Romão Gonçalves
Romão Gonçalves, também conhecido como Tenor Romão, foi um artista de variedades, empresário, ator e produtor de cinema mudo, cantor de ópera e pugilista amador, conhecido como uma das figuras públicas mais excêntricas e singulares da sociedade portuguesa das décadas de 1920 e 1930. Praticante de várias “acrobacias públicas”, destacou-se pela mistura de autopromoção, humor, proezas físicas e estilo extravagante.[1]
Biografia
Natural da Madeira,[2] Romão Gonçalves tornou-se gradualmente conhecido na década de 1910, quando, como cantor lírico amador, começou a realizar vários espetáculos a título próprio, nomeadamente no clube noturno A Fila, situado na Rua 1º de Dezembro, na Baixa, do qual era proprietário.[3] As suas atuações tornaram-se rapidamente célebres em Lisboa, não tanto pelo seu talento mas pela sua gestualidade exagerada, aparência excêntrica e robustez física,[4] sendo noticiado que era frequentemente vaiado pelo público, o que por sua vez reforçava a sua notoriedade.[5][6] Com dentes de ouro e diamantes, patilhas negras e roupas luxuosas, chegou a atuar no Campo Pequeno. Homem de vários ofícios, ganhou também reputação por ter participado em várias rixas, como forma de testar os seus dotes de pugilista, ou ainda pelas suas demonstrações públicas de natação e automobilismo, para além de ter criado e comercializado o licor Romanini,[7] onde o seu rosto era representado em desenho ou fotografia nos rótulos das garrafas e assim publicitada a sua imagem em vários jornais da época.[8]
Entre 1919 e 1920, protagonizou e produziu a sua primeira experiência cinematográfica com Romão, Chauffeur e Mártir, um filme de comédia e ação, realizado por Ernesto de Alburque, que retratava o tenor Romão Gonçalves a executar várias peripécias e acrobacias automobilísticas na Avenida da Liberdade.[9] Ainda no mesmo ano, atuou nos filmes Romão Gonçalves, Boxeur e Atleta (1920)[10] e Romão Gonçalves, Cantor e Nadador (1920), também referido como A Visita do Rei dos Belgas a Lisboa, onde se atirou ao rio Tejo e nadou na direção do navio dos monarcas belgas, enquanto cantava o seu hino.[11] Ainda fruto das suas experiências cinematográficas, foi convidado para participar, em 1924, como ator, no filme Aventuras de Agapito (1924) da autoria de Maurice Mariaud, ao lado de Nestor Lopes, e em 1927, adquiriu o Cine-Tortoise, em Campolide, Lisboa, que renomeou de Cinema Tenor Romão.[12] Nesse mesmo ano, estreou o seu último filme As Aventuras do Tenor Romão – O Dó de Peito (1927), realizado por Rino Lupo.[1][13]
Posteriormente, Romão Gonçalves desapareceu lentamente da vida pública. Viria a falecer em maio de 1944, em Penafiel, terra onde casou com a sua companheira de vários anos, após ter estado hospitalizado por uma "grave enfermidade" no Porto.[14][1] Nenhum exemplar ou cópia dos filmes que protagonizou foi preservado, tendo desaparecido toda a sua obra cinematográfica.
Referências
- ↑ a b Barros, Eurico de. «Tenor Romão: o excêntrico megalómano que teve um cinema com o seu nome e fez filmes mudos». Observador. Consultado em 28 de novembro de 2025
- ↑ Barros, Eurico de. «O Pátio das Antigas: Tenor Romão, o grande excêntrico». Time Out Lisboa. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Bordallo, Pedro (1928). Sempre fixe: semanario humoristico. [S.l.]: Renascenca Grafica. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Illustração portugueza. [S.l.: s.n.] 1920. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Estudos avançados. [S.l.]: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. 1987. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Sequeira, Gustavo de Matos (1933). Teatro de outros tempos: elementos para a história do teatro português. [S.l.]: Livraria Coelho. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Illustracao portugueza. [S.l.: s.n.] 1919. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Lapierre, Marcel (1 de janeiro de 1948). Les cent visages du cinéma: Orné de 64 planches hors texte en héliogravure et de 161 dessins ou croquis in texte (em francês). [S.l.]: FeniXX. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ España, Rafael de (29 de novembro de 1994). Directory of Spanish and Portuguese Film-Makers and Films (em espanhol). [S.l.]: Bloomsbury Academic. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Cruz, José de Matos (1998). Cinema português: o dia do século. [S.l.]: Grifo. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ «O artista mais espalhafatoso do País (e arredores)». osaldahistoria.blogs.sapo.pt. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Ribeiro, M. Felix (1983). Filmes, figuras e factos da história do cinema português, 1896-1949. [S.l.]: Cinemateca Portuguesa. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Grande enciclopédia portuguesa e brasileira: Ilustrada com cêrca de 15.000 gravuras e 400 hors-textes a côres ... [S.l.]: Editorial Enciclopédia, limitada. 1936. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Message, Belgian Review (em inglês). [S.l.: s.n.] 1944. Consultado em 29 de novembro de 2025