República de Cunani
| République de la Guyane Indépendante República Independente da Guiana | |||||
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| Lema nacional Liberté et justice (do francês: "Liberdade e justiça") | |||||
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| Localização da República de Cunani | |||||
| Continente | América do Sul | ||||
| Região | Amapá | ||||
| País | França Império do Brasil | ||||
| Capital | Vila de Cunani | ||||
| Língua oficial | Francês | ||||
| Religião | Catolicismo | ||||
| Governo | República Presidencialista | ||||
| Presidente | |||||
| • 1886-1887 | Jules Gros | ||||
| Ministro do Estado | |||||
| • 1886-1887 | Jean Ferréol Guigues | ||||
| História | |||||
| • 23 de julho de 1886 | Fundação por habitantes de Cunani, escravos e franceses fugitivos[1] | ||||
| • 2 de Novembro de 1887 | Extinta pelo governo francês | ||||
| Área | 350 000 km² | ||||
| Moeda | Franco | ||||
Cunani[nota 1] (em francês: Counani; pronúncia em francês: [kunani]), oficialmente República Independente da Guiana (em francês: République de la Guyane Indépendante; [ʁepyblik də la ɡɥijan ɛ̃dɛpɑ̃dɑ̃t]), ou República de Cunani, foi um Estado independentista inicialmente entre o atual Amapá — então chamado Pinsônia[2][3] — e Guiana Francesa em 1886, por habitantes da cidade homônima, acompanhados de desbravadores franceses e escravos fugitivos, em uma área litigiosa de cerca de 350 mil quilômetros quadrados. Essa república, presidida pelo intelectual Jules Gros,[4] permaneceu irreconhecida por ambos França e Brasil. Foi declarada independente novamente em 1904, sob o nome de Estado Livre de Cunani, antes de desaparecer completamente em 1912.
A Primeira República (1886-1887)

Em 1883, Henri Coudreau liderou uma expedição à região situada entre os rios Oiapoque e Araguari — hoje parte do Amapá — contestada pelo Brasil e pela França. Sua descrição mística do local — clima ameno, sem mosquitos e pastos férteis — atraiu aventureiros e comerciantes de várias nacionalidades que passaram a explorá-la enquanto não se chegava a um acordo sobre a soberania da área. Assim, em julho de 1886, foi fundada a República ali pelos aventureiros Jean-Ferréol Guigues e Paul Quartier, acompanhados dos milicianos locais pro-França: Trajane Supriano, ex-escravo, e Nunato de Maceda. Eles haviam clamado justamente a região contestada pelas duas potências. Sua capital era a Vila de Cunani,[5] então habitada por cerca de 300 pessoas. O termo "Cunani" tem origem tupi: era como os índios Palikur chamavam o peixe tucunaré, abundante na região.
Guigues, buscando legitimar a República, enviou um telegrama a Gros oferecendo a presidência vitalícia, pois acreditava que ele trá-los-ia tal por ser “jornalista oficial da Academia, membro das empresas de geografia de Paris, Rouen, Lisboa e de diversas empresas especialistas, conselheiro municipal de Vanves, etc. etc.”. O governo de Cunani, assim como seus ministérios, funcionava em Paris: emitiu selos e cunhou moedas — hoje raridades — muito procuradas por colecionadores. Foram criados também a bandeira, o brasão da república e até a condecoração "Ordem da Cavalaria Estrela de Cunani", para premiar os investidores e simpáticos à causa: o que rendeu bons proventos financeiros a Gros. Todavia, ao falhar conseguir se organizar-se burocraticamente, tentaram obter o apoio do governo francês, que, ante o escândalo que representava tal aventura, resolveu acaba-la: a Primeira República foi extinta por 12 mil homens enviados pelo governo francês, em 2 de setembro de 1887.
A Segunda República (1887-1891)

