Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho

 Nota: Se procura a academia congênere de Lisboa, veja Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho.

Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho
Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho
Latim: Academia Regia Artis Tormentariæ, Munitionis et Designii
Casa do Trem da Ponta do Calabouço (1764), primeira sede da Academia (1792–1812), atual Museu Histórico Nacional
Vista da Ponta do Calabouço em 1809 (detalhe: edifício da Academia junto ao Forte de São Tiago)
Nomes anterioresAula de Artilharia do Terço do Rio de Janeiro (1738–1792)
Fundação17 de dezembro de 1792
Instituição mãeCoroa Portuguesa
Dissolução23 de abril de 1811 (absorvida pela Academia Real Militar)
Tipo de instituiçãoPública militar (Coroa Portuguesa)
MantenedoraVice-Reino do Brasil
LocalizaçãoRio de JaneiroRio de Janeiro, Capitania do Rio de Janeiro (depois Vice-Reino do Brasil), Reino de Portugal (depois Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves)
Diretor(a)António Joaquim de Oliveira (1792–1795, lente principal)
Docentes3–7 (1792–1810)
Total de estudantes≈ 73 (1792–1793); número variável
CampusUrbano (Ponta do Calabouço, 1792–1812; depois Largo de São Francisco de Paula, 1812–)
Sucessoras diretasInstituto Militar de Engenharia (linha militar)
Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (linha civil)
AfiliaçõesExército Português
Primeira instituição de ensino superior técnico-científico e primeira escola de engenharia das Américas (1792). Reconhecida oficialmente como origem histórica do IME e da Escola Politécnica da UFRJ.

A Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho foi a primeira instituição de ensino superior técnico-científico fundada nas Américas. Criada por alvará da rainha D. Maria I e instalada em 17 de dezembro de 1792 no Rio de Janeiro pelo vice-rei D. José Luís de Castro, 2.º Conde de Resende, representou o ponto de partida formal do ensino de engenharia no continente americano. É reconhecida como ancestral comum do Instituto Militar de Engenharia (IME) e da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.[1][2][3]

Origem e fundação

A Academia resultou da transformação da antiga Aula de Artilharia do Terço do Rio de Janeiro, criada em 1738 por José Fernandes Pinto Alpoim. Conservou o mesmo local, a Casa do Trem da Ponta do Calabouço, construída em 1764, e o lente principal, o coronel António Joaquim de Oliveira. Seguia o modelo da congênere de Lisboa, fundada dois anos antes, e respondia à necessidade de formar oficiais técnicos para a defesa do Vice-Reino do Brasil contra ameaças externas.[1][2]

Os estatutos, aprovados em 1792 e conservados na Biblioteca Nacional do Brasil (cota I-32-13-27), foram inaugurados solenemente em dezembro, mês do aniversário da rainha, com grande presença de autoridades militares e civis.[1] Em 1812 a instituição transferiu-se para o primeiro edifício brasileiro construído exclusivamente para ensino superior, no Largo de São Francisco de Paula.

Estrutura do curso

O curso completo durava seis anos, o programa técnico mais longo e avançado das Américas na época. Combinava formação militar e civil de engenharia, característica do modelo português até meados do século XIX. Os dois primeiros anos eram dedicados à matemática avançada e à geometria prática segundo Bernard Forest de Bélidor; o terceiro ano abrangia artilharia teórica, minas e contra-minas, ataque e defesa de praças, com base em Pierre Surirey de Saint-Remy e Guillaume Le Blond; o quarto ano tratava da fortificação regular; o quinto da fortificação irregular, efetiva e de campanha, seguindo Alessandro Papacino d’Antoni; o sexto ano, reservado aos futuros engenheiros militares, incluía arquitetura civil, orçamento de obras, construção de caminhos, hidráulica, pontes, canais e diques, recorrendo novamente a Bélidor. O desenho militar e topográfico era ministrado continuamente, e o domínio da língua francesa era obrigatório até o final do terceiro ano.[4][2]

