Rahel Jaeggi
| Rahel Jaeggi | |
|---|---|
![]() Jaeggi em 2015 | |
| Escola/Tradição | Escola de Frankfurt |
| Data de nascimento | 19 de julho de 1967 (58 anos) |
| Local | Berna, Suíça |
| Principais interesses | Teoria crítica |
| Era | Filosofia contemporânea |
| Influências | Axel Honneth, Jürgen Habermas |
| Alma mater | Universidade de Frankfurt, Universidade Livre de Berlim |
Rahel Jaeggi (Berna, 19 de julho de 1967) é uma filósofa suíça, professora de filosofia prática e filosofia social na Universidade Humboldt de Berlim. Desenvolve pesquisas em filosofia social, filosofia política, etica, antropologia filosófica, ontologia social, e teoria crítica.
Biografia
Rahel Jaeggi é filha do sociólogo suíço Urs Jaeggi e da psicanalista e escritora austríaca Eva Jaeggi. Antes de trabalhar como assistente de pesquisa de Axel Honneth (1996-2001), no Instituto Filosófico da Universidade de Frankfurt e no Instituto de Pesquisa Social, Jaeggi estudou na Universidade Livre de Berlim (1990 - 1996). Ela completou seus estudos apresentando uma tese sobre a filosofia política de Hannah Arendt. Em 1999 foi pesquisadora visitante na New School for Social Research, em Nova York. Escreveu sua tese de doutorado sobre o conceito de alienação (Freiheit und Indifferenz – Versuch einer Rekonstruktion des Entfremdungsbegriffs; em português, Liberdade e Indiferença - Uma Tentativa de Reconstruir o Conceito de Alienação) em 2002. Ocupou postos de ensino e de pesquisa na Universidade Yale, na New School e na Universidade de Frankfurt.[1] [2]
Escreveu sua tese de habilitação sobre o tema Crítica das Formas de Vida, na Universidade de Frankfurt. É catedrática de filosofia prática e filosofia social na Universidade Humboldt de Berlim, desde 2009.[3]
Práticas Sociais e Formas de vida
Alguns dos principais conceitos utilizados pela teoria de Jaeggi são os de práticas sociais e formas de vida. Para a autora, práticas sociais são ações que se realizam a si mesmas, a outros e ao mundo material, podendo variar em nível de complexidade e abrangência. Além de se constituírem apenas em um contexto carregado de significados socialmente reconhecidos.[4]
Para Jaeggi, práticas sociais não podem ser reduzidas a ações intencionais, visto que possuem um caráter repetitivo e habitual. Ainda, não podem ser derivados apenas como "fatos brutos", pois dependem de um contexto interpretativo que possibilita a inteligibilidade do fenômeno. Ademais, Jaeggi argumenta que as práticas sociais são necessariamente regulamentadas por normas, e que não derivam em relação a uma finalidade, podendo estar associadas a uma pluralidade de fins.[4]
O segundo conceito com visibilidade da teoria de Jaeggi é o de forma de vida. De acordo com a filósofa, formas de vida são práticas ligadas a outras práticas; conjuntos que incluem práticas econômicas, sociais e culturais. Para ela, destaca-se a necessidade de uma constituição social de significados que garantem a funcionalidade das diferentes práticas associadas e a constituição de elementos sedimentados que estruturam as formas de vida como feixes de práticas sociais inertes.[4]
Um destaque do pensamento de Jaeggi, é que a autora compreende, portanto, as práticas econômicas como sociais. A economia, para ela, não é um campo autônomo ou independente, mas deve ser compreendida como parte do tecido sociocultural da sociedade. A partir dessa concepção, o capitalismo seria compreendido não apenas como uma forma de vida composta por padrões sedimentados de práticas e hábitos, mas também de racionalidades e subjetividades que naturalizam princípios de mercado. Assim, a definição sugerida por Jaeggi supera a concepção de capitalismo apenas como um conjunto de práticas sociais econômicas, entendendo-o, também, como estruturador de identidades e expectativas. Além de abrir espaço para elaborações de críticas imanentes sobre as formas de vida, visto que:[4][5]
