Ren (filosofia)
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Ren (em chinês: 仁 , significa benevolência, humanidade, altruísmo) é uma virtude central do confucionismo, que se refere à qualidade moral de uma pessoa virtuosa ao aspirar a ideais elevados ou ao agir de forma altruísta. O ren se manifesta por meio de sentimentos e intenções funcionais, instintivos e parentais de incentivo e proteção em relação aos filhos. É considerado a expressão visível dos ideais confucionistas.
Yan Hui, um dos Quatro Sábios, certa vez perguntou ao seu mestre quais seriam as regras do ren. Confúcio respondeu: “Não olhe a menos que esteja de acordo com os ritos; não escute a menos que esteja de acordo com os ritos; não fale a menos que seja de acordo com os ritos; não se mexa a menos que seja de acordo com os ritos”.[1] Confúcio também definiu o ren da seguinte maneira: “um homem benevolente ajuda os outros a firmar sua atitude do mesmo modo que ele próprio deseja firmar a sua e conduz os outros a isso do mesmo modo que ele próprio deseja chegar lá”.[1] Em outra ocasião, ele afirmou: “A benevolência é realmente algo tão distante? Tão logo a desejo e ela está aqui”.[1] O ren está próximo do ser humano e nunca o abandona.[2]
Interpretação do caractere chinês
O logograma único para ren é composto por dois hanzi comuns: 人 (pessoa ou ser humano) e 二 (dois), sendo que 人 aparece em uma forma estilizada dentro de outro caractere. A partir dessa combinação, surgiram diversas interpretações populares. Uma delas associa o caractere à ideia de “olhar para o alto”, simbolizando a aspiração a princípios ou ideais mais elevados. Outra leitura frequente diz que ren representa “como duas pessoas devem se tratar mutuamente”. Embora essas interpretações sejam comuns em discussões sobre caracteres chineses, trata-se de etimologias populares que nem sempre refletem a origem real dos símbolos.
No caso de ren — termo geralmente traduzido como “benevolência” ou “humanidade” —, no pensamento confucionista essa ideia está diretamente ligada à essência do que significa ser humano. Para Confúcio, ren representa a qualidade moral que emerge da relação entre as pessoas, especialmente na forma de cuidado, empatia e responsabilidade mútua. A interação entre um bebê totalmente dependente e o cuidado atento de um dos pais é, para ele, a expressão mais intensa dessa humanidade. Como diz o próprio Confúcio: “Quando se ama um homem, deseja-se que ele viva”.[1] O Caminho da humanidade (ren) é o da interação humana e, por meio da experiência compartilhada, do conhecimento mútuo, aprende-se a conhecer a própria família. “Fan Ch’ih perguntou sobre benevolência. O Mestre disse: 'Ame seus semelhantes'. Ele perguntou sobre a sabedoria. O Mestre disse: 'Conheça os homens'".[1] Em outras palavras, o amor humano e a convivência são a origem da humanidade — e, portanto, da própria constituição do eu humano.
Outra interpretação comum dos elementos gráficos é a de que o Homem (ou o ser humano) representa a conexão ou a harmonização entre o Céu e a Terra (Sanbao 三宝 – “três tesouros”).
Fontes epigráficas do período pré-imperial atestam formas alternativas de escrita do mesmo caractere: 忎 (registrado como variante de 仁 no dicionário Shuowen), 身 com 心 abaixo (⿱身心), e essa última composição acrescida de 人 à direita.[3]
Princípios de li, ren e yi
O princípio de ren está relacionado aos conceitos de li e yi. No confucionismo, li costuma ser traduzido como “rito” ou “ritual”, enquanto yi é traduzido como “retidão” ou “justiça”. Esses três conceitos, interligados, dizem respeito à forma como os confucionistas compreendem a agência moral — ou seja, a capacidade de agir de maneira ética e apropriada no mundo.
Li refere-se a uma ação ou ritual considerado socialmente adequado; yi diz respeito àquilo que é moralmente correto de fato; e ren envolve a dimensão relacional da ação, ou seja, a qualidade do vínculo entre quem age e quem é afetado pela ação. Frequentemente, uma mesma ação pode ser ao mesmo tempo li e yi, mas nem sempre isso ocorre.