Os alunos de infantaria e cavalaria concluíam os estudos ao fim de três anos; os de artilharia ao fim de cinco; apenas os destinados à engenharia militar cursavam os seis anos completos. A admissão exigia exame de aritmética ordinária e, para engenheiros, constituição física robusta e ausência de defeitos visuais ou tremor nas mãos. Os exames anuais eram realizados por sorteio de pontos, com vinte e quatro horas de preparação.[4]

Devido à elevada exigência, o Conde de Resende criou em novembro de 1795 uma academia preparatória paralela, a Nova Academia de Aritmética, Geometria Prática, Desenho e Língua Francesa, com duração de um ano e meio, destinada exclusivamente aos cadetes de infantaria e cavalaria que não possuíam bases suficientes.[1]

Corpo docente e prática

António Joaquim de Oliveira foi o lente principal até 1795, auxiliado pelos capitães José de Oliveira Barbosa e António Lopes de Barros. Em 1798 lecionavam também Albino dos Santos Pereira (geometria prática), Francisco António da Silva (aritmética), Aureliano de Sousa e Oliveira (desenho) e José Caetano de Araújo (francês). Em 1809 introduziu-se o ensino de língua inglesa com Eduardo Thomaz Cohill e, em 1810, o de química com Daniel Gardner, a primeira cadeira de química ministrada no Brasil.[1]

Os estatutos valorizavam o ensino prático: os alunos saíam ao campo para medir distâncias, nivelar terrenos, construir baterias e levantar fortificações de campanha. Quando possível, acompanhavam obras reais em curso.[4]

Transformação e legado

Com a transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808 e a criação da Academia Real Militar por decreto de 4 de dezembro de 1810 (instalada em 23 de abril de 1811), a antiga academia foi absorvida e extinta como entidade autônoma.[1]

A Academia Real Militar evoluiu ao longo do século XIX até à separação definitiva, em 1874, dos ramos militar e civil, originando, respectivamente, o atual Instituto Militar de Engenharia e a Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.[5][6]

Por isso, tanto o IME quanto a Escola Politécnica da UFRJ comemoram oficialmente 17 de dezembro de 1792 como data fundacional de sua linhagem histórica, sendo a Real Academia reconhecida como a primeira escola de engenharia das Américas e uma das mais antigas do mundo ainda em continuidade institucional.[3][7]

Referências

  1. a b c d e f PIVA, Teresa. “A evolução da engenharia militar no Rio de Janeiro de 1765 a 1810”. In: História da ciência luso-brasileira: Coimbra entre Portugal e o Brasil. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013, p. 145–156. Disponível em: https://digitalis.uc.pt/pt-pt/artigo/evolucao_da_engenharia_militar_no_rio_de_janeiro_de_1765_1810
  2. a b c BUENO, Beatriz Piccolotto Siqueira. Desenho e desígnio: o Brasil dos engenheiros militares (1500–1822). São Paulo: Edusp/Fapesp, 2011.
  3. a b TELLES, Pedro Carlos da Silva. História da engenharia no Brasil: séculos XVI a XIX. Rio de Janeiro: LTC, 1984.
  4. a b c “Estatutos da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho da Cidade do Rio de Janeiro”, 1792. Manuscrito BNRJ I-32-13-27, citado em Cavalcanti (2007) e Piva (2013).
  5. «História do IME». Instituto Militar de Engenharia. Consultado em 19 de novembro de 2025 
  6. «História da Escola Politécnica». Escola Politécnica da UFRJ. Consultado em 19 de novembro de 2025 
  7. UNESCO. Engineering: Issues, Challenges and Opportunities for Development. Paris: UNESCO, 2010, p. 395.

Bibliografia

  • BUENO, Beatriz Piccolotto Siqueira. Desenho e desígnio: o Brasil dos engenheiros militares (1500–1822). São Paulo: Edusp/Fapesp, 2011.
  • PIVA, Teresa. “A evolução da engenharia militar no Rio de Janeiro de 1765 a 1810”. In: História da ciência luso-brasileira. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013.
  • TELLES, Pedro Carlos da Silva. História da engenharia no Brasil: séculos XVI a XIX. Rio de Janeiro: LTC, 1984.
  • BARATA, Manuel Themudo. A Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho do Rio de Janeiro (1792–1811). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1985.

Ligações externas