Qualificação (sociologia do trabalho)

Fachada da antiga fábrica da fabricante de automóveis Renault, localizada próximo a Boulogne-Billancourt em Paris. Desativada na década de 1990 e demolida em 2005, a fábrica foi um dos palcos dos pioneiros estudos de Alain Touraine, coordenados por Georges Friedmann.[1][2]

A qualificação é um conceito empregado na sociologia do trabalho, principalmente na sua corrente francesa. Tendo sua origem entre a segunda metade dos anos 1940 e meados dos anos 1950, com a obra do sociólogo Georges Friedmann, o conceito encontrou reverberação nos anos seguintes, tanto pelo debate com Pierre Naville quanto pela tentativa preliminar de síntese feita por Alain Touraine.[3][4] Na contemporaneidade, é comum que o debate em torno da noção de qualificação social se dê em vista do chamado modelo da competência, resultante das progressões recentes do mundo do trabalho e da gestão empresarial que tiveram início em meados dos anos 70, com a chamada "ruptura do modo de regulação fordista" e a popularização do toyotismo e, mais recentemente, do regime de acumulação flexível. Argui-se que a noção de competência teria substituído a qualificação social, sua precedente histórica no debate social.[4][5]

De modo geral, entende-se haver duas correntes que desenvolveram científico-academicamente o conceito de qualificação social: a corrente substancialista, centrada nos estudos de Georges Friedmann; e a corrente relativista ou relacionalista, centrada nos estudos de Pierre Naville.[3][4] Enquanto a primeira enfatizaria aspectos estáticos e individuais, entendendo a qualificação mais como atributo de cada trabalhador e hierarquia enraizada, a segunda abordagem entenderia a qualificação como uma relação social multiforme e historicamente situada, condicionada por diversos conflitos de interesses e pressões nem sempre exclusivas da esfera do trabalho. Enquanto isso, a corrente norte-americana, inspirada pela escola interacionista - em especial, por Howard Becker - desenvolveu o debate sobre qualificações e profissões muito em torno da noção de "super-regras", enfatizando o fechamento de mercados por certas categorias profissionais privilegiadas, assim cindindo a categoria Emprego entre Ocupação - àquelas categorias profissionais subsumidas diretamente pelas leis do mercado - e Profissão - àquelas categorias profissionais que, em acordo com o Estado e outras instituições, asseveram-se sob associações e regulações socialmente reconhecidas.[3]

Referências

  1. Dubet, François; Wieviorka, Michel (13 de julho de 2023). «Homage to Touraine». thesis eleven (em inglês). Consultado em 11 de maio de 2025 
  2. Festi, Ricardo Colturato (20 de maio de 2019). «UM DESEJO DE HISTÓRIA: A SOCIOLOGIA DO TRABALHO DE ALAIN TOURAINE (1948-1973)». Lua Nova: Revista de Cultura e Política: 65–96. ISSN 0102-6445. doi:10.1590/0102-065096/106. Consultado em 11 de maio de 2025 
  3. a b c Dubar, Claude (setembro de 1998). «A sociologia do trabalho frente à qualificação e à competência». Educação & Sociedade (64): 87–103. ISSN 0101-7330. doi:10.1590/S0101-73301998000300004. Consultado em 29 de março de 2025 
  4. a b c Tartuce, Gisela Lobo Baptista Pereira (agosto de 2004). «Algumas reflexões sobre a qualificação do trabalho a partir da sociologia francesa do pós-guerra». Educação & Sociedade: 353–382. ISSN 1678-4626. doi:10.1590/S0101-73302004000200004. Consultado em 29 de março de 2025 
  5. Lima, Claudia Maria Pereira de; Zambroni-de-Souza, Paulo César; Araújo, Anísio José da Silva (2015-Oct-Dec). «A Gestão do Trabalho e os Desafios da Competência: uma Contribuição de Philippe Zarifian». Psicologia: Ciência e Profissão: 1223–1238. ISSN 1414-9893. doi:10.1590/1982-3703001972013. Consultado em 29 de março de 2025  Verifique data em: |data= (ajuda)