Revista Tição

Tição surgiu em março de 1978, idealizada por um coletivo de jornalistas, publicitários, poetas, professores e estudantes negros ligados ao Grupo Palmares, sediado no Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre. O projeto nasceu em meio à “abertura lenta, gradual e segura” promovida pelo governo Geisel e ao fortalecimento do Movimento Negro Unificado (MNU), criado naquele mesmo ano para articular reivindicações antirracistas em âmbito nacional.[1]

Em 1978 e 1979, Tição circulou na forma de revista anual; apresentou seu segundo número em agosto de 1979. Já em 1980, mudou para formato tablóide e passou a sair trimestralmente, encerrando sua publicação em outubro daquele ano com o terceiro exemplar.[2] Em 2025, foi lançada a edição especial que comemora os 50 anos da revista, trazendo enquanto temática a resistência negra.

Fundação e História

Origem e Grupo Palmares

Em 20 de julho de 1971, foi fundado em Porto Alegre o Grupo Palmares, cuja missão era promover estudos históricos e culturais sobre a população negra brasileira, embasado em influências do Teatro Experimental do Negro e do movimento francês Négritude. A iniciativa de criar uma publicação própria emergiu em 1977–1978, quando novos integrantes como Oliveira Silveira, Vera Daisy Barcellos e Helena Vitória Machado se uniram ao grupo para dar origem à Tição[2].

Processo editorial e financiamento

As reuniões de pauta e redação ocorriam na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Porto Alegre, na Rua dos Andradas, sob presidência de Antônio Oliveira. Para custear impressão e distribuição, o coletivo promoveu o espetáculo “Música Negra do Sul” no Clube Náutico Marcílio Dias, angariando fundos e ampliando o diálogo com a comunidade local.

Influências internacionais e luta antirracista

O Movimento Negro Unificado (MNU), com o qual Tição dialogou desde 1978, trazia influências diretas da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e dos movimentos de libertação africanos da década anterior[3]. Justamente nesse período, a “Nova fase da luta antirracista” global se organizava em torno de correntes como o Black Power, que enfatizava a solidariedade internacional negra e a crítica ao imperialismo[4].

Publicações como Tição compartilhavam trajetórias com veículos internacionais — por exemplo, o programa norte-americano Black Journal (1968–1977), que vinculava cultura, ativismo e política negra — reforçando a noção de que a produção de mídia por e para negros era núcleo estratégico de mobilização.[5] Na academia, estudos sobre “anti-racism struggles” apontam que essa rede transatlântica de imprensa negra foi fundamental para difundir narrativas de resistência e articulação política em vários continentes.[6]

O discurso de Tição sobre identidade, resgate histórico e educação política reflete também o “amor militante” que caracterizou o Black Power nos EUA — uma concepção de luta impulsionada pelo afeto e pela solidariedade.[7]

Conteúdo e Proposta

Temas centrais e articulação política

A Tição dedicava-se a desconstruir o mito da democracia racial, denunciando violações de direitos e violências policiais contra negros no Rio Grande do Sul e no Brasil.[1] Resgatava, ainda, trajetórias de resistência desde o pós-abolição, difundindo ensaios sobre identidade afro-gaúcha e debates culturais inspirados no Movimento Negro Unificado.[8]

Formato, design e seções

Nos dois primeiros números (1978–1979), circulou em formato de revista, com capas em preto e branco e páginas ilustradas por artistas locais. Em 1980, surgiu em versão jornal tabloide de quatro páginas, facilitando a circulação em espaços públicos e encontros de militantes. As seções fixas incluíam reportagens, artigos de opinião, poesias, ilustrações e a coluna de “Cartas”, que estreitou o diálogo com leitores.[1]

Destaques editoriais

Alguns artigos se tornaram referência, como estudos sobre o quilombo dos Palmares e críticas às políticas de “anistia” que ignoravam as demandas raciais. As cartas de leitores revelaram ampla mobilização, indicando subscritores em diversas cidades do Rio Grande do Sul e de outros estados.

A publicação dedicava-se a:

  • Denunciar o mito da “democracia racial” e o racismo institucional brasileiro, apontando violências policiais e discriminações cotidianas;
  • Divulgar debates sobre identidade negra, memória histórica e cultura afro-brasileira;
  • Fortalecer redes de solidariedade entre ativistas e intelectuais negros do Rio Grande do Sul e de outras regiões;
  • Servir como veículo pedagógico, resgatando a luta negra desde a abolição até a atualidade (Instituto Búzios).

Nos textos e reportagens, Tição articulava análises sociopolíticas com manifestações artísticas (poesias, ilustrações), além de publicar cartas de leitores e registros de eventos culturais e de resistência organizados pela comunidade negra.

Repressão e Vigilância

A ditadura civil-militar (1964–1985) no Brasil instrumentalizou o mito da “democracia racial” para ocultar as desigualdades estruturais e silenciar vozes dissidentes. Organizações e publicações negras foram frequentemente enquadradas como “ameaça subversiva”, mesmo quando suas pautas se concentravam em direitos civis e denúncia do racismo institucional.[9]

Nesse contexto, a imprensa alternativa — ambiente no qual Tição operou — tornou-se um dos principais canais de resistência democrática, publicando denúncias sobre prisões, torturas e violências policiais contra negros. Relatórios do Serviço Nacional de Informações (SNI) registram claramente a vigilância sobre os editores e pontos de distribuição de Tição, mostrando o medo do regime em relação ao fortalecimento da consciência negra organizada.[10]

A circulação de Tição, assim, não foi mero ato cultural: constituiu um gesto político de enfrentamento ao “Terrorismo de Estado” e à ocultação oficial do racismo, reafirmando que “resistência democrática” incluía necessariamente a luta antirracista Serviços e Informações do Brasil.

