Psicolinguística
Psicolinguística é o nome dado ao estudo das conexões de linguagem e mente que começou a tornar-se destacável como uma disciplina autônoma na década de 1950. O estudo não se volta à Psicologia da Linguagem por seu objeto e simples metodologia, apesar de muitos teóricos afirmarem que a Psicolinguística é um ramo interdisciplinar da Psicologia e da Linguística. De alguma maneira, seu aparecimento foi promovido pela insistência com que o linguista Noam Chomsky defendeu naquela época que a linguística precisava ser encarada como parte da psicologia cognitiva, além de outros fatores como o interesse crescente da Linguística pela questão da aquisição da linguagem.
Origem e desenvolvimento da Psicolinguística
O nascimento da psicolinguística[1]
Costuma-se associar — erroneamente — o surgimento da Psicolinguística ao advento da linguística gerativa na década de 1950 com Noam Chomsky. Apesar do impulso gerado pela Revolução Cognitiva desta época, a exploração empírica de como falamos e compreendemos, as ideias sobre os processamentos cognitivos envolvidos na linguagem são muito mais antigas. E a respeito da História da Psicolinguística - na era pré-chomskyana — título do livro de Levelt (2013) — o autor deste afirma:
Foi através da cooperação de George Miller e Noam Chomsky que, no final da década de 1950, um novo marco crucial foi erguido na história da psicolinguística. Em contraste com Zellig Harris, eles proclamaram que uma gramática generativa é “psicologicamente real”, isto é, é uma maquinaria mental cujo estudo é um “capítulo da psicologia”. Essa história, no entanto, não será contada neste livro. Em vez disso, estas páginas demonstrarão que esta revolução de Chomsky e Miller fez com que a psicolinguística voltasse às suas raízes históricas e mentalistas.[2]
Assim, podemos considerar que estas bases da Psicolinguística surgem, principalmente, a partir do século XVIII. Levelt (2013) divide tais raízes em 4 áreas de estudos que fundamentaram e possibilitaram o surgimento da Psicolinguística moderna, sendo estas: as origens, o funcionamento cerebral e a aquisição da linguagem, e a pesquisa experimental sobre a percepção e a produção da fala. Conforme descrição do próprio autor (Levelt, 2013, p. 19-20):
Embora houvesse psicólogos que se baseavam nas teorias linguísticas que adotavam os princípios teóricos da psicologia, o diálogo entre as duas não se efetivava. Segundo Baliero Jr. (2003: 173):[3]
"Na Psicologia, os estudos buscavam estabelecer as relações entre a organização do sistema linguístico e a organização do pensamento, por meio do recurso à teoria e à pesquisa linguística (...) Na Linguística, por outro lado, já havia uma busca anterior pela teoria psicológica, especialmente por meio dos introdutores do método histórico em Linguística, entre os quais Hermann Paul, que tentaram apoiar no associacionismo psicológico suas explicações para as mudanças linguísticas."
A psicolinguística e Noam Chomsky
Em 1957, Chomsky publica o livro Syntatic Strutures,[4] onde lança mão da sua gramática gerativa. Além disso, com uma resenha crítica do livro Verbal Behavior (1959), de B.F. Skinner,[5] Chomsky promove uma grande mudança no campo da psicolinguística mundial.
Psicolinguística no Brasil
Leonor Scliar-Cabral, em entrevista a revista Revel (2008),[6] fala que os primeiros estudos que impactaram a área das pesquisas psicolinguísticas no Brasil se originaram com os esforços acadêmicos de mestrandos e doutorandos nos anos 70, tais como Lemos (1975, 1987), com doutorado na Universidade de Edinburgh, orientado por Lyons; Scliar-Cabral (1977 a, b, c), com doutorado na USP, orientado por Geraldina Witter e Albano (1975, então Motta Maia), com mestrado pela UFRJ, orientada por Heye e, posteriormente, com doutorado pela Universidade de Brown.
Atualmente, a psicolinguística no Brasil vem crescendo cada vez mais. Em 2015, o linguista Marcus Maia, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lançou o livro Psicolinguística, Psicolinguísticas: uma introdução,[7] em que faz uma leitura geral sobre as diversas angulações que a psicolinguística pode assumir, como o processamento de frases, a computação gramatical, o processamento anafórico, o processamento de palavras, a alfabetização, a leitura, a descrição gramatical, o processamento de segunda língua, a neurociência da linguagem e a neurociência cognitiva. Todos os temas são analisados com um foco unificador: a psicolinguística como ciência da cognição da linguagem.
