Protestos em Madagáscar em 2025

Protestos em Madagáscar em 2025
Movimento Leo Délestage
Período02025-09-25 25 de setembro de 2025 – presente
LocalMadagáscar
CausasCortes de energia e água em Antananarivo;
Pobreza generalizada em Madagáscar
ResultadoEm andamento
  • Danos a instalações de transporte público e áreas comerciais
  • Saques a residências de políticos
  • Dissolução do governo do primeiro-ministro Christian Ntsay
  • Fuga do Presidente Andry Rajoelina
Partes
Manifestantes
Líderes
Sem liderança centralizada Andry Rajoelina;
Jean Herbert Andriantahiana Rakotomalala[1]
Angelo Ravelonarivo[1]
Baixas
22 mortos
+100 feridos[2][a]
1 deputado morto

Em setembro de 2025, protestos, apelidados de movimento Leo Délestage, eclodiram em Madagáscar, especialmente na capital, Antananarivo. Os protestos foram motivados por cortes recentes de água e energia na cidade, e casas de políticos de alto escalão foram alvos. O movimento também se espalhou para outras cidades do país.[3]

Desde 25 de setembro, 22 pessoas, entre manifestantes e civis, morreram em decorrência da ação das forças de segurança ou de saques e desordem generalizada. Áreas comerciais e instalações públicas em grandes cidades foram alvo de vandalismo e saques. Após destituir o ministro da Energia em 26 de setembro, o presidente malgaxe, Andry Rajoelina, anunciou a dissolução do governo em 29 de setembro.

Contexto

Localizado na costa da África Oriental, no Oceano Índico, Madagáscar é há muito tempo um dos países mais pobres do mundo. O Banco Mundial estimou que, em 2022, cerca de 75% da população de 30 milhões de pessoas vivia abaixo da linha da pobreza.[4] O presidente em exercício, Andry Rajoelina, que domina a política do país desde a crise política de 2009 e foi recentemente reeleito em 2023[5] em uma votação marcada por boicotes significativos da oposição, foi responsabilizado por muitos dos problemas econômicos recentes do país.[6][7]

A capital, Antananarivo, sofre regularmente cortes generalizados de energia e água, que podem durar até 12 horas consecutivas.[8] Em setembro de 2025, começou a circular nas redes sociais um apelo a protestos,[4][8] iniciado por três funcionários do governo municipal de Antananarivo. O movimento foi apelidado de Leo Délestage ("Farto de cortes de energia").[9]

Cronologia

Comícios foram realizados na capital, Antananarivo, bem como em cidades provinciais, como Toamasina, Antsirabe, Toliara e Antsiranana.[9] Um dia antes das manifestações, o governo local proibiu os protestos, citando preocupações com agitação civil. Uma grande força policial mista esteve presente na cidade desde as 5h30 (EAT), isolando certas áreas.[10] Os manifestantes, portanto, não puderam acessar seus locais de reuniões designados.[11]

25 de setembro

Às 10:45 (EAT), os primeiros disparos de gás lacrimogêneo foram registrados. A polícia continuou a usar gás lacrimogêneo e balas de borracha ao longo do dia. Os manifestantes ergueram barricadas e queimaram pneus e pedras. Saques em massa ocorreram em diversos estabelecimentos comerciais, bancos e lojas de eletrodomésticos em Antananarivo à tarde. Além disso, os manifestantes incendiaram um hotel, um banco e estações do novo sistema de teleférico do país.[11][12] Segundo uma fonte hospitalar, cinco pessoas morreram, todas com ferimentos de tiros disparados por AK-47, e um número desconhecido ficou ferido.[10] Entre os símbolos exibidos pelos manifestantes estavam bandeiras de Madagascar, assim como o Jolly Roger do Chapéu de Palha, da franquia One Piece, já observado em protestos contemporâneos dominados por jovens, como no Nepal.[11]

Três residências de políticos próximos a Rajoelina foram incendiadas, incluindo a casa da senadora Lalatiana Rakotondrazafy e do deputado Naivo Raholdina. Dois influenciadores malgaxes de destaque foram presos durante os protestos.[13] Fora da capital, os escritórios da Jirama, fornecedora nacional de eletricidade e água, também foram atacados.[11] Os comícios em Antsirabe e Toamasina também degeneraram em saques e vandalismo.[9][14]