Monitoramento pelo SNI

O Serviço Nacional de Informações enquadrou a Tição como possível “subversão” por questionar o regime e fomentar consciência negra, gerando relatórios internos que detalhavam a identidade de editores e pontos de venda suspeitos.[10]

Relatórios e classificação

Em fichas do arquivo microfilmado do SNI no Arquivo Nacional, a revista apareceu vinculada a grupos de “extrema-esquerda” e teve seus exemplares apreendidos em algumas bancas de Porto Alegre. Essa vigilância reforça o entendimento do período como de resistência democrática permanente.[10]

Legado e Preservação

Tição insere-se em uma tradição de quase dois séculos de imprensa negra no Brasil, marcada pela “afirmação social da população negra” e pelo “incisivo combate ao preconceito” desde o século XIX. Essa imprensa sempre teve papel duplo: representar cultural e politicamente o Negro brasileiro e funcionar como instrumento de denúncia e mobilização contra as estruturas racistas nacionais.[1]

Nos estudos atuais, Tição aparece como elo de continuidade entre os primeiros periódicos pós-abolição e a rica produção de jornais negros da Primeira República (1889–1937) — que incluía cerca de 43 títulos apenas em São Paulo e Rio Grande do Sul — e a imprensa alternativa dos anos 1970. Seu legado é também pedagógico: inspirou coletivos posteriores a produzirem publicações independentes voltadas a “ligar passado e presente na luta antirracista”.

Em termos de memória institucional, exemplares de Tição estão hoje em acervos como o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa e o Arquivo Histórico de Porto Alegre, onde subsidiam exposições sobre imprensa alternativa e seminários acadêmicos sobre antirracismo Terra.

Exposições e pesquisas

Em 2024–2025, o MuseCom promoveu exposições sobre o periódico, destacando sua relevância histórica e visibilidade na luta antirracista Agência Brasil. [11]

Em 2023, o Museu da UFRGS realizou uma exposição que trazia a revista Tição enquanto referência na imprensa negra rio-grandense.[12]

Pesquisas como as dissertações de Stella Bianca (2021) e Deivison Cezar (2006) usam Tição como fonte para analisar a rearticulação do movimento negro no final do regime militar.

Referências

  1. a b c d «Revista Tição, quatro décadas de resistência negra». www.cfemea.org.br. Consultado em 10 de junho de 2025 
  2. a b Negra, Geledés Instituto da Mulher (17 de novembro de 2021). «Tição – imprensa negra e consciência em Porto Alegre nos anos de chumbo». Geledés. Consultado em 10 de junho de 2025 
  3. Cabiao, Howard (21 de abril de 2011). «Movimento Negro Unificado (1978- )». BlackPast.org (em inglês). Consultado em 10 de junho de 2025 
  4. Elias, Amanuel; Elias, Amanuel (1 de janeiro de 2024). «Anti-Racism Struggles». Emerald Publishing Limited: 179–199. ISBN 978-1-83753-512-5. doi:10.1108/978-1-83753-512-520241008/full/html?skiptracking=true. Consultado em 10 de junho de 2025 
  5. Félix, Doreen St (24 de agosto de 2020). «Rewatching "Black Journal" Five Decades On». The New Yorker (em inglês). ISSN 0028-792X. Consultado em 10 de junho de 2025 
  6. Bhattacharyya, Gargi; and Winter, Aaron (2 de janeiro de 2020). «Revisiting histories of anti-racist thought and activism». Identities (1): 1–19. ISSN 1070-289X. doi:10.1080/1070289X.2019.1647686. Consultado em 10 de junho de 2025  |nome2= sem |sobrenome2= em Authors list (ajuda)
  7. Berger, Dan (23 de fevereiro de 2023). «The Black Power Movement Is a Love Story». TIME (em inglês). Consultado em 10 de junho de 2025 
  8. Reinholz, Fabiana (15 de janeiro de 2025). «Tição faz lançamento especial sobre a resistência do movimento negro». Brasil de Fato. Consultado em 11 de junho de 2025 
  9. «A questão racial na ditadura militar – Memorias da Ditadura». Consultado em 10 de junho de 2025 
  10. a b c Maria, Stella Bianca Ferreira (15 de janeiro de 2021). «Reabertura política e movimento negro: a revista/jornal tição e a circulação das reivindicações negras promovidas em Porto Alegre nos anos finais da ditadura civil-militar (1978-1980)». Consultado em 11 de junho de 2025 
  11. «Exposição do MuseCom conta a história do periódico Tição, marco da imprensa negra do RS». Portal do Estado do Rio Grande do Sul. 1 de outubro de 2023. Consultado em 11 de junho de 2025 
  12. «Tição – Existência e Resistência – Museu da UFRGS». Consultado em 15 de junho de 2025