Quinta de São Gens
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| Tipo | |
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| Arquiteto |
Nicolau Nasoni (entre e ) |
| Engenheiro |
Ruela (d) () |
| Estatuto patrimonial |
sem protecção legal (d) |
| Localização |
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| Coordenadas |
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A Quinta de São Gens, também referida como Casa e Quinta de São Gens e Casa e Quinta do Viso, localiza-se na Senhora da Hora, na atual freguesia de São Mamede de Infesta e Senhora da Hora, no Município de Matosinhos, Distrito do Porto, em Portugal.[1][2]
A Quinta de São Gens é, atualmente, uma das quintas de apoio à ação da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Norte. Integra um conjunto de quintas do termo da cidade do Porto cujo arranjo e enobrecimento é atribuído ao arquiteto italiano Nicolau Nasoni.
A quinta é composta por casa no extremo sul com um jardim formal desenvolvido posteriormente e no extremo norte, alguns edifícios de apoio incluindo um laboratório de qualidade alimentar.[2]
História
Antiga quinta murada, próxima de um cabeço que, na época da invasão romana da península Ibérica, terá funcionado como posto de vigia (ou "Viso"), e onde, na Idade Média, terá sido erguido um pequeno templo em honra de São Gens de Arles.[3] Pertenceu no passado à freguesia de Ramalde e, antes da criação desta, à de Cedofeita.
A quinta esteve ligada, por séculos, ao morgadio instituído em Ramalde, até um pouco antes de 1542, quando João Dias Leite tomou posse da propriedade, tendo passado aos seus descendentes:[1][3]
- António Leite (proprietário em conjunto com João Dias Leite)
- Martim Leite Pereira (nascido em 1602)
- João Leite Pereira (1630 - 1685)
- D. Maria Pereira de Melo (1665 - 1738)
Em 1635, D. Maria casou com Francisco Gomes da Silva, do cujo enlace nasceram sete filhos:[3]
- João Pereira Leite
- D. Luísa Bernarda
- Luís Leite
- Mateus Leite
- D. Maria
- D. Francisca Luísa
- D. Florência Leite
O Brasão esculpido no portão principal da Casa de S. Gens é uma sobreposição dos brasões da família de D. Francisca Luísa (6ª filha) e da família de seu marido Jerónimo Pereira Pinto Guedes.[3]
Pensa-se que as casas de S. Gens e de Ramalde foram mandadas fazer por D. Francisca, após o casamento, mas antes de 1758 e por D. Florência, em 1739, depois de enviuvar. Alternativamente, a casa poderá ter sido custeada pela mãe D. Maria, entre 1725 e 1738. Segundo uma tradição conservada na família, teria havido uma proprietária da casa de Ramalde, que tinha duas filhas herdeiras, a quem queria por igual e que ambas tinham um grande apego à casa paterna. Mas tendo uma das filhas que se separar dela, a mãe ter-lhe-ia mandado construir na Quinta de São Gens uma outra casa tão semelhante à primeira quanto possível.[3]
Segundo o Instituto Público do Património Cultural, foi durante a administração de D. Maria, ou de seus filhos, que na Casa de Ramalde e de São Gens se realizaram as obras delineadas por Nasoni.[2] De acordo com Isabel Sereno, a construção da primitiva casa, portal, fontes e estátuas terá sido feita entre 1746 e 1758.[1] Segundo as Memórias Paroquiais de 1758, a propriedade pertencia a Jerónimo Leite Pereira Pinto Guedes do Lago, fidalgo da Casa Real, marido de D. Francisca.
A configuração inicial da casa envolveria um corpo retangular, um torreão central recuado, um grande pátio fronteiro à casa, escadas exteriores, e passagem central sob o patamar das escadas, a dar acesso ao rés-do-chão.
