro, tendo ainda vivido em Fortaleza e em São Paulo. No Brasil, dedicou-se ao setor imobiliário, novamente com o apoio de Jorge Farinha Piano, que havia aberto uma casa bancária no Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro foi cronista da imprensa da comunidade portuguesa, como os jornais "Mundo Português" e "Portugal em Foco", onde escrevia com o pseudónimo António de Castro. Foi julgado à revelia por ter cumprido as leis de estado anteriores a 1974 na década de 1980 e condenado a oito anos de cadeia por crimes de falsificação, destruição de documentos e por ter pertencido à polícia política do Estado Novo.[2]
A partir de 2002, quando os mandados internacionais que pendiam sobre si foram cancelados, e apesar de a Constituição Portuguesa de 1976 afirmar expressamente a não prescrição dos crimes cometidos durante o Estado Novo, regressou a Portugal e viveu em Cascais até 11 de julho de 2006, data da sua morte.[1]
Referências
- ↑ a b c «Livro de registo de casamentos da 7.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa (1939-10-08 - 1939-12-31)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. fls. 529 e 529v, assento 524
- ↑ a b c d e f g h José Pedro Castanheira (13 de fevereiro de 2015). «Rosa Casaco, ao Expresso «Voltaria a ser da PIDE»». Expresso. Consultado em 2 de novembro de 2025
Fontes
- CASACO, António Rosa. Servi a Pátria e Acreditei no Regime. Lisboa, ed. do autor, 2003
- Morreu Rosa Casaco, o inspector da PIDE envolvido na morte de Humberto Delgado[ligação inativa]
- PIMENTEL, Irene. Alguns dados para uma biografia de António Rosa Casaco
- Morreu o PIDE fotógrafo
- Entrevista de António Rosa Casaco ao Expresso em 20 de julho de 2006.
- António Gentil da Silva Martins, primo direito.