Reabilitação (penologia)
A reabilitação, no âmbito da penologia, é o processo de ressocialização de infratores, preparando-os para a reintegração à sociedade.[1] O objetivo é abordar as causas profundas do crime, a fim de prevenir a reincidência após a libertação dos detentos.[2] Geralmente envolve abordagens psicológicas que visam as distorções cognitivas associadas a tipos específicos de crimes cometidos por indivíduos infratores, mas também pode incluir educação mais geral, como habilidades de leitura e treinamento profissional.
Métodos
A reabilitação bem-sucedida de um prisioneiro também é facilitada se os condenados:
- não são colocados em condições precárias que representem risco à saúde, têm acesso a cuidados médicos e são protegidos de outras formas de maus-tratos graves,[3]
- são capazes de manter laços com o mundo exterior,[3]
- aprendem novas habilidades para ajudá-los na vida profissional fora da prisão,[3]
- contam com regulamentações legais claras e detalhadas que esclarecem as salvaguardas aplicáveis e regem o uso e o descarte de quaisquer registros de dados relacionados a questões criminais,[3][4]
- recebem assistência psicológica,[5]
- e, discutivelmente,[6] se cumprem penas de prisão mais longas.[7]
Por região
Noruega
O sistema prisional da Noruega baseia-se no princípio da normalização e prioriza a reabilitação em detrimento da punição.[8] Os detentos têm acesso a comodidades semelhantes às que teriam fora da prisão, como frigobar individual, TV de tela plana, banheiro privativo e acesso a áreas externas.[9][10] Isso, juntamente com uma cozinha e área de convivência compartilhadas "para criar um senso de família" entre os detentos e a ausência de uniformes prisionais tradicionais, contribui para o sistema de reintegração social com foco na normalidade na Noruega.[9][10] A estrutura da prisão é composta pelas Unidades A, B e C, sendo a Unidade A destinada a abrigar aqueles que necessitam de atendimento psiquiátrico ou médico, sendo, portanto, a mais restritiva das três.[11] Halden Fengsel, considerada a "prisão de segurança máxima mais humana do mundo", incorpora o objetivo do país de reintegração, auxiliando os detentos a encontrar moradia e emprego antes de deixarem a prisão.[11] As medidas de reabilitação incluem educação, treinamento profissional, oficinas para aquisição de uma profissão e terapia, além do tratamento humanitário que recebem de funcionários que precisam completar três anos de treinamento para se tornarem guardas prisionais.[9][12]
A eficácia dos métodos noruegueses é evidente, visto que o país apresenta uma das taxas mais baixas de reencarceramento após 2 anos, de 18% em 2018,[13] enquanto a taxa de reincidência, ou seja, de novas acusações por um mesmo crime em um período de 5 anos, é de 49,6% para furto de propriedade, 46,8% para crimes violentos e 31,7% para crimes sexuais, também em 2017.[14] O lema não oficial do Serviço Correcional da Noruega é "Melhor fora do que dentro", o que está em consonância com seu sistema de reabilitação, que busca fazer justiça à sociedade, integrando os detentos como membros funcionais da sociedade após a soltura.[11][12]
Itália
Segundo o artigo 27 da Constituição italiana, "a pena não pode consistir em tratamento desumano e deve visar à reabilitação do condenado".[15] Todavia, mesmo após ter tomado medidas para corrigir condições carcerárias descritas em 2013 como "inumanas e degradantes" pelo Conselho da Europa, até 2020 a Itália ainda não havia registrado grandes progressos na ressocialização dos apenados. Entre os avanços registrados, inclui-se a criação em março de 2016 de um cargo de ombudsman (o Provedor Nacional dos Direitos das Pessoas Detidas ou Privadas de Liberdade), o qual em março de 2017 apresentou seu primeiro relatório ao parlamento italiano.[16]
As condições registradas tornam deveras difícil a implementação de qualquer política de reabilitação, visto que além da superlotação das cadeias (de 119,9% em 2019) e da crônica falta de recursos financeiros, o número de educadores era reduzido (1 para cada 79 apenados em 2019). Quanto a casos de sucesso, deve ser destacado o da prisão Milano-Bollate, inaugurada em 2000 (portanto, uma prisão "moderna", ao menos em termos de existência): um estudo ali realizado entre 2001-2009,[17] constatou uma redução de 10% na taxa de reincidência dos encarcerados daquela instituição (homens, não condenados por violência sexual) para cada ano de cumprimento da pena, em relação à outras prisões. Isto, contudo, não se deve a algum programa específico de reabilitação, mas simplesmente porque a prisão reunia (à época do estudo) as condições mínimas para que os apenados cumprissem suas sentenças com dignidade. Ou seja: a Milano-Bollate deveria ser o paradigma, não porque fosse excepcional, mas simplesmente porque cumpria o que estava determinado na legislação penal italiana, recomendações da União Europeia e convenções internacionais.[16]
Referências
- ↑ «Reabilitação criminal». Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. 18 de agosto de 2023. Consultado em 24 de janeiro de 2026
- ↑ Madison, Elisha (18 de novembro de 2021). «Criminal Rehabilitation: Programs, Statistics & Definition». Study.com (em inglês). Consultado em 25 de abril de 2023
- ↑ a b c d Clare Ovey, Ensuring respect of the rights of prisoners under the European Convention on Human Rights as part of their reintegration process Arquivado em 2014-07-27 no Wayback Machine, Registry of the European Court of Human Rights.(em inglês)
- ↑ Rec(84)10E 21 de junho de 1984, sobre os antecedentes criminais e a reabilitação de pessoas condenadas Arquivado em 2014-07-27 no Wayback Machine.