Área de interesse da Psicolinguística
"A psicolinguística tem interesse em saber como a estrutura linguística está ligada ao uso da linguagem verbal. Ela quer entender e explicar a estrutura mental e os processos envolvidos no uso de uma língua." (Scliar-Cabral, 1991:9).[8] O interesse primordial dos psicolinguistas é o conhecimento e capacidades subjacentes que a pessoa deve ter para usar uma língua e para aprender a usá-la na infância ou na aquisição de novas línguas. A principal tarefa desses estudiosos é construir modelos de processos que fazem uso do conhecimento armazenado.
A metodologia utilizada pela psicolinguística é indutivo e dedutivo, pois tem o objetivo de chegar às generalizações. Os pesquisadores recorrem a procedimentos indiretos a fim de compreender como o cérebro organiza a atividade verbal testando hipóteses e buscando generalizações que expliquem a maneira como se dá o processamento das tarefas, já que os mecanismos mentais não são operações verificáveis de forma direta. Para esse fim, a psicolinguística utiliza como procedimentos a experimentação e a observação clínica das pessoas.[9][10][11][12][13]
Aquisição da linguagem
Artigo principal: Aquisição da linguagem
Embora ainda haja muito debate, existem duas teorias principais sobre a aquisição de linguagem na infância:
- a perspectiva comportamentalista, segundo a qual toda a linguagem deve ser aprendida pela criança; e
- a perspectiva inatista, que acredita que o sistema abstrato da linguagem não pode ser aprendido, mas que os humanos possuem uma faculdade linguística inata ou acesso ao que foi chamado de "Gramática universal".
A perspectiva inatista começou em 1959 com a crítica de Noam Chomsky à obra Verbal Behavior (1957) de B. F. Skinner.[14] Essa resenha ajudou a iniciar o que foi chamado de Revolução cognitiva na psicologia. Chomsky postulou que os humanos possuem uma habilidade especial e inata para a linguagem e que recursos sintáticos complexos, como a recursividade, são “pré-estabelecidos” no cérebro. Essas habilidades estariam além do alcance até mesmo dos animais mais inteligentes e sociais. Quando Chomsky afirmou que crianças que adquirem uma língua têm um vasto espaço de busca a explorar entre todas as gramáticas humanas possíveis, não havia evidência de que recebessem estímulo suficiente para aprender todas as regras de sua língua. Portanto, deve haver algum outro mecanismo inato que confira aos humanos a capacidade de aprender a linguagem. De acordo com a "Hipótese do inatismo", tal faculdade linguística é o que define a linguagem humana e a torna diferente de outras formas de comunicação animal, por mais sofisticadas que sejam.
O campo da linguística e da psicolinguística tem sido, desde então, definido por reações a favor e contra Chomsky. A visão favorável a Chomsky ainda sustenta que a capacidade humana de usar a linguagem (especificamente a de usar a recursão) é qualitativamente diferente de qualquer habilidade animal observada em outras espécies.[15]
Com o avanço da tecnologia computacional desde a década de 1980, pesquisadores também têm sido capazes de simular a aquisição de linguagem usando modelos de redes neurais.[16]
Processamento de leitura
A visão modular do processamento da sentença assume que as etapas envolvidas na leitura de uma frase funcionam de forma independente, como módulos separados. Esses módulos têm interação limitada entre si. Por exemplo, uma teoria influente do processamento da sentença, a "Teoria do Garden Path", afirma que a análise sintática ocorre primeiro. Segundo essa teoria, enquanto o leitor lê uma frase, ele cria a estrutura mais simples possível, para minimizar o esforço e a carga cognitiva.[17] Isso é feito sem qualquer entrada da análise semântica ou informações dependentes do contexto. Esse comprometimento com uma primeira estrutura identificada ocorre mesmo que resulte numa situação improvável. Segundo essa teoria “sintaxe primeiro”, a informação semântica é processada numa etapa posterior. Só depois o leitor percebe que precisa revisar a análise inicial. [18] Essa reanálise é custosa e contribui para um tempo de leitura mais lento. Um estudo de 2024 sugere que, em tarefas de leitura auto-monitorada, os participantes progressivamente liam mais rápido e recordavam informações com mais precisão, sugerindo que a adaptação à tarefa é motivada por processos de aprendizagem e não por queda de motivação.[19]
Em contraste com a visão modular, uma teoria interativa do processamento da sentença, como a abordagem lexical baseada em restrições, assume que toda informação disponível contida numa frase pode ser processada a qualquer momento.[20] Na visão interativa, a semântica de uma sentença (como a plausibilidade) pode atuar cedo para ajudar a determinar sua estrutura. Há dados que apoiam ambas as visões, modular e interativa; potanto, trata-se de um debate em aberto.