“Em suma: práticas e formas de vida são dadas e são criadas ao mesmo tempo. E podem desenvolver espontaneamente certa dinâmica. Contudo, são algo que os seres humanos fazem e, portanto, poderiam fazer de outra maneira. Isso se torna claro logo que certo conjunto de práticas e de autoentendimento esbarra em seus limites – quanto as coisas já não andam sem percalços. Quando um conjunto de práticas encrava, deixa passar despercebido: os momentos de crise obrigam a refletir sobre as práticas e a adequá-las, a recriar práticas que até então eram tomadas como certas.” (JAEGGI, 2018, p. 510)[4]
Crítica de Rahel Jaeggi ao capitalismo como forma de vida
Conceito geral
A filósofa Rahel Jaeggi propõe compreender o capitalismo como uma forma de vida, isto é, um conjunto de práticas sociais normativamente estruturadas que organizam modos específicos de coexistência humana. Instituições como o mercado, a propriedade privada, a competição e o trabalho assalariado são entendidas não como mecanismos neutros, mas como práticas socialmente interpretadas e integradas a um modo de vida mais amplo.[6][7]
Relação com Karl Polanyi
A abordagem de Jaeggi dialoga com ideias formuladas por Karl Polanyi, especialmente a noção de que o capitalismo tende a produzir uma economia relativamente “desembutida”, isto é, separada das relações sociais. No artigo “Economy as Social Practice” (2018), Jaeggi menciona diretamente essa formulação ao perguntar, inspirada em Polanyi, se esse desencaixe não seria um traço marcante e problemático do capitalismo. Porém, ela interpreta esse processo de outra maneira. Para Jaeggi, o que aparece como desencaixe não significa que a economia se torna uma esfera isolada, mas que certas práticas econômicas se transformam dentro da própria forma de vida capitalista, podendo inclusive gerar contradições internas. Assim, a diferença entre Polanyi e Jaeggi não é de oposição, mas de enfoque: Polanyi descreve a separação histórica entre mercado e sociedade, enquanto Jaeggi destaca que as práticas econômicas continuam ligadas a normas, significados e valores que estruturam o modo de vida capitalista.[7][8]
Três dimensões internas da crítica ao capitalismo
No artigo “What (If Anything) Is Wrong with Capitalism?” (2016), Jaeggi identifica três modos internos de criticar o capitalismo, que revelam diferentes tipos de falhas em suas práticas sociais. A crítica funcional analisa disfunções estruturais, como crises recorrentes, instabilidade e bloqueios reprodutivos nas práticas de competição e acumulação. A crítica moral examina formas de exploração presentes mesmo no funcionamento cotidiano do trabalho assalariado, onde relações de dependência e dominação aparecem apesar da promessa normativa de autonomia. Já a crítica ética aborda fenômenos de alienação, quando práticas econômicas impedem a realização de valores que o próprio sistema afirma promover, como autonomia, sentido e autorrealização.[9]
Crítica imanente
A partir dessas três dimensões, Jaeggi formula uma crítica imanente, que avalia o capitalismo segundo seus próprios critérios internos de sucesso. Como práticas econômicas são orientadas por finalidades normativas (como coordenação social, reprodução estável e não alienação) elas podem se tornar problemáticas quando falham em cumprir essas pretensões. Jaeggi denomina essas falhas de patologias ou práticas fracassadas, isto é, contradições internas entre os valores que estruturam o capitalismo e seus efeitos concretos.[7][10]
