Rogério Bertani

Rogério Bertani
Conhecido(a) porEspecialista em Theraphosidae
Nascimento
NacionalidadeBrasil Brasileiro
Alma materUniversidade de São Paulo
Carreira científica
Campo(s)Zoologia, Aracnologia

Rogério Bertani é um aracnólogo brasileiro, reconhecido como um dos maiores especialistas mundiais em Theraphosidae (aranhas-caranguejeiras ou tarântulas). Atualmente é pesquisador científico do Instituto Butantan, onde atua no Laboratório Especial de Ecologia e Evolução.[1][2]

Biografia e formação

Bertani desenvolveu interesse por zoologia desde cedo. Aos 11 anos, deslocava-se da Zona Leste de São Paulo até o Instituto Butantan para consultar a biblioteca e fazer contatos com pesquisadores. Levava aranhas para serem identificadas pela pesquisadora Vera Regina Von Eickstedt, então chefe do Laboratório de Artrópodes, e coletava escorpiões-marrons para entregar à instituição. Aos 14 anos foi picado por um escorpião durante uma coleta e atendido no Hospital Vital Brazil do Instituto.[1]

Iniciou sua carreira científica como estagiário no Instituto Butantan em 1988, primeiro no Laboratório de Herpetologia e depois no Laboratório de Artrópodes. Ingressou como pesquisador científico em dezembro de 1994.[1] Obteve o título de mestre em Zoologia pela Universidade de São Paulo (USP) em 1998 e o doutorado também em Zoologia pela mesma instituição em 2002.[3]

Carreira e pesquisa

Como pesquisador do Instituto Butantan, Bertani dedica-se há mais de três décadas ao estudo de aranhas e escorpiões, com foco especial na sistemática e taxonomia de aranhas migalomorfas, particularmente da família Theraphosidae. Seu trabalho é considerado fundamental para o conhecimento da fauna aracnológica brasileira e mundial.[4]

Segundo dados do Google Scholar, Bertani possui mais de 2.350 citações em trabalhos científicos,[5] enquanto o ResearchGate registra 219 publicações científicas.[2] Sua pesquisa abrange não apenas a descrição de novas espécies, mas também revisões taxonômicas, análises cladísticas e estudos sobre a biologia e ecologia de aracnídeos.

Projetos apoiados pela FAPESP

Bertani coordenou diversos projetos de pesquisa com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), incluindo revisões taxonômicas e análises cladísticas de grupos importantes de aranhas migalomorfas, como as subfamílias Theraphosinae e Aviculariinae, e a família Barychelidae na região Neotropical.[3]

Principais contribuições científicas

Descrição de novas espécies

Uma das contribuições mais notáveis de Bertani foi a descoberta e descrição de nove espécies de tarântulas arborícolas coloridas em 2012, publicada na revista ZooKeys. O trabalho de 94 páginas, desenvolvido ao longo de uma década, descreveu espécies dos gêneros Typhochlaena, Pachistopelma e Iridopelma, incluindo quatro das menores tarântulas arborícolas já registradas no mundo. Muitas dessas espécies vivem exclusivamente em bromélias, representando um importante exemplo de especialização ecológica.[6][7]

Em 2011, Bertani descreveu a espécie Pterinopelma sazimai, uma tarântula azul que integrou a lista Top 10 das novas espécies do Instituto Internacional de Exploração das Espécies da Universidade do Estado do Arizona. O nome homenageou o zoólogo Ivan Sazima, que coletou o primeiro exemplar em 1971 na Serra do Cipó, Minas Gerais.[8]

Em colaboração com outros pesquisadores, Bertani descreveu o gênero Yanomamius em 2020, homenageando o povo indígena ianomâmi. O gênero inclui três espécies encontradas no planalto das Guianas: Yanomamius raonii (em homenagem ao cacique Raoni Metuktire), Yanomamius franciscoi e Yanomamius neblina. Os primeiros espécimes conhecidos foram coletados pelos próprios ianomâmis, que utilizam essas aranhas como alimento.[9]

