Romaria Fluvial do Senhor Bom Jesus de Cuiabá
A Romaria Fluvial do Senhor Bom Jesus de Cuiabá é uma festividade católica da cidade de Cuiabá, associada ao padroeiro da cidade, Senhor Bom Jesus de Cuiabá.
Histórico
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A origem da devoção ao Senhor Bom Jesus em Cuiabá remonta ao período colonial, vinculada ao povoamento da região a partir da corrida ao ouro e à criação da vila. A Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá foi instituída em 1º de janeiro de 1727, em contexto das lavras auríferas e da presença dos bandeirantes paulistas. Nesse processo, a igreja matriz dedicada ao Senhor Bom Jesus (posteriormente a Catedral Basílica do Senhor Bom Jesus de Cuiabá) foi construída em 1722 como parte estrutural da elevação da vila. [1][2]
Estudos da irmandade do Senhor Bom Jesus do Cuiabá mostram que já no fim do século XVIII existia uma sociedade devocional formal, a Irmandade do Senhor Bom Jesus, cujo estatuto foi redigido nos anos 1790 e aprovada na década de 1820.[3]
A imagem do Senhor Bom Jesus de Cuiabá teria sido alvo de três tentativas de furto quando ainda era guardada em uma igreja de pau a pique, sem proteção adequada. Nas duas primeiras vezes, a imagem foi recuperada, primeiro na região do Porto e depois em uma residência na Cidade Alta, motivo pelo qual os moradores passaram a chamá-la de “Santo Fujão”.[4]
Na terceira ocasião, um homem chamado Manoel Homem roubou a imagem junto com riquezas da igreja e fugiu para a região de Camapuã (atualmente em Mato Grosso do Sul), onde construiu um casebre próximo à confluência dos rios Verde e Aguapé.[4]
Com a perseguição policial, Manoel abandonou o local, deixando para trás a imagem. Comerciantes que passavam rumo a São Paulo tentaram levá-la, mas sem sucesso. Posteriormente, um viajante que seguia em direção a Cuiabá conseguiu transportá-la até Guarapiranga (próximo ao atual Barão de Melgaço), onde enfrentou dificuldades para continuar o trajeto até a cidade.[4]

A população do arraial fez orações e promessas de que, se encontrassem a imagem, fariam uma igreja digna para abrigar o Senhor Bom Jesus.[4]
A romaria fluvial atual parte de uma narrativa simbólica que alude ao episódio de “achado” ou “reencontro” da imagem do Senhor Bom Jesus que teria se extraviado ou desaparecido e sido trazida por uma expedição até Cuiabá. A romaria fluvial se configura como alusão histórica do Senado da Câmara que teve conhecimento do achado da Imagem, nomeou uma expedição marítima de 25 (vinte e cinco) homens para trazê-la a Cuiabá. Ainda, nota-se que a caminhada subsequente, denominada “Caminhada da Fé”, refere-se à alusão do povo cuiabano ao encontro dessa expedição na comunidade São Gonçalo Velho, atualmente Bairro São Gonçalo Beira Rio, e à procissão até a Igreja Matriz.[3][5][4]
Festividades
A romaria fluvial ocorre tipicamente no mês de abril, integrando as festividades em honra ao Senhor Bom Jesus de Cuiabá, padroeiro da cidade, cujas celebrações coincidem com o aniversário da capital (8 de abril). A programação inclui múltiplas atividades (cavalgada, pedal, motociata, encontro de carros antigos), mas o foco aqui é a romaria fluvial, também chamada “Romaria das Águas” e “Navegando com o Senhor Bom Jesus”.[6]
Durante o percurso, ocorre a:[7]
- Concentração das embarcações náuticas em localidades como Santo Antônio de Leverger (município próximo a Cuiabá) ou na comunidade São Gonçalo Beira Rio.
- Saída matinal das embarcações (ex: 07h) para navegação ao longo do Rio Cuiabá, com trajeto de cerca de 10 km em alguns anos.
- Almoço ou parada na Marina Beira Rio, chegada ao bairro do Porto ou Orla do Porto II, desembarque da imagem do Senhor Bom Jesus. (
- No mesmo dia ou logo após, a Caminhada da Fé, que parte da Orla do Porto ou Praça do Porto até a Praça Alencastro (centro de Cuiabá).
Aspectos litúrgicos e simbólicos
- A imagem do Senhor Bom Jesus de Cuiabá é transportada em barco ou comboio de embarcações, simbolizando a travessia fluvial e evocando a origem histórica da devoção. [8]
- A chegada da imagem ao centro de Cuiabá via rio e a subsequente procissão simbolizam o “acolhimento” do padroeiro pela cidade.[8]
- A prática associa natureza (o rio), fé (devoção ao padroeiro) e memória urbana (bairro São Gonçalo, Orla do Porto, Praça Alencastro) de modo articulado.[8]
Referências
- ↑ SECEL. «Religiosidade-e-fe-marcam-historia-dos-300-anos-da-capital». Consultado em 9 de novembro de 2025
- ↑
JESUS, Nauk Maria de. A Câmara da Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá: um breve panorama (1727–1800). Fronteiras: Revista de História, Dourados, MS, v. 10, n. 17, p. 163-175, jan./jun. 2008.
- ↑ a b Siqueira, Elizabeth Madureira (1 de dezembro de 1995). «A irmandade do Senhor Bom Jesus do Cuiabá: Devoção, resistência e poder (1821-1857)». Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (53): 71–114. ISSN 2965-6354. Consultado em 9 de novembro de 2025
- ↑ a b c d e admin (12 de novembro de 2024). «Padroeiro | Arquidiocese de Cuiabá». arquidiocesecuiaba.org.br. Consultado em 9 de novembro de 2025
- ↑
SILVA, Gilian Evaristo França. As irmandades e o campo religioso católico da capitania de Mato Grosso (1745–1803). Revista História UEG – Morrinhos, Morrinhos, v. 8, n. 2, e-821919, jul./dez. 2019. Instituto Federal Catarinense.
- ↑ Queiroz, Ana Luiza (6 de fevereiro de 2025). «Veja programação da festa de Senhor Bom Jesus de Cuiabá». Mutirum. Consultado em 9 de novembro de 2025
- ↑ «Celebraçõess ao Senhor Bom Jesus de Cuiabá começam neste sábado :: Leiagora | Playagora | Entret». Leiagora. Consultado em 9 de novembro de 2025
- ↑ a b c Folhamax (9 de abril de 2022). «Romaria das Águas e procissão celebram 303 anos de Cuiabá». Consultado em 9 de novembro de 2025