Redes de Atenção à Saúde

As Redes de Atenção à Saúde (RAS) são estruturas organizadas para coordenar ações e serviços de saúde, abrangendo diferentes níveis de complexidade tecnológica no Brasil. Elas são integradas por meio de sistemas de suporte técnico, logístico e de gestão, com o objetivo de garantir a integralidade do cuidado. Conforme a Portaria de Consolidação nº 03,[1] de 28 de setembro de 2017, as RAS são estruturadas para atender condições específicas de saúde, assegurando a continuidade do cuidado nas esferas primária, secundária e terciária. O foco dessas redes está na promoção de uma assistência integral e contínua para toda a população.[2]

Essas redes destacam a importância da integração entre os serviços de saúde para tratar condições crônicas de maneira eficaz. Ao promover o compartilhamento de informações e coordenação entre os diferentes componentes do sistema, busca-se reduzir a fragmentação do atendimento, garantindo mais eficiência, qualidade e satisfação dos usuários. Esse processo inclui a coordenação horizontal e vertical dos serviços, o que visa eliminar redundâncias e adotar diretrizes clínicas que aumentem a relação custo efetividade, ao mesmo tempo em que reduzem o desperdício.[3]

Histórico das Redes de Atenção à Saúde[4]

No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), as RAS surgiram como uma resposta à necessidade de reorganizar a assistência à saúde no Brasil, visando maior integração e eficiência. O conceito de um sistema integrado de saúde remonta a 1920, com o Relatório Dawson, no Reino Unido, que defendeu uma organização regionalizada dos serviços de saúde para garantir acesso eficaz e abrangente. Na década de 1990, países como Canadá e Estados Unidos iniciaram esforços para superar a fragmentação dos sistemas de saúde, integrando os serviços à Atenção Primária e aos Sistemas de Informação em Saúde (SIS).[5]

No Brasil, a integração dos serviços de saúde foi consolidada pela Portaria nº 4.279/2010 do Ministério da Saúde, que organizou os níveis de atenção no SUS em primário, secundário e terciário. Em 2017, a Portaria de Consolidação nº 3 revisitou essas diretrizes, reforçando a importância da coordenação entre as equipes para promover um cuidado eficiente e integral. Desde esse ponto, as Redes de Atenção à Saúde têm se desenvolvido em diferentes regiões do país, adaptando-se às realidades locais e às necessidades específicas da população.[6]

Objetivos e elementos que constituem da RAS

Integralidade das Redes de Atenção a Saúde

As RAS têm como objetivo principal organizar e integrar os serviços de saúde no SUS, proporcionando um atendimento contínuo e de qualidade. A estrutura de "rede" visa promover a coordenação do cuidado, assegurando que os pacientes recebam a assistência adequada em cada fase de suas necessidades.[7][8] As RAS envolvem a articulação entre diferentes níveis de atenção e a gestão eficiente dos recursos disponíveis.[7]

De acordo com a Portaria nº 4.279/2010, as RAS se baseiam em três elementos constitutivos:[9]

  1. População e Regiões de Saúde: organização da população de acordo com fatores de risco relacionados às condições de saúde.
  2. Estrutura Operacional: inclui pontos de atenção primária, secundária e terciária, além de sistemas de apoio e logística.
  3. Modelo de Atenção à Saúde: organização dos serviços para que funcionem de maneira eficiente, integrada e humanizada.[10]

Diretrizes e Estratégias

A Portaria de Consolidação GM/MS nº 3/2017[1] apresenta diretrizes que buscam superar a fragmentação da gestão e do cuidado, promovendo uma melhor coordenação dos serviços de saúde e melhorando o funcionamento político institucional do SUS. Algumas dessas diretrizes incluem: economia de escala; suficiência e qualidade, onde os recursos humanos, tecnológicos e financeiros devem ser suficientes para atender a demanda e expectativa da população; facilidade de acesso; disponibilidade de recursos; integração vertical onde ocorre a articulação e integração dos níveis de atenção; processos de substituição que remaneja os recursos entre e/ou dentro dos serviços de saúde; região de saúde e abrangência além dos níveis de atenção.[4][1][6]

