Reino de Humbe
O Reino de Humbe, também conhecido como reino humbe, era um antigo estado independente no território que hoje faz parte de Angola. Os seus habitantes faziam parte da etnia nhaneca-humbe e eram conhecidos como humbes.
O reino era um dos três reinos nhanecas-humbes, juntamente com o Reino de Mulondo e o Reino de Camba.[1] Destes três, só os humbes detinham um reino poderoso.[2] Foi originalmente fundado por ovimbundos e a sua organização militar tinha por base o quilombo.[2]
Os humbes dedicavam-se sobretudo à pastorícia e os seus comerciantes vendiam sobretudo marfim.[1] Os humbes faziam investidas nas terras altas para capturar escravos nas populações vizinhas dos huílas e gambos, que vendiam no porto de Benguela.[1] As guerras frequentes entre povos vizinhos tinham reduzido muito a população e os humbes tanto escravizavam como eram vendidos como escravos.[1] O comércio levou à chegada de mercadores portugueses sertanistas.[1]
A terra de Humbe é a mais rica em gado de todas aquém do Cunene, o que para isso concorre o ser maior, e por consequência menos perseguida de guerras; comtudo é de todas a de gente mais orgulhosa, o que para isso deve influir a sua riqueza. [...] Depois de Julho ou Agosto até Novembro ou Dezembro, em pouca segurança se consideram estas terras, pelas contínuas guerras e assaltos do Quanhama e mais circumvisinhas, por ser este tempo aquelle em que o rio em alguns logares dá vau, e como os atacantes não usam armas de fogo, não dão por isso signal de si com o estrepito das armas, accommettendo repentinamente uma ou mais libatas que se achem mais proximas e matando quanta gente encontram, fugindo com os gados; isto mesmo succede ao Humbe, que por maior e mais rico é também mais perseguido.[3]
Em 1856, o governador português de Moçâmedes atacou Gambos e Humbe com 80 soldados, 4 canhões e 50,000 guerreiros do régulo de Dumba.[4]
Portugal fundou um forte em Humbe em 1859 a pedido do soba Chingue, que por ser velho e estar de más relações com o seu sobrinho e herdeiro, convidou os portugueses a estabelecerem uma guarnição militar no seu reino para se manter no poder.[5] Apesar de se ter queixado ao governador do distrito António Joaquim de Castro, o sobrinho não obteve dos portugueses qualquer apoio contra o tio mas recebeu a garantia que lhe sucederia no trono quando ele morresse, portanto matou-o.[5] Seguiu-se um ultimato e a guerra mas os portugueses lograram restabelecer a paz com a expulsão do sobrinho para Dongoena, sendo aclamado no seu logar o soba Onkole.[5] No entanto, o forte teve de ser abandonado quatro anos depois da sua fundação por falta de meios para garantir a sua segurança.[1] O forte foi refundado em 1880.[1] Os humbes entraram em guerra com os portugueses em três ocasiões, de 1885 a 1888, em 1891 e de 1897 a 1898.[1]
Abandonado por ordem de Alves Roçadas em finais de 1914 após o ataque alemão a Naulila, o Humbe foi reocupado pelas tropas do general Pereira d'Eça em a 7 de Julho de 1915 e definitivamente integrado em Angola.
Ver também
- África Ocidental Portuguesa
- Campanhas de Pacificação e Ocupação
- Lista de reis de Angola
- Reino de Benguela
Referências
- ↑ a b c d e f g h Matthias Röhrig Assunção: "Engolo e capoeira. Jogos de combate étnicos e diaspóricos no Atlântico Sul" in Tempo, Niterói Vol. 26 n. 3 Set./Dez. 2020 pp. 526-529.
- ↑ a b Niane, DjiBril Tamsir; Ki-Zerbo, Joseph (10 de maio de 1998). UNESCO General History of Africa, Vol. IV, Abridged Edition: Africa from the Twelfth to the Sixteenth Century (em inglês). [S.l.]: University of California Press. p. 227. Consultado em 12 de julho de 2025
- ↑ A. J. Brochado: "Descripção das Terras do Humbe, Camba, Mulondo, Quanhama, e Outras, Contendo Uma Idéia da Sua População, Seus Costumes, Vestuários, Etc." in Annaes do Conselho Ultramarino, volumes 1-2, 1867, p. 188.
- ↑ André Serdoura: "Arqueologia Militar do Sul de Angola: breve resumo histórico e apontamentos de campo" in Africana Studia, N.º 30, 2018, EDIÇÃO DO CENTRO DE ESTUDOS AFRICANOS DA UNIVERSIDADE DO PORTO, pp. 107-108.
- ↑ a b c "Sessão de 17 de Abril de 1893" in Actas das Sessões da Sociedade de Geografia de Lisboa, volume X, 1890, pp. 61-62.