Revolta de Huilliche de 1712

A Revolta Huilliche de 1712 (em castelhano: Rebelión huilliche de 1712) foi um levante indígena contra os encomenderos espanhóis do Arquipélago de Chiloé, que então fazia parte da Capitania-Geral do Chile. A revolta ocorreu na parte central do arquipélago.[1]

Antecedentes

Os Huilliches de Chiloé haviam agido anteriormente contra seus senhores espanhóis em 1600, quando um grupo ajudou o corsário holandês Baltazar de Cordes a atacar o assentamento espanhol de Castro.[1][2] Diferentemente do que ocorria no Chile continental, a população indígena em Chiloé cresceu a partir de 1700.[2] Por volta de 1712, os povos indígenas constituíam cerca de 50% da população do arquipélago.[2] As encomiendas de Chiloé eram as maiores do Chile, e sua forma de administrar esse trabalho forçado era mais abusiva do que no continente.[2] Além disso, os encomenderos não cumpriam suas obrigações, não registravam tributos nem salários.[2] Frequentemente, não pagavam os salários legais (ou não pagavam salário algum) e não respeitavam o “tempo livre” dos indígenas definido nas leis da encomienda.[2] Em Chiloé, as atividades da encomienda incluíam enviar os indígenas à costa continental para extrair madeira de alerce.[3]

Os Huilliches consideravam os abusos de José de Andrade uma das causas para a revolta, especialmente o castigo infligido em Martín Antucan, um indígena que Andrade amarrou a uma macieira e flagelou em suas genitais com urtigas, cobrindo-o depois com estopa e ateando fogo. Segundo depoimentos colhidos em 1725, José de Andrade julgava crimes por conta própria, não pagava salários e torturava aqueles que não podiam trabalhar por doença. Seu filho teria tido um comportamento semelhante e seu feitor raptava crianças para enviá-las ao Chile continental.[2] Em uma reunião em 26 de janeiro de 1712, os Huilliches decidiram que o levante começaria em 10 de fevereiro.[2][3] O objetivo da revolta não era pôr fim ao domínio espanhol, mas vingar as injustiças sofridas.[2]

Revolta

A estratégia dos rebeldes concentrou-se em atacar Castro, então centro político e econômico das ilhas, onde vivia a maior parte dos espanhóis e onde se localizavam a maioria das encomiendas. Na noite de 10 de fevereiro, casas e haciendas de espanhóis na região central de Chiloé foram atacadas; diversos espanhóis foram mortos e construções, incendiadas. Alguns conseguiram se fortificar em Castro, onde permaneceram cercados pelos rebeldes. Mulheres e crianças espanholas foram feitas prisioneiras. Na primeira noite de revolta, apenas espanhóis de destaque foram mortos; espanhóis de posição social mais baixa, mestizos, frades ou padres não foram atacados. Outros espanhóis sobreviveram escondendo-se nas matas.[2]

Nesse mesmo dia, os capitães espanhóis Juan de Aguilar e Diego Telles de Barrientos começaram a reprimir a revolta, lutando em diferentes partes de Chiloé por oito dias. Ainda em 10 de fevereiro, a milícia espanhola iniciou a matança de Huilliches, interrompida apenas pela intervenção de Jesuítas.[2]

Depois da derrota da revolta, um pequeno grupo de Huilliches partiu para o Arquipélago de Guaitecas para escapar das represálias espanholas.[4] Outros insurgentes buscaram refúgio com o Padre Manuel del Hoyo, na Missão de Nahuel Huapi do outro lado dos Andes.[2]

Consequências

José Marín de Velasco, então Governador Real de Chiloé, foi suspenso de suas funções após a revolta. Entretanto, mais tarde obteve aprovação do Rei da Espanha e retornou ao comando de Chiloé em 1715, com o objetivo de submeter o sistema de encomienda aos marcos legais.[2] As reclamações indígenas às autoridades espanholas aumentaram depois da revolta.[1]

O sistema de encomienda foi abolido em 1782 em Chiloé, em 1789 no restante do Chile e, em 1791, em todo o Império Espanhol.[2][3][5][6]

Ver também

  • História econômica do Chile
  • Missão de Nahuel Huapi

Referências

  1. a b c «Rebelión huilliche de 1712» [Huilliche Rebellion of 1712]. Memoria chilena (em espanhol). Biblioteca Nacional de Chile [National Library of Chile]. Consultado em 7 de fevereiro de 2020 
  2. a b c d e f g h i j k l m n Urbina, Rodolfo (1990). «La rebelión indígena de 1712: los tributarios de Chiloé contra la encomienda» [The Indigenous Rebellion of 1712: The Tributaries of Chiloé Against the Encomienda] (PDF). Chillán: El Departamento. Tiempo y espacio [Time and Space] (em espanhol) (1): 73–86 
  3. a b c «La rebelión huilliche de 1712». El Llanquihue. 29 de julho de 2007 
  4. Trivero Rivera, Alberto (2007). La virgen de los Poyas: ¿Desde Nahuelhuapí hasta Achao? [The Virgin of the Poyas: From Nahuelhuapí to Achao?] (em espanhol). [S.l.: s.n.] p. 1–28 
  5. «La encomienda». Memoria chilena (em espanhol). Biblioteca Nacional de Chile [National Library of Chile]. Consultado em 7 de fevereiro de 2020 
  6. Villalobos, Sergio; Silva, Osvaldo; Silva, Fernando; Estelle, Patricio (1974). Historia De Chile. [S.l.]: Editorial Universitaria. p. 237. ISBN 978-9561111639