- ↑ dos Santos Neves, Thamyris (2021). «A IMPORTÂNCIA DA ASSISTÊNCIA PSICOLÓGICA PARA O PROCESSO DE RESSOCIALIZAÇÃO DOS APENADOS». Revista Jurídica do Ministério Público do Estado de Rondônia. 5 (1): 49-62. ISSN 2595-3265. Consultado em 24 de janeiro de 2026
- ↑ Alves Ferreira Melo, Iasmin; Gonçalves do Nascimento, Vitória (2024). «O aumento do tempo máximo das penas privativas de liberdade: ressocialização e punitivismo». São Paulo. Boletim IBCCRIM. 29 (341): 14-16. ISSN 2965-937X. Consultado em 24 de janeiro de 2026
- ↑ Landersø, Rasmus (fevereiro de 2015). «Does Incarceration Length Affect Labor Market Outcomes?». The Journal of Law and Economics (em inglês). 58 (1): 205–234. ISSN 0022-2186. doi:10.1086/682911
- ↑ Paddison, Laura (22 de agosto de 2019). «How Norway Is Teaching America To Make Its Prisons More Humane». Huffpost (em inglês). Consultado em 17 de junho de 2020. Cópia arquivada em 9 de abril de 2021
- ↑ a b c Deady, Carolyn. «Pell Center for International Relations and Public Policy» (PDF) (em inglês). Consultado em 17 de novembro de 2016. Cópia arquivada (PDF) em 23 de novembro de 2016
- ↑ a b Milanovic, Nikola. «Norway's New Prisons: Could They Work Here? « The Stanford Progressive». web.stanford.edu (em inglês). Consultado em 16 de julho de 2020. Cópia arquivada em 22 de abril de 2015
- ↑ a b c Benko, Jessica (26 de março de 2015). «The Radical Humaneness of Norway's Halden Prison». The New York Times (em inglês). Consultado em 3 de março de 2017. Cópia arquivada em 26 de outubro de 2017
- ↑ a b James, Erwin (25 de fevereiro de 2013). «The Norwegian prison where inmates are treated like people». The Guardian (em inglês). Consultado em 17 de novembro de 2016. Cópia arquivada em 17 de novembro de 2016
- ↑ Ragnar Kristoffersen (2022). «Correctional Statistics of Denmark, Finland, Iceland, Norway and Sweden 2016 – 2020» (PDF) (em inglês). Lillestrøm: University College of Norwegian Correctional Service
- ↑ «Statistics Norway» (em inglês). Consultado em 24 de junho de 2024.
Tabela 17 - Pessoas acusadas no ano-base, por grupo de delito principal na reincidência e grupo de delito principal no ano-base. Valores absolutos e percentuais.
- ↑ «Constituição da República Italiana» (PDF). Senado da Itália. 2018. Consultado em 25 de janeiro de 2026
- ↑ a b Sette, Raffaella (2020). «Fight Against Recidivism in Italy: A Case-Study Analysis». Universidade de Bolonha. Alma Mater Studiorum (em inglês). doi:10.6092/UNIBO/AMSACTA/6590. Consultado em 25 de janeiro de 2026
- ↑ Mastrobuoni, Daniele; Terlizzese (novembro de 2014). «Rehabilitating Rehabilitation: Prison Conditions and Recidivism» (PDF). IZA (em inglês)
Ver também
Ligações externas
- Costa Marques Corbelino, José Ricardo (26 de julho de 2023). «O Desafio da Ressocialização do Preso». OAB-Mato Grosso. Consultado em 24 de janeiro de 2026