Queijo prato
Queijo prato, também chamado de queijo lanche, é um tipo de queijo macio de massa prensada e textura semelhante à do queijo Dinamarquês Danbo. Tem coloração amarela e sabor suave.[1]
História
Aiuruoca: o verdadeiro berço do queijo prato e a desmistificação da tese de Valença.
O queijo prato é, inegavelmente, um dos pilares da culinária brasileira, presença constante em padarias e lares de todo o país. Este breve artigo se propõe a desmistificar a tese que atribui a invenção desse queijo à cidade de Valença (RJ), com base nas evidências históricas apresentadas por Múcio M. Furtado, Ph.D., no livro Queijos Semiduros e documentação cartorários de Aiuruoca e outros, demonstrando que o verdadeiro berço do queijo prato é Aiuruoca (MG), no Sul de Minas Gerais, onde foi criado pelas mãos do dinamarquês Thorvald Nielsen.
A versão valenciana apresenta o queijo prato como fruto de um acidente de produção protagonizado pelo próprio Nielsen. A narrativa, divulgada em artigo da Revista Oeste por Sônia Maria Mattos Luca, incorpora elementos quase novelescos: golpes de seguro, fugas transatlânticas, romances interrompidos e até mesmo a suposta criação acidental do queijo.
A Tese de Valença: uma história saborosa, mas com furos cronológicos e lógicos.
O primeiro ponto que desmonta o mito de Valença é a cronologia, e nela reside uma contradição decisiva. O relato de Sônia Maria Mattos Luca sugere que Nielsen já vivia e atuava na Fazenda Vista Alegre “por volta de 1915”, onde teria produzido, acidentalmente, o queijo prato. Mas, de acordo com Múscio Furtado, Nielsen esteve no Brasil apenas brevemente em 1913, retornando em seguida à Dinamarca. Sua vinda definitiva só ocorreu em 1922, quase uma década depois da suposta criação acidental. Ou seja: não há possibilidade temporal para que Nielsen estivesse produzindo queijo em Valença em 1915.
Aiuruoca: o local do empreendimento e da criação
Quando Nielsen retorna definitivamente ao Brasil, em 1922, ele não se estabelece na Fazenda Vista Alegre, como sustenta a versão valenciana de Sônia Maria Mattos Luca. Seu destino real e documentado é o Sul de Minas Gerais e, de modo ainda mais preciso, Aiuruoca, onde inicia sua trajetória como pioneiro da indústria queijeira brasileira.
É na Fazenda Campo Lindo, situada em Aiuruoca, que Nielsen, ao lado do amigo e compatriota Peter Heide, funda a primeira fábrica de queijos semiduros do Brasil, a empresa Heide & Nielsen. A instalação da fábrica ocorre em parte da propriedade arrendada da família Junqueira, local que, conforme relata Múcio M. Furtado, abrigou um laticínio ativo até tempos recentes, funcionando no mesmo galpão original erguido pelos dinamarqueses.
Além disso, documentos cartorários de Aiuruoca confirmam que a família Junqueira mantinha uma fábrica de manteiga na Fazenda Campo Lindo, exatamente o imóvel que foi posteriormente arrendado por Nielsen para ali estabelecer sua produção.
A partir de 1922, começa uma verdadeira revolução técnica em Aiuruoca. Nielsen e Heide introduzem equipamentos modernos, trazidos da Dinamarca; utilizam fermentos da Chr. Hansen, fornecidos por Harry Justesen; implantam métodos de cura, prensagem e tratamento térmico inéditos no país; e rapidamente transformam a Fazenda Campo Lindo em um polo de formação de queijeiros. É também ali, e não no Rio de Janeiro, que passam a atuar Axel Sorensen e Leif Kaj Godtfredsen, queijeiros experientes, trazidos por Nielsen para compor o núcleo pioneiro da produção semidura brasileira.
Em 1927, quando Peter Heide retorna à Dinamarca e vende sua parte no negócio, Nielsen funda sua segunda empresa em Aiuruoca: a Nielsen & Cia, também sediada na Fazenda Campo Lindo. Essa empresa se torna o coração da produção dos queijos semiduros, incluindo o queijo prato. Sob essa marca, Nielsen produz e distribui queijos para o Rio de Janeiro com a marca Dana e, em parte da produção, para São Paulo com a marca Luna, pertencente ao comerciante Boris Stchelkunoff. É importante notar que, nesta fase, já existe documentação abundante sobre a produção, venda, distribuição e padronização dos queijos de Nielsen, registros que simplesmente não existem para a alegada produção “acidental” relatada por Sônia Maria Mattos Luca.
Além das duas empresas instaladas em Aiuruoca, Heide & Nielsen e Nielsen & Cia, foi também a partir da Fazenda Campo Lindo que Nielsen expandiu seu empreendimento, abrindo e administrando outras fábricas na região do Sul de Minas, em cidades como Cruzília, Minduri, Seritinga e Dores do Turvo. Essa rede produtiva, iniciada em Aiuruoca, consolidou a base técnica e industrial que levou ao desenvolvimento dos queijos nobres do sul de minas.
