Rodeth Gil

Rodeth Gil
Nascimento26 de outubro de 1945
CidadaniaAngola
Ocupaçãopolítica, enfermeira, engenheira, oficial

Rodeth Teresa Makina dos Santos Gil (Cuíto, 26 de outubro de 1948)[1] é uma enfermeira, engenheira, general de exército e política angolana.

Biografia

Rodeth Gil[2] nasceu no bairro de Cantinflas,[3] no Cuíto, em 26 de outubro de 1948.[1] Passou os primeiros anos da sua infância em Lunda Norte, onde o pai, Cassanje Makina,[3] trabalhava como pastor, e depois no Luau.[4] Quando tinha quatro anos seu pai faleceu,[4] e aos 6 sua mãe também faleceu,[4] sendo criada inicialmente numa missão católica[3] e depois por seus tios.[4]

Quando tinha 16 anos,[1] ainda vivendo no Luau, conhece o programa radiofônico anticolonial Angola Combatente[5][6] e filia-se a uma célula do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) que operava na região.[4][nota 1] Para ingressar na luta armada, no final de 1965 muda-se para Dilolo, em seguida dirigindo-se secretamente até Quinxassa,[7] e depois Brazavile, esta a então sede no exílio do MPLA.[3] Uma vez que era legalmente menor de idade, enquanto em Dilolo, seu ano de nascimento foi alterado para 1945, por um oficial da ONUC, para poder circular livremente no Congo-Léopoldville.[7] Após receber treinamento e instruções, foi enviada para a Zâmbia, aos cuidados de Aníbal de Melo Camaxilo,[7] para se juntar à luta armada pela independência de Angola,[1] ganhando o nome de guerra "Njinga Mbandi".[2] Ingressa, assim, no Exército Popular de Libertação de Angola (EPLA), combatendo, a partir deste mesmo ano, na Frente Centro (Bié), conseguindo montar uma impressionante estrutura de guerrilha,[8] sendo designada depois a comandar o agrupamento Fura-Mata, na região do Cazombo.[3]

No ano de 1967 o partido a matricula no Curso de Enfermagem do MPLA,[1][4] que funcionava na "Base Hanói II" sob coordenação de Américo Boavida e tinha como professor, dentre outros, a Manuel Gonçalo Ribeiro de Sousa "Chamavu".[8] Forma-se enfermeira e passa a trabalhar, até 1973, nos Serviços de Assistência Médica do MPLA que operavam em várias células militares do tipo maquis, na Frente Leste.[8] Recebe também a atribuição de organizar e cuidar da logística militar das células maquis.[7]

Em 1973 foi enviada para trabalhar no escritório do partido em Dar es Salã,[1] de onde coordenava o treinamento militar de recrutas na base de Eringa do EPLA (localizada na Tanzânia),[3] se dedicando também a trabalhar nas estruturas da Organização da Mulher Angolana (OMA).[7]

Volta a trabalhar nas estruturas de socorro a enfermos e na assistência militar no ano de 1975, inclusive estando em Luanda em serviço especial de cuidados de enfermagem ao comandante Aníbal de Melo Camaxilo em 11 de novembro de 1975,[5] sendo designada, após a independência nacional, como uma das coordenadoras da enfermagem do Hospital Militar Principal de Luanda, período em que concluiu sua formação em enfermagem.[8]

Durante o Congresso do MPLA de 1977, Rodeth Gil foi uma das três mulheres, incluindo Maria Mambo Café e Ruth Neto, eleitas para servir no Comitê Central.[9]

Em 1980 foi nomeada Secretária dos Assuntos Sociais (com status de ministra), sucedendo a Maria Vahekeni, permanecendo nestas funções até o ano de 1987.[10][5] Sua maior marca neste cargo ministerial foi a organização, com sucesso, da logística da distribuição de alimentos e da retirada total das populações em situação de rua e extrema-pobreza que viviam em Luanda, garantindo abrigo, saúde, bem-estar e reinserção social aos sem-teto.[7] Além disso, delineou a transformação do trabalho desta pasta ministerial para a reinserção social de ex-combatentes.[5]

Deixa as funções como Secretária dos Assuntos Sociais em 1987 para iniciar seus estudos na Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, não conseguindo concluir a licenciatura em medicina.[4] Em 1989 o partido a envia para estudar engenharia informática pela Universidade Metropolitana de Londres.[4]

Após a conclusão de seus estudos, voltou a trabalhar para a OMA, sendo reeleita para o Comitê Central do MPLA, trabalhando nas estruturas do partido na Comissão de Disciplina e Auditoria.[4] Em 2006 torna-se uma das fundadoras da Associação Tchiweka de Documentação.[11]

Nas eleições legislativas de Angola de 2008, foi eleita suplente pelo MPLA para o Círculo Eleitoral Nacional à Assembleia Nacional de Angola,[12] se tornando deputada efetiva e membra da Assembleia Constituinte de 2010, sendo uma das signatárias da Constituição Angolana de 2010.[13] Retorna às estruturas das Forças Armadas Angolanas, onde foi reformada como general de exército em 2014.[7][14] Em 2015 foi condecorada com a "Ordem dos Combatentes da Liberdade".[15]

Em 2015,[16] tornou-se administradora não-executiva da empresa pública Imprensa Nacional de Angola,[4] sendo reconduzida a esta mesma função em 2017[17] e 2023.[18]