| Royaume de la Guyane indépendante Reino Independente da Guiana | |||||
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| Lema nacional Liberté et justice (do francês: "Liberdade e justiça") | |||||
| Hino nacional Marche triomphale de Counani (do francês: "Marcha Triunfal do Cunani" | |||||
| Ficheiro:Republíca do Cunani Mapa.jpg | |||||
| Localização do Reino do Cunani | |||||
| Continente | América | ||||
| Região | Amapá | ||||
| País | França Império do Brasil | ||||
| Capital | Cunani | ||||
| Língua oficial | Francês | ||||
| Religião | Católica | ||||
| Governo | Monarquia absoluta, | ||||
| Rei | |||||
| • 1887-1891 | Jules Gros | ||||
| História | |||||
| • 1887 | Fundação | ||||
| • 1891 | Dissolução | ||||
| Área | 350 000 km2 km² | ||||
| Moeda | Franco | ||||
Enquanto a França mergulha no escândalo da decoração, Guigues afirmara que Cunani foi apenas uma colônia "livre" pedindo a proteção da França, atraindo novamente a ira de Gros que insiste em se considerar Presidente da República e, no final de 1887, voa uma nova bandeira em Vanves, “na villa presidencial”. Em janeiro de 1888, Gros entrou em contato com empresários ingleses. Com Alexander McDonald, fundou um sindicato que previa a exploração do território de Cunani por 99 anos para a extração dos principais recursos. Graças ao dinheiro do sindicato, Jules Gros e sua família trocaram Vanves por Cunani em 8 de julho de 1888.
Mas rapidamente Gros se desiludiu, não encontrando em Cunani o El Dorado que esperava. MacDonald rapidamente percebe que a França nunca reconheceu a República de Cunani. Jules Gros volta à França e falece em sua casa aos 62 anos, em 29 de julho de 1891, ainda convencido de que era o Presidente da República de Cunani. Sua notoriedade ultrapassou as fronteiras: New York Times de 17 de agosto de 1891 fala do desaparecimento de um grande "globe-trotter" e de sua "república nebulosa".[6] O cronicista Charles Formentin escreveu no dia primeiro de setembro na Revue des Conférences : “Counani não existe mais, e o homem que tentou criar para o universo um Estado sonhado por Platão, morreu antes de ter reinado. Jules Gros partiu para uma viagem eterna, levando com estoque de suas condecorações desprezadas, o projeto de uma constituição ideal vislumbrando apenas de relance.”.
A descoberta de ouro em 1895 na região do Calçoene reacendeu o conflito franco-brasileiro. Francisco Xavier da Veiga Cabral, conhecido como Cabralzinho, segundo chefe do triunvirato brasileiro, reivindica o disputado território de Cunani. A França e o Brasil recorreram à arbitragem da Suíça pela convenção de 10 de abril de 1895. Onde o Brasil então anexou o território.
A Terceira República (1892-1911)
| État Libre de Counani Estado Livre de Cunani | |||||
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| Lema nacional Par la raison et la force, je m'efforcerai (do francês: "Pela razão e pela força, me esforçarei") | |||||
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| Localização do Estado Livre de Cunani | |||||
| Continente | América | ||||
| Região | Amapá | ||||
| País | Brasil | ||||
| Capital | Cunani | ||||
| Língua oficial | Francês | ||||
| Religião | Católica | ||||
| Governo | República presidencialista | ||||
| Presidente | |||||
| • 1892-1911 | Uayana Assu Adolphe Duque de Brezet e Beaufort | ||||
| História | |||||
| • 1892 | Fundação | ||||
| • 1911 | Dissolução | ||||
| Área | 350 000 km2 km² | ||||
| Moeda | Franco | ||||
Entre 1904 e 1912, houve outra tentativa de separação, desta vez promovida pelo francês naturalizado brasileiro Adolph Brezet, que criou o Estado Livre de Cunani. Começou a encaminhar ofícios à região de Cunani, comunicando uma nova proclamação, e as nomeações de Félix Antonio de Souza, Antonio Napoleão da Costa e João Lopes Pereira para seu ministério.

O plano de Brezet foi imediatamente denunciado por Daniel Ferreira dos Santos ao governo brasileiro, que rapidamente sufocou o movimento, enviando força policial à região. Todos os envolvidos foram presos, com a exceção de Brezet, que, como Jules Gros, dirigia seu movimento desde Paris. Depois das prisões em Cunani, Brezet se recolheu e nunca mais se ouviu falar dele. Sobre essa iniciativa separatista, escreveu o Barão do Rio Branco, encarregado de defender os interesses do Brasil na disputa pelo território contra a França:
- O "Estado Livre" de que se trata só existe nas ridículas publicações que fazem em Paris um embusteiro e desequilibrado de nome A. Brezet e os seus sócios, totalmente desconhecidos no território que dizem ter organizado e estar governando. O assento desse intitulado governo está em uns aposentos da Avenida Villiers, n. 70, em Paris. É uma república de comédia, como a primeira intitulada de Cunani, a qual só funcionou em Vanves, nos arredores de Paris, com a única diferença de que a atual empresa é mais prática, pois tem por fim extorquir dinheiro pela venda de condecorações da "Ordem da Estrela de Cunani" e por meio de um empréstimo que procura levantar, explorando a gente crédula ou ignorante. Consta que, ultimamente, a polícia francesa tomou providências para evitar que se aumentasse em França o número das vítimas desses ousados cavalheiros de indústria e de alguns homens de boa-fé que a eles se reuniram."
Ver também
Notas e referências
Notas
- ↑ Pela grafia original, Coanany.
Referências
- ↑ "História do Amapá - A República do Cunani (ou Counani)"
- ↑ Coudreau, Henri (1886). «La France Équinoxiale: Voyage à travers les Guyanes et l'Amazoie». Internet Archive (em francês). archive.org. p. 101. Consultado em 30 de agosto de 2025
- ↑ «Diário da Câmara dos Deputados» (PDF). Câmara dos Deputados. 15 de maio de 1947. Consultado em 30 de agosto de 2025
- ↑ LAMAISON, Denis. «La république de Counani: L'homme qui voulut être roi» (em francês). Une Saison en Guyane. Consultado em 20 de setembro de 2018
- ↑ Romani, Carlo (2009). «IMPERIALISMOS EM DISPUTA. O CONFLITO DO AMAPÁ» (PDF). ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA
- ↑ «PRESIDENT JULES GROS DEAD: A GREAT GLOBE TROTTER AND HIS SHADOWY REPUBLIC» (em inglês). 17 de agosto de 1891. Consultado em 30 de agosto de 2025
Ligações externas
- Mapa
- Cunani no Flags of the World (em inglês)
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