Redes Temáticas

Descrição do modo de estruturação e operacionalização das Redes de Atenção à Saúde, que conta com os sistemas de apoio, os sistemas logísticos e o sistema de governança, cuja organização transversal é comuns a todas as redes temáticas

As RAS também são organizadas por meio de redes temáticas, que focam em áreas específicas do cuidado, como a:

Rede Cegonha: foi estabelecida pela Portaria nº 1.459/11.[11] Tem o objetivo de qualificar a assistência e enfrentar a mortalidade materna, infantil e fetal, garantindo o fluxo adequado e a melhoria para o atendimento ao planejamento sexual e reprodutivo, pré-natal, parto e nascimento, puerpério e primeira infância, garantindo também a criança o direito ao nascimento seguro e ao desenvolvimento saudáveis.[12]

Rede de Atenção a Pessoas com Doenças Crônicas: estabelecida a partir da Portaria GM/MS nº 438/14[13] essa rede busca oferecer atenção integral à saúde em todos os níveis, promovendo a qualificação do atendimento, a prevenção de complicações e qualidade de vida. Está voltada então, para o cuidado e prevenção de doenças crônicas, caracterizadas por início gradual, longa duração e múltiplas causas, exigindo mudanças no estilo de vida;[14]

Rede de Atenção Psicossocial (RAPS): foi estabelecida pela Portaria GM/MS nº 3.088/11[15] para oferecer atendimento a pessoas com transtornos mentais e dependentes de substâncias, promovendo reabilitação psicossocial, autonomia e cuidado em liberdade, com enfoque na inclusão social e serviços comunitários;[15]

Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência: implementada pela Portaria GM/MS nº 793/12[16] essa rede busca ampliar o acesso e melhorar o atendimento às pessoas com deficiência temporária, progressiva, regressiva, ou estável. Promove cuidados em saúde, principalmente em trabalhos de reabilitação auditiva, visual, física, intelectual, ostomia e outras diversas deficiências. Procura desenvolver ações de prevenção e de identificação precoce de deficiência nas primeiras fases da vida;[16]

Rede de Atenção às Urgências e Emergências (RUE): implementada pela Portaria GM/MS nº 1.600/11[17] a rede tem como objetivo reorganizar o atendimento à saúde em casos de urgência, coordenando os diversos pontos de atenção, como Atenção Básica, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e hospitais, para melhorar a assistência e garantir atendimento 24 horas a diferentes condições de saúde. Para isso, é fundamental que seus componentes trabalhem de forma integrada e qualificada, com foco nas linhas de cuidado prioritárias, como traumatologia e doenças cardiovasculares e cerebrovasculares.[17]

Desafios e Potencialidades

As RAS enfrentam desafios, que vão desde as desigualdades sociais, fragilidade de políticas públicas até a fragmentação dos serviços de saúde. A falta de planejamento regional e recursos financeiros afeta o acesso da população a um cuidado adequado. No entanto, os benefícios das RAS incluem a redução de hospitalizações desnecessárias, maior eficiência e melhora no autocuidado dos pacientes.[18] Há ainda desafios quanto à definição do conceito de rede, que pode ser compreendido de diferentes formas no SUS. Entre os avanços com a implementação, destacam-se a redução de hospitalizações desnecessárias, o menor tempo de internação, economia de escala, aumento da produtividade e maior autocuidado dos pacientes.[10][19]

