Revolta de Olhão
A Revolta de Olhão foi um episódio histórico que ocorreu na região do Algarve, em Portugal, em Junho e Julho de 1808, no contexto da primeira invasão francesa.
História
Contexto
Em meados de 1808, cerca de sete meses após o país ter sido conquistado pelas forças napoleónicas, comandadas por Junot, evidenciava-se um forte descontentamento no país contra o domínio francês, especialmente entre as camadas populares.[1] Com efeito, as fortes restrições impostas pelo novo governo causaram graves problemas económicos no país, gerando uma vaga de pobreza e fome.
A revolta de Olhão insere-se num conjunto de movimentos contra o domínio napoleónico, que se iniciou na cidade do Porto, mas depressa se espalhou a outros pontos do país nos meses de Junho e Julho, em protesto contra as extremas condições de crise financeira e de fome que se seguiram à conquista francesa.[2]
A situação piorou consideravelmente após um decreto de Napoleão Bonaparte de 23 de Dezembro de 1807, que exigiu ao país um tributo no valor de cem mil francos, e um outro de Junot de 1 de Fevereiro de 1808, onde lançou novos e pesados impostos.[1] Ao mesmo tempo, as tropas napoleónicas eram acusadas de fazer pilhagens, principalmente sobre as igrejas e conventos, dos quais eram retiradas todas as peças de arte e outros items valiosos.[1] O Algarve foi uma das regiões que mais sofreu com o domínio francês, principalmente Olhão, cujos pescadores eram sujeitos a grandes impostos, incluindo um que deveria ser cobrado pelo Compromisso Marítimo e enviado ao governador, o coronel Maranzin.[1] Foi igualmente proibido, sob pena de morte, o contrabando com Gibraltar e no Norte de África, e chegaram a ser impedidos de pescar, para não comunicar com os ingleses, salvo se pagassem uma avultada quantia.[1] Estas pesadas contribuições, em conjunto com a escassez de peixe que então se fazia sentir, pioraram consideravelmente as condições de vida dos pescadores.[1]
Em Abril de 1808, as armas reais sobre a capela de Santo António, no interior da Igreja Matriz de Olhão, foram cobertas por pano, cumprindo as ordens de Junot, que determinavam que as antigas armas do reino deveriam ser ocultadas.[1]
Revolta
Em 11 de Junho desse ano, Junot emitiu proclamações onde exortou os portugueses a alistaram-se para combaterem os espanhóis, que entretanto tinham entrado em revolta contra o domínio francês.[1] No dia seguinte, o escrivão do Compromisso, João da Rosa, num gesto de desafio às autoridades francesas, removeu o pano sobre as armas reais, na Capela de Santo António.[1] Assim, no dia 13, quando os populares se reuniram na igreja para os festejos em honra de Santo António, viram que as armas estavam destapadas, resolveram ostear igualmente bandeiras portuguesas nas suas embarcações, iniciando assim um período de três dias durante os quais se festejou com os símbolos nacionais.[3]
Porém, na manhã do dia 15[3] ou 16,[1] quando se iniciram as cerimónias do Corpo de Deus, o povo viu que o governador francês tinha colocado um edital na porta da Igreja Matriz, na qual urgia os habitantes de Olhão a colocarem-se sob a protecção dos franceses e a repudiar a revolta espanhola, prometendo diversas vantagens se o fizessem.[3] Um dos fiéis, José Lopes de Sousa, que trabalhava como governador em Vila Real de Santo António, manifestou a sua indignação com o edital,[1] e terá lançado este apelo à multidão: «Levantem-se mortos e acompanhem-me já que os vivos me abandonam».[1] Iniciou-se assim o movimento contra os franceses, tendo Lopes de Sousa sido eleito como comandante dos revoltosos.[1] No sentido de se armarem, assaltaram as fortalezas na barra, mas estas, que se encontravam já arruinadas, apenas tinham algumas peças e munições.[1] No entanto, conseguiram mais obter de cem espingardas em Aiamonte, com o apoio de Sebastião Martins Mestre.[1] Olhão foi assim a primeira povoação do Algarve a expulsar as tropas francesas.[3] Logo no primeiro dia da rebelião conseguiram tomar a antiga carruagem da rainha, que tinha sido trazida para o Algarve pelo governador.[1] Atacaram depois um destacamento francês que viajava de Faro para Tavira em três embarcações, tendo feito mais de uma centena de prisioneiros, incluindo soldados e oficiais.[1]