As redes sociais, especialmente o Facebook, foram utilizadas para organizar e coordenar os protestos.[8]

O chefe de polícia de Antananarivo, Angelo Ravelonarivo, decretou toque de recolher das 19h (horário local) de 25 de setembro de 2025 ate as 5h de 26 de setembro de 2025.[11] Embora os protestos tenham inicialmente se dispersado, eles se espalharam por várias áreas da capital. O chefe da Polícia Nacional, Jean Herbert Andriantahiana Rakotomalala, alertou que as autoridades "tomariam medidas preventivas firmes... contra aqueles tentados a infringir a lei".[3][5]

26 de setembro

Em Antsirabe, os manifestantes se reuniram na estação ferroviária da cidade por volta das 10h, antes de serem dispersos pela polícia com gás lacrimogêneo. Ao meio-dia, saques começaram a ocorrer em prédios comerciais, com presença policial limitada, já que a maioria dos policiais havia sido deslocada para Antananarivo.[15] Por volta das 16h, foi anunciada a morte de Jean-Jacques Rabenirinia, membro do parlamento por Betioky, do grupo de oposição Firaisankina, e decano da Assembleia Nacional, após sucumbir aos ferimentos de um acidente em que seu veículo foi atingido por um caminhão em uma barricada erguida pelos manifestantes.[16]

Durante um discurso transmitido ao vivo de Nova Iorque às 19h30 (onde participava da Assembleia Geral das Nações Unidas), Andry Rajoelina anunciou a demissão de Jean-Baptiste Olivier, Ministro da Energia e Hidrocarbonetos, alegando que ele "não estava fazendo seu trabalho".[17] Rajoelina condenou ainda a violência que ocorreu após os protestos como "atos de desestabilização"[18] e acusou políticos da oposição de tentarem aproveitar os protestos para orquestrar um golpe.[19]

Em Antsiranana, seis pessoas, incluindo um estudante universitário, morreram em confrontos com a polícia em 26 de setembro, e trinta pessoas ficaram feridas.[20]

27 de setembro

Os manifestantes continuaram a se reunir em Antananarivo em 27 de setembro, alguns usando chapéus de palha coloridos como símbolo.[18] Nesse mesmo dia, Rajoelina retornou de Nova Iorque e convocou uma reunião sobre as forças armadas e os comandantes da polícia para mobilizar forças militares e de segurança a fim de proteger postos de combustível, áreas de armazenamento e zonas comerciais.[21]

As manifestações passaram a ter um caráter mais estudantil, com a participação de universitários e alunos do ensino médio, e foram organizadas em seis grandes cidades de Madagascar. Os jovens protestaram contra as difíceis condições de vida e exigiram igualdade de acesso à educação, pedindo especificamente as mesmas oportunidades concedidas aos filhos de líderes malgaxes que estudam no exterior. Em Antananarivo, as forças de segurança dispersaram os manifestantes com violência, utilizando rifles AK-47s e gás lacrimogêneo ao longo da Avenida General Charles-de-Gaulle, em Tsiadana, até o campus Ankatso da Universidade de Antananarivo. A repressão gerou indignação adicional devido à presença, nessa avenida, do hospital privado Mpitsabo Mikambanana 24/24, uma das instituições médicas mais prestigiadas do país.[22]

Foram decretado toques de recolher das 19h00 às 04h00 em Antananarivo e também nas cidades de Mahajanga, Toamasina, Antsirabe e Toliara.[23]

29 de setembro

Associações estudantis convocaram uma mobilização geral e exigiram a libertação dos manifestantes presos em 27 de setembro, além de reiterarem sua denúncia inicial contra os cortes de água e eletricidade.[24] Enquanto um grupo de estudantes marchava do campus da Universidade de Antananarivo em direção ao bairro de Ambohijatovo, foi bloqueado pelas forças de segurança, que tentaram dispersar e repelir os manifestantes com gás lacrimogêneo. Durante os confrontos, os manifestantes também passaram a exigir a renúncia de Rajoelina.[25]