Exemplos de tensões internas no capitalismo
Jaeggi utiliza diferentes fenômenos para ilustrar como práticas centrais do capitalismo podem falhar segundo seus próprios critérios internos. O trabalho assalariado, por exemplo, é apresentado como promotor de autonomia e desenvolvimento de capacidades, mas frequentemente gera dependência, perda de sentido e formas de dominação impessoal, configurando situações de exploração que não dependem de coerção direta. A alienação aparece quando a promessa normativa de autorrealização entra em conflito com experiências concretas de despotencialização. Além disso, crises econômicas recorrentes e outras disfunções funcionais revelam tensões nas práticas de competição e acumulação, que deveriam garantir coordenação eficiente, mas acabam produzindo instabilidade. Esses fenômenos exemplificam como o próprio funcionamento do capitalismo pode gerar contradições internas e práticas fracassadas.[7][11]
Síntese
A crítica do capitalismo como forma de vida desloca o foco de leituras que tratam a economia como esfera neutra ou separada da sociedade. Em vez disso, a abordagem de Jaeggi analisa as práticas econômicas como componentes constitutivos de uma configuração social mais ampla, dotadas de normatividade própria. Nessa perspectiva, o capitalismo pode ser criticado não por violar valores externos, mas porque suas práticas se tornam contraditórias segundo seus próprios critérios internos, produzindo patologias sociais e limitando o desenvolvimento humano.[10]
Alguns trabalhos disponíveis em português
Livros
- Capitalismo em debate: uma conversa na teoria crítica. Nancy Fraser e Rahel Jaeggi. São Paulo: Boitempo, 2020.
Artigos
- O que há (se de fato há algo) de errado com o capitalismo? Três vieses de crítica do capitalismo. Cadernos de Filosofia Alemã, v. 20, n. 2, jul-dez 2015.
- Repensando a ideologia. Civitas - Revista de Ciências Sociais, v. 8, n. 1, 2008.
- Um conceito amplo de economia: economia como prática social e a crítica ao capitalismo. Civitas: Revista De Ciências Sociais, v. 18, n. 3, 2018.[4]
- Rumo à crítica imanente das formas de vida. Problemata, v. 10, n. 4, 2019.[5]
Referências
- ↑ Website at the Humboldt University of Berlin
- ↑ 2016 Heuss Lecture: The Dialectics of Progress: Rahel Jaeggi. The New School for Social Research.
- ↑ Berlin, Humboldt Universität. Information Philosophie.
- ↑ a b c d e f Jaeggi, Rahel (3 de dezembro de 2018). «Um conceito amplo de economia: economia como prática social e a crítica ao capitalismo». Civitas: revista de Ciências Sociais (3): 503–522. ISSN 1984-7289. doi:10.15448/1984-7289.2018.3.32368. Consultado em 15 de novembro de 2025
- ↑ a b «Portal de Periódicos da UFPB». doi:10.7443/problemata.v10i4.49711. Consultado em 15 de novembro de 2025
- ↑ Jaeggi, Rahel. “Um conceito amplo de economia: economia como prática social e crítica ao capitalismo”. Civitas, v. 18, n. 3, 2018.
- ↑ a b c d Jaeggi, Rahel. “Economy as Social Practice”. Journal for Cultural Research, v. 22, n. 2, 2018.
- ↑ Polanyi, Karl. A grande transformação. São Paulo: Campus, 1980.
- ↑ Jaeggi, Rahel (setembro de 2016). «What (if Anything) Is Wrong with Capitalism? Dysfunctionality, Exploitation and Alienation: Three Approaches to the Critique of Capitalism». The Southern Journal of Philosophy (em inglês) (S1): 44–65. ISSN 0038-4283. doi:10.1111/sjp.12188. Consultado em 14 de novembro de 2025
- ↑ a b Jaeggi, Rahel. “Rumo à crítica imanente das formas de vida”. Problemata, v. 10, n. 4, 2019.
- ↑ Jaeggi, Rahel (setembro de 2016). «What (if Anything) Is Wrong with Capitalism? Dysfunctionality, Exploitation and Alienation». The Southern Journal of Philosophy (em inglês) (S1): 44–65. doi:10.1111/sjp.12188