No dia 18 as tropas napoleónicas tentaram reconquistar Olhão, mas foram travadas na Ponte de Quelfes por uma força conjunta de habitantes de Olhão e de Moncarapacho.[4] Nesta batalha, os franceses perderam cerca de trinta homens, enquanto que as baixas portuguesas foram reduzidas.[1] No dia seguinte, os franceses estavam a reunir uma força maior para fazer uma segunda tentativa, mas tiveram de retirar para Faro quando também estalou ali a revolta, acabando por ser derrotados, levando assim à sua expulsão do Algarve.[1]
A revolta de Olhão insere-se num conjunto de movimentos contra o domínio napoleónico, que se iniciou na cidade do Porto, mas depressa se espalhou a outros pontos do país nos meses de Junho e Julho.[2] Como recompensa pelo seu seu papel na expulsão dos franceses do território nacional, a localidade de Olhão foi promovida à categoria de vila, passando a ser conhecida como Vila de Olhão da Restauração, tendo passado a ser a sede de um concelho próprio em 1826.[5]
A batalha na Ponte de Quelfes foi comemorada por uma placa colocada em 1989, com a seguinte inscrição «NO DIA 18 DE JUNHO DE 1808, NESTE LOCAL, TRAVOU-SE O COMBATE / ENTRE OS OLHANENSES E TROPAS FRANCESAS, AS QUAIS FORAM DERROTADAS / ATÉ AO SÍTIO DA MEIA-LÉGUA. / ESTE ACONTECIMENTO DEU-SE APÓS O LEVANTAMENTO PATRIÓTICO / DA POPULAÇÃO DE OLHÃO NO DIA 16 DE JUNHO / / ESTA LÁPIDE FOI AQUI MANDADA COLOCAR PELA CÂMARA MUNICIPAL / DE OLHÃO NO ANO DE 1989, PARA LEMBRAR E HOMENAGEAR O FEITO HERÓICO / DO POVO DESTE CONCELHO».[6]
Viagem ao Brasil
Em Julho, um grupo de dezassete olhanenses fizeram uma viagem até ao Brasil no caíque Bom Sucesso, de forma a informar a família real sobre os acontecimentos no Algarve.[5]
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r s A. G. (14 de Junho de 1928). «A revolta dos olhaneses contra os franceses» (PDF). Correio Olhanense. Ano VII (248). Olhão. p. 1-2. Consultado em 22 de Dezembro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ a b CAPELO et al, 1994:196
- ↑ a b c d SANTOS, Honorato (15 de Março de 1928). «Evoca-se um glorioso feito dos olhanenses de antanho» (PDF). Correio Olhanense. Ano VII (257). Olhão. p. 1. Consultado em 22 de Dezembro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ «Ponte de Quelfes». Visit Olhão. Cãmara Municipal de Olhão. Consultado em 24 de Dezembro de 2025
- ↑ a b «História». Câmara Municipal de Olhão. Consultado em 19 de Dezembro de 2025
- ↑ NETO, João; FERNANDES, Paulo (2002) [1991]. «Ponte Velha de Quelfes». Sistema de Informação para o Património Arquitectónico. Instituto Público do Património Cultural. Consultado em 24 de Dezembro de 2025
Bibliografia
- CAPELO, Rui Grilo; RODRIGUES, António Simões; et al. (1994). História de Portugal em Datas. Lisboa: Círculo de Leitores, Lda. 480 páginas. ISBN 972-42-1004-9
Leitura recomendada
- Alberto IRIA: A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a história da guerra peninsular, 1808-1814), Edição do Autor, Lisboa, 1941. (reimpressão fac-similada: Amadora, Livro Aberto, 2004)
- António Rosa MENDES: "Um documento precioso", in O Manuscrito de João da Rosa (edição actualizada e anotada), Olhão, Câmara Municipal de Olhão, 2008, pp. 3–6
- António Rosa MENDES: Olhão fez-se a si próprio, Olhão Gente Singular editora, 2008.
- Luís de Sequeira OLIVA: Restauração dos Algarves, ou heróis de Faro e Olhão. Drama histórico em três actos, Lisboa, Impressão Régia, 1809. Versão original - fac-símil e Versão actualizada e anotada
- Francisco Xavier d'Ataíde OLIVEIRA: Monografia do Concelho de Olhão da Restauração, Porto, 1906 (reimpressão fac-similada: Faro, Algarve em Foco Editora, 1986; existe uma reedição mais recente).
- João da ROSA: Lembrança para ficar em memória dos valorosos Marítimos deste Lugar de Olhão, do que fizeram na Restauração de Portugal e seu princípio. Casos sucedidos sobre o levantamento que este povo fez contra a nação francesa e como este Lugar de Olhão foi a primeira terra que se levantou no Reino de Portugal…, manuscrito do Livro do Compromisso de Olhão, fls. 196-200. (Alberto IRIA publicou o documento na sua obra A Invasão de Junot no Algarve; existe também a edição actualizada acima citada, que pode ser consultada aqui).
- Nota: Uma bibliografia mais completa (e em actualização) pode ser consultada no site da APOS (Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão)