Romaria Fluvial do Senhor Bom Jesus de Cuiabá

A Romaria Fluvial do Senhor Bom Jesus de Cuiabá é uma festividade católica da cidade de Cuiabá, associada ao padroeiro da cidade, Senhor Bom Jesus de Cuiabá.

Histórico

Praça da República com Catedral do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, construída em 1722 e demolida em 1968. Arquivo Nacional.

A origem da devoção ao Senhor Bom Jesus em Cuiabá remonta ao período colonial, vinculada ao povoamento da região a partir da corrida ao ouro e à criação da vila. A Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá foi instituída em 1º de janeiro de 1727, em contexto das lavras auríferas e da presença dos bandeirantes paulistas. Nesse processo, a igreja matriz dedicada ao Senhor Bom Jesus (posteriormente a Catedral Basílica do Senhor Bom Jesus de Cuiabá) foi construída em 1722 como parte estrutural da elevação da vila. [1][2]

Estudos da irmandade do Senhor Bom Jesus do Cuiabá mostram que já no fim do século XVIII existia uma sociedade devocional formal, a Irmandade do Senhor Bom Jesus, cujo estatuto foi redigido nos anos 1790 e aprovada na década de 1820.[3]

A imagem do Senhor Bom Jesus de Cuiabá teria sido alvo de três tentativas de furto quando ainda era guardada em uma igreja de pau a pique, sem proteção adequada. Nas duas primeiras vezes, a imagem foi recuperada, primeiro na região do Porto e depois em uma residência na Cidade Alta, motivo pelo qual os moradores passaram a chamá-la de “Santo Fujão”.[4]

Na terceira ocasião, um homem chamado Manoel Homem roubou a imagem junto com riquezas da igreja e fugiu para a região de Camapuã (atualmente em Mato Grosso do Sul), onde construiu um casebre próximo à confluência dos rios Verde e Aguapé.[4]

Com a perseguição policial, Manoel abandonou o local, deixando para trás a imagem. Comerciantes que passavam rumo a São Paulo tentaram levá-la, mas sem sucesso. Posteriormente, um viajante que seguia em direção a Cuiabá conseguiu transportá-la até Guarapiranga (próximo ao atual Barão de Melgaço), onde enfrentou dificuldades para continuar o trajeto até a cidade.[4]

Catedral Metropolitana Basílica do Senhor Bom Jesus, Cuiabá

A população do arraial fez orações e promessas de que, se encontrassem a imagem, fariam uma igreja digna para abrigar o Senhor Bom Jesus.[4]

A romaria fluvial atual parte de uma narrativa simbólica que alude ao episódio de “achado” ou “reencontro” da imagem do Senhor Bom Jesus que teria se extraviado ou desaparecido e sido trazida por uma expedição até Cuiabá. A romaria fluvial se configura como alusão histórica do Senado da Câmara que teve conhecimento do achado da Imagem, nomeou uma expedição marítima de 25 (vinte e cinco) homens para trazê-la a Cuiabá. Ainda, nota-se que a caminhada subsequente, denominada “Caminhada da Fé”, refere-se à alusão do povo cuiabano ao encontro dessa expedição na comunidade São Gonçalo Velho, atualmente Bairro São Gonçalo Beira Rio, e à procissão até a Igreja Matriz.[3][5][4]

Festividades

A romaria fluvial ocorre tipicamente no mês de abril, integrando as festividades em honra ao Senhor Bom Jesus de Cuiabá, padroeiro da cidade, cujas celebrações coincidem com o aniversário da capital (8 de abril). A programação inclui múltiplas atividades (cavalgada, pedal, motociata, encontro de carros antigos), mas o foco aqui é a romaria fluvial, também chamada “Romaria das Águas” e “Navegando com o Senhor Bom Jesus”.[6]

Durante o percurso, ocorre a:[7]

  • Concentração das embarcações náuticas em localidades como Santo Antônio de Leverger (município próximo a Cuiabá) ou na comunidade São Gonçalo Beira Rio.
  • Saída matinal das embarcações (ex: 07h) para navegação ao longo do Rio Cuiabá, com trajeto de cerca de 10 km em alguns anos.
  • Almoço ou parada na Marina Beira Rio, chegada ao bairro do Porto ou Orla do Porto II, desembarque da imagem do Senhor Bom Jesus. (
  • No mesmo dia ou logo após, a Caminhada da Fé, que parte da Orla do Porto ou Praça do Porto até a Praça Alencastro (centro de Cuiabá).

Aspectos litúrgicos e simbólicos

  • A imagem do Senhor Bom Jesus de Cuiabá é transportada em barco ou comboio de embarcações, simbolizando a travessia fluvial e evocando a origem histórica da devoção. [8]
  • A chegada da imagem ao centro de Cuiabá via rio e a subsequente procissão simbolizam o “acolhimento” do padroeiro pela cidade.[8]
  • A prática associa natureza (o rio), fé (devoção ao padroeiro) e memória urbana (bairro São Gonçalo, Orla do Porto, Praça Alencastro) de modo articulado.[8]

Referências

  1. SECEL. «Religiosidade-e-fe-marcam-historia-dos-300-anos-da-capital». Consultado em 9 de novembro de 2025 
  2. JESUS, Nauk Maria de. A Câmara da Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá: um breve panorama (1727–1800). Fronteiras: Revista de História, Dourados, MS, v. 10, n. 17, p. 163-175, jan./jun. 2008.

  3. a b Siqueira, Elizabeth Madureira (1 de dezembro de 1995). «A irmandade do Senhor Bom Jesus do Cuiabá: Devoção, resistência e poder (1821-1857)». Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (53): 71–114. ISSN 2965-6354. Consultado em 9 de novembro de 2025 
  4. a b c d e admin (12 de novembro de 2024). «Padroeiro | Arquidiocese de Cuiabá». arquidiocesecuiaba.org.br. Consultado em 9 de novembro de 2025 
  5. SILVA, Gilian Evaristo França. As irmandades e o campo religioso católico da capitania de Mato Grosso (1745–1803). Revista História UEG – Morrinhos, Morrinhos, v. 8, n. 2, e-821919, jul./dez. 2019. Instituto Federal Catarinense.

  6. Queiroz, Ana Luiza (6 de fevereiro de 2025). «Veja programação da festa de Senhor Bom Jesus de Cuiabá». Mutirum. Consultado em 9 de novembro de 2025 
  7. «Celebraçõess ao Senhor Bom Jesus de Cuiabá começam neste sábado :: Leiagora | Playagora | Entret». Leiagora. Consultado em 9 de novembro de 2025 
  8. a b c Folhamax (9 de abril de 2022). «Romaria das Águas e procissão celebram 303 anos de Cuiabá». Consultado em 9 de novembro de 2025