Quando lemos, as sacadas podem fazer com que a mente pule palavras porque não as considera importantes para a frase, omitindo-as completamente ou substituindo-as pela palavra errada. Isso pode ser visto em "Paris in the the spring" (“Paris está na na primavera”). Esse é um teste psicológico comum, onde a mente frequentemente pula o segundo 'the' (no exemplo traduzido, “na”), especialmente quando há uma quebra de linha entre os dois.[21]
Referências
- ↑ «Major Works by Noam Chomsky». Oxford, UK: Blackwell Publishing Ltd: 329–332. ISBN 9780470690024
- ↑ Levelt, Willem J.M. (25 de outubro de 2012). «Psycholinguistics post-war, pre-Chomsky». Oxford University Press: 549–575. ISBN 9780199653669
- ↑ BALIERO JR. A. P. (2003). Psicolinguística. Em: MUSSALIM, F. e BENTES, A. C. (Orgs.). Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez, 3 ed. vol. 2, p. 171-202.
- ↑ CHOMSKY, N. (1957). Syntatic Strutures. The Hague/Paris: Mouton, ISBN 978-3-11-021832-9
- ↑ CHOMSKY, N. (1959). "A review of B. F. Skinner's Verbal Behavior". Language, 35 (1): 26-58
- ↑ SCLIAR-CABRAL, L. Psicolinguística: uma entrevista com Leonor Scliar-Cabral. ReVEL. Vol. 6, n. 11, agosto de 2008. ISSN 1678-8931 [www.revel.inf.br]
- ↑ Maia, M. A. R. (Org.) Psicolinguística, Psicolinguísticas: uma introdução. 1ª Ed. São Paulo: Contexto, 2015. 208p.
- ↑ SCLIAR-CABRAL. L. (1991). Introdução à Psicolinguística. São Paulo: Atica
- ↑ CORRÊA, L. M. S. (Org.); FRANÇOZO, E. (Org.). Cadernos de Estudos Linguísticos: Volume Temático Psicolinguística. Campinas: UNICAMP, 2001. v. 1.
- ↑ Kato, M. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística. São Paulo: Atica, 1998.
- ↑ PINKER, S. O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem. Trad. C. Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
- ↑ ROSSA, A.; ROSSA, C. (Orgs.). Processamento cerebral e conexionismo. Rumo à Psicolinguística Conexionista. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.
- ↑ SLOBIN, D. I. Psicolinguística. São Paulo: EDUSP, 1980.
- ↑ Chomsky N, Skinner BF (1959). «A Review of B. F. Skinner's Verbal Behavior». Language. 35 (1): 26–58
- ↑ Hauser MD, Chomsky N, Fitch WT (2002). «The faculty of language: what is it, who has it, and how did it evolve?». Science. 298 (5598): 1569–79
- ↑ Elman J, Bates E, Johnson M, Karmiloff-Smith A, Parisi D, Plunkett K (1998). Rethinking innateness: A connectionist perspective on development. [S.l.]: The MIT Press
- ↑ Frazier L, Rayner K (1982). «Making and correcting errors during sentence comprehension: Eye movements in the analysis of structurally ambiguous sentences». Cognitive Psychology. 14 (2): 178–210. doi:10.1016/0010-0285(82)90008-1
- ↑ Rayner K, Carlson M, Frazier L (1983). «The interaction of syntax and semantics during sentence processing: Eye movements in the analysis of semantically biased sentences». Journal of Verbal Learning and Verbal Behavior. 22 (3): 358–374. doi:10.1016/s0022-5371(83)90236-0
- ↑ Chromý, Jan; Tomaschek, Fabian (15 de dezembro de 2024). «Learning or Boredom? Task Adaptation Effects in Sentence Processing Experiments». Open Mind. 8: 1447–1468. ISSN 2470-2986. PMC 11666283
. doi:10.1162/opmi_a_00173
- ↑ Trueswell J, Tanenhaus M (1994). «Toward a lexical framework of constraint-based syntactic ambiguity resolution». Perspectives on Sentence Processing: 155–179
- ↑ Drieghe, D., K. Rayner, and A. Pollatsek. 2005. "Eye movements and word skipping during reading revisited." Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance 31(5). p. 954.