A versão de Valença, por sua vez, apresenta contradições adicionais. Além da impossibilidade cronológica, não há qualquer prova material que situe ali a criação do queijo prato. O próprio artigo da Revista Oeste reconhece que a história ganhou forma apenas a partir dos anos 2000, com a visita de uma parente distante que relatou memórias de família transmitidas oralmente. Trata-se de uma narrativa rica, mas pobre em comprovação.
Enquanto isso, Aiuruoca oferece uma linha histórica coerente. Nielsen foi, como afirma Furtado, “o grande criador do queijo Prato”, e isso só poderia ter ocorrido onde ele desenvolveu sua técnica de maneira contínua e documentada: na Fazenda Campo Lindo, em Aiuruoca, por meio das empresas Heide & Nielsen e Nielsen & Cia, tanto que em 1928 o Município de Aiuruoca participou da exposição pecuária e de produtos derivados, em Belo Horizonte, através do Queijo Prato da mesma empresa Nielzen & Cia, conforme publicação da revista “A Lavoura”, da Sociedade Nacional de Agricultura.
Por fim, a presença de Nielsen em Valença, criador do queijo prato em terras Aiuruocanas, só se iniciaria em 1936, quando ele começou a se desfazer de suas fábricas no Sul de Minas e mudou-se para aquele município fluminense. Lá, permaneceu atuando no setor de laticínios ao lado de Laust Martinussen, estabelecendo-se na fazenda Vista Alegre. Em 1942, já com a saúde bastante debilitada, Nielsen havia vendido quase todas as suas fábricas, muitas delas adquiridas por antigos empregados. Thorvald Nielsen viveu em Valença até seu falecimento, em 1951.
Conclusão - Aiuruoca: o verdadeiro berço do queijo prato – A prolixidade é necessária.
Diante do confronto rigoroso entre evidências documentais, registros cartorários, literatura especializada e a cronologia factual da vida de Thorvald Nielsen, torna-se inescapável a conclusão: Aiuruoca é, de forma inequívoca, o verdadeiro berço do queijo prato brasileiro. A tese Sônia Maria Mattos Luca que atribui ao município de Valença (RJ) a criação do queijo prato não resiste ao escrutínio histórico, não apenas pelas contradições cronológicas, mas pela completa ausência de provas materiais que sustentem tal narrativa.
A história apresentada pela versão valenciana, embora cativante, sustenta-se em memórias orais tardias, recontadas quase um século depois dos fatos e sem qualquer lastro documental. Em contraste, Aiuruoca oferece documentação robusta, registros empresariais, comprovação da atividade industrial, vestígios físicos das primeiras fábricas e, sobretudo, coerência temporal. Foi ali, na Fazenda Campo Lindo, que Nielsen instalou equipamentos, implantou técnicas pioneiras de maturação e prensagem, estruturou um núcleo técnico de produção semidura e deu início à padronização que tornaria o queijo prato um produto de escala nacional.
A cronologia é categórica: Nielsen não poderia estar criando queijos em Valença em 1915 porque sequer vivia no Brasil. Sua atuação efetiva e contínua só se inicia em 1922, e começa justamente em Aiuruoca. As empresas Heide & Nielsen e Nielsen & Cia formam o epicentro da inovação queijeira no país, com produção devidamente registrada, marcas consolidadas (Dana e Luna), circulação comercial comprovada e reconhecimento público, como a participação de Aiuruoca na exposição pecuária e agroindustrial de 1928, documentada pela revista A Lavoura.
Assim, ao contrário do mito construído posteriormente por Sônia Maria Mattos Luca em Valença, o queijo prato não nasceu de um acidente doméstico, mas da competência técnica, da experimentação científica e da visão empreendedora de Nielsen em Aiuruoca. Ali, ele liderou uma verdadeira escola de queijeiros, difundiu padrões industriais e sedimentou o alicerce da moderna queijaria mineira/brasileira.
Portanto, fazer justiça histórica significa restaurar o lugar de Aiuruoca não apenas como cenário, mas como matriz tecnológica e cultural do queijo prato. É o reconhecimento de que a tradição queijeira nacional tem origem comprovada, documentada e organizada no território mineiro, e que, diante das evidências, a narrativa de Valença deve ser compreendida como parte do imaginário local, e não como registro histórico. A verdade, sustentada por fontes sólidas, coloca Aiuruoca no lugar de protagonismo que lhe pertence por direito: o de ser o berço autêntico do queijo prato brasileiro.
Referências
- ↑ «Queijo Prato - queijosnobrasil.com.br - Acessado em 6 de agosto de 2015». Consultado em 6 de agosto de 2015. Arquivado do original em 1 de maio de 2015
3. Méccio M. Furtado, Ph.D. Queijos Semiduros