D. Francisca Luísa e seu marido faleceram sem deixar quem lhes sucedesse e a Quinta de S. Gens voltou a unir-se à Casa de Ramalde, na época da posse de Henrique da Cerveira Pereira Pinto (falecido em 1780). Seguidamente, as duas quintas transitaram pelos seguintes proprietários:[3]
- 1780 - D. Ana Maria Francisca da Silveira Leite Pereira Pinto (1768 - 1830) com seu primeiro marido
- 1794 - D. Ana Maria Francisca da Silveira Leite Pereira Pinto (1768 - 1830) com seu segundo marido
- 1800 - D. Inês Luísa de Lencastre (1795 - 1825) e Damião Pereira da Silva (1798 - 1878)
- 1860 - D. Maria da Conceição (1844 - 1915) e José Martins de Queirós Montenegro (1842 - 1908)
Entre 1889 e 1892, foi feita a abertura da estrada exterior da Circunvalação e consequente mutilação do topo sul da casa e do terreiro.[1]
- 1908 - Damião Martins Pereira e Meneses (1863 - 1909)
Este mandou fazer obras na quinta, designadamente um tanque e aeromotor na parte superior do jardim
- 1909 - José Martins Queirós Pereira de Meneses (1864 - 1922)
Na década de 1920, a casa sofreu um incêndio, vindo a ser remodelada por um emigrante retornado do Brasil que a adquiriu aos antigos proprietários. Neste momento foi lhe acrescentada um prolongamento para norte e que ampliou o pátio para o mesmo lado, suprimindo as escadas exteriores e ajardinando o terreiro fronteiro com canteiros, palmeiras e arbustos, em obediência ao gosto então importado pelos retornados do Brasil. Supõe-se que terá sido também nesse período que se transferiram as estátuas, tanque e bancos atribuídos a Nasoni.[2]
Em 1928, a propriedade foi adquirida pelo Estado para nela instalar a Estação Agrária do Douro Litoral, posteriormente designada por Estação Agrária do Porto[3]. Na década de 1930, o ajardinamento do pátio foi, uma vez mais, remodelado, ocasião em que foi plantado com fruteiras.[2]
Em 1988, sob a orientação do arquiteto Ilídio de Araújo, foi realizado novo arranjo do jardim. No dia 10 de março de 1989, as instalações foram inauguradas após o restauro, pelo ministro da Agricultura, Pescas e Alimentação Álvaro Roque de Pinho Bissaia Barreto.[2]
Características
A arquitetura é essencialmente residencial, barroca, revivalista e eclética. As fachadas apresentam uma decoração neoromânica, patente nos merlões e banda lombarda da torre, nos vãos em arco pleno, com motivos perlados, que se repetem em parte na cornija de remate, nos balcões de guarda plena, de algumas sacadas, principalmente na torre.[2]
Misturam-se alguns elementos neorenascentistas como é o caso dos balcões alpendrados da fachada lateral sul, com elementos neomanuelinos como é o caso da janela em arco canopial (do segundo registo da torre) e elementos neobarrocos, nomeadamente as sacadas em balaustrada, as cornijas retas do remate das janelas, o remate com cartela de decoração fitomórfico da janela de sacada do eixo da fachada principal, assim como a elevação em semicírculo, no remate, também no mesmo eixo, à semelhança de diversos solares do século XVIII. O jardim apresenta elementos barrocos, nomeadamente fontes e estátuas.[2]
Conservam-se elementos provenientes da primitiva quinta delineados por Nasoni, nomeadamente a estrutura básica da casa, o pátio murado com portão armoriado e janela mural artisticamente enquadrada, uma dezena de notáveis esculturas em granito, de salientar quatro intituladas "Primavera", "Estio", "Outono" e "Inverno". Subsistem ainda duas fontes, um cruzeiro, muros e um fonte de uma bica, à retaguarda da qual está, voltada para o centro do terraço, uma escultura representando uma quimera de mulher. Além destas obras, pode ainda ser admirado um tanque-lago enquadrado por quatro bancos de pedra que ocupa a posição central de um belo jardim.
Referências
- ↑ a b c d Sereno, Isabel (2001). «Casa e Quinta de São Gens / Casa e Quinta do Viso». www.monumentos.gov.pt. Consultado em 29 de setembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h «Quinta de São Gens, incluindo o terreiro a oeste e jardim a este». imovel.patrimoniocultural.gov.pt. Consultado em 29 de setembro de 2025
- ↑ a b c d e f g FERNANDES, Ilda (2000). Senhora da Hora. Monografia Paróquia da Senhora da Hora ed. Senhora da Hora: [s.n.] ISBN 9729505829