Foi eleita para o Conselho de Honra do MPLA em dezembro de 2021.[19]

Vida pessoal

Foi casada com Henriques Leonel Gama Gil, comandante da 4ª Região Político-Militar do EPLA (Lunda Norte, Malanje e Uíge),[5] morto em combate em 1967 na luta independentista numa emboscada da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA).[7][20] Com Henriques Leonel Gama Gil, Rodeth Gil teve quatro filhos.[7]

Notas

  1. Em várias entrevistas Rodeth Gil afirma ter ingressado no MPLA e na guerra anticolonial aos 12 anos de idade,[4] tendo se dirigido até a representação do partido em Quinxassa.[5] Porém, se nascida em 1948 (sua real data de nascimento segundo Bastos (2015)[1]), o ano seria 1960 e o MPLA ainda não tinha estruturas no leste angolano e muito menos no Congo-Quinxassa, somente conseguindo estabelecer escritório em Quinxassa em 1961/1962. Se nascida em 1945 (segundo a data de nascimento do seu bilhete de circulação no Congo-Quinxassa),[2] teria 15 anos em 1960 e haveria, assim, divergência no relato, visto que a idade que relata (12 anos ao ingressar na luta armada) converge com o ano de 1957, sendo cronologicamente incompatível com a história do partido e da luta armada anticolonial angolana. Além disso, afirma que conheceu o MPLA aos 12 anos pela Rádio Angola Combatente,[5] que somente surgiu em 1965. Portanto, o relato de Bastos (2015), que afirma que sua data de nascimento é 1948 e conheceu o MPLA e ingressou na luta armada aos 16 anos, está cronologicamente mais ajustado.[1] Caso tenha realmente conhecido as ideias anticoloniais pela Rádio Angola Combatente, e em seguida ingressado no MPLA e na luta armada aos 12 anos, seu ano de nascimento seria 1952 ou 1953, dado não encontrado ou validado em referências. Há ainda uma entrevista de 2011 em que Rodeth Gil afirma ter nascido em 1947 e que ingressou no MPLA em 1962, tendo, assim, 15 anos,[3] portanto também divergente do relato mais comum (de que teria 12 anos ao ingressar na luta armada).

Referências

  1. a b c d e f g h Mário Bastos (2015). Independência: esta é a nossa memória (PDF). [S.l.]: Associação Tchiweka de Documentação/Geração 80 
  2. a b c «Rodeth Gil». Associação Tchiweka de Documentação. 2021 
  3. a b c d e f g Tijdschrift voor Vrouwen (28 de agosto de 2011). «Angolanos precisam muito do Presidente José Eduardo dos Santos». Journal da Mulher 
  4. a b c d e f g h i j k «Rodeth Gil». Jornal de Angola. 11 de novembro de 2018 
  5. a b c d e f g «Entrevista a Rodeth Gil: "Angola tem tudo para poder marchar como quiser"». Blog Nhuca Júnior. 11 de maio de 2023 
  6. Marissa J. Moorman (2018). «Guerrilla Broadcasters and the Unnerved Colonial State in Angola (1961–74)». Cambridge University Press. The Journal of African History. 59 (2): 241-261 
  7. a b c d e f g h i Paulo Leite Barros (4 de dezembro de 2021). «"Estamos a destruir a Nação… há muito consumo de álcool e de droga" - general Rodeth Gil». Lil Pasta News 
  8. a b c d Daniel Costa (29 de novembro de 2024). «Rodeth Teresa Makina Gil: "O próprio tempo e atitude da governação do MPLA levavam o Savimbi a emancipar-se"». Jornal O País 
  9. Margarida Paredes (2015). Combater duas vezes: Mulheres na luta armada em Angola 1 ed. Aveleda, Portugal: Verso da História. ISBN 978-989-8016-21-8 
  10. «Chiefs of State and Cabinet members of foreign governments / National Foreign Assessment Center Oct-Dec 1982» (em inglês). HathiTrust. Consultado em 27 de novembro de 2024 
  11. Paulo Lara (2009). Lúcio Lara: Imagens de um percurso - 80 anos (PDF). [S.l.]: Associação Tchiweka de Documentação 
  12. «Antigo Premier Marcolino Moco fora da futura AN». Club K. 4 de julho de 2008 
  13. Referendo na Constituição da República de Angola no Wikisource.
  14. «Ordem do Comandante-Em-Chefe n.º 7/14». Diário da República - Série I (95): 2369. 21 de maio de 2014 
  15. «Nacionalistas condecorados manifestam reconhecimento». Embaixada da República de Angola em Portugal. 2015 
  16. «Decreto Presidencial n.º 222/15 de 22 de dezembro». Diário da República - Iª Série (172). 22 de dezembro de 2015 
  17. Lusa (22 de novembro de 2017). «Presidente exonera e nomeia nova administração para a Imprensa Nacional». Ver Angola 
  18. Tatiana Costa (12 de julho de 2023). «Presidente da República reconduz Conselho de Administração da Imprensa Nacional». Ver Angola 
  19. Domingos Bento (16 de julho de 2024). «Veterana do MPLA defende maior dinamismo ao Conselho de Honra do partido». Jornal O País 
  20. People's Movement for the Liberation of Angola (1967). An odious balance: instead of combating against the portuguese colonialists, Holden is using the territory of Congo (Kinshasa) as his base to kidnap and assassinate true Angolan patriots (PDF). [S.l.]: People's Movement for the Liberation of Angola