Com os protestos em andamento, Rajoelina anunciou a dissolução do governo, então chefiado pelo primeiro-ministro Christian Ntsay, e concedeu um prazo de três dias para a escolha de um novo primeiro-ministro.[26][27] Também em 29 de setembro, o deputado malgaxe Antoine Rajerison foi preso pelas forças de segurança.[25] O toque de recolher em Antananarivo foi ajustado para vigorar das 20h00 às 04h00.[28]

De acordo com o presidente da Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, 22 pessoas foram mortas e 100 ficaram feridas durante os protestos — incluindo vítimas da repressão pelas forças de segurança, bem como mortes resultantes de saques e da violência generalizada perpetrada por saqueadores e gangues. O Ministério das Relações Exteriores de Madagáscar rejeitou esses números.[29]

30 de setembro

Os manifestantes convocaram um novo comício em Antananarivo para as 11h00, horário local.[30]

Reações

O Conselho das Igrejas Cristãs de Madagáscar (FFKM) emitiu uma declaração apelando ao fim da violência, dos saques e da destruição de bens, destacando também que “a população deve gozar dos seus direitos mais básicos, os de ter eletricidade e água potável”.[31] A organização Repórteres Sem Fronteiras denunciou “a violência policial contra pelo menos três jornalistas” em 25 de setembro.[32]

O presidente da União Africana, Mahamoud Ali Youssouf, apelou à contenção e à calma.[33]

Impacto

Em 26 de setembro, autoridades escolares em Antananarivo anunciaram o fechamento das escolas da cidade até que a ordem fosse restaurada. Grande parte das escolas já havia encerrado suas atividades mais cedo em 25 de setembro, após o gás lacrimogêneo atingir os estabelecimentos.[34] Postos de gasolina também foram fechados após uma onda de compras de pânico por motoristas.[35] Supermercados e lojas de varejo modernas fecharam por vários devido ao medo de saques, o que provocou escassez de produtos industrializados, como fraldas e água engarrafada. As perdas decorrentes de saques no comércio varejista foram estimadas em bilhões de ariary.[36]

Um grande número de voos de e para o Aeroporto Internacional Ivato, em Antananarivo, foi cancelado, deixando vários turistas internacionais retidos.[37]