Li representa a expressão externa dos ideais confucionistas, enquanto ren é tanto uma manifestação interna (como sentimento e intenção) quanto externa (como comportamento) desses mesmos ideais. Segundo Lewis Hopfe e Mark Woodward, de modo geral, li pode ser entendido como a forma ideal de conduzir a vida, aquilo que orienta o comportamento dentro de uma ordem social esperada. Esse conceito carrega sentidos tanto religiosos quanto sociais. Quando uma sociedade se organiza de acordo com os princípios de li, ela tende a funcionar com harmonia: as pessoas demonstram respeito pelos mais velhos e por suas posições hierárquicas, os rituais e cerimônias são realizados de maneira apropriada, e tudo ocupa seu devido lugar dentro da estrutura social.[4]
A natureza de ren
Perspectivas tradicionais
No confucionismo, ren está profundamente ligado às relações entre as pessoas, mas vai além dessas conexões imediatas. Ele representa um processo interno de desenvolvimento ético em direção a um ideal altruísta. Ao mesmo tempo, pressupõe a consciência de que ninguém está isolado no mundo — todos fazem parte de redes de pertencimento, como a família, o Estado, a sociedade e, em última instância, o Tao.[5]
Confúcio ensinava que ren não é algo que se aprende externamente: ele é inato. Todos nascem com a capacidade de sentir ren, ou seja, com a inclinação natural para a humanidade e o bem. Para manter a integridade moral diante das mudanças constantes do mundo, o mestre enfatizava a importância da reflexão contínua.
O termo ren já foi traduzido de diversas maneiras — como "benevolência", "virtude perfeita", "bondade" ou "coração humano"[4] — mas, para Confúcio, seu significado se resume de forma simples na palavra comum para amor (ai): praticar ren é "amar os outros".[6]
Ren também possui uma dimensão política importante. Na visão confucionista, um governante que não age com ren dificilmente terá súditos justos e compassivos. O princípio de ren é a base da teoria política confucionista: um bom governo exige que o líder aja com humanidade. Caso contrário, ele pode perder o chamado Mandato do Céu (Tianming), ou seja, a legitimidade para governar. Um governante cruel ou indiferente ao bem-estar do povo não merece obediência; já aquele que governa com benevolência conquista tanto o favor do Céu quanto a confiança popular. Embora Confúcio não tenha dado grande ênfase à participação ativa do povo, ele acreditava que o governante deveria sempre cuidar das necessidades básicas da população. Já Mêncio, um dos principais continuadores do confucionismo, defendia que em assuntos importantes a opinião popular deveria ser consultada.[7]
Além disso, ren abrange outras qualidades fundamentais à conduta ética, como xìn (信), que significa ser coerente entre o que se diz e o que se faz; lǐ (禮), que diz respeito a cumprir corretamente os rituais cotidianos; jìng (敬), que representa agir com seriedade e respeito; e yì (義), que é a prática da retidão moral. Quando essas virtudes estão presentes, a pessoa é considerada um junzi (君子), ou seja, um “homem superior” — um ideal ético de ser humano nobre, íntegro e exemplar. Para os confucionistas, o governo deveria ser conduzido por pessoas assim, que colocam o bem-estar coletivo acima de interesses pessoais.[7]
Ver também
Referências
- ↑ a b c d e Os analectos. [S.l.]: Lpm Editores. 25 de novembro de 2021. p. XII, 22
- ↑ Do-Dinh, Pierre (1969). Confucius and Chinese Humanism. New York: Funk & Wagnalls
- ↑ Behr, Wolfgang (2009). «In The Interstices Of Representation: Ludic Writing And The Locus Of Polysemy In The Chinese Sign». The Idea of Writing. [S.l.]: Brill. pp. 281–314. ISBN 978-90-474-2792-6. doi:10.1163/ej.9789004174467.i-396.94
- ↑ a b Hopfe, Lewis M.; Woodward, Mark R. Religions of the World. Upper Saddle River, N.J.: Pearson Education Inc. p. 181
- ↑ Chi-Yun, Chang. A Life of Confucius. Taipei: Hwakang Press
- ↑ Dubs, Homer H. (abril de 1951). «The Development of Altruism in Confucianism». Philosophy East and West. 1 (1): 48–55. JSTOR 1396935. doi:10.2307/1396935
- ↑ a b «The Meaning of Ren in Confucianism». Beijing Tourism. Consultado em 17 de junho de 2021
Ligações externas
- Confúcio, Internet Encyclopedia of Philosophy, em inglês.