Revisão do gênero Avicularia

Em 2017, Bertani e Caroline Sayuri Fukushima publicaram uma extensa revisão taxonômica e análise cladística do gênero Avicularia, descrito originalmente por Carl Linnaeus em 1758. O trabalho, publicado na revista ZooKeys, resolveu uma confusão taxonômica de mais de 250 anos e propôs três novos gêneros: Caribena e Antillena (para espécies caribenhas) e Ybirapora (palavra em tupi que significa "aquelas que vivem em árvore", para espécies da Mata Atlântica).[10]

Primeira tarântula troglóbia

Em 2013, Bertani descreveu a primeira espécie de tarântula troglóbia (adaptada exclusivamente a cavernas) do Brasil, Tmesiphantes hypogeus, em colaboração com Maria Elina Bichuette.[11]

Atuação em divulgação científica e defesa da ciência

Bertani é ativo na divulgação científica, tendo participado de entrevistas e materiais educativos sobre aracnídeos. Segundo ele, o conhecimento sobre aracnídeos ajuda a diminuir o medo dessas criaturas, pois "quando aprendemos que os aracnídeos não têm boa visão, não atacam sem motivo e que boa parte deles tem medo de nós, passamos a respeitá-los".[4]

Em 2025, manifestou preocupação com o futuro da pesquisa científica pública no Brasil, alertando sobre o risco de extinção de linhas históricas de pesquisa, como o estudo de animais peçonhentos no Instituto Butantan, área iniciada por Vital Brazil há mais de um século. Bertani destacou que o escorpionismo é um problema emergente que causa milhares de acidentes e mortes anualmente, principalmente de crianças, mas que a área enfrenta falta de concursos para novos pesquisadores.[1]

Reconhecimento

Seu trabalho é amplamente citado na literatura científica internacional e suas descobertas têm sido destaque em veículos de comunicação como National Geographic, Ciência Hoje e publicações científicas especializadas. É considerado uma referência mundial em sistemática de Theraphosidae e taxonomia de aracnídeos neotropicais.

Referências

  1. a b c d «Entrevista: o cientista que desvendou os segredos das aranhas e hoje luta pela sobrevivência da pesquisa pública». APQC. 29 de julho de 2025. Consultado em 8 de janeiro de 2026 
  2. a b «Rogerio Bertani - Perfil Profissional». ResearchGate. Consultado em 8 de janeiro de 2026 
  3. a b «Rogerio Bertani - Research Supported by FAPESP». FAPESP. Consultado em 8 de janeiro de 2026 
  4. a b «Aracnólogo/a!». Ciência Hoje das Crianças. 7 de agosto de 2024. Consultado em 8 de janeiro de 2026 
  5. «Rogério Bertani - Google Scholar». Google Scholar. Consultado em 8 de janeiro de 2026 
  6. «À caça das tarântulas». Ciência Hoje. 11 de dezembro de 2012. Consultado em 8 de janeiro de 2026 
  7. «Nine Colorful Species of Tarantulas Found in Brazil». Sci-News. 31 de outubro de 2012. Consultado em 8 de janeiro de 2026 
  8. «Top 10 das novas espécies inclui descobertas de brasileiros». Agência FAPESP. Consultado em 8 de janeiro de 2026 
  9. «Novo gênero de aranha descoberto por pesquisadores do Butantan e do INPA homenageia ianomâmis e cacique da tribo caiapó». Instituto Butantan. Consultado em 8 de janeiro de 2026 
  10. «Organizando os armários de tarântulas». O Eco. 29 de março de 2021. Consultado em 8 de janeiro de 2026 
  11. Bertani, R.; Fukushima, C.S. e Júnior, P.I.S. (2008). «Mating behavior of Sickius longibulbi (Araneae, Theraphosidae, Ischnocolinae), a spider that lacks spermathecae» (PDF). The Journal of Arachnology. 36 (2): 331–335. doi:10.1636/CSt07-100.1