Referências

  1. a b c «Portaria de Consolidação nº 3, de 28 de Setembro de 2017». Ministro de Estado Saúde. Consolidação das normas sobre as redes do Sistema Único de Saúde. 28 de setembro de 2017. Consultado em 8 de outubro de 2024 
  2. «As Redes de Atenção à Saúde». Governo Federal. 11 de março de 2020. Consultado em 26 de setembro de 2024 
  3. Damaceno, Adalvane Nobres; Lima, Maria Alice Dias da Silva; Pucci, Vanessa Rodrigues; Weiller, Teresinha Heck (29 de janeiro de 2020). «Redes de atenção à saúde: uma estratégia para integração dos sistemas de saúde». Revista de Enfermagem da UFSM: e14. ISSN 2179-7692. doi:10.5902/2179769236832. Consultado em 22 de outubro de 2024 
  4. a b Redes de Atenção à Saúde (PDF). Brasília: Ministério da saúde. 2022. p. 11 p. 
  5. Portela, Gustavo (25 de setembro de 2016). «Atenção Primária à Saúde: um ensaio 255 sobre conceitos aplicados aos estudos nacionais». Physis Revista de Saúde Coletiva: 22p. 
  6. a b Oliveira, Nerícia (2016). A atenção em saúde organizada em redes (PDF). Maranhão: [s.n.] p. 12p. ISBN 978-85-7862-583-2 
  7. a b Saúde, Ministério da (21 de março de 2022). Curso I : Regulação de Sistemas de Saúde do SUS. Brasília, DF: Ministério da Saúde 
  8. Nakata, Liliane (2020). «Conceito de rede de atenção à saúde e suas características-chaves: uma revisão de escopo». SciELO. SciELO. 1: 2. Consultado em 8 de outubro de 2024 
  9. Temporão, José (30 de outubro de 2010). «PORTARIA Nº 4.279, DE 30 DE DEZEMBRO DE 2010». Ministério da Saúde. Consultado em 26 de setembro de 2024 
  10. a b Mendes, Eugênio Vilaça (22 de julho de 2011). As redes de atenção à saúde. [S.l.]: Opas 
  11. de Estado da Saúde, Ministro (24 de junho de 2011). «PORTARIA Nº 1.459, DE 24 DE JUNHO DE 2011». Institui, no âmbito do Sistema Único de Saúde - SUS - a Rede Cegonha. Consultado em 8 de outubro de 2014 
  12. Redes de atenção à saúde: a rede Cegonha. [S.l.]: Edufma. 21 de novembro de 2023 
  13. Feldenheimer, Ana (2013). «Diretrizes para o cuidado das pessoas com doenças crônicas nas redes de atenção à saúde e nas linhas de cuidado prioritárias» (PDF). ministério da saúde. ministério da saúde. 1: 6. Consultado em 8 de outubro de 2024 
  14. «A atenção à saúde organizada em redes». UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO. UNA-SUS/UFMA. Consultado em 4 de outubro de 2024 
  15. a b Sampaio, Mariá (2021). «Rede de Atenção Psicossocial: avaliação da estrutura e do processo de articulação do cuidado em saúde mental». SciELO. SciELO. 1: 2. Consultado em 8 de outubro de 2024 
  16. a b «Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência». ministério de saúde. 18 de novembro de 2022. Consultado em 26 de setembro de 2024 
  17. a b «Rede de Atenção às Urgências e Emergências». BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde de A a Z: SAMU 192. Consultado em 4 de outubro de 2024 
  18. Costa, Rubens (2019). «REDES DE ATENÇÃOÀSAÚDE: DESAFIOS DOS GESTORES PARA SUA IMPLEMENTAÇÃO E FUNCIONAMENTO». Revista Revise. Revise: Revista Integrada em Inovação tecnológica nas ciências da saúde. 3 (10): 41-55. Consultado em 8 de outubro de 2024 
  19. Costa, Rubens Santos (7 de janeiro de 2020). «REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE: DESAFIOS DOS GESTORES PARA SUA IMPLEMENTAÇÃO E FUNCIONAMENTO». REVISE - Revista Integrativa em Inovações Tecnológicas nas Ciências da Saúde (fluxocontinuo). ISSN 2179-6572. doi:10.46635/revise.v2ifluxocontinuo.1415. Consultado em 22 de outubro de 2024