Notas e referências

Notas

  1. Inclui não-manifestantes e pessoas mortas por saqueadores e gangues.

Referências

  1. a b Rabary, Lova (26 de setembro de 2025). «Curfew declared in Madagascar capital after violent protests». Reuters (em inglês). Consultado em 27 de setembro de 2025 
  2. «Madagascar: UN Human Rights Chief shocked by violent response to electricity and water protests». OHCHR. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  3. a b «Curfew Declared in Madagascar Capital After Violent Protests» 
  4. a b Najjar, Farah. «Madagascar imposes curfew after violent protests against water, power cuts». Al Jazeera (em inglês). Consultado em 25 de setembro de 2025 
  5. a b «Curfew declared in Madagascar capital after violent protests over water, power shortages». The Straits Times (em inglês). 26 de setembro de 2025. ISSN 0585-3923. Consultado em 25 de setembro de 2025 
  6. Presse, AFP-Agence France. «Madagascar Police Fire Tear Gas At Protest Over Power, Water Cuts». barrons (em inglês). Consultado em 25 de setembro de 2025 
  7. «A Madagascar, des gaz lacrymogènes envoyés sur des manifestants dénonçant les coupures d'eau et d'électricité» (em francês). 25 de setembro de 2025. Consultado em 25 de setembro de 2025 
  8. a b c «Madagascar imposes nighttime curfew after violent protests over water and power cuts» 
  9. a b c «Mouvement « Leo délestage » : Vague de manifestations dans les grandes villes». Midi Madagasikara (em francês). 26 de setembro de 2025. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  10. a b «Madagascar: les Tananariviens défient l'interdiction et manifestent contre les coupures d'eau et d'électricité». RFI (em francês). 25 de setembro de 2025. Consultado em 25 de setembro de 2025 
  11. a b c d e Tétaud, Sarah (25 de setembro de 2025). «Madagascar imposes nighttime curfew after violent protests over water and power cuts». AP News (em inglês). Consultado em 25 de setembro de 2025 
  12. «MANIFESTATION DANS LA CAPITALE – De la contestation au pillage». L'Express de Madagascar (em francês). 26 de setembro de 2025. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  13. «Manifestations anti-délestage à Antananarivo : arrestations et affrontements avec les forces de l'ordre». Linfo.re. Consultado em 25 de setembro de 2025 
  14. «GRÈVE DANS LA CAPITALE – Fermeture en chaîne des commerces l'après-midi». L'Express de Madagascar (em francês). 26 de setembro de 2025. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  15. «Antsirabe : Les magasins des Karana pris pour cible par les manifestants». Midi Madagasikara (em francês). 26 de setembro de 2025. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  16. «NECROLOGIE – le député Jean Jacques Rabenirina décède dans un accident de circulation» 
  17. «Madagascar sacks energy minister after repeated power cuts spark protests». France 24 (em inglês). 26 de setembro de 2025. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  18. a b «Protesters gather again in Madagascar». RFI (em inglês). 27 de setembro de 2025. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  19. «Délestage et coupures d'eau : Andry Rajoelina annonce le limogeage du ministre de l'Energie». Midi Madagasikara (em francês). 27 de setembro de 2025. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  20. «Manifestations à Antsiranana : Six morts, une trentaine de personnes blessées - Politique». Midi Madagasikara (em francês). 27 de setembro de 2025. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  21. «Forces armées : Andry Rajoelina remobilise les troupes». Midi Madagasikara (em francês). 29 de setembro de 2025. Consultado em 30 de setembro de 2025 
  22. «Madagascar: nouvelle journée de mobilisation après les violences». RFI (em francês). 27 de setembro de 2025. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  23. «Mahajanga, Toamasina, Antsirabe ,Toliara et Antananarivo : Couvre-feu étendu dans plusieurs grandes villes». Midi Madagasikara (em francês). 27 de setembro de 2025. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  24. «Association des étudiants et Gen Z : Appel à une mobilisation générale, ce jour». Midi Madagasikara (em francês). 29 de setembro de 2025. Consultado em 29 de setembro de 2025 
  25. a b «Ankatso – Tsiadana : Face-à-face étudiants-forces de l'ordre hier». Midi Madagasikara (em francês). 30 de setembro de 2025. Consultado em 30 de setembro de 2025 
  26. «Madagascar president sacks government over deadly protests». Le Monde (em inglês). 29 de setembro de 2025. Consultado em 30 de setembro de 2025 
  27. Kyekyeku, Kofi Oppong (30 de setembro de 2025). «Deadly youth-led protests force Madagascar's president to fire the prime minister and his government». Face2Face Africa (em inglês). Consultado em 30 de setembro de 2025 
  28. «OMC-NAT : Antananarivo ville : Couvre-feu de 20h à 4h du matin». Midi Madagasikara (em francês). 30 de setembro de 2025. Consultado em 30 de setembro de 2025 
  29. «Madagascar's president dissolves government after 'Gen Z' protests». BBC News. 29 de setembro de 2025. Consultado em 30 de setembro de 2025 
  30. «Madagascar protesters mobilise despite firing of government». France 24 (em inglês). 30 de setembro de 2025. Consultado em 30 de setembro de 2025 
  31. «Manifestation du 25 septembre : Le FFKM appelle au dialogue - À lire». Midi Madagasikara (em francês). 27 de setembro de 2025. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  32. «Madagascar: incendies, gaz lacrymogènes et foule en colère contre le pouvoir dans la capitale». TV5 Monde (em francês). 25 de setembro de 2025. Consultado em 27 de setembro de 2025 
  33. «AUC Chairperson Calls for Restraint and Dialogue in Madagascar». African Union. Consultado em 29 de setembro de 2025 
  34. «Manifestations : Fermeture de nombreux établissements scolaires à Tana». Midi Madagasikara (em francês). 26 de setembro de 2025. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  35. «Carburant : Fermeture des stations-service dans la capitale - Economie». Midi Madagasikara (em francês). 27 de setembro de 2025. Consultado em 28 de setembro de 2025 
  36. «Fermeture des grandes surfaces : Les consommateurs se rabattent sur les marchés de quartier». Midi Madagasikara (em francês). 30 de setembro de 2025. Consultado em 30 de setembro de 2025 
  37. «'Ga niet naar Madagaskar op vakantie', Nederland past reisadvies aan na dodelijke rellen in hoofdstad». ad.nl (em neerlandês). 29 de setembro de 2025. Consultado em 30 de setembro de 2025