Ritmo no poema

O ritmo poético, também chamado de ritmo verbal ou ritmo prosódico, é um efeito estilístico decorrente da regularidade do número de sílabas e da alternância de sílabas fortes e fracas em um enunciado[1]. É o recurso mais universalmente empregado na produção de textos poéticos, sendo um elemento essencial na construção da sua expressividade[2].

Exemplo

Por exemplo, o poema Meu sonho, de Álvares de Azevedo, apresenta, em cada verso, nove sílabas prosódicas, com acento tônico a cada três sílabas. Esse ritmo, aliado à aliteração de oclusivas, serve para simular o cavalgar de um cavalo, em referência ao tema do poema[3].

Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangrenta na mão?

— Trecho do poema Meu sonho, de Álvares de Ázevedo.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 -
Ca va lei ro das ar mas es cu ras
On de vais pe las tre vas im pu ras
Com a es pa da san gren ta na mão -

Métrica

É muito comum que os enunciados do texto (versos, orações etc.) apresentem a mesma quantidade de sílabas prosódicas entre si (considera-se, no processo de contagem, os processos fonéticos da fala, como a elisão, e termina-se a contagem na última sílaba tônica). Esse fenômeno é chamado de isossilabismo ou, mais popularmente, métrica[4].

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro ou se é verdade
Tanto horror perante os céus...

— Trecho do poema Navio negreiro, de Castro Alves.
1 2 3 4 5 6 7 -
Se nhor Deus dos des gra ça dos
Di zei me vós Se nhor Deus -
Se eu de li ro ou se é ver da de
Tan to hor ror pe ran te os céus -

Em função do número de sílabas prosódicas em cada enunciado, o verso é classificado como:[5]

  1. monossílabo, quando tem uma sílaba prosódica;
  2. dissílabo, quando tem duas;
  3. trissílabo, quando tem três;
  4. tetrassílabo, quando tem quatro;
  5. pentassílabo ou redondilha menor, quando tem cinco;
  6. hexassílabo, quando tem seis;
  7. heptassílabo ou redondilha maior, quando tem sete;
  8. octossílabo, quando tem oito;
  9. eneassílabo, quando tem nove;
  10. decassílabo, quando tem dez;
  11. hendecassílabo, quando tem onze;
  12. dodecassílabo, quando tem doze;
  13. e bárbaro, quando tem mais de doze.

Pé métrico

As sílabas prosódicas organizam-se em unidades conhecidas como pés métricos, formadas por um conjunto de sílabas dominadas por uma sílaba forte. Os quatro principais são:[6][5]

  • o troqueu, formado por uma sílaba forte e uma fraca, como no verso Minha terra tem palmeiras (Canção do exílio, de Gonçalves Dias), constituído por quatro troqueus;
1 2 3 4 5 6 7 -
Mi nha // ter rra // tem pal // mei ras
  • o iambo, formado por uma fraca e uma forte, como no verso Amor é fogo que arde sem se ver (Luís de Camões), constituído por cinco iambos;
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
A mor // é fo // go que ar // de sem // se ver
  • o dátilo, formado por uma forte e duas fracas, como no verso Tíbios, inúteis, apócrifos (Sagração dos ossos, de Ivan Junqueira), constituído por três dátilos;
1 2 3 4 5 6 7 - -
bios i // teis a // cri fos
  • o anaspesto, formado por duas fracas e uma forte, como no verso Pois choraste, meu filho não és (I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias), constituído por três anapestos.
1 2 3 4 5 6 7 8 9
Pois cho ras // te meu fi // lho não és

Além desses quatro, podem ser construídos outras unidades, conhecidas como pés compostos, a exemplo do anfíbraco, formado por uma sílaba fraca, uma forte e uma fraca (p. ex: cabeça)[7]. Os enunciados podem ser constituídos por sequências regulares de um mesmo pé, mas podem ser também constituído por mais de um tipo de pé.

Notas e referências

Notas

Referências

  1. BARBOSA, Plínio A. (2019). Prosódia. São Paulo: Parábola. p. 49. ISBN 9788579341632 
  2. DINELLI, Rosa Lia. A poesia revelada : Do popular ao clássico. Olinda: Babecco, 2016. ISBN 978-85-8394-038-8
  3. CANDIDO, Antônio (2000). Na sala de aula. Caderno de análise literária. São Paulo: Ática. pp. 42–43. ISBN 9788508012725 
  4. CUNHA, Celso Ferreira da (2016). Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexicon. p. 708. ISBN 9788583000266 
  5. a b CAMELO, Paulo. O ritmo no poema. Recife:Paulo Camelo, 2004. ISBN 978-85-904262-2-6
  6. AZZI, Nilza. O verso medido : Teoria e prática. São Paulo: Edicon, 2015. ISBN 978-85-29009-85-8
  7. CAMPOS, Geir. Pequeno dicionário de arte poética. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1960.